Conhecendo Arquivos Públicos Estaduais pelo Brasil: abertura

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    Este é o blog de um arquivo público estadual. Escrevemos desde o lugar de uma instituição responsável pela gestão e preservação da documentação permanente produzida no âmbito do Poder Executivo de todo o Estado, ou seja, é a maior instituição arquivística do Rio Grande do Sul. Saber que somos o órgão gestor do Sistema de Arquivos do Estado (SIARQ-RS) e referência enquanto local de pesquisa nos traz uma grande responsabilidade, que muitas vezes se choca com os limites impostos pela realidade. Certamente a visibilidade social e política dos arquivos no Brasil ainda é pequena, e temos muito a conquistar. Entretanto, quando trazemos uma afirmação como essa – correta, porém genérica – de que realidade estamos falando? Quais são as reais condições de atuação dos arquivos públicos pelo país? Em que ano foram fundados, quais suas vinculações institucionais, como são compostas suas equipes?

    Hoje iniciamos uma série de postagens bimensais que tem por objetivo compartilhar informações e reflexões a respeito de como está o quadro atual das instituições arquivísticas estaduais brasileiras, lançando luz sobre essas e outras questões. A base para produção dos escritos é a pesquisa de mestrado da servidora Clarissa Sommer, que desenvolve dissertação junto ao PPG em História da UFRGS a ser defendida em maio desse ano. Além do texto de hoje, que funciona como abertura para a série, serão postados mais cinco, a cada dois meses, tendo como eixos as regiões do país: em abril, Centro-Oeste; em junho, Nordeste; em agosto, Norte; em outubro, Sudeste; e em dezembro, Sul, acompanhado de um balanço e da divulgação da dissertação completa. Exceto este texto de abertura, os demais estarão no blog sempre na segunda quarta-feira do mês.

    Para preparar o caminho e deixar todas e todos com vontade de saber mais, hoje compartilhamos dois gráficos oriundos dos levantamentos, que contribuem para a construção de um panorama sobre o tema:

     Pela imagem acima, que apresenta graficamente o ano de fundação dos arquivos estaduais, observa-se em um breve olhar que cinco estados ainda não possuem seus arquivos: Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins na região Norte, e Paraíba no Nordeste. A percepção em relação à situação dos documentos arquivísticos em cada um deles será melhor abordada nos textos correspondentes às regiões, mas salta aos olhos a dificuldade da região Norte se considerarmos que, embora possa haver debilidades em qualquer instituição, sua existência é uma primeira sinalização de que o estado reconhece a necessidade de gerir e preservar seus documentos. Observa-se também que boa parte deles foi criado ainda na 1ª República, respondendo a um amplo processo de reorganização administrativa e social vivido no país após o fim do Império. Note-se que tratamos de 28 arquivos considerando 26 estados e o Distrito Federal, cada um com uma instituição identificada (ou inexistente), e o Rio Grande do Sul como o único estado que possui dois arquivos públicos institucionalizados, o APERS e o Arquivo Histórico (AHRS).

     Para fins de visualização do gráfico acima, que demonstra a quais Secretarias de Estado os Arquivos estão vinculados em cada unidade federativa, as vinculações foram agrupadas em três blocos, por afinidade das funções desempenhadas pelas Secretarias, já que há grande diversidade de nomenclaturas entre elas. Os blocos são:

  • Administração/Gestão: e/ou Modernização, Planejamento, Previdência, Recursos Humanos (07 Arquivos);
  • Casa Civil: e/ou Secretaria de Governo, Gabinete Civil, Desenvolvimento Econômico (05 Arquivos);
  • Cultura: e/ou Educação, Esportes, Lazer, Turismo (11 Arquivos).

