Como divulgamos em publicação no dia 12/02 (aqui), através da Associação dos Amigos do Arquivo o APERS conseguiu captar recursos para o projeto “AfricaNoArquivo” junto ao IBRAM, que somados a recursos da UFRGS via Edital Proext – MEC oportunizará, entre outras ações, a distribuição para escolas públicas de caixas pedagógicas contento reproduções de documentos de nosso acervo, jogo pedagógico, textos e um vídeo de apoio.

Após um minucioso trabalho de pesquisa e seleção de documentos, que vem sendo realizado desde abril, nossa equipe escolheu um conjunto de seis documentos que foram digitalizados, transcritos, serão impressos, plastificados e organizados nos kits, previstos para serem distribuídos entre a última semana de outubro e a primeira de novembro. Hoje, como forma de divulgar essa ação, e de já principiar o compartilhamento das informações constantes nos documentos escolhidos, iniciamos dentro da categoria Arquivos & Diversidade Étnica uma série com três postagens, neste e nos próximos dois meses, elaboradas a partir de parte desses documentos. Esperamos que estes posts contribuam para aguçar a curiosidade de professores, estudantes e nossos usuários em geral, de forma que desejem conhecer melhor esse projeto!

Começamos pela história de Antônio Gaia, preto forro de nação nagô, da Costa da Mina, que no ano de 1883 deixou seu testamento registrado na cidade de Rio Grande. Aparentemente este é mais um entre tantos testamentos que fazem parte do acervo do Arquivo Público. Porém, quando olhamos com mais atenção nos damos conta de seu potencial e riqueza. Ele registra com um bom grau de detalhes a vida de um homem das classes populares e oprimidas que, ao contrário de grandes líderes ou homens abastados, a princípio não teria sua trajetória registrada e sua história de vida discutida nos dias de hoje. A análise desse testamento pode trazer uma série de elementos para problematizar o contexto da escravidão no Brasil, a resistência dos escravizados, as brechas abertas no sistema escravista a partir da atuação desses sujeitos históricos.

Com seus “cincoenta e tanto de idade” e já adoentado, como declara Antonio, o ex-escravo decide registrar suas últimas vontades, demonstrando que possuía família – reconhecendo oficialmente uma filha natural e uma companheira –, bens e uma rede de relações com outras pessoas já alforriadas que parece lhe aferir status de um homem reconhecido entre os seus, capaz de acumular pecúlio e contribuir financeiramente para que outros indivíduos alcançassem a liberdade, como é possível acompanhar através da transcrição de parte do documento:

[folha 1] Declaro que tenho uma filha natural de nome Zeferina Gaia, havida da finada preta forra de nome Leopoldina, a qual minha filha natural n’este momento solene, reconheço e legitimo, como se filha legitima fosse, e a considero e a instituo por herdeira universal de tudo quanto possuo. Declaro que deixo ao preto forro de nome Claudino, filho da finada preta Leopoldina, a quantia de quatro centos mil réis. Declaro que o preto forro, de nação Mina, de nome Natasso Lubi Marinho, que foi escravo do Visconde Pereira Marinho, da Bahia, me é devedor da quantia de nove centos e cincoenta mil réis, dinheiro este que faz parte, do que dei pela sua liberdade (…) [folha 2] Declaro que deixo a preta forra Izalina, minha companheira, todos os moveis e roupa que existirem dentro de minha moradia, do tempo do meo fallecimento.

Tanto no trabalho de pesquisa quanto de ensino, nas diferentes formas de escrita da história, o caso de Antonio pode ser muito ilustrativo de uma série de relações estabelecidas no cotidiano escravista que dizem respeito às formas de negociação entre senhores e escravizados, assim como pode suscitar discussões sobre como era a vida das pessoas escravizadas naquele contexto – que de alguma forma permitia que uma parcela desses homens e mulheres alcançassem a liberdade –, sobre sua origem étnica e cultural, o lugar de onde ele veio (Costa de Mina) e os elementos pertencentes a tal sociedade no contexto em que foi trazido ao Brasil, as contribuições de matriz africana que com ele atravessaram o Atlântico, etc.

Essas e outras questões serão levantadas a partir do projeto em questão, ao qual temos nos dedicado com muito carinho no último período, levando para dentro das escolas um pedacinho do APERS. Assim pretendemos contribuir para que educadores e educandos possam explorar os potenciais dos documentos como fonte de informação, de produção de conhecimento, de experiências de ensino e aprendizado mais dinâmicas, investigativas e instigantes. Em breve compartilharemos aqui mais informações e ideias de abordagem a partir de tais documentos.

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