Ao escrever artigo para a Ciência Hoje Online sobre as raízes africanas da população brasileira a partir de estudos genéticos, Sergio Pena, geneticista e professor da USP, recorda os estudos artísticos feitos entre 1821 a 1825 pelo pintor alemão Johann Moritz Rugendas, que viajou por nosso país registrando e catalogando através de seus pincéis nossa fauna, flora e população. Rugendas “se encantou particularmente com a ampla variedade de povos africanos no Rio de Janeiro, que captou em sua arte (ver figura). Como relatado por ele, ‘em um só golpe de vista o artista pode conseguir resultados que, na África, só atingiria através de longas e perigosas viagens a todas as regiões dessa parte do mundo’”.

Etnias Africanas

No artigo em questão Sergio foca sua análise na unidade encontrada entre as amostras genéticas de brasileiros brancos de diversas partes do país, demonstrando a presença de marcadores genômicos que comprovam a ancestralidade africana da população pesquisada, e aponta para a África Central, de matriz bantu, como sendo a principal origem de tal ancestralidade. Assim como Rugendas já teria observado ao perceber o quanto os africanos escravizados passavam a comunicar-se com facilidade, mesmo sendo oriundos de diferentes partes da África e falando diferentes línguas – o que para ele era sinal de que sua fala possuía algo em comum – os estudos referenciados pelo geneticista comprovam a unidade da matriz étnico cultural bantu e sua preponderância entre a ascendência dos brasileiros, presente em 69% do total de amostras estudadas, contra 31% de marcadores que representariam outras origens africanas. Além da diversidade de etnias de origem bantu, predominantes nos atuais Congo e Angola, tanto os estudos artísticos de Rugendas, quanto os estudos genéticos, históricos e antropológicos que vêm sendo realizados nos últimos anos evidenciam a ampla gama de povos e culturas que foram trazidas ao Brasil, a partir de africanos monjolo, fon, cassange, benguela, cabinda, rebolo, mina, moçambique…

Mas o quê tudo isso tem a ver com documentos de arquivo? Bem, a verdade é que um olhar mais atento às fontes arquivísticas pode nos ajudar a ter uma experiência concreta de imersão na história, e de contato com essa diversidade! Como exemplo, hoje apresentamos um testamento de 1832, da localidade de Piratini, aparentemente mais um testamento entre tantos que foram legados a nós pelas gerações anteriores. E por um lado, realmente é apenas mais um documento, afinal, entre as prateleiras de nosso acervo há tantos outros capazes de contribuir nessa reflexão. Mas quando sabemos olhar para suas linhas, escritas com uma grafia de outro tempo, com tinta, pena e papeis de outro tempo, com abreviaturas e expressões que hoje estão datados, percebemos que dependendo de nossas interrogações não são apenas mais algumas folhas: são o registro da existência e de parte da história da testamentada Dona Maria Caetana da Conceição – ou seja, a pessoa que está deixando seu testamento – assim como de Esméria, Maria, Joaquim, José e Joanna, como você poderá acompanhar a partir da digitalização do documento, aqui abaixo.

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Maria Caetana era uma senhora da elite rio-grandense, que em 03 de junho de 1829 mandou chamar em sua casa o “escrivão do lar” da localidade para registrar seu testamento, por temer a morte devido a “seus costumados achaques” e “avançada idade”. Conforme nos permite descobrir o documento, era viúva do primeiro casamento, do qual teve cinco filhos, todos falecidos. Seu segundo marido, Manoel José da Silva Santos Velleda, com o qual teve dois filhos que declara seus herdeiros, foi vereador de Piratini na primeira composição de sua câmara, logo que a localidade foi elevada a vila. Seu nome figura entre os que assinaram importantes decretos durante a Guerra dos Farrapos, no período em que o Rio Grande proclamou-se uma república independente do Império do Brasil. Já Esméria era uma menina mulata, de sete anos, provavelmente nascida na província, filha da mulata Maria. Joaquim, já em idade avançada, declarado cego, era de nação mina. José, de cinquenta e seis anos, era casado com Joanna, de cinquenta. Ele era de nação congo, e ela, benguela. Todos eram escravos de Maria Caetana, que à vésperas da morte os libertou, com diferentes observações que podem ser abordadas a partir da leitura do testamento.

Essa descrição nos suscita diversas questões que se conectam a discussão inicial: em um pequeno plantel arrolado no testamento dessa senhora conseguimos identificar pessoas escravizadas de diferentes origens – mina, benguela, congo e criola, esta última relacionada aos escravizados nascido aqui. A mesma descrição nos permite inferir que dentro do plantel de Dona Maria, mesmo com as prováveis diferenças étnico culturais carregadas por Joaquim, José e Joanna, estabeleceram-se laços de afeto e família, expressos entre mãe e filha, marido e mulher, compadres e comadres. Que língua falaria o velho Joaquim ao chegar ao Brasil? Como passou a relacionar-se com José e Joanna, adultos de origem diferente da sua? Que histórias estes deviam contar à pequena Esméria, filha de Maria? O documento não afirma isso, mas quais seriam as chances de que José ou Joaquim fosse seu pai? Ou teria seu pai morrido, ou sido afastado dela ao ser vendido para outro senhor? Que palavras, comidas, ritmos, formas de cultivar a terra, tecer e trabalhar teriam trazido da África cada uma dessas pessoas? E como tais conhecimentos teriam se relacionado, amalgamado, traduzido em uma nova cultura, agora brasileira, da qual Esméria é grande expressão?

Uma pesquisa de maior fôlego certamente poderia nos ajudar a responder algumas dessas questões, analisando outros documentos produzidos ao longo da vida por Dona Maria Caetana, como registros de batismo e casamento de seus escravos, inventários e testamentos de outros membros de sua família, assim como relatos de afro descentes daquela região do estado, estudos sobre a cultura legada por escravizados mina, benguela ou congo à região sul do país, etc. Claro que esse é um exercício que gostaríamos de instigá-lo a realizar! Observando rapidamente a partir do Catálogo Seletivo de Documentos da Escravidão relativo aos testamentos já pudemos identificar a existência em nosso acervo do testamento de seu marido, Manoel Santos Velleda. Que outros bens o “chefe” daquela família traria arrolados em um documento de mesma tipologia produzido vinte anos depois? Conforme é possível observar no verbete, também são elencados diversos escravos:

Verbete Inventário Manoel Velleda

Nosso objetivo com este breve mergulho entre o mundo dos arquivos é justamente mostrar mais um indício das múltiplas “Áfricas” trazidas ao Brasil, das quais todos nós somos parte, somos fruto, enfim, somos filhos. Áfricas já observadas por Rugendas, por Sergio Pena, e por tantos outros… Para nós, servidores do APERS, este é um mundo muito presente e fascinante, com o qual convivemos a cada caixa de documentos que abrimos em nosso cotidiano. Descubra-o você também, e multiplique esse conhecimento entre seus alunos, seus colegas, amigos, familiares!