A partir de hoje, sempre na terceira semana de cada mês, publicaremos artigos relacionados a ações educativas em instituições arquivísticas. A motivação para a escrita e compartilhamento de reflexões acerca do tema vem tanto das experiências cotidianas desenvolvidas no APERS nos últimos anos, quanto da percepção de que é necessário aprofundar a produção de conhecimento e o intercâmbio entre arquivistas, historiadores, educadores, estudantes e demais interessados na área.

Pensando o papel social dos arquivos e seu caráter enquanto lugar de memória, podemos afirmar que ainda há muito por fazer no Brasil para que tais instituições sejam socialmente reconhecidas em seu potencial educativo e cultural. Ainda que diversos arquivos brasileiros já desenvolvam ações educativas, hoje quando pensamos em visitar espaços culturais, quando imaginamos turmas escolares ou grupos da comunidade em contato com o patrimônio cultural, em geral nos remetemos a passeios em museus e bibliotecas, ao contato com acervos tridimensionais, com livros e coleções de periódicos. Para muitos a paisagem de estantes repletas de caixas e encadernações de documentos pode parecer complexa e ao mesmo tempo árida, pouco atrativa aos olhos do público geral, para além dos pesquisadores já habituados com esse cenário.

Entretanto, o estudo de ações no Brasil e em outros países, e a nossa própria experiência tem demonstrado que os arquivos podem, sim, ser qualitativamente explorados como espaços educativos, e que esse trabalho tanto contribui para a qualificação dos processos de ensino e aprendizagem nas escolas e espaços não formais de educação, quanto para que a sociedade conheça e reconheça a importância das instituições arquivísticas, e delas se apropriem.

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Sabemos que na França, por exemplo, os “serviços educativos” vem sendo construídos e consolidados nos arquivos públicos desde a década de 1950. Como coloca Annick Pegeon, responsável pelo Serviço Educativo dos Archives Nacionales da França, “ao longo de décadas, o documento arquivístico fez, paulatinamente, sua entrada na escola, facilitada pela criação, na França, a partir dos anos de 1950, dos serviços educativos em arquivos, que oferecem aos professores e seus alunos oficinas e visitas pedagógicas destinadas a proporcionar a descoberta dos arquivos e dos grandes períodos históricos” (PEGEON, 2012). Outros países europeus, como a Itália e a Espanha, já desenvolveram uma trajetória maior nessa área.

No Brasil, podemos apontar que o final da década de 1980 – com a abertura democrática, a entrada em cena de diversos grupos e minorias reivindicando direitos e reconhecimento, e a chamada “Constituição Cidadã” – marcou um novo período nas relações da sociedade e do poder público com o patrimônio cultural, estando o patrimônio documental nesse bojo. Esse processo se expressou, entre outros textos legais e ações estatais, no novo texto constitucional, na legislação sobre salvaguarda e preservação do patrimônio, na Lei de Arquivos (8.189, de janeiro de 1991), e nos Parâmetros Curriculares Nacionais, que passaram a considerar fundamental o contato com documentos históricos nas escolas para o estudo das Ciências Humanas e a compreensão dos processos históricos. Da década de 1980 para cá, certamente uma série de atividades nesse sentido têm sido levadas a cabo em arquivos.

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No APERS, especialmente a partir de 2009, passamos a dedicar um esforço considerável para consolidar ações na área da difusão, com especial atenção ao potencial educativo da instituição e de seus acervos, oferecendo oficinas, visitas guiadas, cursos de formação para professores, capacitações de oficineiros, propostas pedagógicas virtuais. A relação com a comunidade tem se estreitado cada vez mais, com demanda crescente e reconhecimento por parte de universidades, escolas e outras instituições de memória.

A categoria “Ação Educativa em Arquivos” surgiu de tudo isso: a partir da nossa experiência, do conhecimento de diversas outras experiências em arquivos do Brasil e de fora do país, e por acreditar na necessidade de institucionalizar a função educativa nos arquivos, e não apenas realizar ações isoladas ou circunstanciais. Através desses artigos mensais pretendemos contribuir para conectar pessoas e ideias, reunir e compartilhar informações, e contribuir com mais alguns tijolinhos na construção de uma visão global e social dos arquivos no mundo contemporâneo. Acompanhe!
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PEGEON, Anick. Uma Experiência Pedagógica em Arquivos: A disciplina “Arquivo” dos Archives nacionales da França. Acervo, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 89-102, jan./jun. 2012 – pág. 89. Disponível em: http://www.revistaacervo.an.gov.br/seer/index.php/info/article/viewFile/562/447