A escravidão é um tema clássico da historiografia brasileira, o que não é difícil de compreender, afinal, ela fez parte de nossa história por quase quatro séculos, e marcou a constituição de nossa sociedade de maneira intrínseca. Porém, é importante observar que a pesquisa histórica nesse campo transformou-se muito ao longo dos anos, apontando para novos referenciais teóricos e metodológicos, explorando diferentes formas de abordagem e apontando para distintas interpretações a cerca das relações entre senhores e escravos, entre escravos e seus pares, entre escravos libertos, aquilombados, trabalhadores livres, etc.

 E grande parte destas transformações historiográficas se devem ao aprofundamento das análises a partir de fontes primárias de pesquisa, como processos crimes, inventários, registros de compre e venda ou de alforrias de escravos. A intensificação de pesquisas com base em fontes primárias, tendo a preocupação de produzir conhecimento histórico a partir da análise e cruzamento de informações obtidas em diversos documentos, assim como a diversificação dos olhares e questionamentos feitos a essas fontes, contribuiu para o avanço da compreensão dos significados da escravidão em nosso país.

 No artigo intitulado Escravidão no Brasil: Debates Historiográficos Contemporâneos, o historiador Wander de Lara Proença (para acessar clique aqui) nos auxilia a conhecer diferentes interpretações históricas a cerca da escravidão desde o início do século XX aos dias de hoje, dividindo a produção historiográfica em três grandes períodos.

   No primeiro momento, registra as escolas vigentes até meados do século XX, muito identificadas com a obra de Gilberto Freyre, que apontavam para o caráter benévolo e não violento da escravidão no Brasil, em relação a outros locais. Aqui a escravidão estaria marcada pelo paternalismo, pela interferência do Estado e da Igreja, por certa docilidade do senhor e pela submissão e passividade do escravo.

   A partir da década de 1950, novas abordagens passam a enfocar os estudos na violência coisificadora da escravidão, e na resistência heroica do negro. Pesquisadores como Florestan Fernandes, Emília Viotti e Octavio Ianni fizeram a crítica à Freyre, que teria generalizado a realidade por ele observada no nordeste entre os escravos domésticos. Neste período, teve destaque o rigor e o suplício da escravidão, a ação de quilombolas e a resistência permanente. Entretanto, as duras condições evidenciadas impediriam os escravos de pensar a vida a partir de suas próprias categorias e significados sociais, introjetando representações e valores senhoriais.

   Já a partir da década de 1980, as análises passaram a enfocar a percepção dos cativos como sujeitos das transformações sociais, a partir da pesquisa relacionada a suas ações cotidianas. O autor enfatiza a demografia histórica como metodologia de pesquisa que ajudou a perceber, por exemplo, a presença da família escrava, denotando formas de sociabilidade próprias. Nesse contexto, os historiadores passaram a lançar luz sobre a busca de liberdade e de melhores condições de vida dentro do campo de possibilidades do próprio sistema escravista, mostrando outras formas de resistência.

   A partir desta compreensão geral em relação à produção do conhecimento histórico sobre a escravidão, percebe-se que há avanços, com novas formas de compreender tal instituição social, e múltiplas possibilidades de interpretar, aprender e ensinar sobre a escravidão no Brasil. Mas, pensando no ensino de história afro-brasileira, e na importância do estudo da escravidão nas escolas, será que as novas abordagens e interpretações históricas chegam aos bancos escolares?

   Outro artigo interessante nos auxilia a refletir sobre o assunto: em Ideias fora do lugar na aula de história: historiografia e conceitos dos alunos sobre escravidão no Brasil, as professoras Lúcia Helena Oliveira Silva e Regina Célia Alegro  (para acessar clique aqui) compartilham as observações feitas a partir do trabalho em sala de aula, quando questionaram estudantes a respeito do tema para que fosse possível estimular o processo de ensino e aprendizagem a partir dos conhecimentos trazidos por eles. A partir da tentativa de conceituar “escravidão”, evidenciou-se que os alunos tinham muito pouca bagagem de conhecimento histórico, e ao mesmo tempo demonstraram relacionar de maneira direta a escravidão com racismo, dor, sofrimento, violência, fugas e quilombos, explicitando a manutenção de ideias solidificadas pela historiografia das décadas de 1960 e 1970. Para eles “os escravos são vítimas sofredoras. Ou, dito de outro modo, os conhecimentos cristalizados nos alunos contribuem para a criação de uma memória acerca da escravidão e dos escravos no Brasil que os estudantes assumem como sua. Essa memória, mais que enfatizar ações próprias do sujeito social que é dinâmico, destaca o sofrimento do escravo como reação à violência da escravidão. Aparentemente falta-lhes conhecimento histórico que favoreça o reconhecimento do escravo como sujeito de relações sociais complexas.

   Por outro lado, parecem contrapor totalmente a escravidão com o momento atual, partindo de valores hoje universais, como democracia, trabalho livre e liberdade, para negar esse passado, em uma perspectiva que pode contribuir para a manutenção do mito da “democracia racial”, como se o Brasil tivesse superado por completo as marcas da escravidão. Para as autoras Lúcia e Regina, para evitar essa distorção “é preciso diferenciar o sujeito social e oferecer ao aluno, para além da denúncia da violência, a oportunidade de reconhecer a face do escravo para que dele se construa uma representação como sujeito histórico. As elaborações mais recentes do debate historiográfico precisam chegar até este público de modo a interferir nos conteúdos cognitivos que funcionam como princípios orientadores para novas aprendizagens e valores orientadores da vida diária”.

   Mas afinal, será que os avanços dos últimos anos no campo da historiografia têm chegado às escolas? Como garantir que interpretações pautadas na complexidade da sociedade escravista e na agência dos escravos, enquanto sujeitos, estejam presentes também na escola, espaço primordial para transmissão de conhecimentos e desmistificações? Acreditamos que o investimento em formação continuada para educadores – que devem estar sempre em contato com as novas discussões das ciências em geral – assim como a qualificação de materiais pedagógicos a partir de pesquisas históricas atuais, podem garantir alguns passos nessa direção.

   Nesse caminho avançaremos, por exemplo, em relação à compreensão do peso que teve a escravidão no Rio Grande do Sul – já que entre muitos ainda prepondera a ideia de que a escravidão foi menos significativa em nosso estado – ou ainda poderemos desconstruir a ideia de que havia presença escrava significativa apenas nas charqueadas, o que tem sido negado através dos resultados de pesquisas no último período, a partir da demonstração de que os escravos eram a base da mão de obra em diversos segmentos da produção, comércio e serviços.