Comunicado: feriado do Carnaval 2020

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comunicado carnaval 2020

Prezados, informamos que o APERS estará com as portas fechadas na segunda e terça de Carnaval, retornando com suas atividades normais no dia 26/03 a partir das 13 h.

Agradecemos a atenção de todos e desejamos um ótimo Carnaval com responsabilidade e moderação. Veja alguns cuidados que podem ser tomados:

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Novidades para a edição de 2020 da Mostra de Pesquisa

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XV Mostra

Em edição comemorativa, a Mostra de pesquisa do APERS chega ao seu 15º ano de evento em 2020. E para comemorar, novidades estão a caminho. A equipe do Arquivo Público e a Comissão de Seleção e Organização estão elaborando um novo regulamento para os interessados em apresentar trabalhos no evento mais tradicional do Arquivo.

Por enquanto podemos adiantar que o evento acontecerá no mês de setembro e que o regulamento, com as datas e todas as normas para apresentação de trabalhos, será publicado no dia 04 de março.

Cole um adesivo no computador, anote na agenda, insira um lembrete no celular, tudo está valendo para não perder a divulgação do regulamento e os prazos.

AAAP convida: Festa das Etnias no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul

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A Associação dos Amigos do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – AAAP, dentro do seu planejamento de atividades culturais, realizará, neste e nos próximos anos, ao longo do mês de março, a FESTA DAS ETNIAS em comemoração aos aniversários do Arquivo Público e de Porto Alegre.

Além de comemorar as duas datas, a Festa tem como objetivos ampliar o quadro de Amigos do Arquivo, obter doações de recursos para serviços de manutenção e recuperação de partes do patrimônio predial do Arquivo, e construir parcerias diversas.

Os eventos, que acontecerão nos espaços culturais do Arquivo, foram planejados e realizados em conjunto com entidades de cada etnia, como associações e clubes, para que possamos apreciar elementos culturais como música, dança, gastronomia, exposições e palestras.

As etnias convidadas para participar em 2020, observando a formação da cidade de Porto Alegre e a cronologia de imigração, foram: a portuguesa, as africanas, a alemã e a italiana. Nos anos seguintes, será mantida a ordem cronológica de chegada das diversas etnias ao Rio Grande do Sul.

Convidamos todos a participarem!

Festas das Etinas - Redes Sociais

Confira a programação detalhada no blog da AAAP: https://amigosdoapers.wordpress.com/2020/02/04/festa-etnias/

TransENEM realiza formação de professores no APERS

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No sábado, dia 15 de fevereiro, o TransENEM, Coletivo pela Educação Popular, reuniu-se nas dependências do Arquivo Público. Sua atuação tem como objetivo oportunizar o acesso de pessoas trans ao ensino superior, tendo, a partir de 2017, acolhido também pessoas LGBTQI+ cisgêneras.

bandeira_trans

Para quem não sabe, pessoa transgênera é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer, ao passo que pessoa cisgênera é aquela que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer.

No Auditório Marcos Justo Tramontini ocorreram atividades de formação de professores, discussões pedagógicas por área de conhecimento e encaminhamentos organizativos. Destaque para a fala do professor Blue Mariro, que tratou do tema “Ensino e acessibilidade: para além da teoria”.

O blog do APERS conversou com Alef de Oliveira Lima, Professor de Sociologia do Coletivo pela Educação Popular TransENEM POA, com Caio de Souza Tedesco, Professor de História e organizador do Coletivo pela Educação Popular TransENEM POA, e com Claudia Penalvo, pedagoga e fundadora do Coletivo pela Educação Popular TransENEM POA .

1) Vocês podem explicar os aspectos pelos quais a transfobia dificulta enormemente o acesso de pessoas trans ao ensino superior?

Alef – A transfobia é um tipo de violência estrutural, portanto, ela tem uma dimensão difusa. Quem não é uma Pessoa Trans vai ter dificuldades de entender um conjunto de micro-agressões cotidianas, frequentes e naturalizadas. Quando pensamos um ciclo de vulnerabilização das Pessoas Trans, estamos apontando que, por exemplo, a escola enquanto instituição social apresenta uma série de resistências para compreender as singularidades desse recorte populacional: a não garantia do nome social, a defesa de ideias cisheteronormativas (implicitamente), a naturalização das relações heterossexuais e a invisibilização do debate das identidades de gênero. Essa resistência é o principal aspecto de uma espécie de transfobia escolar. Se você frequenta um espaço que despreza ou apaga a sua identidade é comum que se opte pelo abandono desse lugar. A evasão de Pessoas Trans e sua intermitência na vida estudantil encampa justamente a dificuldade de acessar o ensino superior, porque esses sujeitos e sujeitas não alçam em completude todas as etapas da educação básica no Brasil. Em resumo: Pessoas Trans não ocupam, não ingressam nas universidades porque são evadidas da escola; depois, se começa a tentativa de conseguir um emprego formal que também é dificultado pela ausência de qualificação. Dessa forma, você verifica um ciclo vicioso que precariza a vida dessas Pessoas.

