Neste mês abordaremos as possibilidades de pesquisa na área de História. Estudantes de graduação, mestrado e doutorado em História já são frequentadores habituais de Arquivos. Desta forma, o que procuraremos instigar não é o Arquivo Público como espaço de pesquisa, mas sim, difundir documentos de nosso Acervo e propor abordagens de pesquisa.

     No fim de outubro do ano passado (2015), a menina Valentina de 12 anos, participante do programa Master Chef Junior, da Rede Bandeirantes de Televisão, foi vítima de assédio nas redes sociais, com comentários que faziam apologia à pedofilia. O caso, que repercutiu enormemente, dando origem inclusive a hasthtag #PrimeiroAssédio no Twitter foi mais um, dentro de um universo e de uma cultura que erotiza o corpo feminino desde cedo, dando uma espécie de “carta branca” aos homens para que além de sentir o desejo por meninas, o expressem dentro de uma aparente normalidade.

     Este tipo de acontecimento, além da revolta e mal estar que nos causa, também instiga a pensar. Sabemos, de antemão, que vivemos uma sociedade que há pouco tempo começou a discutir o problema, em que a infância e adolescência das meninas não são tão protegidas quanto dos meninos. Olhar para o passado é uma maneira de tentar compreender de que forma esse tipo de cultura é criada e ressignificada com o passar do tempo.

     No ano de 1942, na cidade de Porto Alegre, o cidadão Eugênio foi acusado de atentado violento ao pudor após manter coito “inter-femora” com a menor Isaura, de 10 anos de idade, além de atrair outras amiguinhas da menina (todas com idades entre 9 e 11 anos) com doces, pequenas quantias em dinheiro e levá-las ao seu apartamento, onde exibia às mesmas seus órgãos genitais, além de fotos pornográficas.

     O crime só veio a público após a professora, de algumas das meninas, encontrar em sala de aula um bilhete. Preocupada com os dizeres do mesmo, ela entrou em contato com o pai de uma das meninas, que prestou queixa e a partir daí o processo contra Eugênio teve andamento.

     O documento chama a atenção, primeiramente, porque logo nas primeiras páginas estão anexadas diversas fotos de teor pornográfico, apreendidas no apartamento do réu, inclusive do próprio acusado; em seguida, na leitura do processo, temos acesso a depoimentos tanto de Eugênio quanto das meninas envolvidas na trama; o bilhete recolhido pela professora também faz parte dos anexos.

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     As possibilidades que surgem são diversas, pois um documento pode servir de fontes para diferentes temas, dependendo da pergunta que o historiador lhe faça. Neste caso em específico podemos, por exemplo, buscar compreender como a Porto Alegre dos anos 1940 tratava do tema da pedofilia. O material deste processo é riquíssimo. É claro que todo conhecimento histórico só se torna mais fidedigno no momento em que fazemos o cruzamento de fontes, e para isto, outros documentos do APERS, assim como de outras instituições de custódia de documentação, podem servir para este fim. O mais importante é perceber que temas até então pouco explorados, ou explorados sob outras óticas, abrem espaço para novas discussões e perguntas para o historiador.

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