Buscando efetivar a proposta de, através da série “Arquivos & Diversidade Étnica”, lançar luz sobre documentos que auxiliem na discussão a respeito de nossa constituição étnica, evidenciando as múltiplas potencialidades das instituições arquivísticas e de seus acervos para os processos de ensino e aprendizagem em torno da temática, hoje gostaríamos de difundir instrumentos de pesquisa que são uma porta de entrada de fácil acesso aos Arquivos para todos os seus usuários, e que com certeza podem ser utilizados por educadores nos mais diversos contextos educacionais para aproximar estudantes do patrimônio documental.

Estamos falando dos catálogos seletivos, produzidos a partir da pesquisa, seleção e descrição de acervos que tratam de determinada temática. São instrumentos de pesquisa construídos com a intencionalidade de ampliar o acesso e a difusão de terminados acervos, e elaborados a partir de um minucioso trabalho em que cada documento é apresentado em sua essência informacional a partir de um verbete.

Há anos o APERS vem trabalhando com o tema da escravidão e da luta por liberdade no Rio Grande do Sul, lançando 10 volumes de catálogos seletivos que evidenciam o peso da escravidão em nosso estado, e a presença dos africanos e afrodescendentes em nossa constituição societária. Todos esses catálogos podem ser baixados de nosso site em formato pdf, e estão referenciados de forma organizada em nossa aba “Publicações”. Partindo de exemplos extraídos de um desses volumes, gostaríamos de instigar visitas virtuais e reflexões coletivas a partir dos próprios catálogos, que podem gerar o desejo de realizar visitas presenciais e pesquisas no Arquivo!

Capa Processos CrimeComo o nome já diz, no volume intitulado “Processos Crimes: o escravo como vítima ou réu”, lançado em 2010, você poderá encontrar relacionados e descritos todos os processos crimes envolvendo escravos ou libertos mapeados em nosso acervo do Poder Judiciário, em cada Comarca. Os verbetes trazem informações a respeito dos escravizados, como nome, estado civil, cor, idade, origem, profissão, filiação e nome do proprietário, além de informações sobre o crime e a conclusão do processo. A introdução do instrumento explica de maneira detalhada a forma como foi construída a descrição dos cerca de 2 mil processos, auxiliando em sua compreensão. Veja exemplos:

Exemplo verbete crime 1

Exemplo verbete crime 2

Exemplo verbete crime 3

No primeiro caso encontramos três escravos, sendo dois “de nação”, ou seja, nascidos na África, e um crioulo, nascido no Brasil. São acusados de ferir com arma de fogo e ofender o proprietário de dois deles. No segundo caso encontramos relacionados uma série de escravos, de diversas idades e origens, acusados de organizar uma insurreição, formando um quilombo. Em ambos, os escravizados aparecem como réus. São apenas dois exemplos, entre tantos outros crimes semelhantes, que expressam a revolta e a organização de indivíduos que foram escravizados. São escravos congos, nagôs, moçambiques, angolas, crioulos da província e de outras localidades do país, com diferentes profissões e idades, de diferentes senhores, que, ligados pelos laços da opressão escravista, se encontram, se identificam e se rebelam.

Já no terceiro exemplo, a menina escravizada aparece como vítima de um crime que provavelmente foi muito mais comum do que os processos recolhidos ao APERS puderam registrar, já que o abuso de mulheres escravas por parte de seus senhores e outros homens brancos era muitas vezes percebido como natural. Fato que nos faz questionar até que pontos esses crimes chegavam a juízo.

O que esses processos demonstram? Que discussões a simples problematização de seus verbetes pode gerar em sala de aula? Que dados podem ser ressaltados? Acreditamos que os crimes e a violência, em si, devem ser o foco da análise quando o objetivo é questionar as bases da sociedade escravista, da qual somos legatários. Porém, também é possível realizar cruzamentos de dados entre processos para problematizar as origens dos escravos trazidos ao RS; analisar as funções por eles desempenhadas, expressas através de suas profissões, que muitas vezes eram bastante especializadas e complexas; relacionar suas idades e o envolvimento com determinados crimes; buscar processos de crimes ocorridos na localidade em que está situada a escola, para refletir sobre possíveis marcas na memória local… Enfim, as possibilidades são muitas, e isso apenas com o “resumo” dos documentos, que podem ser facilmente acessados e lidos através da internet.

Em relação ao método de trabalho, também há diversas possibilidades, adaptáveis à realidade da sua escola e ao tempo disponível para planejamento e construção da atividade. Sugerimos que você inicie o trabalho realizando uma pesquisa prévia, “viajando” pelas páginas dos catálogos a procura de casos que se relacionem com os objetivos traçados em seu plano de aula. Em seguida, anote as páginas que pretendes trabalhar com os alunos no laboratório de informática, onde eles mesmos poderão entrar em nosso blog e baixar o arquivo com o catálogo escolhido, primeiro explorando-o de maneira geral e em seguida se direcionando às páginas indicadas por você. Caso não seja possível utilizar o laboratório de informática, é possível preparar uma apresentação com os verbetes selecionados, que pode ser projetada em sala de aula com equipamento multimídia, ou até mesmo impressa para distribuir entre todos os alunos, ou por grupos. Com certeza em qualquer desses formatos a atividade renderá debates excelentes!

Mas, se com os verbetes a aula já será ótima, imagine o que você pode propor a partir de uma visita com sua turma à sala de pesquisa do APERS, ou a partir de imagens dos documentos que podes captar em pouco tempo e levar até a escola?! Neste caso, realize a pesquisa prévia no catálogo, anote as referências dos documentos que gostarias de analisar com seus alunos, entre em contato conosco fazendo o pedido dos mesmos, para que sejam separados e fiquem a sua espera na sala de pesquisa, e em seguida opte pelo que mais se encaixar na sua dinâmica: agende a visita para o grupo, ou se organize para vir ao Arquivo e tirar suas fotos, que depois poderão ser trabalhadas com os estudantes. Visualizando os processos certamente a aula poderá se tornar ainda mais interessante.