     Percebe-se rapidamente que, embora haja na área a defesa de que os arquivos – nacional, estaduais e municipais – sejam posicionados em nível estratégico da Administração Pública, inclusive conforme resolução da I Conferência Nacional de Arquivos realizada em 2011 (clique aqui para acessar), há diversidade de tratamentos ao tema, em um arranjo que parece representar a dicotomia muitas vezes enfrentada no mundo dos arquivos: eles são instituições culturais, voltadas à história e à pesquisa? Ou são instituições de apoio à administração e gestão do Estado? Essa aparente separação pode ser superada se pensarmos os arquivos enquanto instituições híbridas, que devem atentar para todo o fluxo percorrido ao longo do ciclo de vida dos documentos, assim como para seu acesso e difusão, garantindo direitos às cidadãs e cidadãos e contribuindo para a produção de conhecimento de maneira ampla em nossa sociedade. Havendo essa compreensão, da qual decorre o reconhecimento de que se deve dotar tais instituições de estrutura e recursos compatíveis com seu papel estratégico, talvez nem sempre o debate da vinculação formal seja o mais importante. Ao final de nossa série talvez seja possível aos leitores traçarem seu próprio entendimento a esse respeito a partir das experiências dos estados.

    Desejamos que as informações por ora trazidas sirvam com um convite para que você siga nos acompanhando!

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Divulga APERS – Novidades

APERS Entrevista: Gabriel Santos Berute – Parte II

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Na semana passada, publicamos a primeira parte da entrevista com o professor Gabriel Santos Berute, na qual ele falava de sua experiência de pesquisa com fontes históricas custodiadas no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Confira o restante da entrevista!

Uma coisa que chama atenção é que além de cruzar fontes diferentes, tu também cruzas metodologias diferentes dos teus trabalhos. Quer dizer, tu trabalhas com a metodologia qualitativa, com análise dos inventários, e ao mesmo tempo quantificou as escrituras, e tal. Então eu queria te pedir também pra falar sobre as diferentes possibilidades metodológicas do historiador e como é que isso se colocou pra ti.

No início, acabou sendo uma abordagem mais quantitativa mesmo. Eu percebo no meu trabalho de mestrado, por exemplo, o que eu consegui sobre o tráfico de escravos, que era algo que não tinha no Rio Grande do Sul, um ou outro trabalho de uma forma muito pontual utilizou parte da documentação que eu utilizei, então eu consegui fazer um trabalho que, digamos, apresentou a estrutura desse comércio. Mas de uma forma muito quantitativa. Talvez… Claro, eu só posso dizer isso com essa trajetória que descreveste, talvez eu fizesse de outra forma essa pesquisa se eu voltasse a 2004 para fazer. Mas enfim, eu fiz uma pesquisa bastante quantitativa, e aí com essas pequenas tentativas de uma abordagem mais qualitativa pra saber quem eram esses agentes envolvidos no tráfico de escravos, e é o que me dá o gancho pro doutorado, de ampliar a documentação. Que também seguiu uma abordagem bastante quantitativa, acho que ampliou um pouco a abordagem qualitativa. Como sempre, felizmente, acho que era estranho se não fosse, o projeto inicial era uma coisa e o que foi executado precisou ser adequado ao tempo, às circunstâncias. Eu pensava que inicialmente a abordagem qualitativa fosse bem mais ampla, já no doutorado. Que eu terminei não avançando, e isso se tornou possível com a extensão do trabalho pro pós-doc. Daí eu consegui realizar uma abordagem mais qualitativa, sem abandonar a quantitativa, mas é um exercício. Acho que tem muito a ver com a minha, essa formação tão marcada por abordagens quantitativas. Primeiro sinto uma necessidade de avançar uma pesquisa mais qualitativa, também pela confrontação com a bibliografia, com as metodologias que vem sendo utilizadas, e principalmente na área de, dos estudos sobre elites mercantis, sobre o comércio na América Portuguesa, em outras regiões: é uma necessidade que eu acabei percebendo, mas, eu também ao mesmo tempo, eu percebo quão difícil é isso. Como essa abordagem qualitativa exige outra… talvez dizer o mais difícil ou mais fácil não seja o correto. Talvez o sentido melhor seja…  exige outro tipo de abordagem, existe uma tensão maior, pra mim exige uma quantidade maior de documentação que permita uma reflexão mais aprofundada das relações qualitativas que dá pra estabelecer nessa documentação. Eu me lembro de um texto do João Fragoso, se não me engano um artigo “Pra que serve a História Econômica?”, em algum momento ele registra algo do tipo que “a gente não pode esquecer que atrás dos números existem pessoas”.[1] Então isso eu acho que é um guia importante pensar isso, mas ao mesmo tempo, é claro, pela minha trajetória de formação, eu ainda sinto que é necessário avançar mais nessa abordagem qualitativa. Mas, ao mesmo tempo, por perceber que ela permite perceber outras coisas, não só… Avançar no sentido de que aquela quantificação me dá uma informação importante, mas ela não diz tudo. A qualitativa também não, então elas precisam ser complementares. Ao mesmo tempo que eu sinto essa necessidade pro avanço da abordagem qualitativa, parece que muitas vezes eu sinto a necessidade também da segurança, de uma certa forma, que me traz uma abordagem quantitativa. Talvez por essa trajetória eu acabe conseguindo iniciar um processo de reflexão a partir de algo mais estrutural, que ela mesma pode ser abordada a partir de outras metodologias, e com a incorporação de outras fontes documentais também.

