Na Idade Média, acreditava-se que os doentes mentais tinham uma pedra na cabeçai que precisava ser retirada conforme retratado na obra do pintor flamengo Hieronymus Bosch (sec. XV).

    A Extração da Pedra da Loucura, é impactante, pois “um olhar mais detalhado da imagem faz perceber que, na verdade, não está sendo extraído pedra alguma da ‘mente’ do ‘louco’, e sim uma planta (uma flor?). Enfim, algo vivo e símbolo da beleza e da ternura. Isto, todavia, parece não criar surpresa nas pessoas que acompanham o procedimento. Pelo contrário, estas parecem não se dar conta daquele elemento que de louco nada tem, ou tudo tem…” (VIANNA, [201-?]).

    Foi assim que os loucos medievais ficaram conhecidos como “cabeças de tulipa”.

   A relação entre loucura e genialidade há anos é objeto de estudo e pesquisa por parte dos especialistas.

   Polêmicas a parte, Virginia Woolf, Vincent Van Gogh, Robert Schumann, Friedrich Nietzsche e Francisco de Goya. E casos brasileiros, como Ernesto Nazareth, José Joaquim de Campos Leão, Lima Barreto, Arthur Bispo do Rosário e Rodrigo de Souza Leão, tinham problemas psiquiátricos e muita criatividade. O escritor Lima Barreto foi diagnosticado com neurastenia e sofria de depressão. Bispo do Rosário, artista plástico, tinha esquizofrenia-paranoide e foi internado em hospitais psiquiátricos.

    Nesse período de isolamento, começou a tecer, com fios de sua própria roupa, o Manto da Apresentação, que tinha a intenção de vestir no dia do Juízo Final. Fazia trabalhos com lixo e sucata, à moda do Pop Art de Andy Warhol, embora sem consciência disso.

   Dizia sobre a loucura: “Os doentes mentais são como beija-flores: nunca pousam, ficam a dois metros do chão”.

   Nos episódios de crise, Virginia dizia estar “mergulhada em águas profundas”. “Ela era bipolar e alternava períodos de melancolia a outros altamente criativos e saudáveis”, conta a psiquiatra Suzana Azabel. É considerada uma das principais escritoras da literatura inglesa.

    Na década de 60 do século XIX, Porto Alegre, Capital da Província de São Pedro teve o seu “louco de pedra”. Um louco genial, do cérebro do qual, tal como na obra de Hieronymus Bosch, nasciam tulipas transformadas em poesia e dramaturgia.

    “No ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e sessenta e quatro aos cinco dias do mês de outubro de dito anno, nesta Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre…” Assim inicia o processo de interdição sob o argumento de “alienação mental”, cuja autora é Inácia de Campos Leão, mulher de Joaquim de Campos Leão, autodenominado Qorpo Santo e que compõe o Acervo do Judiciário salvaguardado neste APERS.

    Qorpo Santo (1829-1883), professor público, dramaturgo, poeta, jornalista, tipógrafo e gramático foi avaliado pelos médicos Roberto Landell e Joaquim Pedro Soares que divergiram acerca do seu diagnóstico. Para um era louco. Para outro um gênio incompreendido. Prevaleceu o diagnóstico de loucura. Diagnosticado como monomático, sua necessidade de tudo escrever adequava-se bem a esta avaliação.

    Em recurso judicial, Qorpo Santo, solicitou ser examinado por especialistas no Rio de Janeiro, capital do Império. Foi internado no Hospício Dom Pedro II e retornou apto a gozar de seu livre arbítrio atestado pelo médico João Vicente Torres Homem, todavia já estava estigmatizado como o “louco da província”.

    As histórias sobre a vida de Qorpo-Santo, um misto de louco e gênio que sacudiu a Porto Alegre provinciana do século XIX, não poderiam ser mais apropriadas para virarem enredo de livro. Além de ter a certeza de que tinha longas conversas com o imperador Napoleão III, José Joaquim de Campos Leão também acreditava que era uma espécie de novo Jesus Cristo.

    Louco ou não, o fato é que Luiz Antonio de Assis Brasil, encontrou em Qorpo-Santo a figura ideal para protagonizar seu romance Cães da Província. Lançado no final da década de 1980, recebeu o Prêmio Literário Nacional 1988. Cães da Província não é uma biografia de Qorpo-Santo, até porque o material que se conhece sobre a vida do autor é escasso. Na verdade, Assis Brasil utiliza o mote de Qorpo-Santo para pintar a capital gaúcha de acordo com o seu próprio imaginário. Histórias fantásticas de crimes, adultérios, incestos e crueldades – bem ao gosto do personagem principal – convivem em perfeita harmonia com a romanceada vida de José Joaquim de Campos Leão.

    O tom da narrativa de Assis Brasil é de defesa contra a suposta loucura de Qorpo-Santo. Em vários momentos da trama os personagens questionam a interdição do autor teatral. A visão que Cães da Província oferece sobre Qorpo-Santo é a de um gênio incompreendido, um sonhador que se dá ao luxo de dar asas aos seus próprios devaneios. Até a personagem Inacia – esposa do protagonista – declara que o marido é muito inteligente. Tão inteligente que a única forma que ela encontrou para controlá-lo e tê-lo ao seu alcance é pedindo sua interdição. O que leva o leitor à dedução de que, realmente, Qorpo-Santo não é apresentado como um louco que precisa ser internado.

    Ao contrário, ele é o homem brilhante, que vê além do seu tempo e está acima das maledicências de uma cidade provinciana.

    Nos anos 50 do século passado, a obra de Qorpo Santo, organizada por Guilhermino Cesar se torna pública. Em 1966, 100 anos após terem sido escritas, o Clube de Cultura de Porto Alegre, apresentou pela primeira vez sob a Direção de Antônio Carlos Sena: As Relações Naturais; Mateus e Mateusa e Eu Sou Vida; Eu Não Sou Morte. Qorpo Santo se tornou célebre e é tido por alguns como tendo sido o precursor do teatro do absurdo.

    Como diz Assis Brasil, Qorpo Santo se manifesta mundo afora, de várias formas, jeitos e transfigurações “feito cometa”, que de quando em quando passa, entorno da órbita dos planetas, para chamar a atenção e suscitar em nós enormes lunetas para dar conta de tamanha e absurda genialidade.

    Para homenagear Qorpo Santo, o Teatro do Instituto de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS leva seu nome, imortalizando seu talento e reconhecendo sua lucidez.

    “Que então, assim seja. Que todas as vozes digam, em alto e bom tom, eis chegada a hora do “Tryumpho de Qorpo Santo!”” (DIAS, 2014).

    Se você tiver interesse em pesquisar no APERS, envie um e-mail para a Sala de Pesquisa (saladepesquisa@smarh.rs.gov.br) e solicite seu atendimento!

i É possível que a expressão “louco de pedra” remonte a crença medieval.

Fontes:
VIANNA, José Ricardo Alvarez. A Extração da Pedra da Loucura – Hieronymus Bosch, [201-?]. Disponível em: <http://www.jrav.com.br/a-extracao-da-pedra-da-loucura-hieronymus-bosch/&gt;. Acesso em: junho de 2017.
DIAS, Cida. QORPO-SANTO em Túnel do Tempo, 2014. Disponível em: <http://otriunfense.com.br/qorpo-santo-em-tunel-do-tempo/&gt;. Acesso em: junho de 2017.
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