Arquivos & Diversidade Étnica: Os Índios na História do Brasil

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Ao longo de todo o ano de 2015 o enfoque das postagens mensais relacionadas às questões étnicas será o povo negro, como uma forma de aprofundar a difusão do Projeto AfricaNoArquivo, e de suscitar desdobramentos e reflexões a partir dele. Assim, para fechar o ano dando ênfase aos povos originários da América, escreveremos novamente sobre indígenas, ainda que nos dois últimos meses este já tenha sido o nosso eixo. Divulgaremos o livro “Fontes e reflexões para o ensino de história indígena e afrobrasileira: uma contribuição da área de História do PIBID/FaE/UFMG”, e a riquíssima página “Os Índios na História do Brasil”, criada a partir de projetos acadêmicos de John Manuel Monteiro, historiador, antropólogo e professor do Departamento de Antropologia da Unicamp. Acreditamos que tais materiais possibilitam uma ampla gama de reflexões e contato com diferentes perspectivas teóricas e metodológicas nesse campo do saber.

O livro Fontes e reflexões para o ensino de história indígena e afrobrasileira, organizado pelo professor Pablo Luiz de Oliveira Lima, foi produzido a partir de dois anos de trabalho de estudantes de graduação e professores universitários da UFMG envolvidos com o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) na área de História. As ações do grupo estavam centradas no ensino da história regional em diálogo com o patrimônio cultural, e nas potencialidades dos museus para o ensino de História, e o ensino da história indígena e afrobrasileira, especialmente. Suas experiências em escolas públicas possibilitaram a construção de uma publicação rica em aportes para educadores e educandos, com reflexões sobre cultura material, iconografia, fontes documentais, história indígena, resistência e história crítica. Vale a pena conferir!

Já a referência à página Os Índios na História do Brasil exige uma introdução. Afinal, ao tratarmos de história indígena podemos afirmar com certeza que John Monteiro foi notadamente um dos maiores pesquisadores da temática no Brasil. Escrevendo por força de seu falecimento em 2013, a historiadora Maria Regina Celestino de Almeida afirma que “desde a década de 1990, sob a decisiva e marcante influência de John Monteiro [a historiografia na área], tem se renovado significativamente, com abordagens histórico-antropológicas que permitem novas compreensões sobre o lugar dos índios em nossa história. O papel irrelevante que, por tanto tempo, os historiadores deram aos índios já não se sustenta diante de inúmeros trabalhos que, na linha de pesquisa interdisciplinar incentivada por John,

Prof. John Monteiro

Prof. John Monteiro

revelam novas realidades sobre os índios em contato com sociedades coloniais e pós-coloniais. A trajetória acadêmica de John Monteiro caminha junto ao desenvolvimento dessa historiografia que passou a considerar os índios como sujeitos históricos, questionando as antigas concepções que lhes reservavam o lugar de vítimas passivas dos processos de conquista e colonização. Defensor das causas indígenas, John militava por essa revisão historiográfica. Para ele, dar voz e vez aos índios na condição de agentes históricos é tarefa dos historiadores e deverá resultar no enterro definitivo de uma historiografia, muitas vezes, conivente com políticas de apagamento de identidades indígenas”.

A página que ora divulgamos é um dos resultados dessa incansável trajetória, reunindo trabalhos produzidos desde a década de 1990, muitos deles disponíveis online, e indicando uma vasta bibliografia comentada que arrola etnografias e monografias de história; coletâneas e números especiais de revistas; seleção de obras reeditadas, incluindo autores dos séculos XVI a XX; instrumentos de pesquisa e fontes de informação abrangendo guias, repertórios de arquivos e de legislação, bibliografias, dicionários e enciclopédias; edição de fontes, incluindo coleções de documentos, transcrições de textos manuscritos e transcrições de relatos orais sobre a história dos índios; documentos e estudos ligados à pesquisa etnográfica (diários de campo, documentos sobre expedições e estudos sobre a pesquisa científica entre os índios); listagem de catálogos de exposições e coleções, e narrativas e autores indígenas. Ainda que este portal tenha sido atualizado pela última vez em julho de 2012 segue sendo uma ferramenta muito completa para todos que desejam adentrar pelo mundo da pesquisa nessa área.