Gabriel, falando um pouquinho mais nessa questão das fontes pra pesquisa qualitativa, e o que dá pra fazer, mais recentemente eu me lembro de uma ocasião em que a gente tava conversando e tu me falaste de outras fontes judiciárias de interesse. Queria te perguntar então pra falar um pouco quais são e o que que essas fontes podem oferecer?

Aqui do Arquivo Público, durante o doutorado, principalmente, eu fiz várias tentativas de qualificar a análise desses comerciantes que eu via numa abordagem quantitativa. Então os diversos processos, eles aqui aparecem com algumas nomenclaturas diferentes, assignações de dez dias, processos de cobrança de dívidas, são documentações que me interessam pra justamente entender aquele dado quantitativo, por exemplo, o Gabriel deve pro Rodrigo, tá, mas deve por quê? Em que circunstâncias surgiu essa dívida? Deu problema por quê?  Tem outras documentações, processos de contestações de inventários, normalmente são bastante ricas, porque ajudam a entender as circunstâncias da morte, um grupo familiar, o que representa a morte da sua principal figura, as preocupações com a sucessão, cuidado da família, mas dos bens também, quais foram as estratégias acionadas, e a família do… Tem um dos trabalhos que eu fiz que eu andei pesquisando um grupo familiar que havia um grande comerciante na capitania, estabelecido em Porto Alegre, ele, o filho mais velho fez uma carreira jurídica bastante exitosa, chegou a Conselheiro do Império, Vice-Presidente da Província do Rio de Janeiro e as filhas fizeram, mantiveram conexão da família com o mundo mercantil. As filhas casaram com comerciantes também de destaque, e… mas é interessante que o inventário dessa família, ele se estende por muitos anos porque tem uma segunda esposa, tem outros filhos, são muitos herdeiros, filhos do primeiro e do segundo casamento, há diferenças grandes entre os filhos, então tem filho que administrou os bens do pai durante um tempo, e aí precisa prestar conta pro inventário da mãe, que se acumula com o inventário do pai, então mostra como as relações familiares acabavam por ser bastante complexas.[2] Que outras documentações eu me lembro daqui? Os processos-crime ficaram algo que sempre ficou assim “preciso olhar com maior atenção” e acabou ficando só na fase exploratória, assim. Não acabei avançando. Fui mais focado nesses processos que poderiam indicar mais claramente cobranças de dívidas, desses diversos formatos que aparecem aqui.

E o que tu tens pesquisado mais recentemente? Tens vindo pesquisar no Arquivo Público?

