Especial Projeto Documentos da Escravidão – Processos Criminais #NovembroNegro

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Embora novembro de 2019 já tenha passado, ao retomar as postagens inicialmente previstas para aquele mês reafirmamos a importância do #NovembroNegro!

Catálogo Processos CrimeOs processos criminais são uma fonte poderosíssima para o estudo da história, porque eles frequentemente trazem, ainda que em depoimentos sob a mediação da pena de escrivães e sob pressão de circunstâncias legais adversas, as palavras de atores sociais escravizados, o que é muito difícil de obter de outras formas. Ademais, é possível transparecer diversos episódios cotidianos que não receberiam registro se não fossem investigadas minuciosamente as condições do fato delituoso. Finalmente, podem se tornar perceptíveis as táticas adotadas para se livrar de acusações, proteger os seus, incriminar ou resistir aos seus senhores, obter a liberdade, enfim, a atuação prática dos escravizados, na defesa de seus interesses, em face de um sistema sociojurídico evidentemente desfavorável.

Chegando ao último post da série especial sobre o Projeto Documentos da Escravidão, que deu origem a 10 volumes de Catálogos que facilitam o acesso aos documentos relacionados ao contexto da escravização, hoje destacamos o volume dedicado aos processos criminais, que pode ser acessado clicando aqui.

 

Especial Projeto Documentos da Escravidão – Alforrias e Registros de Compra e Venda #NovembroNegro

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2019.11.20 cartas e compra e venda imagem 2 Foto Joana Berwanger Sul21

Detalhe do acervo de Tabelionatos. Prédio 1 do APERS. Foto: Joana Berwanger / Sul21

Damos sequência ao nosso especial de divulgação do Projeto Documentos da Escravidão, hoje direcionando o olhar às alforrias e registros de compra e venda. Ambos são tipos documentais que fazem parte do acervo de Cartórios e Tabelionatos do Arquivo Público do RS e que foram descritos, item a item, em verbetes que compõem catálogos publicados no âmbito desse projeto.

Como forma de descobrir as tensões entre estruturas sociais e ações subjetivas, os estudos históricos têm explorado cada vez mais as trajetórias individuais e coletivas. As escrituras de compra e venda de cativos, assim como as cartas de liberdade registradas nos cartórios de Porto Alegre e do interior do Rio Grande do Sul permitem acompanhar as pessoas escravizadas, percebendo seu trânsito entre diversos senhores ou a aquisição da alforria por meio de diversos dispositivos de negociação e resistência cotidiana que explicitam sua agência como sujeitos. Isso pode ser muito significativo, porque, como frequentemente se assumia o sobrenome senhorial na vida em liberdade, identificar de quem se havia sido escravizado pode ser de importância fundamental para descobrir os rumos tomados na vida em liberdade, por meio do acompanhamento do nome e sobrenome adquiridos.

Por outro lado, ainda há a possibilidade de estudar, a partir desses documentos, as flutuações do mercado de escravizados, especialmente em função da legislação antiescravista, trabalho que está por ser realizado, e de obter, por meio de metodologia serial e quantitativa, um panorama das modalidades de libertações ao longo das décadas, como, por exemplo, procede o historiador Paulo Staudt Moreira em seus trabalhos , discutindo a presença de alforrias gratuitas, compradas ou condicionadas à prestação de serviços, essas últimas em número crescente durante os últimos anos da escravidão.

Importante também é destacar a dimensão afirmativa de reconhecimento da humanidade, para além e nas entrelinhas da dureza documental que os reduzia a “mercadorias”, e das lutas dessas mulheres e homens por meio do acesso aos registros sobre suas vidas. Isso tem nos motivado a incentivar os usos desses documentos em processos de ensino-aprendizagem e de sensibilização que vão além da pesquisa acadêmica nas ciências humanas de modo geral. Emociona-nos, por exemplo, ver estudantes da Educação Básica manuseando-os em oficina, assim como líderes de quilombos urbanos e de pontos de cultura negra frequentando nossa Sala de Pesquisa para acessá-los em busca de vestígios sobre suas origens.

Acesse os catálogos que descrevem os tipos documentais em questão:

Importante: As alforrias de Porto Alegre encontram-se resumidas em MOREIRA, Paulo Roberto Staudt & TASSONI, Tatiani. Que com seu trabalho nos sustenta: as cartas de alforria de Porto Alegre (1748 – 1888). Porto Alegre: EST Edições, 2007.

Especial Projeto Documentos da Escravidão – Inventários e Testamentos #NovembroNegro

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Na semana anterior informamos que o novembro negro no APERS traria o Projeto Documentos da Escravidão em destaque às nossas mídias. Iniciamos por dois tipos documentais bastante visitados pelos pesquisadores e pesquisadoras em nossa sala de consulta!