2) O que é o TransENEM e quais suas propostas e práticas para modificar essa situação?

Caio – O TransENEM é um coletivo de Educação Popular, que atualmente oferece um curso pré-ENCCEJA (para a conclusão do Ensino Médio), pré-ENEM e pré-vestibulares. Fundado em 2015, a partir de reuniões de elaboração do coletivo, iniciou as aulas em abril de 2016. Na época, funcionava como um curso pré-ENEM exclusivo para pessoas Trans – mulheres e homens transexuais, pessoas transgêneras não-binárias, mulheres travestis e transgêneres num geral. Todavia, a partir de outubro 2017 passou a acolher pessoas LGBTQI+ cisgêneras.

A própria criação do TransENEM é uma proposta para modificar essa situação, pois funciona como um espaço de Educação não-formal alternativo, buscando proporcionar um espaço de ensino-aprendizagem acolhedor e seguro para a população LGBTQI+, tendo em vista as questões mencionadas acima, das inúmeras violências físicas, psicológicas, simbólicas que pessoas LGBTQI+, sobretudo Trans, costumam sofrer nas escolas.

Tem duas frases que ex-alunes falaram no ano passado, que acredito possam elucidar isto. Primeiro, uma ex-aluna, ao ser questionada do que era o TransENEM para ela, respondeu “é um espaço”, e explicou a resposta curta, por ser um espaço no qual ela podia existir. No país que mais assassina pessoas transgêneras no mundo, isso é extremamente significativo. Ainda, outro aluno comentou, no decorrer de uma atividade, que não apenas se formou no Ensino Médio, mas “agora eu tenho um futuro e sonhos”.

3) A presença de professoras e professores trans gera uma identificação com alunas e alunos? Até que ponto isso facilita o aprendizado?

Alef e Claudia – Sim, a presença de professores Trans favorece a construção de regimes de identificação e representatividade. Trata-se, de compreender uma espécie de pedagogia do exemplo. Muitas vezes os/as alunes trazem história de desprezo e apagamento, e o próprio TransENEM se torna um vetor de desconstrução e acolhimento e favorece a produção de identidades positivadas.  Na medida em que se constrói um ambiente que favorece o bem-estar social e o respeito às Pessoas Trans, se inicia também formas de enfrentamento contra estigmas de aprendizagem. Isto é, existindo a respeito podemos aprofundar e desenvolver habilidades e competências dos/as/es nossos/as/es alunes de modo a contemplar um conhecimento socialmente situado que tenha sentido para todos. Não é apenas dizer que existe o ADC 26 (Ação de Inconstitucionalidade Direta para casos de homofobia e transfobia) é compreender como o documento nasce de uma luta social e por quais modos pode ser acionado, por exemplo, quando se faz um Boletim de Ocorrência em qualquer delegacia do país. Assim, se entende a aprendizagem enquanto um campo de prática. Dessa forma, entende-se que a prática educativa é uma prática política, antes de qualquer questão.

Caio – Enquanto professor trans, acredito que sim. É uma identificação que eu não tive durante a escola ou na graduação. O mais próximo que cheguei foi a professoras ou professores homossexuais, e já foi significativo.

Penso que a docência enquanto transgênero traz consigo alguns desafios que um(a) docente cis não passa, devido ao marcador de diferença, da transfobia e da ininteligibilidade/abjeção do corpo trans, que é um corpo que fala por si para além da cisnormatividade, da pretensa “normalidade”. Em outros contextos que não o TransENEM, isso traz consigo uma espécie de quebra e desestabilização das relações de poder, pois a pessoa trans, que supostamente estaria marginalizada, ocupa a posição de poder na relação professorie-alune.

Contudo, no contexto do TransENEM, há identificação, visibilidade, reconhecimento e empoderamento. E alune trans pode se enxergar numa posição de poder, pode se vislumbrar para além das margens. Além de ter como e professorie trans ume aliade, alguém com quem compartilhar situações e realizar trocas que com pessoas cisgêneras não seria possível pela falta de vivência em comum. Nesse sentido, ser docente trans para alunes trans é uma grande responsabilidade, também, pois não há muites professories transgêneres no coletivo. Atualmente somos quatro, ano passado fomos dois.