A última vez foi no meio do ano passado, porque eu tava buscando esse inventário que eu citei há pouco, foi uma das coisas que eu localizei no meio do ano, mas já é mais pra tentar trabalhar, cruzar com a documentação do Arquivo da Cúria, que é o registro de casamento, que tem sido desde 2012 a minha principal pesquisa. Contribuição no abastecimento do banco de dados supervisionado pela Ana Scott, da Unicamp, que é a construção do banco de dados com os três registros eclesiásticos, batismo, casamento e óbito, a princípio o objetivo é ter toda a Madre de Deus de Porto Alegre, desde a sua fundação até 1872, os três registros para a população livre e escrava. Uma documentação que o banco de dados tá sendo disponibilizado publicamente,[3] então tem todo um cuidado na hora do registro desses documentos, ser o mais fiel possível, evitar atribuições para que quem venha consultar possa ter segurança que aquele dado é fidedigno. E então sempre a volta, sempre muito prazerosa, ao Arquivo Público, é tentar ver meios de explorar mais essa documentação. E sigo tentando fazer o que eu não consegui fazer no doutorado, que foi abandonado no percurso do doutorado, que é avançar nessa análise mais qualitativa desses comerciantes. De entender suas relações familiares, claro, a partir de uma base que é quantificável, mas também prestando atenção que, tá, um comerciante que aparece com, num período em torno de vinte anos como padrinho de cinquenta crianças em Porto Alegre, isso significa o quê? Será que a relação que ele estabelecia com as famílias desses afilhados era igual entre os cinquenta? Que tipo de laços se estabelecia com essas pessoas? Se a criança foi batizada num ano, em dois ou três anos morreu, o laço com a família se rompe? Se constrói de outra forma? Eu percebi que em alguns casos os batismos se cruzam com os negócios vistos aqui nas escrituras. Parece que há um reforço permanente dos laços mercantis e familiares dentro desse grupo. Que parece bastante interessante, mas também sempre tentando buscar documentação diferente, nova, pra seguir com essa pesquisa.

Bom, então uma pergunta mais informal pra concluir a entrevista. O que que o Gabriel faz quando não tá nem lecionando nem pesquisando?

O Gabriel lê literatura, ouve música, vê TV, passeia com a companheira, fica de bobeira em casa também [risos]. É bom.

Então tá, Gabriel, muito obrigado!

[1]     O artigo de Fragoso pode ser acessado em: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/2157
[2]    O trabalho “O Comendador Travassos: família e negócios na comunidade mercantil de Porto Alegre, primeira metade do século XIX.” foi apresentado no II Encontro Internacional Fronteiras e Identidades, ocorrido em Pelotas em 2014.
[3]     Pelo site http://www.nacaob.com.br

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Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista.

Núcleo de Ação Educativa do APERS: balanço de 2018 e perspectivas para 2019

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    O Núcleo de Ação Educativa do Arquivo Público tem se organizado a partir da consolidação na instituição de ações no âmbito da difusão em arquivos e dos usos educativos de seu patrimônio documental e arquitetônico. Vinculado à Divisão de Preservação, Acesso e Difusão (DIPAD), no último período tem contato com uma servidora formada em História e três estagiários também da História.

     Em 2018 as principais atividades desenvolvidas pelo Núcleo organizaram-se em torno do Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS, que realiza oficinas para turmas escolares e formações para professores em parceria entre o Arquivo e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e da Jogoteca Educativa do APERS, projeto que visa a criação de jogos a partir do acervo e do patrimônio cultural em geral.

1. Construção da Jogoteca Educativa do APERS

Apostando no potencial dos jogos como ferramentas didáticas lúdicas, decidimos produzir jogos autorais que mobilizem documentos do APERS, o universo dos arquivos e do patrimônio cultural. O projeto envolve leituras, pesquisa, escrita, criatividade e produção “caseira” de tabuleiros, cartinhas e demais materiais de cada jogo.

As pesquisas para início da atividade iniciaram ainda em dezembro de 2017, envolvendo apropriação em relação ao uso de jogos em processos de ensino-aprendizagem, visita à Ludoteca da Faculdade de Educação da UFRGS, buscas pela internet a respeito de ações similares, etc. Em maio de 2018, o projeto foi lançado com o painel “Documentos e Jogos no Ensino de História”, realizado como parte da programação da 2ª Semana Nacional de Arquivos. A partir daí foram criados dois jogos: Caso X: investigando um crime da ditadura em Porto Alegre – inspirado no jogo “Detetive” da Estrela; ambienta-se no período da ditadura civil-militar e convida os jogadores a desvendar um crime ocorrido em um dos lugares de memória marcados pelo regime na cidade; trabalha a partir do acervo da Comissão Especial de Indenização, salvaguardado pelo Arquivo, e Enigmas do Patrimônio – mescla resolução de charadas com a dinâmica de jogo da memória; trabalha conceitos do campo do patrimônio cultural e das instituições de memória.