Os inventários consistem em relações dos bens de um falecido, inclusive os trabalhadores escravizados, com fins da sua repartição entre os herdeiros. Os testamentos são as disposições finais do moribundo, dando destinação a parte de sua fortuna e recomendando procedimentos fúnebres.

2010.12.06 Lançtº Catálogos Escravidão (66)

Evento de lançamento dos Catálogos de Documentos da Escravidão, 2010.

Enquanto os testamentos permitem uma aproximação ao universo de crenças e religiosidade, sobretudo às atitudes perante a morte, os inventários vêm sendo utilizados como via de acesso à história econômica, já que trazem um instantâneo das atividades produtivas em dado momento.

A historiografia tem se beneficiado dos catálogos de inventários produzidos a partir do Projeto Documentos da Escravidão, uma vez que eles trazem a relação de cativos nos inventários, assim como evidenciam a presença negra com herança, permitindo perceber, em dada localidade ou comarca, a concentração da propriedade escrava e outros indicadores relacionados ao processo de escravização, como a difusão de famílias legalmente constituídas, sua pirâmide etária, os locais de nascimento ou grupos de procedência, as profissões desempenhadas, a presença de moléstias, o valor monetário médio de estimativa (atribuído pelo avaliador à pessoa escravizada), etc.

Seja como um guia para manuseio dos documentos em si, seja por possibilitar uma visão panorâmica de um conjunto documental maior, os catálogos nos permitem ter uma ideia mais rica da história dos negros e negras escravizados(as) no Rio Grande do Sul nos séculos XVIII e XIX. Acesse tais instrumentos de pesquisa clicando nos links a seguir:

APERS no mês da Consciência Negra #NovembroNegro

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2019.11.06 APERS Consciência Negra

Embora partilhemos da compreensão de que é importante que as instituições arquivísticas organizem seus acervos globalmente, permitindo à comunidade acessar informações diversas, independente do tema de pesquisa ou do direito que se pretende acessar, acreditamos, também, na centralidade de tais instituições assumirem uma postura ativa frente aos temas sensíveis que marcam nossa sociedade, postulando espaços de defesa dos direitos humanos, de enfrentamento ao racismo, ao machismo, à lgbtfobia. Afinal, a gestão de documentos, o acesso à informação, assim como a diversidade que marca o patrimônio documental estão no cerne da construção de uma sociedade plural e democrática.

Nessa perspectiva, ao longo das últimas décadas do APERS vem desenvolvendo projetos, realizando eventos e promovendo a difusão de seus acervos com especial atenção às relações étnico-raciais e à história negra do Rio Grande do Sul. Agora, adentrando o mês de novembro, que marca o Dia da Consciência Negra nacionalmente, propomos uma programação especial para nossas mídias, que resgata ações já empreendidas e fortalece a divulgação projetos nessa área.

Aqui no blog, a começar pela presente postagem, traremos conteúdos semanais que marquem a percepção do APERS como um lugar de memórias e de histórias negras. Falaremos de documentos e de seu tratamento, de eventos e exposições, de ações educativas e, em especial, do projeto Documentos da Escravidão. Ele originou dez volumes de catálogos seletivos que lançam luz sobre a presença de negras e negros em nosso acervo, e foi desenvolvido pela instituição ao longo de mais de uma década, de modo que seus impactos sobre as pesquisas em ciências humanas ainda estão por ser estudados.

Recentemente, em uma banca de um trabalho de pós-graduação, uma importante pesquisadora do centro do país perguntou ao candidato: “você pesquisou diretamente nos documentos ou utilizou os catálogos seletivos ‘Documentos da Escravidão’, publicados pelo Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul?” Diante da confirmação de que, de fato, estes foram consultados, ela afirmou: “ah, bom! Porque aqui vocês têm algo que não existe em nenhum outro lugar no país”. Essa pequena anedota demonstra a relevância historiográfica assumida pelo monumental trabalho de pesquisa e descrição documental realizada em nossa instituição nos primeiros anos do século XXI.

Ainda em relação ao blog, o 20 de novembro cairá em uma quarta-feira, dia tradicional de postagens por aqui, e será marcado pelo “Especial Consciência Negra no APERS”.

Nosso Facebook, como de costume, repercutirá tudo o que for veiculado em nosso blog, assim como colocará na vitrine a exposição do mês – organizada dentro do projeto “Descobrindo o Acervo do Arquivo Público” – e o evento que estamos organizando para os dias 25 e 26/11 – em breve mais informações. Nosso perfil será “consciência negra” a cada caractere!

