Chegamos ao último texto do ano na série Ação Educativa em Arquivos, que abordará as experiências do The National Archives, ou Arquivos Nacionais do Reino Unido. Suas ações são bastante complexas, densas e bem estruturadas, certamente interessantes para motivar uma reflexão qualificada a respeito do potencial e do papel educativos dos arquivos públicos.

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Ele é responsável pela documentação do Reino Unido, composto pelos países da ilha da Grã-Bretanha – Inglaterra, Escócia e País de Gales – e a Irlanda do Norte. Interessante notar que é uma instituição jovem, fundada em 2003 a partir da fusão de quatro organizações: o Public Record Office, criado em 1838 para ocupar-se dos arquivos de governo produzidos pela Inglaterra, País de Gales e Reino Unido; a Royal Commission on Historical Munuscrip, comissão criada em 1869 pelo poder real para identificar a localização e conteúdos de registros privados de interesse à história do Reino; o Her Majesty’s Stationery Office, que desde 1786 era responsável pelos documentos e publicações oficiais de autoria da Coroa e do Parlamento; e o Office of Public Sector Information, criado em 2005 por diretiva da União Europeia, para tratar e utilizar as informações reproduzidas e recolhidas pelo setor público do âmbito da UE.

Esta diversidade e amplitude faz com que o The National Archives reivindique o posto de maior arquivo organizado do mundo, detentor de documentos que permitem a análise de mais de 1.000 anos de história, desde a ocupação daquele território insular até a atualidade, passando pelo “tombo feudal”, pelas obras de Shakespeare até chegar nos recentes documentos desclassificados e disponibilizados ao público pelos governos do Reino Unido. A fundação contemporânea da instituição se deu a partir de uma concepção moderna de arquivo, enquanto espaço vivo, acessível, responsável pela gestão de documentos públicos, mas especialmente amplamente conectado e voltado à comunidade. Uma breve navegação pelo site da instituição evidencia isso: um programa consolidado voltado ao atendimento de professores e estudantes, instrumentos de pesquisa descomplicados, serviço de atendimento especial e personalizado aos pesquisadores, de todas as áreas, faixas etárias e níveis de formação – desde estudantes das escolas até pós-graduandos.

Obviamente não é possível comparar diretamente a realidade dessa instituição com a do APERS, ou com outros arquivos públicos brasileiros. É um universo bastante diverso do nosso, não só por ser uma instituição de caráter nacional, enquanto nos colocamos em uma posição estadual, mas também por questões históricas, econômicas e políticas. No processo de desenvolvimento da Revolução Industrial o Reino Unido constituiu-se enquanto a maior potência mundial imperialista, cuja riqueza permitiu alto grau de desenvolvimento econômico e social – em grande parte às custas da exploração de outras regiões do planeta – e onde a educação e o acesso à cultura puderam efetivar-se em outro patamar. Entretanto, reconhecendo tais diferenças ou desigualdades, nada impede que nos inspiremos com o trabalho desenvolvido por lá, sempre buscando aprofundar as relações entre sociedade e arquivo!

Nesse sentido, é um prazer navegar pela sessão “Education”, em destaque no portal institucional. Seria inviável desenvolver qualquer análise mais aprofundada de cada proposta, pois são muitas, então nosso principal objetivo, mais uma vez, é incentivar que nossas leitoras e leitores sintam vontade de navegar por lá também! Podemos encontrar uma grande variedade de ações educativas:

  • Longa série de propostas pedagógicas para uso em sala de aula, disponíveis para baixar, tratando de temáticas diversas e sobre todos os períodos históricos contemplados no acervo da instituição. Em geral, em cada uma delas são disponibilizados textos introdutórios, documentos digitalizados com suas respectivas transcrições, e propostas de questões para análise. Também há conteúdos maiores, ou mais aprofundados, voltados aos professores, para que possam preparar suas aulas a partir de uma gama de documentos e conhecimentos – podemos comparar com as propostas pedagógicas de nosso projeto “APERS? Presente, professores!“;
  • Workshops, ou oficinas, que podem ser agendadas para turmas escolares nas dependências do Arquivo, oportunizando o trabalho a partir de documentos originais – também podem ser comparadas com as oficinas oferecidas a partir de nosso Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS (PEP);
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Página de acesso às oficinas oferecidas pelo Arquivo.

  • Videoconferências, que também podem ser agendadas para “levar” os arquivos até as escolas. Nessas atividades um profissional do setor educativo apresenta a instituição, seus serviços, espaços e acervos, em uma visita virtual interativa;
Conhecendo as opções de videoconferências.

Conhecendo as opções de videoconferências.

  • Virtual classrooms, ou aulas virtuais, em que um educador do Arquivo interage com as turmas apresentando, analisando e debatendo contextos históricos e documentos que são disponibilizados em alta resolução através de um ambiente virtual;
  • Professional development, ou programa de desenvolvimento profissional voltado para professores. Nesta área, são oferecidas atividades e formações que tem como foco oportunizar que eles tenham acesso aos fundos e coleções do Arquivo, e desenvolvam suas próprias pesquisas e planos de ensino a partir deles – neste tópico, também é justo destacar os cursos de formação para professores oferecidos anualmente através do PEP. O programa realiza encontros de treinamento para grupos de professores mediante agendamento; desenvolve propostas pedagógicas em parceria entre a equipe de educação do Arquivo e pesquisadores universitários; mantém um curso de formação online, Making History: Using archives in classroom, em que compartilham com professores sua experiência com a utilização de fontes arquivísticas nas salas de aulas; e realizam anualmente um curso de formação, sempre em parceria com universidades, sobre o qual cabe dizer algumas palavras a mais.

Chamou-nos a atenção a última proposta de formação de professores mencionada, por buscar desenvolver algo que nos parece central: a habilidade de manuseio, leitura, interpretação e produção de conhecimento em parceria entre professores da educação básica, educadores do arquivo e professores universitários. O curso desenvolve-se a partir de palestras, atividades práticas, encontros no Arquivo e na sede da Universidade parceria, e tem como principal resultado a produção de pesquisa voltada ao ensino de história a partir de documentos arquivísticos, com a apresentação de novas propostas pedagógicas criadas pelos professores, que são publicadas pelo The National Archives. Certamente é um avanço em um longo e necessário caminho que visa desconstruir abismos ou hierarquias entre professores acadêmicos, professores da educação básica, e profissionais das instituições de memória. Muitas vezes ainda percebemos o acadêmico como aquele que produz e detém conhecimento, os professores do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio como aqueles que vão “traduzir” para uma linguagem “simples” o conhecimento produzido pelos primeiros, e os historiadores, arquivistas de demais profissionais de arquivo como técnicos que devem simplesmente organizar e dar acesso às fontes para que outros “pensem-nas”. Nessa perspectiva, deixamos de lado a importante compreensão de que o processo de ensino-aprendizagem exige e envolve complexa produção de conhecimento, assim como ocorre nos processos de gestão documental, descrição, difusão e educação em arquivos.

Encerramos as postagens de 2015 sobre ação educativa em arquivos, felizes por difundir esse caminho de valorização, tanto da educação quanto dos arquivos, e de todos os profissionais que podem ser responsáveis pela construção de uma sociedade mais informada, preparada, ciente de seus direitos e de sua história, capaz de se apropriar do patrimônio cultural que a cerca, de questioná-lo e preservá-lo. Que em 2016, apesar das crises que vivenciamos e que lutaremos para superar, possamos seguir abrindo caminhos nessa perspectiva por aqui.

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