Ainda no âmbito desse novo projeto outras ações foram importantes: como pode ser acompanhado em notícias anteriores aqui no blog, nossa equipe participou de diferentes eventos divulgando a jogoteca e sua primeira criação. Também servimos como campo de estágio para dois estudantes da disciplina Estágio de Docência em História III – Educação Patrimonial, oferecida na Faculdade de Educação da UFRGS. Gustavo Ziehl e Carlos Casara, a quem agradecemos muito pela colaboração – estiveram 40 horas conosco participando de visita ao APERS e apresentação de suas atividades educativas, leitura e discussão de textos sobre educação patrimonial e jogos no ensino, realização de rodadas de teste do Caso X, contribuição na produção de seus materiais, contato com escolas para agendamento da atividades-piloto e, enfim, visita ao Instituto de Educação Flores da Cunha, à Escola Imperatriz Leopoldina e à Escola Oscar Pereira para aplicação do jogo, que teve excelente repercussão entre professores e estudantes.

A partir de maio de 2019 tanto o Caso X quanto o Enigmas do Patrimônio estarão disponíveis para locação por professores e professoras, que deverão cadastrar-se junto à Jogoteca, retirar e fazer a devolução dos materiais com a equipe de Ação Educativa. Informações pelo e-mail: acaoeducativa@planejamento.rs.gov.br.

2. Sequência às ações do Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS (PEP)

Nossa parceria com o Departamento de História da UFRGS, especialmente na pessoa da prof.ª Carla Simone Rodeghero, segue firme apesar de não termos tido acesso a editais externos para captação de recursos no último período – a exemplo do PROEXT, com o qual fomos contemplados em anos anteriores, mas que desde 2016 deixou de ser aberto. Contando com nossa equipe interna e com bolsistas contratados com recursos da Pró-Reitoria de Extensão da UFRGS, cuja atuação concentramos no segundo semestre para dar conta da realização das oficinas sem alterações que desqualificariam a proposta.

Na 2ª metade do ano que passou reabrimos a agenda de oficinas para as escolas, ofertarmos nova capacitação de oficineiros, voltada aos estudantes da já referida disciplina de Estágio em Educação Patrimonial, e realizamos um evento especial de encerramento das atividades do ano.

Quanto à capacitação, organizada em 40 horas, envolveu encontros para apresentação das oficinas “Tesouros da Família Arquivo” e “Resistência em Arquivo”, encontros preparatórios para leitura, estudo e debate de seus materiais, observações das duas oficinas sendo realizadas por nossa equipe, e seis práticas de oficinas para cada um dos estudantes mencionados, de acordo com o agendamento das escolas. Agradecemos a Guilherme Pires Nunes, Ignacio Angues, Julien Mello, Mariana Silva, Paula Ribeiro e Pedro Henrique Bastistella por terem se somado ao grupo do PEP, contribuindo com o oferecimento e qualificação de nossas oficinas.

Sobre as oficinas, em junho iniciamos o agendamento para as turmas escolares, processo que seguiu ao longo de quase todo segundo semestre, já que a agenda é bastante dinâmica. As visitas ocorreram entre 21 de agosto e 06 de dezembro, em um total de 39:

  • 01 oficina com aplicação dos jogos África No Arquivo e Caso X (para turma do curso de Museologia da UFRGS, disciplina Educação em Museus);
  • 10 Tesouros da Família Arquivo, para 6º e 7º anos do Ens. Fundamental;
  • 05 Desvendando o Arquivo: relações de gênero na história, para 8º e 9º anos do Ens. Fundamental;
  • 23 Resistência em Arquivo: patrimônio, ditadura e direitos humanos, para 9º anos e Ensino Médio.

Entre as oficinas “Resistência em Arquivo” realizadas vale destacar a oferecida no dia 17 de julho, dentro da programação do X Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História, a convite da organização do evento.