Estamos cientes de que muito ainda está por ser feito pelo resgate da história e a valorização dos povos indígenas enquanto parte fundamental de nossa constituição histórica, social e cultural. Entretanto, esperamos que pequenas iniciativas como esta postagem contribuam para a difusão de fontes e de problemáticas para a pesquisa e o ensino, e sirvam de inspiração para que mais e mais pessoas se interessem não somente pela temática, mas pela luta indígena por terra, dignidade e liberdade.

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Arquivos & diversidade étnica: fontes para a história dos povos indígenas

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indios-educacaoMensalmente, quando estamos elaborando nossas postagens para a categoria “Arquivos & Diversidade Étnica”, sempre refletimos sobre como abordar a temática indígena. Não porque seja uma temática por nós valorada como mais importante do que a temática negra, mas porque o APERS já possui um extenso trabalho de levantamento em seu acervo relacionado aos africanos e afrodescendentes no Rio Grande do Sul, através do Projeto Documentos da Escravidão e seus desdobramentos. Por outro lado, enquanto instituição ainda desconhecemos as potencialidades de nosso acervo no que concerne à história dos povos indígenas em nosso estado.

Nesse sentido, sempre temos vontade de abordar com mais profundidade as relações entre arquivos, história indígenas e ensino, mas ainda não temos instrumentos que nos permitam apontamentos abrangentes e eficientes sobre nossos acervos que possam ser utilizados nessa escrita. Hoje, buscando refletir sobre tal questão, sugerimos a leitura do artigo “Presença indígena na Guerra dos Farrapos: primeiras observações (c.a 1831-1851)”, do professor Eduardo Neumann, e de uma simples nota de leitura intitulada “Povos indígenas e arquivos: desafios e resultados”, de Odair Giraldin, que traz reflexão sobre a persistência necessária aos que desejam desvendar informações, produzir conhecimento e ensinar sobre este tema a partir de documentos de arquivos.

No artigo, de 2011, Neumamm registra que “apesar da documentação oficial sobre a ocupação e colonização do Rio Grande do Sul e mesmo os relatos de viajantes mencionarem a presença ameríndia, lamentavelmente, a atenção dedicada pela historiografia sul-rio-grandense às populações indígenas não corresponde á sua importância na formação dessa sociedade. Em parte por que há uma ênfase demasiada na imigração europeia ao Rio Grande do Sul, uma apologia do imigrante; por outra imperava a concepção de uma assimilação e gradual extermínio dos indígenas, como propalado em outras regiões. O certo é que, mesmo diante da renovação verificada em outras áreas da América Portuguesa, o “índio colonial” ainda é um personagem ausente na historiografia regional”. Propondo uma abordagem que recupere o papel histórico dos ameríndios em nossa sociedade, o autor afirma que cabe ao historiador enfrentar esse desafio, pois “somente assim será possível reverter o quadro ainda hoje prevalecente, marcado pela omissão ou, na melhor das hipóteses, por uma visão simpática aos índios, mas que os enquadra como vítimas de poderosos processos externos à sua realidade”. Arriscamos ir além, afirmando que para tal superação esse papel cabe ao historiador enquanto professor-pesquisador, cumprindo sua tarefa não apenas nos arquivos, centros de documentação e instituições de memória, mas na conexão entre tais locais e os espaços formais e não formais de educação.

Nessa busca, Neumann enfoca sua pesquisa na atuação indígena na Guerra dos Farrapos, conflito tão conhecido dos sul-rio-grandense, tão marcante em nossa constituição sócio cultural, e ao mesmo tempo ainda tão centrada na matriz lusitana, ocasionando o apagamento das presenças negra e indígena. O autor recorre a diferentes acervos, especialmente do Arquivo Histórico do RS, para identificar a participação de sujeitos históricos de etnias indígenas na Guerra, demonstrando que há registros, ainda que muitas vezes precisem ser garimpados, e que tal participação foi efetiva.