Nosso Instagram trará para o mundo virtual a exposição física que ocupará, no APERS, a Sala Joel Abilio Pinto dos Santos, e também apresentará à comunidade os documentos sobre o contexto da escravização que são explorados com as turmas escolares que nos visitam para vivenciar a oficina “Tesouros da Família Arquivo”.

Já em nosso Twitter todos as postagens do mês serão relacionadas à temática. Desse modo, traremos a nossas seguidoras e seguidores a referência de trabalhos acadêmicos, de livros, de produções audiovisuais, entre outras reflexões relacionadas à área de arquivos que se conectem com a consciência negra.

Acompanhe nossas mídias e participes das atividades!

Arquivos & Diversidade Étnica: Os Índios na História do Brasil

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Ao longo de todo o ano de 2015 o enfoque das postagens mensais relacionadas às questões étnicas será o povo negro, como uma forma de aprofundar a difusão do Projeto AfricaNoArquivo, e de suscitar desdobramentos e reflexões a partir dele. Assim, para fechar o ano dando ênfase aos povos originários da América, escreveremos novamente sobre indígenas, ainda que nos dois últimos meses este já tenha sido o nosso eixo. Divulgaremos o livro “Fontes e reflexões para o ensino de história indígena e afrobrasileira: uma contribuição da área de História do PIBID/FaE/UFMG”, e a riquíssima página “Os Índios na História do Brasil”, criada a partir de projetos acadêmicos de John Manuel Monteiro, historiador, antropólogo e professor do Departamento de Antropologia da Unicamp. Acreditamos que tais materiais possibilitam uma ampla gama de reflexões e contato com diferentes perspectivas teóricas e metodológicas nesse campo do saber.

O livro Fontes e reflexões para o ensino de história indígena e afrobrasileira, organizado pelo professor Pablo Luiz de Oliveira Lima, foi produzido a partir de dois anos de trabalho de estudantes de graduação e professores universitários da UFMG envolvidos com o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) na área de História. As ações do grupo estavam centradas no ensino da história regional em diálogo com o patrimônio cultural, e nas potencialidades dos museus para o ensino de História, e o ensino da história indígena e afrobrasileira, especialmente. Suas experiências em escolas públicas possibilitaram a construção de uma publicação rica em aportes para educadores e educandos, com reflexões sobre cultura material, iconografia, fontes documentais, história indígena, resistência e história crítica. Vale a pena conferir!

Já a referência à página Os Índios na História do Brasil exige uma introdução. Afinal, ao tratarmos de história indígena podemos afirmar com certeza que John Monteiro foi notadamente um dos maiores pesquisadores da temática no Brasil. Escrevendo por força de seu falecimento em 2013, a historiadora Maria Regina Celestino de Almeida afirma que “desde a década de 1990, sob a decisiva e marcante influência de John Monteiro [a historiografia na área], tem se renovado significativamente, com abordagens histórico-antropológicas que permitem novas compreensões sobre o lugar dos índios em nossa história. O papel irrelevante que, por tanto tempo, os historiadores deram aos índios já não se sustenta diante de inúmeros trabalhos que, na linha de pesquisa interdisciplinar incentivada por John,

Prof. John Monteiro

Prof. John Monteiro

revelam novas realidades sobre os índios em contato com sociedades coloniais e pós-coloniais. A trajetória acadêmica de John Monteiro caminha junto ao desenvolvimento dessa historiografia que passou a considerar os índios como sujeitos históricos, questionando as antigas concepções que lhes reservavam o lugar de vítimas passivas dos processos de conquista e colonização. Defensor das causas indígenas, John militava por essa revisão historiográfica. Para ele, dar voz e vez aos índios na condição de agentes históricos é tarefa dos historiadores e deverá resultar no enterro definitivo de uma historiografia, muitas vezes, conivente com políticas de apagamento de identidades indígenas”.

A página que ora divulgamos é um dos resultados dessa incansável trajetória, reunindo trabalhos produzidos desde a década de 1990, muitos deles disponíveis online, e indicando uma vasta bibliografia comentada que arrola etnografias e monografias de história; coletâneas e números especiais de revistas; seleção de obras reeditadas, incluindo autores dos séculos XVI a XX; instrumentos de pesquisa e fontes de informação abrangendo guias, repertórios de arquivos e de legislação, bibliografias, dicionários e enciclopédias; edição de fontes, incluindo coleções de documentos, transcrições de textos manuscritos e transcrições de relatos orais sobre a história dos índios; documentos e estudos ligados à pesquisa etnográfica (diários de campo, documentos sobre expedições e estudos sobre a pesquisa científica entre os índios); listagem de catálogos de exposições e coleções, e narrativas e autores indígenas. Ainda que este portal tenha sido atualizado pela última vez em julho de 2012 segue sendo uma ferramenta muito completa para todos que desejam adentrar pelo mundo da pesquisa nessa área.