Já a respeito do evento de final de ano, foi uma alegria fechar as atividades de 2018 recebendo no Arquivo, no Dia Internacional dos Direitos Humanos, pessoas a quem respeitamos muito: Cláudio Weyne Gutierrez, Ignez Maria Serpa e Nilce Azevedo Cardoso compuseram a mesa “Vozes que não se calam! Direitos Humanos, Democracia, Liberdade”, realizada na tarde de 10 de dezembro, momento em que compartilharam suas histórias de luta contra a ditadura com servidores do APERS, equipe do PEP, professores e estudantes que lotavam nosso auditório. Seus processos de indenização fazem parte do acervo e são utilizados durante a oficina Resistência em Arquivo.

3. Perspectivas para 2019

Nossa atuação em 2019 terá uma organização similar à dos anos anteriores, mesclando ações vinculadas ao PEP (com a UFRGS) e iniciativas educativas do APERS.

Nessa primeira metade do ano já estamos envolvidos com atividades internas, como a retomada da divulgação e distribuição da caixa pedagógica AfricaNoArquivo, e a realização de pesquisas para atualização da oficina Resistência em Arquivo, que foi criada em 2013 e desde então, além da renovação física de seus materiais, não teve inserção de novos documentos ou conceitos. Ainda no 1º semestre, pretendemos criar mais um jogo educativo, dessa vez trabalhando conceitos arquivísticos; organizar nova edição do curso de formação para professores, que será realizado ainda esse ano; e produzir o 2º volume da publicação “PEP em Revista” (clique aqui para acessar o Vol. 1).

A partir de junho retomaremos o agendamento de oficinas, em julho voltamos a rearticular a equipe recebendo bolsistas da UFRGS, em agosto iniciamos o processo de capacitação de oficineiros, e no final de agosto abrimos as portas para as turmas!

Agradecemos a todas e todos que participaram das ações educativas do APERS em 2018! Cada momento partilhado com professores e estudantes dão sentido à nossa existência enquanto instituição pública. Também agradecemos a toda a equipe que se dedicou nesse último período para manter o PEP UFRGS/APERS em funcionamento:

  • Carla Simone Rodeghero (Professora Dep. e PPG em História, coordenadora do Programa de Extensão junto à UFRGS),
  • Clarissa Sommer Alves (Téc. Assuntos Culturais/Historiadora APERS),
  • Elincoln Lucas (Bolsista UFRGS),
  • Gustavo Ziel (Estagiário APERS),
  • Jéssica Gomes de Borba (Estagiária APERS),
  • Laryssa Fontoura (Estagiária APERS),
  • Marina Alburgeri (Bolsista UFRGS),
  • Paulo Fasolo Klein (Estagiário APERS),
  • Thiago Frazzon Arend (Bolsista UFRGS).

    Que 2019 seja um ano de muita produção criativa e realizações que contribuam para valorizar a área de arquivos e a educação em nosso país. Venham conosco!

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APERS Entrevista: Gabriel Santos Berute – Parte I

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Gabriel Santos Berute é professor de história no IFRS / Campus Viamão. É licenciado em história pela UFRGS (2003), mesma instituição onde concluiu seu mestrado (2006) e doutorado (2011). Entre 2012 e 2015 realizou estágio pós-doutoral na Unisinos. Em suas dissertação e tese (clique nos links para acessar) utilizou fontes do judiciário e do tabelionato custodiadas no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, onde concedeu sua entrevista.

Gabriel, eu quero te pedir para falar um pouco sobre a tua trajetória de pesquisa e o papel das fontes do Arquivo Público nela.

Meu primeiro contato com o Arquivo foi em 2001, como bolsista de Iniciação Científica da Professora Helen Osório, em um projeto sobre história da América, Prata, Rio Grande do Sul e a questão da mão-de-obra escrava africana e indígena. Aqui, a tarefa era principalmente com o fichamento de inventários post-mortem de Rio Pardo. Tinha toda metodologia definida pro projeto, era 0 e 5, se não me engano, que era, eu fichava todos inventários rurais com esse critério, com essa metodologia. Os inventários dos anos 0 e 5. Esse foi o primeiro contato com o Arquivo, isso deve ter durado um ano, mais ou menos, depois o segundo recorte foi uma documentação que a princípio nem era pra estar aqui… Livros de registro da Câmara. Tabelionato. Tava aqui mas também interessava pra pesquisa, então era uma transcrição. Tinha uma orientação dela de como fazer, o que que interessava, e eu fazia os fichamentos. Que que era mais?