Em artigo posterior, de 2013, em que o autor faz uma releitura do primeiro e busca trazer novos apontamentos, surge a problematização do uso de processos criminais para aprofundar a análise relativa a esta participação no conflito. Fazendo breve análise a cerca de dois processos do ano de 1846 em que os réus são identificados como “índios”, entretanto, Neumann salienta as dificuldades identificadas até então para localizar essas fontes no APERS, tanto pela diminuição de registros na esfera da Justiça acarretada pelas turbulências da guerra, quanto pela complicada busca onomástica, que esbarra na presença de muitos homônimos entre os indígenas – neste caso, vale lembrar que o Arquivo Público ainda não possui catálogos específicos que enfoquem e descrevam os documentos potenciais para a pesquisa nessa área, de forma que as buscas podem ser feitas pelos pesquisadores nos instrumentos de pesquisa gerais.

2014.11.12 Indígenas no RS

Sabemos que há dificuldades, e que o trabalho dos pesquisadores, que já é moroso em geral, torna-se mais complexo quado se pretende desbravar campos de pesquisa pouco percorridos, que necessitam do levantamento de novas fontes e geram novos debates historiográficos. Por outro lado, o trajeto tortuoso é recompensado a cada descoberta. Odair Giraldin, por exemplo, tomou como um desafio as dificuldades e o desincentivo que recebeu ao longo de suas buscas por documentos que registrassem os Cayapó do Sul. Como relata, após percorrer diversas instituições arquivísticas “como uma atividade de garimpeiro”, em meio a fichários em que buscou todas as variáreis possíveis para o grupo pesquisado, teve um inside: “resolvi olhar também por Panará, uma vez que este etnônimo, do grupo atual existente no norte do Mato Grosso, talvez fosse a autodesignação dos antigos Cayapó (…) Meu coração palpitou quando encontrei uma ficha que mencionava: Índios Panará do Triângulo Mineiro. Atônito e suando frio, aguardei o funcionário trazer a lata. Abri-a e me arrepiei com o que vi! Um manuscrito elaborado em 1918 por um agrimensor de Uberaba, por nome Alexandre de Souza Barbosa, que havia recolhido um vocabulário de mais de seiscentas palavras dos Cayapó do Sul. Este corpus foi construído ouvindo uma velha senhora que era a única falante da língua, numa pequena aldeia nas margens do Rio Grande, próximo a Cachoeira Vermelha (…) [O vocabulário] demonstrou que os antigos Cayapó eram os antepassados dos atuais Panará.

O inside de Odair, amparado pelas possibilidades criadas a partir dos fichários da instituição na qual estava pesquisando, mudaram os rumos de muitas pesquisas. Segundo ele, “os arquivos guardam muitas informações sobre os povos indígenas. Tudo depende de persistência, sensibilidade e paciência para procurar”. Nós concordamos, e acrescentamos que tal persistência e sensibilidade deve fazer parte tanto do trabalho dos pesquisadores, quanto dos servidores de tais instituições, de forma que possam incorporar as demandas por acesso às fontes relacionadas aos povos indígenas em seus planos de organização dos acervos e qualificação dos instrumentos de pesquisa. Fica uma sugestão para nós mesmos!

Arquivos & Diversidade Étnica: fontes e materiais didáticos para a História Indígena

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Após uma série de postagens sobre documentos relacionados à escravidão que serão difundidos nas escolas através do projeto AfricaNoArquivo, hoje retornamos às dicas e reflexões sobre História Indígena, apresentando o site América Indígena: repositório digital de fontes históricas e materiais didáticos.

Site América Indígena

Elaborado a partir do Projeto de Pesquisa “América indígena: Cultura Histórica e Ensino de História”, desenvolvido no Laboratório de Ensino de História (LABEH) da Universidade de Brasília (UnB), o portal tem como principal objetivo difundir fontes históricas e propostas pedagógicas para o ensino de história da América indígena pré-colombiana e colonial. Apresenta fichas temáticas com propostas de abordagem em sala de aula a partir de excertos de cartas, crônicas, relatos de viagens e tratados, assim como disponibiliza uma série de mapas, imagens e vídeos.