Estamos cientes de que muito ainda está por ser feito pelo resgate da história e a valorização dos povos indígenas enquanto parte fundamental de nossa constituição histórica, social e cultural. Entretanto, esperamos que pequenas iniciativas como esta postagem contribuam para a difusão de fontes e de problemáticas para a pesquisa e o ensino, e sirvam de inspiração para que mais e mais pessoas se interessem não somente pela temática, mas pela luta indígena por terra, dignidade e liberdade.

Arquivos & diversidade étnica: fontes para a história dos povos indígenas

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indios-educacaoMensalmente, quando estamos elaborando nossas postagens para a categoria “Arquivos & Diversidade Étnica”, sempre refletimos sobre como abordar a temática indígena. Não porque seja uma temática por nós valorada como mais importante do que a temática negra, mas porque o APERS já possui um extenso trabalho de levantamento em seu acervo relacionado aos africanos e afrodescendentes no Rio Grande do Sul, através do Projeto Documentos da Escravidão e seus desdobramentos. Por outro lado, enquanto instituição ainda desconhecemos as potencialidades de nosso acervo no que concerne à história dos povos indígenas em nosso estado.

Nesse sentido, sempre temos vontade de abordar com mais profundidade as relações entre arquivos, história indígenas e ensino, mas ainda não temos instrumentos que nos permitam apontamentos abrangentes e eficientes sobre nossos acervos que possam ser utilizados nessa escrita. Hoje, buscando refletir sobre tal questão, sugerimos a leitura do artigo “Presença indígena na Guerra dos Farrapos: primeiras observações (c.a 1831-1851)”, do professor Eduardo Neumann, e de uma simples nota de leitura intitulada “Povos indígenas e arquivos: desafios e resultados”, de Odair Giraldin, que traz reflexão sobre a persistência necessária aos que desejam desvendar informações, produzir conhecimento e ensinar sobre este tema a partir de documentos de arquivos.

No artigo, de 2011, Neumamm registra que “apesar da documentação oficial sobre a ocupação e colonização do Rio Grande do Sul e mesmo os relatos de viajantes mencionarem a presença ameríndia, lamentavelmente, a atenção dedicada pela historiografia sul-rio-grandense às populações indígenas não corresponde á sua importância na formação dessa sociedade. Em parte por que há uma ênfase demasiada na imigração europeia ao Rio Grande do Sul, uma apologia do imigrante; por outra imperava a concepção de uma assimilação e gradual extermínio dos indígenas, como propalado em outras regiões. O certo é que, mesmo diante da renovação verificada em outras áreas da América Portuguesa, o “índio colonial” ainda é um personagem ausente na historiografia regional”. Propondo uma abordagem que recupere o papel histórico dos ameríndios em nossa sociedade, o autor afirma que cabe ao historiador enfrentar esse desafio, pois “somente assim será possível reverter o quadro ainda hoje prevalecente, marcado pela omissão ou, na melhor das hipóteses, por uma visão simpática aos índios, mas que os enquadra como vítimas de poderosos processos externos à sua realidade”. Arriscamos ir além, afirmando que para tal superação esse papel cabe ao historiador enquanto professor-pesquisador, cumprindo sua tarefa não apenas nos arquivos, centros de documentação e instituições de memória, mas na conexão entre tais locais e os espaços formais e não formais de educação.

Nessa busca, Neumann enfoca sua pesquisa na atuação indígena na Guerra dos Farrapos, conflito tão conhecido dos sul-rio-grandense, tão marcante em nossa constituição sócio cultural, e ao mesmo tempo ainda tão centrada na matriz lusitana, ocasionando o apagamento das presenças negra e indígena. O autor recorre a diferentes acervos, especialmente do Arquivo Histórico do RS, para identificar a participação de sujeitos históricos de etnias indígenas na Guerra, demonstrando que há registros, ainda que muitas vezes precisem ser garimpados, e que tal participação foi efetiva.

Em artigo posterior, de 2013, em que o autor faz uma releitura do primeiro e busca trazer novos apontamentos, surge a problematização do uso de processos criminais para aprofundar a análise relativa a esta participação no conflito. Fazendo breve análise a cerca de dois processos do ano de 1846 em que os réus são identificados como “índios”, entretanto, Neumann salienta as dificuldades identificadas até então para localizar essas fontes no APERS, tanto pela diminuição de registros na esfera da Justiça acarretada pelas turbulências da guerra, quanto pela complicada busca onomástica, que esbarra na presença de muitos homônimos entre os indígenas – neste caso, vale lembrar que o Arquivo Público ainda não possui catálogos específicos que enfoquem e descrevam os documentos potenciais para a pesquisa nessa área, de forma que as buscas podem ser feitas pelos pesquisadores nos instrumentos de pesquisa gerais.