Também acho interessante mencionar que pessoas trans entram no coletivo, enquanto organizadories e professories a fim de participar de um espaço trans que proporcione uma possibilidade de produção de si enquanto trans – para além do ativismo/militância. Eu mesmo tive no TransENEM abrigo antes de ter nome e, em 2017, enquanto atuava enquanto “professora de História”, convivi com alunes trans que me auxiliaram a me assumir e viver enquanto o homem que sou.

4) Existem discussões sobre políticas para projetos de manutenção das pessoas trans na universidade, evitando a evasão?

Alef e Claudia – A pergunta é complexa demais. O TransENEM não é uma política pública educacional, trabalhamos na ausência dela e por causa dessa ausência: que fique evidente. Esse ponto deve ser debatido por toda a sociedade, pelas escolas, pelo MEC, não apenas o TransENEM que faz parte da iniciativa civil. Mas, nesse ponto devemos admitir que o próprio Coletivo é um bom exemplo de uma política afirmativa para pessoas trans nos espaços educacionais. Nossa pauta serve, justamente, para demonstrar formas possíveis de acolhimento e respeito – estamos dispostes a conversar com escolas e outras organizações para pensar estratégias de acolhimento e de permanência escolar e universitária para pessoas transgêneras.

Capturar

Para conhecer melhor o TransENEM:

Instagram: @transenempoa

Facebook: https://www.facebook.com/transenempoa/

e-mail: transenempoa@gmail.com

Vakinha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/transenem-porto-alegre-2018

Entrevista com Maíra Inês Vendrame – parte 2

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Na parte anterior da entrevista, Maíra Vendrame nos contou sobre sua trajetória de pesquisa. Confira continuação!

Maíra, a gente percebe no seu trabalho uma influência bastante significativa da micro-história. Queria lhe pedir para falar um pouco sobre isso.

Bom, como entra a micro-história na minha pesquisa? Eu acho que a fonte judicial ajudou nesse sentido… Quando eu comecei a olhar para a fonte judicial, me interessava muito mais por aquilo que passava despercebido nas falas das testemunhas. Eu me interessava muito pelos relatos dos réus, vítimas e depoentes, por aquilo que eles diziam sem perceber. Era um caminho para buscar entender o modo como eles entendiam o seu mundo, o que pensavam em relação à justiça. Aí a micro-história entra também nesse sentido, porque é olhar para esses depoentes e tentar buscar uma racionalidade, tentar buscar uma lógica, buscar entender quais eram as concepções de justiça. Também têm outros elementos da micro-história, se nós pensarmos na questão de redes, de tentar construir  as conexões entre esses indivíduos que vão aparecendo em vários processos e que vão se protegendo. Outra influência da micro-história é o cruzamento de fontes de  origens diversas para procurar complexificar mais essa realidade estudada, tentar entender outras motivações que levavam as pessoas a tal comportamento, a cometer um crime, a reagir de uma determinada forma. Quando eu li A Herança Imaterial,[1] não lembro exatamente qual o capítulo, do Giovanni Levi, teve um momento que me chamou muita a atenção, pois ele usa a expressão “tribunal de grupo”, quando apresenta uma história de uma camponesa do Piemonte, onde uma série de articulações privadas é realizada no momento em que está ocorrendo um embate judicial entre duas famílias. Bom, aí eu comecei a pensar no Sório e na formação de um tribunal de grupo quando da sua morte. Mas, também, eu fui ler outros trabalhos, que não foram traduzidos para o Brasil, mas que são trabalhos de historiadores contemporâneos a Giovanni Levi: Carlo Ginzburg e Edoardo Grendi, que estão discutindo a micro-história e uma história local na Itália. Eles vão pensar muito essa questão dos usos da justiça, dos usos que os camponeses vão fazer das esferas da instância judicial, os usos que eles vão fazer do recurso da justiça. Pensar a partir da lógica dessas pessoas. Junto com esses usos da justiça, eles estão discutindo também esses grupos em uma esfera comunitária, grupos de oposição que são formados a partir de laços parentais ou outros vínculos, e que vão entrar em disputa por poder. Eles vão não só pensar a questão judicial, mas eles estão pensando disputas por poder local, as parentelas, os vínculos que agregam essas pessoas, aquilo que também as afasta e o momento em que os vínculos vão ser acionados. Então, os trabalhos de micro-história irão auxiliar a pensar muitas dessas questões na minha pesquisa, a comunidade, o espaço local, essa configuração e cartografia social de uma determinada comunidade.

2020.02.12 Maíra

Eu queria lhe perguntar se você vê como uma coincidência ou uma coisa que tem relação com a outra, porque tenho a impressão de que à medida que você se aproxima da micro-história, você se aproxima das fontes do Arquivo Público. Você acha que há uma relação entre uma coisa e outra ou não?

