Capa 12anosEscravidão     O filme 12 anos de Escravidão, do diretor Steve McQueen, está positivamente “na boca do povo”. Todos comentam a respeito do filme forte e sensível que deu o primeiro Oscar de Melhor Filme a um diretor negro. Steve, um britânico de 44 anos, levou para a telona a história real de Solomon Northup, um homem negro de Nova York, livre, pai de família, culto, que sabia ler e escrever em uma sociedade de maioria analfabeta, que tocava violino, mas que em 1841 foi sequestrado, transformado em escravo no Sul dos Estados Unidos, obrigado a trocar de nome, vendido a diversos proprietários, submetido aos mais cruéis regimes de trabalho e castigos. Solomon deixou sua história registrada em livro, que foi best-seller no final do século XIX e agora é redescoberto nos EUA.

     Realmente 12 anos de Escravidão pode ser considerado um belíssimo filme-denúncia, que nos faz refletir sobre os horrores da Escravidão. E é importante lembrarmos que a história de Solomon não é única, e infelizmente não é uma exceção, o que com certeza não diminui a importância de seu resgate, mas ao contrário, torna o papel desempenhado pelo filme ainda mais preponderante: a obra ajuda a ampliar o conhecimento e o debate em torno da escravidão, de suas perversidades, e de suas marcas em nossa sociedade. Nesse sentido, foi com grande satisfação que tomamos conhecimento do artigo 20 anos de escravidão, publicado pelo historiador Jônas Marques Caratti no Jornal Zero Hora. Jônas é pesquisador assíduo do Arquivo Público do RS, tendo conhecido, visitado e revisitado as histórias de muitos indivíduos escravizados e reescravizados através das páginas de nosso acervo, e nesse artigo lançou luz sobre tais documentos evidenciando que a história de Solomon tem inúmeras correspondências no Rio Grande do Sul: “Não é preciso ir longe para encontrarmos experiências de reescravização e escravização ilegal. É só dirigir-se à Rua Riachuelo, 1.031, no Arquivo Público do Estado, situado no Centro Histórico de Porto Alegre. Lá, o interessado encontrará milhares de documentos que revelam casos cinematográficos que mereceriam ser gravados por cineastas gaúchos”.

     Um dos casos citados por Jônas, em seu artigo, é o de Reina Rodrigues, que em 1854 foi sequestrada enquanto preparava a ceia em sua casa, e levada para São Leopoldo, onde foi vendida como escrava. A história de Reina está registrada em um dos processos crimes salvaguardados pelo APERS, e pode ser facilmente localizada a partir de nossos instrumentos de pesquisa, como o volume de Processos Crimes dos Catálogos Seletivos de Documentos da Escravidão. O processo mostra que Reina, solteira, 26 anos, e seu filho Candido Luz, de seis anos, foram sequestrados no dia 26 de março no Estado Oriental (Uruguai), e vendidos na localidade de São Leopoldo. Infelizmente os réus foram absolvidos.

     Caminhando entre acervos, percebemos diversos outros casos semelhantes. Assim como Cândido, filho de Reina, o menino Anacleto, livre, 11 anos, de Camaquã, filho de Marcela e ex-escravo de Antônio Escôto, foi capturado no Estado Oriental pelos réus José Maria e Crispim, que o conduziram a força até Jaguarão, onde foi vendido a Francisca Gomes da Porciúncula, que o obrigou a atender pelo nome de Gregório. Novamente nesse caso os réus foram absolvidos. Quem já pode assistir ao filme 12 anos de Escravidão certamente se lembrará das crianças que foram capturadas juntamente com Solomon, e da mãe, que desesperada ao encontrá-los em cativeiro, acreditando que poderia levá-los consigo, foi surpreendida pela escravização e venda de toda a família, inclusive para proprietários diferentes.

     Já no caso do menino Firmino, pardo livre de 12 anos, da localidade de Pelotas, filho de Felisbina, que foi capturado no ano de 1856 por Manoel Marques de Noronha e vendido a Joaquim José d’Assumpção, os réus foram condenados a três anos de prisão e multa.

     Esses e outros documentos podem ser acessados livremente na Sala de Pesquisa do Arquivo Público. São acervos que nos colocam em contato com o passado, e nos possibilitam diversas reflexões, de cunho humano, filosófico, sociológico, histórico… Como se transformava a vida dessas pessoas reescravizadas? A que sofrimentos eram expostos? Como tentavam lutar contra a escravização? Que fatores contribuíam para ampliar os casos de captura e reescravização de pessoas nascidas livres ou libertas? Será possível relacionar esses casos ao fim do tráfico internacional de escravos na segunda metade do século XIX? Como se dava o acesso à Justiça para essas pessoas, tão marginalizadas na sociedade brasileira escravista? De que forma os negros que lutavam contra a escravidão buscaram se organizar para disputar os rumos de sua história a partir do sistema judiciário, e que dificuldades enfrentavam? Porque em grande parte dos casos os réus eram absolvidos, se a legislação era clara ao tipificar como crime o ato de “reduzir à escravidão pessoas livres”?

     Essas e outras questões podem e devem ser levantadas a partir do filme, e a partir de nosso patrimônio documental, que está aqui no APERS, acessível a todos e todas!

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