2014.11.12 Indígenas no RS

Sabemos que há dificuldades, e que o trabalho dos pesquisadores, que já é moroso em geral, torna-se mais complexo quado se pretende desbravar campos de pesquisa pouco percorridos, que necessitam do levantamento de novas fontes e geram novos debates historiográficos. Por outro lado, o trajeto tortuoso é recompensado a cada descoberta. Odair Giraldin, por exemplo, tomou como um desafio as dificuldades e o desincentivo que recebeu ao longo de suas buscas por documentos que registrassem os Cayapó do Sul. Como relata, após percorrer diversas instituições arquivísticas “como uma atividade de garimpeiro”, em meio a fichários em que buscou todas as variáreis possíveis para o grupo pesquisado, teve um inside: “resolvi olhar também por Panará, uma vez que este etnônimo, do grupo atual existente no norte do Mato Grosso, talvez fosse a autodesignação dos antigos Cayapó (…) Meu coração palpitou quando encontrei uma ficha que mencionava: Índios Panará do Triângulo Mineiro. Atônito e suando frio, aguardei o funcionário trazer a lata. Abri-a e me arrepiei com o que vi! Um manuscrito elaborado em 1918 por um agrimensor de Uberaba, por nome Alexandre de Souza Barbosa, que havia recolhido um vocabulário de mais de seiscentas palavras dos Cayapó do Sul. Este corpus foi construído ouvindo uma velha senhora que era a única falante da língua, numa pequena aldeia nas margens do Rio Grande, próximo a Cachoeira Vermelha (…) [O vocabulário] demonstrou que os antigos Cayapó eram os antepassados dos atuais Panará.

O inside de Odair, amparado pelas possibilidades criadas a partir dos fichários da instituição na qual estava pesquisando, mudaram os rumos de muitas pesquisas. Segundo ele, “os arquivos guardam muitas informações sobre os povos indígenas. Tudo depende de persistência, sensibilidade e paciência para procurar”. Nós concordamos, e acrescentamos que tal persistência e sensibilidade deve fazer parte tanto do trabalho dos pesquisadores, quanto dos servidores de tais instituições, de forma que possam incorporar as demandas por acesso às fontes relacionadas aos povos indígenas em seus planos de organização dos acervos e qualificação dos instrumentos de pesquisa. Fica uma sugestão para nós mesmos!

Arquivos & Diversidade Étnica: fontes e materiais didáticos para a História Indígena

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Após uma série de postagens sobre documentos relacionados à escravidão que serão difundidos nas escolas através do projeto AfricaNoArquivo, hoje retornamos às dicas e reflexões sobre História Indígena, apresentando o site América Indígena: repositório digital de fontes históricas e materiais didáticos.

Site América Indígena

Elaborado a partir do Projeto de Pesquisa “América indígena: Cultura Histórica e Ensino de História”, desenvolvido no Laboratório de Ensino de História (LABEH) da Universidade de Brasília (UnB), o portal tem como principal objetivo difundir fontes históricas e propostas pedagógicas para o ensino de história da América indígena pré-colombiana e colonial. Apresenta fichas temáticas com propostas de abordagem em sala de aula a partir de excertos de cartas, crônicas, relatos de viagens e tratados, assim como disponibiliza uma série de mapas, imagens e vídeos.

Na ficha temática intitulada “Casamento e poligamia entre os tupinambás”, por exemplo, escolheu-se um trecho do relato de 1557 de Hans Staden, marinheiro alemão que foi aprisionado por indígenas tupinambás e com eles conviveu por nove meses. No capítulo 18 de sua obra Hans afirma: A maior parte dos homens tem apenas uma mulher; mas alguns têm mais. Certos chefes chegam a quatorze mulheres. O chefe, Abati-poçanga, a quem fui dado por fim, e de quem os franceses compraram minha Liberdade, tinha muitas mulheres. Sua primeira mulher era a de maior prestígio entre elas. Cada uma possuía seu espaço reservado na cabana, sua fogueira própria e sua plantação de mandioca. Ele permanecia no espaço reservado daquela com quem estava no momento e que lhe dava comida. Assim, o chefe ia percorrendo o circulo de suas mulheres. Os filhos que já eram capazes caçavam e traziam todas as presas capturadas para suas mães, que cozinhavam e dividiam com as outras. Elas se relacionavam bastante bem entre si. Também é comum que um homem dê sua mulher de presente para outro, quando está farto dela. Do mesmo modo, costumam dar suas filhas ou irmãs de presente.