Eu acho que sim. Eu acho que foi exatamente quando passei a me dedicar aos processos-crime de forma mais intensa, e isso ocorreu no doutorado, que eu me aproximo da micro-história. Porque esse pessoal que está discutindo micro-história lá na década de 1970 na Itália, eles estão dialogando também com as fontes judiciais. Eles estão pensando na comunidade, estão pensando em determinado território, eles estão discutindo, principalmente, com as fontes judiciais. Aí entra as cartoriais e entra também as paroquiais, mas muito as judiciais. Edoardo Grendi, por exemplo, toda sua obra a gente não tem traduzida para o Brasil, a gente conhece mais o Giovanni Levi e o Carlo Ginzburg, que vai trabalhar com processos inquisitoriais. Esse povo que está dialogando na década de 1970, vão trabalhar com as fontes judiciais. Eu acho que essa aproximação, agora, continua. A micro-história e os processos-crime continuam muito presentes na minha pesquisa, porque eu acho, não só os processos-crime, mas esses como fonte principal, pois a partir deles eu vou puxando outros fios que me levam para  novos documentos e  problemas de pesquisa. Essa história do Padre Sório e outros crimes que eu encontro na documentação, nos processos-crime, muito mais do que os delitos em si, a violência, e o quanto ele foi impactante para a época, o que interessa e o que procuro ver são os questionamentos que consigo tirar desses episódios. Por exemplo, no caso dos crimes que analisei, o importante é perceber essa justiça privada e os usos da justiça oficial que imigrantes e descendentes faziam, satisfazendo uma lógica de justiça própria. Então isso ultrapassa o mundo da região colonial, o mundo dos imigrantes, e aí a minha aproximação com a micro-história também me permite fazer isso. Enquanto método, ajuda a estabelecer relações e pensar para além do grupo dos imigrantes. Os questionamentos feitos através dos casos específicos envolvendo os imigrantes podem ser aplicados para entender os comportamentos em outras comunidades camponesas, em uma outra época, outro território. Então, o que eu consigo levar para além disso, além dessa comunidade, além desse crime, além desse conflito? Aí entra muito a discussão de escala. Uma pergunta para o geral, um problema para o geral, para uma história mais geral, que parte do micro, que parte de uma experiência sempre micro, que parte sempre de uma análise minuciosa de um caso e das relações entre aqueles indivíduos.

 

[1] LEVI, Giovanni. A Herança Imaterial. Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

Estágio Curricular em História APERS – Edição 2020

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O Estágio Curricular em História é um dos serviços educativos oferecidos pelo Arquivo Público do Rio Grande do Sul. Caracteriza-se por uma série de atividades destinadas ao cumprimento de estágio curricular obrigatório ou para horas complementares exigidas para integralização dos Cursos de Bacharelado e de Licenciatura em História. Tem como objetivo oportunizar, aos graduandos, vivências relacionadas aos fazeres dos historiadores em instituições arquivísticas.

cartaz

Para esta edição, serão oferecidas quatro vagas, destinadas aos alunos do Curso de Bacharelado em História, preferencialmente. Para saber mais detalhes, acesse aqui o Regulamento do Estágio Curricular em História APERS.

As inscrições serão realizadas pelo e-mail projetos-apers@seplag.rs.gov.br, de partir de 09 de março até 19 de março. Os interessados devem encaminhar nome completo, telefone para contato e anexar à mensagem o comprovante de matrícula no qual conste a disciplina de estágio ou carta de apresentação da instituição, para os alunos de licenciatura, conforme instruções contidas no regulamento.

Outras informações podem ser solicitadas pelo e-mail indicado ou pelo telefone 51 3288 9126.

*Atualizado em: 11/02/2020

Entrevista com Maíra Inês Vendrame – parte 1

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Maíra Ines Vendrame é professora de História na Universidade do Vale do Rio dos Sinos desde 2015. É licenciada em História pelo Centro Universitário Franciscano (2004), mestre (2007) e doutora (2013) em história pela PUC-RS, com estágio na Università degli Studi di Genova. Realizou estágio pós-doutoral no programa de pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria (2013-2015). Autora de “O poder na Aldeia: redes sociais, honra familiar e práticas de justiça entre camponeses italianos (Brasil-Itália)” (Editora Óikos, 2016) e de “Lá éramos servos, aqui somos senhores: a organização dos imigrantes italianos na ex-colônia Silveira Martins (1878-1914)” (Editora UFSM, 2007). Recebeu prêmios no Brasil e no exterior, dentre os quais o prêmio ANPUH-RS de teses.