Na ficha temática intitulada “Casamento e poligamia entre os tupinambás”, por exemplo, escolheu-se um trecho do relato de 1557 de Hans Staden, marinheiro alemão que foi aprisionado por indígenas tupinambás e com eles conviveu por nove meses. No capítulo 18 de sua obra Hans afirma: A maior parte dos homens tem apenas uma mulher; mas alguns têm mais. Certos chefes chegam a quatorze mulheres. O chefe, Abati-poçanga, a quem fui dado por fim, e de quem os franceses compraram minha Liberdade, tinha muitas mulheres. Sua primeira mulher era a de maior prestígio entre elas. Cada uma possuía seu espaço reservado na cabana, sua fogueira própria e sua plantação de mandioca. Ele permanecia no espaço reservado daquela com quem estava no momento e que lhe dava comida. Assim, o chefe ia percorrendo o circulo de suas mulheres. Os filhos que já eram capazes caçavam e traziam todas as presas capturadas para suas mães, que cozinhavam e dividiam com as outras. Elas se relacionavam bastante bem entre si. Também é comum que um homem dê sua mulher de presente para outro, quando está farto dela. Do mesmo modo, costumam dar suas filhas ou irmãs de presente.

Gravura de Theodore de Bry para o livro de Hans Stade (1557) - Viagem à terra do Brasil.

Gravura de Theodore de Bry para o livro de Hans Stade (1557) – Viagem à terra do Brasil.

Mesmo que estejamos em pleno século XXI, o relato apresentado no trecho entra em choque com nossa cultura ocidental cristã baseada na monogamia. A partir dele a proposta didática levantada pela equipe do projeto sugere que os estudantes discutam o ponto de vista dos europeus cristãos a respeito dos casamentos e da poligamia observada entre os índios na época colonial; que mudanças os europeus colonizadores introduziram nas formas de casamento e nos papéis desempenhados por homens e mulheres no Brasil; por que estas mudanças foram introduzida; e de que forma os relatos do autor puderam interferir nas relações dos portugueses com os índios na época da colonização. Sugerem ainda a utilização de imagens e multimídias nessa aula.

Percebemos que a partir de um pequeno texto, que pode ser facilmente acessado através da internet, é possível realizar uma série de questionamentos, e aproximar os estudantes de uma realidade que lhes é muito distante, afinal, o ensino de história indígena vem sendo negligenciado, ou tratado com parte da história colonial portuguesa, sem dar a visibilidade necessária aos ameríndios como agentes históricos. A utilização de fontes históricas, sejam elas arquivísticas ou não, pode ser uma excelente forma de qualificar o processo de ensino e aprendizagem nesse sentido. Em seu artigo sobre documentos e instrumentos de pesquisa para a história indígena a historiadora Juciene Apolinário aponta que “não é tarefa fácil identificar, documentar e interpretar os eventos, processos e percepções que envolveram as populações indígenas, haja vista que a documentação trata, na sua maioria, das visões dos colonizadores. ‘Até mesmo algumas posturas historiográficas desqualificam os índios enquanto atores sociais legítimos’ (MONTEIRO, 1999). No entanto, até mesmo a negação e silenciamento, como já se asseverou, explícita na documentação colonial, tornam-se vestígios e sinais para se repensar as ações políticas dos povos indígenas, reavaliando as relações sociais que os diferentes atores nativos criaram a partir do pós-contato”.

Desejamos que o acesso a informações e propostas pedagógicas desse tipo seja um estímulo ao trabalho com história indígena nas escolas!