Pois é, a questão seguinte é como chegou a um interesse mais específico pelos comerciantes a partir do estudo do tráfico negreiro?

Ah, durante o mestrado o grosso da pesquisa foi com documentação do Arquivo Histórico, mas aqui tinha uma complementação importante, que era conhecer os agentes que estavam envolvidos no tráfico. Então, identificar os inventários post-mortem e testamentos pra tentar entender as relações, pra tentar entender aqueles agentes que apareciam no tráfico. Numa característica geral do comércio colonial, uma multidão de gente participa do tráfico de escravos, ou qualquer outro ramo do comércio, mas só uma pequena parte deles faz isso de uma forma mais volumosa… por maior tempo… com rotas mais ampliadas… A tentativa era identificar esses comerciantes que mais se destacavam nesse outro conjunto documental. Era a partir do fichário, ainda na época não tinha o fichário digitalizado,[1] era direto no fichário das gavetas, e aí procurar nome por nome dos que interessavam. Como era uma pesquisa de mestrado, com pouco tempo, também tinha a ver com o tipo de experiência que eu tinha até então de pesquisa, foi uma pesquisa mais pontual desses comerciantes, eu não cheguei a fazer como poderia ter sido a metodologia de uma quantidade grande de inventários e testamentos. Era bem pontual a partir de uma lista formada por essa outra base. Com o tempo, a documentação do Arquivo Público se tornou cada vez mais importante pro meu estudo desses comerciantes. Do mestrado pro doutorado na hora de definir o que eu queria fazer, a princípio eu tinha pensado em seguir a pesquisa no tráfico específico. Como é que o africano escravizado chega? É desembarcado no Rio Grande, no porto do Rio Grande, ou chega em Porto Alegre, mas como é que ele para em Santa Maria, como é que ele para em outras regiões da capitania? Mas eu acabei me dando conta que seria um trabalho muito… como é que eu vou dizer… de formiguinha. Pulverizado. Que eu não ia mais encontrar, até por causa do período, como eu tinha antes uma guia de transportes de escravos. Eu teria que ver uma quantidade grande de inventários para de repente perceber uma regularidade de credores, ou ver na lista de créditos e débitos pessoas… indícios de comercialização de escravos, processos de… processos de cobranças de dívidas, que foi uma documentação que eu cheguei a pesquisar aqui, mas para um outro momento. Lendo trabalhos de colegas que fizeram para outras regiões, nessa transição de mestrado pra doutorado veio a ideia de trabalhar com os comerciantes de uma forma mais geral e tendo como base principal os livros de tabelionato. Livros de escritura de compra e venda e crédito, sociedade, e daí foi uma pesquisa mais volumosa, porque eu fichei inventários, as escrituras de Rio Grande, o único tabelionato que tinha pro período, que era 1808-1850. Para Porto Alegre a ideia inicial era também seguir o mesmo critério, todas as escrituras do período, mas também em função do tempo eu precisei fazer um novo recorte. Tinha o mesmo tratamento dessa documentação para fazer. E me parece uma fonte bastante rica… Eu fiz uma abordagem para saber os tipos de negócios que estavam sendo feitos… É interessante que as negociações de escravos não aparecem com grande frequência, elas aparecem no conjunto, sei lá, numa propriedade, numa estância, junta os escravos. Mas somente como comercialização de escravos aparece muito pouco ou quase nenhum. Tem algum momento que agora me foge a data, passou assim registros específicos de compra e venda de escravos. Essa é uma documentação que eu sigo utilizando de forma mais esporádica no meu banco de dados, mas aí a partir do cruzamento com outras documentações, agora principalmente os registros de habilitação matrimonial, de casamento e de batismo. A documentação aqui do Arquivo, as escrituras, elas dão uma informação bastante importante. Me permite saber como esses comerciantes que eu já tinha identificado, e aparecem nas transações de lojas, de bens urbanos e rurais, de animais, dívidas, como é que eles aparecem como credores, como devedores. Mas as relações entre eles é limitada, pelo que eu consigo perceber. Eventualmente, dois comerciantes que eu conheço do tráfico aparecem comprando coisas juntos ou aparecem vendendo um para o outro, uma coisa nesse sentido. Mas uma informação mais detalhada falta. Falta, por exemplo, nas escrituras de procuração, que é uma documentação que vem sendo utilizada pra pesquisa de grupos mercantis, que é bem interessante, que alguns pesquisadores… O Jucá de Sampaio, da Federal do Rio de Janeiro, percebe que as escrituras de procuração eram uma espécie de contratos de curta duração para negócios específicos, por um tempo mais limitado, diferente de uma sociedade que pressupunha uma associação mais ampla, de maior prazo. Mas então, por exemplo, eu via alguém de Porto Alegre nomeando uma série de comerciantes, mas a dúvida de exatamente qual era a relação entre essas pessoas, o cruzamento dessa documentação do Arquivo Público com os casamentos, com os batismos, me dá, me amplia essa informação. Conseguir perceber que eu nomeio alguém não só por uma questão comercial, mas eu também tô reforçando laços familiares, laços de afetividade com essas pessoas.