Maíra, eu queria começar lhe pedindo para falar um pouco sobre sua trajetória como pesquisadora.
Ok. Eu comecei a pesquisar já na graduação, tive um contato intenso com a documentação primária. Na graduação eu também tive contato com processos-crime, e depois vou utilizar essa fonte no mestrado e no doutorado. É uma fonte que eu vou me aproximando lentamente, muito por conta da minha orientadora, que era a Nikelen Witter, que trabalhou no seu mestrado com fonte criminal, com um processo-crime em especial. Iniciei a pesquisa pensando as crenças agrárias e pagãs entre os descendentes de imigrantes da Quarta Colônia. Aí, fui para as fontes criminais, mas eu não encontrava processos que me indicassem para essas questões, para essas crenças, para esses cultos agrários. Eu conseguia informações sobre eles a partir de outras fontes. Por isso, não me dediquei tanto às fontes criminais nesse primeiro período da graduação. Mas no mestrado, fui me aprofundando dentro da temática da imigração, que sempre foi meu interesse, trabalhar com o mundo dos imigrantes e descendentes italianos no Rio Grande do Sul. Algo que me incomodava na leitura dos livros era a maneira como a historiografia clássica tratava as regiões de colonização italiana. Sempre de uma forma muito apologética, laudatória, de uma maneira em que esse grupo imigrante era visto como um grupo muito ordeiro, religioso, trabalhador, católico e excessivamente católico. Nessa historiografia não havia conflitos. Eu não encontrava nessa historiografia as crenças pagãs também. É importante também dizer que a minha trajetória acadêmica está muito ligada ao mundo de onde eu venho. Cresci em uma comunidade de descendentes de imigrantes italianos, uma comunidade rural, então, eu trazia muitas perguntas que questionavam essa historiografia clássica. As experiências que tive na minha infância, na minha comunidade, que aparentemente é um mundo muito pacato, tranquilo, mas se você vive lá, se você passar lá uma semana, você começa a ver o quanto é um mundo permeado por tensões, conflitos, lógicas diferentes e dramas entre famílias e entre vizinhos que não são diferentes de uma outra realidade. No mestrado ainda, eu comecei a olhar a documentação do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria, que me mostrava os imigrantes da colônia Silveira Martins. Essa colônia pertencia a Santa Maria. Essa documentação me mostrava que esses imigrantes davam muitos problemas para a municipalidade, principalmente nas questões de impostos, porque eles não queriam pagar impostos. Também se negavam a prestar serviço militar.

