2013.06.26 APERS entrevista - Ricardo TaraciukRicardo Taraciuk, 25 anos, é graduado em História (UFRGS) e mestrando em História (PUC/RS). Atualmente é coordenador e instrutor de treinamentos no Grupo CEEE e professor de História no Colégio Prado Júnior Objetivo. Pesquisador sobre Sociedade, Urbanização e Imigração, Ricardo é nosso entrevistado deste mês!

Blog do APERS: Ricardo, como se deu a tua aproximação com o tema da escravidão?

Ricardo: A minha aproximação com a temática de escravidão ocorreu durante a graduação quando fui monitor da professora Regina Célia Lima Xavier que estava iniciando seu pós-doutorado nessa linha. Esse contato propiciou muitas conversas sobre o assunto e indicações de bibliografia que foram capazes de alimentar o surgimento de novas ideias de pesquisa de uma historiografia que está sempre se renovando. No entanto, as aproximações dos historiadores com determinadas temáticas são ainda mais subjetivas que um encontro com uma especialista no assunto. Por ser mulato, minhas experiências, mesmo antes de ser historiador, fizeram com que questionasse os espaços sociais ocupados pelos negros, bem como percebesse os significados sociais por ser um “descendente de cor”.

Blog do APERS: O que fez com que você delimitasse para escravidão em Porto Alegre no século XIX?

Ricardo: No meu primeiro contato com as fontes primárias, estava interessado em verificar os relacionamentos entre senhores e escravos, a partir da análise de 122 testamentos, pressupondo que eles não fossem baseados apenas em interesses, meramente, econômicos e políticos, verificando as possibilidades de melhorias da qualidade de vida dos escravos, a partir desses relacionamentos. O cenário escolhido para essa temática foi a cidade de Porto Alegre, na segunda metade do século XIX, devido, sobretudo, a ser um momento de urbanização e crescimento populacional da cidade e, também, de avanços nas leis de emancipação escrava. Com essas características se acreditava que fosse possível encontrar em Porto Alegre um ambiente histórico favorável para perceber nos documentos os relacionamentos e a interação senhor-escravo e as consequências que poderiam surgir a partir dessas relações. Com esse escopo foi escrito o Trabalho de Conclusão de Curso: “Africanos, crioulos e brancos: seus intrincados relacionamentos na Porto Alegre de 1857 a 1865”.

Blog do APERS: Qual a importância do acervo do APERS para tua atuação enquanto pesquisador?

Ricardo: Sem o acervo do APERS esse trabalho não poderia ser realizado. Esse acervo é responsável pela continuidade, manutenção e revisão da historiografia da escravidão no Rio Grande do Sul. Seus documentos são muito ricos, com informações muito pertinentes capazes de evidenciar vestígios de inúmeras problematizações que poderíamos desenvolver para a escravidão gaúcha. Com a digitalização da documentação, o APERS possibilita que ampliemos nosso período de análise, utilizando ainda mais fontes, sobretudo, pela facilidade de computar os dados. Afinal, há não muito tempo atrás um número de 122 testamentos raramente aparecia em trabalhos de TCC, esse número era cabível para fazer uma dissertação de mestrado ou até mesmo tese de doutorado.

Blog do APERS: Você poderia comentar um pouco sobre o trabalho que vens desenvolvendo atualmente?

Ricardo: Atualmente estou realizando a pesquisa para dissertação do mestrado cujo título será: “Para morrer mais tranquilo: vida e morte dos libertos em Porto Alegre”. Continuo com as análises dos testamentos, agora para o período de 1857 a 1888, totalizando 339 documentos e ampliando meus questionamentos. O foco desse trabalho será analisar o cotidiano vivido pelos libertos com a utilização, principalmente de inventários e testamentos, bem como suas preparações para a morte e os significados de suas heranças materiais e culturais, focando nas observações comportamentais que se pressupõe serem frutos de misturas, enfrentamentos ou conflitos de valores europeus e africanos que trouxeram novas situações e práticas sociais em Porto Alegre. Um dos escopos desse olhar será verificar que as posturas de descendência da África estão imersas em um emaranhado de misturas, envolvendo valores e atitudes de heranças africanas e europeias reconfiguradas por um novo contexto histórico. Com essa análise se busca, então, atingir uma melhor percepção sobre o comportamento e visão de mundo dos libertos.

Blog do APERS: Qual tua dica para os pesquisadores que estão começando a lidar com fontes primárias?

Ricardo: Antes de ir para o Arquivo, acredito ser necessário e prudente desenvolver uma boa leitura sobre a historiografia de sua temática para saber os olhares que já foram propostos, as escolhas que já foram realizadas, os argumentos que já foram superados, para ter-se ideias de novas problematizações a serem propostas. Depois disso, o contato com as fontes e a pesquisa em si, é preciso ser feitos gradativamente e sem medo. Aliás, uma pesquisa deve ser realizada de forma semelhante quando aprendemos a dirigir; devemos arriscar, sem medo de errar, fazendo as conversões necessárias, utilizando freios e acelerador quando prudentes! Sendo muito relevante, também, olhar para fora “do seu carro”, nesse caso, sempre conversando com colegas e professores que estão usando fontes semelhantes a sua, ou seja, o seu trabalho e suas questões não devem estar isolados do contexto historiográfico, pelo contrário, devem-se enquadrar dentro de outros emaranhados de questionamentos que dão fôlego e vida para o desenvolvimento da escrita da História!

Blog do APERS: Nas tuas horas vagas quais são tuas atividades preferidas de lazer?

Ricardo: Momentos de paz mental são importantes para reciclar ideias e novos raciocínios. Para tanto, em atividades de lazer procuro descansar muito a mente, com viagens, caminhar em praças, realizar leituras que, aparentemente, não se relacionam com minha pesquisa, e participar de encontros com amigos e familiares.