Os casamentos e batismos tu encontraste na Cúria?

Na Cúria, mas como foi parte do que eu tinha contato no pós-doc na Unisinos, era uma documentação que os bolsistas de Iniciação Científica participaram do projeto, e a supervisora do projeto, Ana Scott, anteriormente ou já tinham digitalizado, ou tiveram acesso via Family Search.[2]

Na próxima semana, conheceremos o restante da entrevista com o historiador Gabriel Santos Berute! Acompanhe!

[1]     O entrevistado refere-se à catalogação dos processos no sistema AAP, que permite a realização de buscas nominais.
[2]     Family Search é uma organização de pesquisa em história da família empreendida pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e mantém registros de natureza genealógica do mundo inteiro por acesso gratuito por meio do site https://www.familysearch.org/pt/

“História, Arquitetura & Arquivo”: comemoração dos 113 anos do APERS

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     Sob a temática do conjunto arquitetônico, construído no início do século passado para ser um arquivo, a tarde do último dia 12 de março foi de comemoração no Arquivo Público do Estado. Os 113 anos da Instituição foram comemorados em evento, no qual a Diretora Aerta Grazzioli fez a abertura e o lançamento do segundo módulo da Galeria de Diretores do APERS, que contempla os gestores dos anos de 1959 até 1987 (clique no link para acessar).

    Na sequência teve a Mesa Redonda “APERS: Conjunto Arquitetônico no tempo e a Utilização de seus Espaços”, onde a arquivista Carmen M. Merlo e a arquiteta Samantha Sonza Diefenbach palestraram sobre suas dissertações “O Palácio de Papel: cem anos do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (1906-2006)” e “Affonso Hebert: ecletismo republicano no Rio Grande do Sul”, respectivamente; e o professor Günter Weimer proferiu sobre “A Arquitetura do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul”, para uma plateia que praticamente lotou o auditório.

    Logo após, houve a apresentação do “Coro Jovem da OSPA”, que interpretou clássicos e finalizou sua apresentação com o “Parabéns a você”, seguida de confraternização, com direito a bolo e espumante.

    Por fim, foi lançada a exposição “APERS: Conjunto Arquitetônico no tempo e a Utilização de seus Espaços” que reúne fotos e documentos que ilustram nossa história. Lembrando que a exposição pode ser conferida até o dia 29 de março aqui no APERS (Rua Riachuelo, 1031, Centro Histórico de Porto Alegre), no espaço Joél Abilio Pinto dos Santos, de segunda a sexta, das 8:30 às 17 horas.

    Estiveram presentes no evento: servidores e ex-servidores do APERS, os subsecretários Marcelo Alves (Gestão) e Barão Mello da Silva (Planejamento e Orçamento), e diretores de departamentos da Secretaria do Planejamento, Orçamento e Gestão (SEPLAG); o presidente da Associação dos Amigos do Arquivo Público (AAAP), Anderson Portella, e integrantes da diretoria, e o público geral que justifica a perpetuidade de nossa instituição.

Confira fotos do evento neste álbum em nossa página do Facebook (clique para acessar)!

Mesa-redonda “Apers 113 anos: Arquitetura e Patrimônio”

Posted by Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul on Wednesday, March 20, 2019

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