2020.02.05 - MaíraNão colaboravam com a conservação das estradas… Essas fontes da municipalidade, requerimentos, cartas, pedidos, me indicavam um mundo conflituoso. A partir daí, eu comecei a olhar para alguns processos-crime. No mestrado eu trabalhei com dois processos, um envolvendo alistamento militar. Esses imigrantes se negaram a se alistar e então se abriu um processo. O outro processo era em relação aos impostos. Então eu analisei esses dois processos, mas foram só esses. Toda essa documentação me indicava para esse mundo permeado por conflitos internos, tensões internas e também com o mundo externo, com a municipalidade de Santa Maria. Tudo isso questionava aquele ideal do imigrante ordeiro, pacífico e desejado. As autoridades não estavam tão felizes com os imigrantes da colônia Silveira Martins no seu início, eles estavam dando problemas, eles eram um problema, porque além de se revoltarem e não quererem pagar os impostos, eles viviam lá na Câmara Municipal fazendo solicitações. Isso, eu acho que eles trouxeram do seu país de origem, essa relação com as instâncias administrativas, essa demanda constante. Então, no mestrado, consegui questionar a historiografia clássica sobre a imigração italiana, que tratava as regiões de colonização italiana de forma harmônica e ordeira; e também perceber que existia um projeto de comunidade. Quando esses imigrantes vêm, eles trazem um projeto de criar comunidades autônomas. É por conta desse projeto autônomo de comunidade que vão ocorrer constantes conflitos internos entre as comunidades, de grupos de imigrantes com padres e entre grupos de comunidades diferentes, muitas vezes, tendo como liderança alguns sacerdotes. Mas o que significa um projeto autônomo de comunidade? É ter uma igreja. Ás vezes a gente vê 4 km de distância uma comunidade com uma igreja, uma capela, um padre residente; ter uma independência, ter seus comerciantes, seu centro, então era um pouco nesse sentido. É no doutorado que vou trabalhar de forma bastante intensa as fontes criminais. Também vou trabalhar com inventários e registros cartoriais, são todas fontes do Arquivo Público. Durante o doutorado, boa parte fiquei pesquisando no Arquivo Público, pois queria ver o imigrante no banco dos réus. Uma pergunta que eu me lembro lá da graduação: “Eu quero encontrar o imigrante no banco dos réus”, que pergunta boba. Só que, tinha um caso que ainda é muito conhecido na região da Quarta Colônia, que era história de um padre que havia sido morto numa das estradas da região colonial. “Eu tenho que encontrar esse processo, eu tenho que encontrar essa investigação!”, porque essa história ainda é contada. Esse padre foi encontrado ferido numa das estradas da região colonial, da colônia Silveira Martins, muito ferido, em dezembro de 1899. Ele é levado para casa paroquial e depois de três dias ele falece. A história desse padre já havia sido pesquisada pelo Luiz Eugênio Véscio, no livro O crime do padre Sorio. Nesse livro, Véscio procura analisar o conflito entre Igreja Católica e Maçonaria, tendo por base essa história do crime. Véscio levanta três versões sobre a morte do padre: uma é a versão da comunidade, que o padre teria sido atacado por um grupo de indivíduos e batido no baixo-ventre. Essa é uma versão muito forte ainda na região colonial. Outra, que o padre teria caído do cavalo. Essa é a versão oficial, o padre cai do cavalo e morre em consequência dos ferimentos. A outra versão é que o padre teria sido atacado pela Maçonaria, pelo grupo de Maçons da localidade. Véscio vai analisar essa última versão, busca entender como essa versão é construída na década de 1940, quando há um grande conflito entre Igreja Católica e Maçonaria. Essa história envolvendo a morte do padre Sório me instigava muito e eu queria entender o porquê dessa versão do crime no baixo-ventre. Em que contexto social e cultural surgiu essa explicação de que o padre teria sido alvo de uma emboscada e um crime onde a violência é no baixo-ventre? Porque na versão acreditada pela comunidade o padre teria abusado sexualmente de uma moça e por conta disso ele teria sido batido nas partes genitais. Sório vem a falecer, mas antes ele dita o seu testamento. No inventário é possível verificar que ele deixa muitos bens, que havia acumulado um patrimônio material e que era uma liderança local muito forte. Apesar disso, não localizei o processo-crime. Não tem processo-crime. O que eu faço? Como vou entender esse contexto social e cultural? Conhecei então a analisar outros crimes que ocorreram na região colonial, na colônia Silveira Martins; homicídios, agressões, defloramentos. Queria tentar entender um pouco esse contexto das punições, das vinganças, dos crimes de honra, honra familiar que é um dos temas que vou tratar na minha tese. Começo então a perceber que as emboscadas nas estradas eram muito frequentes. Atacar um indivíduo na estrada era uma forma de punição e a violência direta, a violência física era uma forma de resolução dos impasses nesse contexto colonial. Porém, tem algo que eu vou também perceber, mas que está ligado bastante à história do padre, não teve processo-crime, mas o padre ditou o testamento, mas não conseguiu assiná-lo. Ele foi assistido por sete testemunhas. Essas testemunhas eram lideranças locais. Eu comecei a me questionar se não teria havido uma espécie de tribunal de grupo, que teria impedido a abertura de uma investigação. Eu comecei a perceber que existiam elementos e indícios que poderiam solidificar essa minha hipótese. Indo para os processos-crime, começo a perceber que existia uma justiça privada, uma justiça paralela. Existiram práticas de justiça privadas, que eram resolvidas localmente, que passavam pela articulação familiar, da parentela, entre os vizinhos, e que muitas vezes se usava a justiça do Estado para conseguir resolver esses impasses privados. Então, eu entro nesse mundo, nesse mundo de práticas de justiça extraoficial e extrajudicial, mas que vão dialogar também com a justiça do Estado. Foi muito importante para mim, na minha pesquisa, o cruzamento de fontes e eu acho essencial cruzar processos-crime com outras fontes. Quando eu comecei a usar tal método, fazer uma análise qualitativa de alguns processos e confrontar com fontes cartoriais e paroquiais, percebi que enquanto um indivíduo estava respondendo no tribunal a uma denúncia, existia uma série de articulações na comunidade para resolver os impasses. Por exemplo, um acordo de pacificação firmado em cartório. Aí eu ia entender por que as partes não apareciam num último momento do processo-crime, ficando assim certos comportamentos mais claros para mim. O cruzamento de fontes me permitiu ver de forma mais clara essa articulação local quando surgiam impasses, quando surgiam conflitos que não conseguiam conter localmente.