Gravura de Theodore de Bry para o livro de Hans Stade (1557) - Viagem à terra do Brasil.

Gravura de Theodore de Bry para o livro de Hans Stade (1557) – Viagem à terra do Brasil.

Mesmo que estejamos em pleno século XXI, o relato apresentado no trecho entra em choque com nossa cultura ocidental cristã baseada na monogamia. A partir dele a proposta didática levantada pela equipe do projeto sugere que os estudantes discutam o ponto de vista dos europeus cristãos a respeito dos casamentos e da poligamia observada entre os índios na época colonial; que mudanças os europeus colonizadores introduziram nas formas de casamento e nos papéis desempenhados por homens e mulheres no Brasil; por que estas mudanças foram introduzida; e de que forma os relatos do autor puderam interferir nas relações dos portugueses com os índios na época da colonização. Sugerem ainda a utilização de imagens e multimídias nessa aula.

Percebemos que a partir de um pequeno texto, que pode ser facilmente acessado através da internet, é possível realizar uma série de questionamentos, e aproximar os estudantes de uma realidade que lhes é muito distante, afinal, o ensino de história indígena vem sendo negligenciado, ou tratado com parte da história colonial portuguesa, sem dar a visibilidade necessária aos ameríndios como agentes históricos. A utilização de fontes históricas, sejam elas arquivísticas ou não, pode ser uma excelente forma de qualificar o processo de ensino e aprendizagem nesse sentido. Em seu artigo sobre documentos e instrumentos de pesquisa para a história indígena a historiadora Juciene Apolinário aponta que “não é tarefa fácil identificar, documentar e interpretar os eventos, processos e percepções que envolveram as populações indígenas, haja vista que a documentação trata, na sua maioria, das visões dos colonizadores. ‘Até mesmo algumas posturas historiográficas desqualificam os índios enquanto atores sociais legítimos’ (MONTEIRO, 1999). No entanto, até mesmo a negação e silenciamento, como já se asseverou, explícita na documentação colonial, tornam-se vestígios e sinais para se repensar as ações políticas dos povos indígenas, reavaliando as relações sociais que os diferentes atores nativos criaram a partir do pós-contato”.

Desejamos que o acesso a informações e propostas pedagógicas desse tipo seja um estímulo ao trabalho com história indígena nas escolas!

Arquivos & Diversidade Étnica: AfricaNoArquivo III

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Dando sequência as nossas postagens criadas a partir dos documentos que serão difundidos nas escolas através do Projeto AfricaNoArquivo, em nosso terceiro e último texto que aproxima nossos leitores de tal acervo apresentamos o inventário que fará parte das caixas pedagógicas. O inventário é uma tipologia documental muito procurada no Arquivo Público por pesquisadores da área da História e da Genealogia justamente por oferecer detalhes sobre o passado, informações que ajudam a reconstituir determinados contextos e tomar conhecimento de sua organização social, econômica e cultural.

No caso em questão, trata-se de um documento do ano de 1871, da cidade de Pelotas, em que os bens da falecida Felisbina da Silva Antunes são inventariados a pedido de seu esposo Aníbal Antunes da Silva, ambos pertencentes a uma tradicional família da nobreza pelotense, proprietária de diversas fazendas e de muitos escravos e escravas. Neste sentido, a listagem de bens arrolados no documento permite uma série de reflexões a respeito da sociedade gaúcha e pelotense de então, do trabalho desenvolvido pelas pessoas escravizadas naquelas propriedades, sobre o que era produzido e sobre as condições sob as quais o trabalho era desenvolvido.

A partir da enorme quantidade de escravos descrita, que chega ao número de 146, de suas profissões e especializações, é possível afirmar que se trata de uma família possuidora de charqueadas, traçar relações entre os escravizados e seus papéis na indústria do charque e sobre a reprodução endógena do plantel, ou, em outras palavras, sobre a formação de famílias escravas e sua reprodução humana dentro dessas propriedades. Há nove crianças menores de 10 anos arroladas no documento, e ainda que tenhamos uma grande quantidade de homens, evidenciando alta taxa de masculinidade, há também mulheres, e as variações de idades nos apontam para a interpretação de que havia formação de famílias.

