O objetivo deste mês do Pesquisando no Arquivo é dar continuidade às sugestões de pesquisa em Ciências Sociais, através do acervo de prontuários médicos do Hospital Psiquiátrico São Pedro. Este acervo possui restrição de acesso, tema já abordado aqui na categoria em 2015 (clique para acessar a publicação). Agora vamos analisá-lo sob a perspectiva da Antropologia, a qual ampliou consideravelmente seu campo de estudo ao considerar objetos seus a “saúde” e a “doença”, os estudos multiplicaram-se a partir de 1980, mas ainda há muito que desvendar.

    A Antropologia Médica não desconsidera a perspectiva bio-neurológica, ao contrário, veio por ampliá-la ao considerar que saúde/doença são expressões da relação de uma multiplicidade de valores coexistentes tais como biológicos, sociais, políticos, culturais e ambientais. Investigar o contexto, as representações culturais dos atores envolvidos no processo de cura, o cenário médico, as formas de medicalização da sociedade, as relações entre as forças de poder, as formas de controle social e os modelos biomédicos numa perspectiva transdisciplinar são algumas possibilidades reais de pesquisa.

    Assim, nos próximos artigos, selecionaremos alguns prontuários, dentre as 4.036 caixas contendo 67.943 prontuários médicos de pacientes entre os anos de 1884 a 1973, com alguns recortes de tempo que foram marcos epistemológicos dos modelos biomédicos e verificaremos, en passant, algumas possibilidades de análise antropológica dos prontuários nesse, que foi o primeiro Hospital Psiquiátrico do Estado do Rio Grande do Sul, e um fiel depositário de esperança para a cura do sofrimento psíquico para a população gaúcha do interior e da capital.

    O convívio com a loucura nunca foi tarefa fácil, tanto para o doente, quanto para a equipe de saúde, para sociedade ou mesmo para a família que na maioria das vezes só percebe o sofrimento psíquico já num estágio muito avançado da doença. Quando enfim, a família, depara-se com a realidade através da obtenção de um diagnóstico, na maioria das vezes se sente sobrecarregada, pois não encontra suporte suficiente e eficaz nas políticas públicas.

    Nos séculos XIX ou XX a situação não era muito diferente. Todos demandavam uma solução para o doente mental: a família, a sociedade, a polícia. E a solução encontrada, na maioria das vezes era o isolamento social. Para dificultar, a própria ‘loucura’ foi e continua sendo um conceito disputado: exclusividade da Religião na Idade Média, aos poucos, foi passando pelo domínio da Medicina.

   No Brasil, atualmente, temos um modelo de revisão crítica das práticas de saúde mental. E as contribuições da Antropologia para as Ciências Médicas estão no sentido de contextualizar o doente no processo histórico-social em que está vivendo, bem como, possibilitar a leitura e análise subjetiva da construção da doença em seu universo simbólico, ou seja, em sua construção de ‘imaginários’ sobre a doença mental em diferentes culturas, ou dentro de uma mesma cultura mas entre profissionais com saberes epistemológicos distintos possibilitando uma aproximação entre os diversos olhares.

    Se você tiver interesse em pesquisar no APERS, envie um e-mail para a Sala de Pesquisa (saladepesquisa@smarh.rs.gov.br) e solicite seu atendimento!

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Pesquisando no Arquivo: Prontuários médicos