2020.02.12 MaíraO conflito surge e decorre de uma série de pequenos embates e pequenas tensões que não são controladas. Tanto que no processo sempre aparecia as expressões “Questões antigas” e “Questões antigas, questões de honra familiar”, num processo de homicídio. O que é isso? Num determinado momento, a agressão entre as partes se tornava incontrolável, mas não era algo de momento como o processo deixa a entender; foi algo no bar, na estrada, os indivíduos se exaltaram, um feriu o outro; não era algo de momento, o confronto era a consequência de uma série de provocações e “questões antigas” que, muitas vezes, não aparecem de forma tão explícita naquele processo, naquele documento. Foi interessante também perceber, a partir da minha análise das fontes, que nessas regiões coloniais – e estou me referindo, principalmente, à região central do Estado –, existiam frentes de punição e proteção. Isso pude perceber através de vários processos-crime abertos na sequência, onde eu conseguir ver que os réus se repetiam na documentação, que os envolvidos se repetiam nesses processos. Comecei a perceber que existiam frentes de proteção e punição. O que são essas frentes? Grupos de famílias, vizinhos, aparentados que se reuniam para punir e se proteger quando necessário. Nesses casos, o tipo de punição variava quando era para alguém do grupo étnico e quando era para alguém do grupo negro, que era sempre mais agressiva. Aqui entram os linchamentos, e encontrei vários na região pesquisada. Vários linchamentos com os mesmos grupos de imigrantes envolvidos e, também, com a conivência das autoridades locais, com um certo “Vamos deixar eles fazerem a sua justiça”. Em relação a isso, eu comecei a me questionar também, que é algo que eu acho que foge do grupo étnico e que se pode levar para outras pesquisas, que é um pouco de como essa justiça republicana funcionava localmente. Ela funcionava obedecendo essas práticas locais e tradicionais de justiça. O delegado e o subdelegado deixavam os grupos resolverem seus conflitos, e isso dá para perceber através de alguns processos-crime, principalmente nos casos de linchamento contra negros. Chegavam atrasados para fazer o corpo de delito, não repetiam o inquérito para as autoridades distritais, é uma série de elementos que vai apontando para essa articulação local e a forma como essa justiça funcionava localmente. Voltando um pouco ao caso do Padre Sório, essas características que fui encontrando nesses processos-crime me ajudaram a ler melhor o que teria acontecido com o Padre. O silenciamento da comunidade e a formação de um tribunal de grupo que não permitiu a abertura do processo-crime e de uma investigação. Logo que o padre morreu, a versão oficial para a morte é queda do cavalo, mas existem registros de contemporâneos da época do padre que afirmam que existiam suspeitas de que o padre teria sido alvo de uma emboscada e “batido no baixo-ventre”. Então, existia essa explicação na época, só não teve processo-crime. Analisando a documentação, comecei a perceber que as autoridades distritais da colônia Silveira Martins, no momento da morte do padre, o subdelegado, o juiz distrital, que eram luso-brasileiros, e estavam vivendo um conflito com o Padre Sório, um conflito de poder local. Era um momento bastante tenso na comunidade, estavam ocorrendo eleições, o padre criticava o comportamento das autoridades públicas e incentivava os imigrantes a não comparecerem para votar. Então isso tudo indicava que para as autoridades locais era bom não abrir um processo e para a comunidade também. Porque aquilo era muito feio, o padre sofrer uma emboscada e morrer em consequência dos ferimentos no baixo-ventre, e ele morreu em consequência dos ferimentos no baixo-ventre. Para os imigrantes e descendentes, que eram do mesmo país, todos eles italianos, conterrâneos… e aí ela se fecha para se proteger. Então, tudo isso me levava a entender assim: essa comunidade era permeada por conflitos, todas elas são permeadas por conflitos, mas existem momentos em que a solidariedade vem também, onde elas acionam essa solidariedade. O padre tinha bases de apoio, redes fortes, que eu busquei construir na tese, redes parentais que foram construídas a partir dos registros de comparecimento na pia batismal como padrinho dos filhos dos imigrantes, além dos vínculos formados através de uma associação de mútuo socorro que ele próprio havia fundado. Então, no momento em que era necessário, essas se fizeram fortes, que foi quando da morte do padre e do silenciamento por parte de todos. Na minha tese de doutorado, apesar de eu ter pesquisado essa versão da emboscada e de um crime, um crime de honra, não busquei desvendar se realmente o padre foi “batido no baixo ventre”, ou castrado, por ter se envolvido sexualmente com um moça da região. Não foi possível perceber através das fontes escritas a prova definitiva que confirmassem a explicação do castramento. Para além disso, o que me interessava muito mais era entender onde teria surgido essa versão de um crime emboscada, esse mundo social e cultural, mais do que comprovar se realmente o padre teria sido castrado ou não. Mas é certo que o crime existiu, porque era num momento bastante tenso, o padre tinha muitos rivais. Se não foram os imigrantes por questões de honra familiar, foram as autoridades, imigrantes e luso-brasileiros por conta das tensões políticas locais naquele momento.