Arquivos & Diversidade Étnica: AfricaNoArquivo III

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Dando sequência as nossas postagens criadas a partir dos documentos que serão difundidos nas escolas através do Projeto AfricaNoArquivo, em nosso terceiro e último texto que aproxima nossos leitores de tal acervo apresentamos o inventário que fará parte das caixas pedagógicas. O inventário é uma tipologia documental muito procurada no Arquivo Público por pesquisadores da área da História e da Genealogia justamente por oferecer detalhes sobre o passado, informações que ajudam a reconstituir determinados contextos e tomar conhecimento de sua organização social, econômica e cultural.

No caso em questão, trata-se de um documento do ano de 1871, da cidade de Pelotas, em que os bens da falecida Felisbina da Silva Antunes são inventariados a pedido de seu esposo Aníbal Antunes da Silva, ambos pertencentes a uma tradicional família da nobreza pelotense, proprietária de diversas fazendas e de muitos escravos e escravas. Neste sentido, a listagem de bens arrolados no documento permite uma série de reflexões a respeito da sociedade gaúcha e pelotense de então, do trabalho desenvolvido pelas pessoas escravizadas naquelas propriedades, sobre o que era produzido e sobre as condições sob as quais o trabalho era desenvolvido.

A partir da enorme quantidade de escravos descrita, que chega ao número de 146, de suas profissões e especializações, é possível afirmar que se trata de uma família possuidora de charqueadas, traçar relações entre os escravizados e seus papéis na indústria do charque e sobre a reprodução endógena do plantel, ou, em outras palavras, sobre a formação de famílias escravas e sua reprodução humana dentro dessas propriedades. Há nove crianças menores de 10 anos arroladas no documento, e ainda que tenhamos uma grande quantidade de homens, evidenciando alta taxa de masculinidade, há também mulheres, e as variações de idades nos apontam para a interpretação de que havia formação de famílias.

As ideias que motivaram a escolha desse documento, que será reproduzido em parte nas caixas já que é muito grande, giram em torno de refletir sobre as charqueadas, tão importantes para a história sul-riograndense, sobre a grande quantidade de mão de obra escravizada utilizada nas mesmas (ainda que outros documentos ajudem a evidenciar que não era apenas nas charqueadas que tal mão de obra era empregada, mas em toda a sociedade da época), sobre as capacidades de trabalho e especialização desses trabalhadores, além das reflexões possíveis a respeito das relações humanas estabelecidas entre tais pessoas. Conheça a partir das imagens a seguir parte do arrolamento de bens, com foco na listagem de escravizados, que faz parte do rol de “bens semoventes”.

No próximo mês, momento em que o Projeto AfricaNoArquivo estará em fase de finalização, poderemos apresentar seus resultados mais globais. Entretanto, acreditamos que já foi possível, a partir dos posts dos últimos meses, despertar a curiosidade e trazer elementos que ajudam a valorizar o patrimônio documental salvaguardado pelo APERS, mostrando seu potencial educativo e cultural.

Arquivos & Diversidade Étnica: AfricaNoArquivo II

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No dia 01 de agosto de 1835 Rita recebeu sua carta de alforria. Para muitos poderia ser apenas mais um pedaço de papel, mais uma de milhares de páginas registradas em livros de tabelionatos. Para Rita, um documento transformador, fundamental, conquistado através de muito trabalho, suor e luta. Para historiadores, estudantes, professores, pesquisadores em geral, é o registro de uma história de vida marcada pela escravização e repleta de informações e possíveis questionamentos que nos ajudam a compreender aquele período e seus desdobramentos na sociedade atual.

Rita, que vivia em Pelotas, fora ama de leite da filha de seu senhor, e era uma escrava “de ganho”, que vendia suas quitandas com a “licença” do dono. Assim conseguiu acumular pecúlio e comprar sua liberdade, por cento e tantos mil réis. A alforria foi entregue com a única “condição de nunca me faltar ao respeito devido, e a meus dessendentes”.

Pelo documento não temos como saber quantos anos ela tinha, se nasceu no Brasil ou foi trazida da África, se seguiu trabalhando para o ex-proprietário após a conquista da liberdade… Mas podemos nos aproximar um pouco mais desse passado, problematizando as relações sociais que se estabeleciam, os arranjos construídos entre senhores e escravizados, os primeiros no intuito de manter a escravidão por tantos séculos, os últimos para derrotá-la ou por amenizar sua condição de sofrimento diante do cativeiro.