As ideias que motivaram a escolha desse documento, que será reproduzido em parte nas caixas já que é muito grande, giram em torno de refletir sobre as charqueadas, tão importantes para a história sul-riograndense, sobre a grande quantidade de mão de obra escravizada utilizada nas mesmas (ainda que outros documentos ajudem a evidenciar que não era apenas nas charqueadas que tal mão de obra era empregada, mas em toda a sociedade da época), sobre as capacidades de trabalho e especialização desses trabalhadores, além das reflexões possíveis a respeito das relações humanas estabelecidas entre tais pessoas. Conheça a partir das imagens a seguir parte do arrolamento de bens, com foco na listagem de escravizados, que faz parte do rol de “bens semoventes”.

No próximo mês, momento em que o Projeto AfricaNoArquivo estará em fase de finalização, poderemos apresentar seus resultados mais globais. Entretanto, acreditamos que já foi possível, a partir dos posts dos últimos meses, despertar a curiosidade e trazer elementos que ajudam a valorizar o patrimônio documental salvaguardado pelo APERS, mostrando seu potencial educativo e cultural.

Arquivos & Diversidade Étnica: AfricaNoArquivo II

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No dia 01 de agosto de 1835 Rita recebeu sua carta de alforria. Para muitos poderia ser apenas mais um pedaço de papel, mais uma de milhares de páginas registradas em livros de tabelionatos. Para Rita, um documento transformador, fundamental, conquistado através de muito trabalho, suor e luta. Para historiadores, estudantes, professores, pesquisadores em geral, é o registro de uma história de vida marcada pela escravização e repleta de informações e possíveis questionamentos que nos ajudam a compreender aquele período e seus desdobramentos na sociedade atual.

Rita, que vivia em Pelotas, fora ama de leite da filha de seu senhor, e era uma escrava “de ganho”, que vendia suas quitandas com a “licença” do dono. Assim conseguiu acumular pecúlio e comprar sua liberdade, por cento e tantos mil réis. A alforria foi entregue com a única “condição de nunca me faltar ao respeito devido, e a meus dessendentes”.

Pelo documento não temos como saber quantos anos ela tinha, se nasceu no Brasil ou foi trazida da África, se seguiu trabalhando para o ex-proprietário após a conquista da liberdade… Mas podemos nos aproximar um pouco mais desse passado, problematizando as relações sociais que se estabeleciam, os arranjos construídos entre senhores e escravizados, os primeiros no intuito de manter a escravidão por tantos séculos, os últimos para derrotá-la ou por amenizar sua condição de sofrimento diante do cativeiro.

A história de Rita já está registrada nesse documento, no verbete do catálogo de cartas de liberdade produzido pelo APERS, e também será compartilhada com milhares de estudantes e seus professores nas escolas públicas a partir da distribuição de caixas pedagógicas através do Projeto AfricaNoArquivo! Para aproximar-se mais dessa história, baixe as imagens da carta digitalizada e acompanhe as partes centrais de sua transcrição. Boa leitura e boa reflexão!

“Lançamento de huma carta de liberdade passada por Manoel José de Barros, a sua escrava preta, de nome Rita de Nação como abaixo se declara

Eu Manoel José de Barros attendendo ao serviço que me prestou a minha escrava Rita, de servir de ama de leite a minha primeira filha Anna Bernardina de Barros, e juntamente de me ter dado cento e tantos mil reis em dinheiro, que ganhou em quitandas com minha licença e por que a dita minha filha se interessa na liberdade da dita minha escrava. Hey por bem e de muito minha livre vontade, desde já dar-lhe a sua liberdade para todo o sempre unicamente com a condição de nunca me faltar ao respeito devido, e a meus dessendentes, e para clareza e sigurança de sua liberdade lhe passou o presente na minha residencia em Nossa Senhora da Luz aos vinte e hum de julho de mil oito centos trinta e cinco annos. Manoel José de Barros Reconheço verdadeiro a firma e letra supra por ser do próprio de que dou fé. Cidade de Pelotas primeiro de agosto de mil oito centos trinta e cinco.”

Rita p.1

Rita p.2

Arquivos & Diversidade Étnica: AfricaNoArquivo I

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Como divulgamos em publicação no dia 12/02 (aqui), através da Associação dos Amigos do Arquivo o APERS conseguiu captar recursos para o projeto “AfricaNoArquivo” junto ao IBRAM, que somados a recursos da UFRGS via Edital Proext – MEC oportunizará, entre outras ações, a distribuição para escolas públicas de caixas pedagógicas contento reproduções de documentos de nosso acervo, jogo pedagógico, textos e um vídeo de apoio.

