00Nesta edição da categoria “Ação Educativa em Arquivos” vamos “mirar” as ações levadas a cabo pelo Archivo Provincial de la Memoria (APM) da Província de Córdoba, Argentina. A análise do trabalhos desses “hermanos”, vizinhos do Cone Sul, ajuda a perceber as possibilidades de compreensão e usos dos arquivos enquanto espaços educativos, nos fazendo refletir de maneira crítica sobre as práticas educativas do próprio APERS.

Criado através da Lei Provincial de la Memoria, nº 9286, este arquivo se localiza no prédio onde funcionava o antigo “Departamento de Inteligencia de la Policía de la Provincia de Córdoba”, conhecido como “D-2”, símbolo máximo da prática do terrorismo de Estado na região durante a ditadura militar argentina.

Fruto de experiências próprias do contexto argentino com sua história recente e com as marcas da ditadura militar, a criação do APM objetiva contribuir para manter viva a história contemporânea da Província, suas lições e legados às gerações presentes e futuras; prover os instrumentos necessários para a busca da verdade histórica, da justiça e da reparação social ante as graves violações de direitos humanos e liberdades fundamentais; fomentar o estudo, a investigação e a difusão da luta contra a impunidade e pelo respeito pleno aos direitos humanos e suas implicações nos planos legal, ético, político e institucional; preservar informações, testemunhos e documentos necessários para estudar as condições e consequências da repressão ilegal e do terrorismo de Estado; desenvolver métodos adequados para o recolhimento, gestão, acesso e difusão ao acervo do Arquivo, assim como criar instrumentos pedagógicos que contribuam para a manutenção das instituições democráticas e para tornar realidade o imperativo do “Nunca Mas”. Além disso, tem como prerrogativa preservar as instalações do edifício, que funcionou como centro clandestino de detenção e tortura, ressignificando o espaço e seus usos em uma perspectiva testemunhal, pedagógica e educativa.

A instituição insere-se nas normativas gerais do Conselho Internacional de Arquivos para documentos provenientes de sistemas repressivos. Nesse sentido, organizada a partir de “Áreas de Trabajo”, tem como funções obter, compilar, classificar, organizar e custodiar toda a documentação relacionada às violações de direitos humanos e à prática do terrorismo de Estado ocorridas na província de Córdoba; garantir o acesso a essa documentação a partir de solicitação simples de qualquer pessoa legitimamente interessada; e manter, a partir dos acervos obtidos, um museu e espaço de memória.

Frente a seus objetivos e funções junto à sociedade argentina, evidencia-se o papel pedagógico e educativo assumido pelo APM. Tomado enquanto espaço de memória, o arquivo é percebido como um território conquistado para o exercício coletivo de reflexão sobre o passado recente e sobre as tramas do presente que se vinculam à memória coletiva, à identidade e aos processos políticos de construção cotidiana da democracia. A partir da “Área Pedagogía de la Memoria” são oferecidos cursos de formação para estudantes e educadores, visitas, oficinas, materiais pedagógicos e atividades culturais diversas, que debatem o autoritarismo e as violações de direitos humanos a partir dos acervos, do edifício e das vivências trazidas por cada visitante.

Nos chamados “Encontros de Memórias”, três vezes por semana são recebidos grupos de crianças, jovens e professores, com agendamento prévio. As visitas, pensadas como processos ativos e reflexivos, que envolvam e estimulem a participação de todos como “sujeitos criadores e problematizadores da realidade”, não possuem um formato linear. São construídas a partir do contato prévio com os docentes de cada turma, em formato de oficina para um “aprender-fazendo de forma coletiva”.

A Área Pedagogía de la Memoria também produz materiais pedagógicos, como publicações impressas e audiovisuais, que buscam dar aporte a professores e estudantes para pensar os sítios de memória como ferramentas metodológicas em aula, e desenvolve ainda: a “Ronda de la Memória”, concebida como uma feira anual em que estudantes e professores compartilham experiências e produções realizadas ao longo do ano a partir do contato entre arquivo e escola; a “Ronda de la Lectura”, evento anual para jovens, crianças, escritos, educadores, músicos, artistas e público em geral. Durante dois dias todos compartilham a palavra, como “ferramenta poderosa que gera laços em comum e nos alimenta”; e o projeto “La justicia em su lugar”, que oportuniza aulas públicas mensais sobre Justiça e Memória em frente aos Tribunais Federais, no horário em que ocorrem as audiências de julgamento por crimes de Lesa Humanidade, produzindo mostras de arte e política, e defendendo o direito dos jovens maiores de 16 anos de assistir às audiências.

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Ano após ano também é aberto espaço para que estudantes de graduação acompanhem as ações educativas do arquivo, desenvolvendo suas práticas profissionais supervisionadas, assim como para estudantes que entram em contato com a instituição para realizar práticas sócio-comunitárias.

O trabalho desenvolvido pelo APM evidencia preocupação tanto com a salvaguarda e gestão documental (a partir do trabalho de Áreas como “Documentación y Conservación”, e “Investigación”), quanto com o papel social e os usos pedagógicos e educativos da instituição, evidenciando que é a partir da apropriação e resignificação do espaço e de seus acervos que se efetiva o próprio sentido de existência do Archivo Provincial de la Memória.

Ainda que seja necessário compreender as diferenças entre as duas instituições, diversos aspectos metodológicos empregados lá são semelhantes aos empregados nas ações educativas desenvolvidas pelo APERS, como a concepção e realização de oficinas como momentos para a produção coletiva de conhecimentos e trocas de experiências, a dinâmica de parceria e formação de educadores e estudantes de graduação, ou a valorização do espaço físico em que a instituição está sediada como patrimônio e como elemento central nas atividades pedagógicas. O APERS não é um arquivo temático ou um lugar de memória que testemunhe experiências traumáticas ali vivenciadas, mas salvaguarda uma série de fundos ou conjuntos documentais relacionados a temas sensíveis intimamente vinculados a identidades e memórias da sociedade sul-riograndense e brasileira, como a escravidão e a luta por liberdade, a imigração, e a própria ditadura civil militar. Além disso, carrega as marcas do tempo, de concepções de história e de arquivo, de Estado, política e sociedade. Tudo isso pode e deve ser problematizado e apropriado através de processos educativos que relacionem memória, história e patrimônio.

A dinâmica de condução das ações educativas no APM, tão próxima aos usuários do arquivo, lançando um olhar todo especial para suas demandas, abrindo espaço para os conceitos e significados trazidos por cada grupo, e acompanhando a sequência do trabalho após a participação nas oficinas, certamente é inspiradora para desdobramentos e até mesmo aperfeiçoamentos em nossas ações. Certamente buscaremos contato com a equipe hermana, e seguiremos criando parcerias para qualificar nossa caminhada!

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