A história de Rita já está registrada nesse documento, no verbete do catálogo de cartas de liberdade produzido pelo APERS, e também será compartilhada com milhares de estudantes e seus professores nas escolas públicas a partir da distribuição de caixas pedagógicas através do Projeto AfricaNoArquivo! Para aproximar-se mais dessa história, baixe as imagens da carta digitalizada e acompanhe as partes centrais de sua transcrição. Boa leitura e boa reflexão!

“Lançamento de huma carta de liberdade passada por Manoel José de Barros, a sua escrava preta, de nome Rita de Nação como abaixo se declara

Eu Manoel José de Barros attendendo ao serviço que me prestou a minha escrava Rita, de servir de ama de leite a minha primeira filha Anna Bernardina de Barros, e juntamente de me ter dado cento e tantos mil reis em dinheiro, que ganhou em quitandas com minha licença e por que a dita minha filha se interessa na liberdade da dita minha escrava. Hey por bem e de muito minha livre vontade, desde já dar-lhe a sua liberdade para todo o sempre unicamente com a condição de nunca me faltar ao respeito devido, e a meus dessendentes, e para clareza e sigurança de sua liberdade lhe passou o presente na minha residencia em Nossa Senhora da Luz aos vinte e hum de julho de mil oito centos trinta e cinco annos. Manoel José de Barros Reconheço verdadeiro a firma e letra supra por ser do próprio de que dou fé. Cidade de Pelotas primeiro de agosto de mil oito centos trinta e cinco.”

Rita p.1

Rita p.2

Arquivos & Diversidade Étnica: AfricaNoArquivo I

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Como divulgamos em publicação no dia 12/02 (aqui), através da Associação dos Amigos do Arquivo o APERS conseguiu captar recursos para o projeto “AfricaNoArquivo” junto ao IBRAM, que somados a recursos da UFRGS via Edital Proext – MEC oportunizará, entre outras ações, a distribuição para escolas públicas de caixas pedagógicas contento reproduções de documentos de nosso acervo, jogo pedagógico, textos e um vídeo de apoio.

Após um minucioso trabalho de pesquisa e seleção de documentos, que vem sendo realizado desde abril, nossa equipe escolheu um conjunto de seis documentos que foram digitalizados, transcritos, serão impressos, plastificados e organizados nos kits, previstos para serem distribuídos entre a última semana de outubro e a primeira de novembro. Hoje, como forma de divulgar essa ação, e de já principiar o compartilhamento das informações constantes nos documentos escolhidos, iniciamos dentro da categoria Arquivos & Diversidade Étnica uma série com três postagens, neste e nos próximos dois meses, elaboradas a partir de parte desses documentos. Esperamos que estes posts contribuam para aguçar a curiosidade de professores, estudantes e nossos usuários em geral, de forma que desejem conhecer melhor esse projeto!

Começamos pela história de Antônio Gaia, preto forro de nação nagô, da Costa da Mina, que no ano de 1883 deixou seu testamento registrado na cidade de Rio Grande. Aparentemente este é mais um entre tantos testamentos que fazem parte do acervo do Arquivo Público. Porém, quando olhamos com mais atenção nos damos conta de seu potencial e riqueza. Ele registra com um bom grau de detalhes a vida de um homem das classes populares e oprimidas que, ao contrário de grandes líderes ou homens abastados, a princípio não teria sua trajetória registrada e sua história de vida discutida nos dias de hoje. A análise desse testamento pode trazer uma série de elementos para problematizar o contexto da escravidão no Brasil, a resistência dos escravizados, as brechas abertas no sistema escravista a partir da atuação desses sujeitos históricos.