Confira, na próxima semana, a continuidade da entrevista com a historiadora Maíra Ines Vendrame.

Atividades SIARQ/RS – Janeiro 2020

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O Arquivo Público do RS, enquanto Órgão Gestor do Sistema de Arquivos do Estado do Rio Grande do Sul – SIARQ/RS, atua para efetivar a gestão documental nos órgãos do Poder Executivo. Durante o mês de janeiro os servidores dedicaram-se às atividades que listamos abaixo:

Dia 14: A arquivista do APERS, Maria Cristina Fernandes, esteve na Secretaria da Saúde para auxiliar quanto ao levantamento de produção documental e a construção de estratégias para a gestão documental naquele órgão. Participou pela Saúde o arquivista Carlos Henrique Armani Nery.

Dia 24: No Banco de Desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Sul S.A. (BADESUL), os arquivistas do APERS Maria Cristina Fernandes e Cléo Belicio participaram de reunião de assessoria técnica, para orientações sobre gestão documental e atividades desenvolvidas pelo SIARQ/RS. Participaram pelo BADESUL: Beatriz Acioli, Clarissa Melo Cogo, Luciani Amaral, Clayton e Márcia Santana.

Em janeiro, o Arquivo Público analisou nove (09) Listagens de Eliminação de Documentos visando a aprovação, recebidos por processos administrativos, conforme estabelecido pelo Decreto 52.808/2015, em seu Art. 6º, parágrafo V.

E, neste mês, foram recebidos na caixa do e-mail assuntos-proa@planejamento.rs.gov.br, vinte e cinco (25) e-mails de diversos órgãos, referentes a solicitações, esclarecimentos de dúvidas com relação à atribuição de assuntos no Sistema PROA. Além desses, na caixa de correio do SIARQ/RS foram recebidos quatro (04) e-mails com questões sobre gestão documental.

Para solicitar assessoria ao SIARQ/RS, visando implementar as normativas e os instrumentos de gestão documental, pode entrar em contato pelo e-mail siarq-apers@planejamento.rs.gov.br ou telefone (51) 3288-9114.

Visitas guiadas ao APERS – Janeiro 2020

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Visitas Guiadas APERS

No mês de janeiro foram realizadas cinco visitas guiadas ao conjunto arquitetônico do Arquivo Público do RS. Visitaram nossa instituição:

Dia 10: nesta quinta-feira visitaram o Arquivo as professoras Gisele Soares Vieira, Aline Pereira da Silva e Camila Gonçalves Rodrigues, do SENAC/RS com a finalidade de conhecer o acervo e os processos técnicos do APERS.

Dia 13: nesta segunda-feira recebemos a visita de Natally Ferrari, funcionária do 5º Tabelionato de Notas de Porto Alegre (Tabelionato Manica) para conhecer nosso acervo.

Dia 14: recebemos a visita de Sedinei Beber, servidor da Secretaria da Fazenda, com objetivo de conhecer nosso acervo e o conjunto arquitetônico.

Dia 17: nesta sexta-feira recebemos a visita de Luiz Carlos Weizenmann, especialista em Direito Notarial e Registral, com objetivo de conhecer as instalações do acervo do Arquivo.

Dia 20: 12 estudantes acompanhados pelo professor Marcelo da Silva, do Programa Jovem Aprendiz do Instituto Leonardo Murialdo.

Guia: Iara Gomide.

Lembramos que oferecemos, semanalmente, visitas guiadas ao conjunto arquitetônico, com duração de 1h30min, nas segundas-feiras às 14h30min e nas sextas-feiras às 10h. Para agendamento de grupos em outros horários, contate-nos pelo e-mail visitas@planejamento.rs.gov.br ou ligue para (51) 3288 9134.

APERS em Números – Janeiro 2020

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Confira alguns dados referentes aos serviços realizados no APERS durante o mês de janeiro:

– Assessorias SIARQ/RS: 02

– Usuários atendidos: 241

Em busca de certidões: 153

Servidores do APERS: 07

Pesquisadores: 81

Novos pesquisadores: 24

– Atendimentos aos usuários (em número de solicitações): 985

Certidões: 392

Servidores do APERS: 49

Pesquisadores: 544

– Indexação Sistema AAP (número de documentos incluídos/descritos): 817

– Visitas guiadas: 05

– Visualizações blog institucional: 6.960

Clique aqui e saiba mais sobre os serviços que o APERS presta à comunidade.

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