Com seus “cincoenta e tanto de idade” e já adoentado, como declara Antonio, o ex-escravo decide registrar suas últimas vontades, demonstrando que possuía família – reconhecendo oficialmente uma filha natural e uma companheira –, bens e uma rede de relações com outras pessoas já alforriadas que parece lhe aferir status de um homem reconhecido entre os seus, capaz de acumular pecúlio e contribuir financeiramente para que outros indivíduos alcançassem a liberdade, como é possível acompanhar através da transcrição de parte do documento:

[folha 1] Declaro que tenho uma filha natural de nome Zeferina Gaia, havida da finada preta forra de nome Leopoldina, a qual minha filha natural n’este momento solene, reconheço e legitimo, como se filha legitima fosse, e a considero e a instituo por herdeira universal de tudo quanto possuo. Declaro que deixo ao preto forro de nome Claudino, filho da finada preta Leopoldina, a quantia de quatro centos mil réis. Declaro que o preto forro, de nação Mina, de nome Natasso Lubi Marinho, que foi escravo do Visconde Pereira Marinho, da Bahia, me é devedor da quantia de nove centos e cincoenta mil réis, dinheiro este que faz parte, do que dei pela sua liberdade (…) [folha 2] Declaro que deixo a preta forra Izalina, minha companheira, todos os moveis e roupa que existirem dentro de minha moradia, do tempo do meo fallecimento.

Tanto no trabalho de pesquisa quanto de ensino, nas diferentes formas de escrita da história, o caso de Antonio pode ser muito ilustrativo de uma série de relações estabelecidas no cotidiano escravista que dizem respeito às formas de negociação entre senhores e escravizados, assim como pode suscitar discussões sobre como era a vida das pessoas escravizadas naquele contexto – que de alguma forma permitia que uma parcela desses homens e mulheres alcançassem a liberdade –, sobre sua origem étnica e cultural, o lugar de onde ele veio (Costa de Mina) e os elementos pertencentes a tal sociedade no contexto em que foi trazido ao Brasil, as contribuições de matriz africana que com ele atravessaram o Atlântico, etc.

Essas e outras questões serão levantadas a partir do projeto em questão, ao qual temos nos dedicado com muito carinho no último período, levando para dentro das escolas um pedacinho do APERS. Assim pretendemos contribuir para que educadores e educandos possam explorar os potenciais dos documentos como fonte de informação, de produção de conhecimento, de experiências de ensino e aprendizado mais dinâmicas, investigativas e instigantes. Em breve compartilharemos aqui mais informações e ideias de abordagem a partir de tais documentos.

Arquivos & Diversidade Étnica: de Coroados a Kaingangs

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Muito ainda está por ser escrito sobre a história indígena no RS. Sabemos que as lutas por igualdade racial travadas ao longo do último século têm trazido uma série de conquistas para os movimentos negros e indígenas, como a aprovação de leis que garantem a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e dos povos indígenas nas escolas, entretanto, também sabemos que é longo o caminho a percorrer para que haja pleno reconhecimento de nossas matrizes identitárias e sócio culturais, e que as dificuldades e o desconhecimento são ainda maiores quando tratamos dos povos indígenas, sobre os quais pouco estudamos, com os quais temos menos contato cotidiano, e pouca informação sobre sua organização, modos de vida, cultura material e imaterial, transmissão oral do conhecimento, hábito alimentares, técnicas artesanais…

Conquista dos Campos de Guarapuava. Chegão os novos Indios ao arranchamento, tirão os Camaradas da sua rôpa quanto puderão até ficarem alguns sem camiza, e só os ponches cubertos, e os vestem. Guache e aquarela: atribuído a José de Miranda, século XVIII

Conquista dos Campos de Guarapuava. Chegão os novos Indios ao arranchamento, tirão os Camaradas da sua rôpa quanto puderão até ficarem alguns sem camiza, e só os ponches cubertos, e os vestem. Guache e aquarela: atribuído a José de Miranda, século XVIII

Para que haja a garantia de direitos a estes povos, tão múltiplos em sua origem, tão ricos culturalmente, e tão massacrados pelo processo de colonização, acreditamos que é necessário passar pelo processo de (re)conhecimento e valorização de sua história, de sua diversidade, de suas contribuições à nossa composição societária, processo com o qual os arquivos e seus acervos certamente têm muito a contribuir!

Neste sentido, hoje gostaríamos de compartilhar o trabalho “De Coroados a Kaingang: as experiências vividas pelos indígenas no contexto de imigração alemã e italiana no RS do século XIX e início do XX”, (clique aqui para acessar) da historiadora Soraia Dornelles, pesquisadora do APERS e de outras instituições de memória, que a partir de acervos diversos buscou problematizar as experiências vividas pelos indígenas Kaingang ou Coroados, como eram conhecidos ao longo do período estudado, no processo de contato com os imigrantes alemães e italianos no século XIX e início do século XX. Soraia analisa relatos memorialísticos e literários, relatórios policiais e de governantes da província, correspondências, mapas e jornais, buscando reconstituir as relações travadas entre os grupos Coroados originários que habitavam o planalto e os imigrantes destinados a tais territórios.

Contextualizando o leitor a respeito do modo de vida Kaingang e de sua subsistência ancorada na pesca, coleta e caça rarefeita, com alimentação baseada no pinhão, Soraia demonstra a importância da mata de pinheiros e da distribuição de territórios entre os grupos familiares segundo a disponibilidade deste alimento principal, evidenciando o impacto causado aos locais que se deparavam com os novos e desconhecidos habitantes explorando suas terras outrora delimitadas segundo critérios ignorados que foram completamente ignorados pelo Império. A autora também desenvolve análise em torno das formas de sociabilidade desses indígenas, sua organização familiar, o papel da guerra e a importância das mulheres entre os Coroados, para demonstrar a relação intrínseca entre os conflitos que se sucederam com os imigrantes e sua cultura originária, que em muitos momentos entrava em choque e era desarticulada pelos valores e práticas introduzidas pelo Estado e pelos colonos.Colares Kaingang p. 45

Um importante exemplo tratado ao longo da dissertação é a análise das chamadas “correrias”, ou assaltos praticados pelos Coroados às colônias, muitas vezes registrados pelas fontes documentais. Durante a prática das correrias os indígenas saqueavam as roças de milho e apropriavam-se de objetos de ferro, desde os mais simples. A introdução do metal influenciou de maneira direta sua organização, sendo utilizado para produção de pontas de flechas, machados e outras ferramentas, e em trocas de diversos tipos, inclusive por mulheres – prática que aos olhos dos imigrantes era abominável, mas que pode ser compreendida em relação à cultura do grupo em questão. Tamanho o impacto causado pela introdução desse material na sociedade Kaingang, que objetos como botões, fivelas, cartuchos de balas e moedas foram incorporados a colares e outros adornos por eles produzidos, originalmente com fibras vegetais, sementes, dentes, garras e conchas. Sabendo-se que “os colares apresentam-se enquanto objeto de demonstração de poder e prestígio, pois a inclusão de cada elemento exposto no adorno remete à incorporação da força e poder daqueles animais ao seu portador”, supõem-se que as anexações de tais objetos “condensam simbolicamente os dois principais instrumentos empregados pela sociedade colonial no empreendimento da conquista dos territórios Kaingang: as armas e o dinheiro”. Esta apropriação é exemplar dos processos de assimilação e transformação cultural nesse contexto de contato entre culturas, e reflete a complexidade das relações estabelecidas entre imigrantes e indígenas.

Neste trabalho, construído a partir de farta documentação, Soraia também aborda a relação entre as lideranças dos Coroados, especialmente de Cacique Doble, com as autoridades provinciais, as tentativas de aldeamento e as formas de resistência a ele, entre outras importantes questões, demonstrando de forma clara as potencialidades dos arquivos e seus acervos para a produção de conhecimento a cerca de nossa história, que é também a história dos povos indígenas! Boa leitura e bom trabalho para aqueles que desejarem se aventurar em descobertas conduzidas pelas páginas dos arquivos!

Índios do Toldo Cacique Doble

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