Após um minucioso trabalho de pesquisa e seleção de documentos, que vem sendo realizado desde abril, nossa equipe escolheu um conjunto de seis documentos que foram digitalizados, transcritos, serão impressos, plastificados e organizados nos kits, previstos para serem distribuídos entre a última semana de outubro e a primeira de novembro. Hoje, como forma de divulgar essa ação, e de já principiar o compartilhamento das informações constantes nos documentos escolhidos, iniciamos dentro da categoria Arquivos & Diversidade Étnica uma série com três postagens, neste e nos próximos dois meses, elaboradas a partir de parte desses documentos. Esperamos que estes posts contribuam para aguçar a curiosidade de professores, estudantes e nossos usuários em geral, de forma que desejem conhecer melhor esse projeto!

Começamos pela história de Antônio Gaia, preto forro de nação nagô, da Costa da Mina, que no ano de 1883 deixou seu testamento registrado na cidade de Rio Grande. Aparentemente este é mais um entre tantos testamentos que fazem parte do acervo do Arquivo Público. Porém, quando olhamos com mais atenção nos damos conta de seu potencial e riqueza. Ele registra com um bom grau de detalhes a vida de um homem das classes populares e oprimidas que, ao contrário de grandes líderes ou homens abastados, a princípio não teria sua trajetória registrada e sua história de vida discutida nos dias de hoje. A análise desse testamento pode trazer uma série de elementos para problematizar o contexto da escravidão no Brasil, a resistência dos escravizados, as brechas abertas no sistema escravista a partir da atuação desses sujeitos históricos.

Com seus “cincoenta e tanto de idade” e já adoentado, como declara Antonio, o ex-escravo decide registrar suas últimas vontades, demonstrando que possuía família – reconhecendo oficialmente uma filha natural e uma companheira –, bens e uma rede de relações com outras pessoas já alforriadas que parece lhe aferir status de um homem reconhecido entre os seus, capaz de acumular pecúlio e contribuir financeiramente para que outros indivíduos alcançassem a liberdade, como é possível acompanhar através da transcrição de parte do documento:

[folha 1] Declaro que tenho uma filha natural de nome Zeferina Gaia, havida da finada preta forra de nome Leopoldina, a qual minha filha natural n’este momento solene, reconheço e legitimo, como se filha legitima fosse, e a considero e a instituo por herdeira universal de tudo quanto possuo. Declaro que deixo ao preto forro de nome Claudino, filho da finada preta Leopoldina, a quantia de quatro centos mil réis. Declaro que o preto forro, de nação Mina, de nome Natasso Lubi Marinho, que foi escravo do Visconde Pereira Marinho, da Bahia, me é devedor da quantia de nove centos e cincoenta mil réis, dinheiro este que faz parte, do que dei pela sua liberdade (…) [folha 2] Declaro que deixo a preta forra Izalina, minha companheira, todos os moveis e roupa que existirem dentro de minha moradia, do tempo do meo fallecimento.

Tanto no trabalho de pesquisa quanto de ensino, nas diferentes formas de escrita da história, o caso de Antonio pode ser muito ilustrativo de uma série de relações estabelecidas no cotidiano escravista que dizem respeito às formas de negociação entre senhores e escravizados, assim como pode suscitar discussões sobre como era a vida das pessoas escravizadas naquele contexto – que de alguma forma permitia que uma parcela desses homens e mulheres alcançassem a liberdade –, sobre sua origem étnica e cultural, o lugar de onde ele veio (Costa de Mina) e os elementos pertencentes a tal sociedade no contexto em que foi trazido ao Brasil, as contribuições de matriz africana que com ele atravessaram o Atlântico, etc.

Essas e outras questões serão levantadas a partir do projeto em questão, ao qual temos nos dedicado com muito carinho no último período, levando para dentro das escolas um pedacinho do APERS. Assim pretendemos contribuir para que educadores e educandos possam explorar os potenciais dos documentos como fonte de informação, de produção de conhecimento, de experiências de ensino e aprendizado mais dinâmicas, investigativas e instigantes. Em breve compartilharemos aqui mais informações e ideias de abordagem a partir de tais documentos.

Arquivos & Diversidade Étnica: de Coroados a Kaingangs

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Muito ainda está por ser escrito sobre a história indígena no RS. Sabemos que as lutas por igualdade racial travadas ao longo do último século têm trazido uma série de conquistas para os movimentos negros e indígenas, como a aprovação de leis que garantem a obrigatoriedade do ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e dos povos indígenas nas escolas, entretanto, também sabemos que é longo o caminho a percorrer para que haja pleno reconhecimento de nossas matrizes identitárias e sócio culturais, e que as dificuldades e o desconhecimento são ainda maiores quando tratamos dos povos indígenas, sobre os quais pouco estudamos, com os quais temos menos contato cotidiano, e pouca informação sobre sua organização, modos de vida, cultura material e imaterial, transmissão oral do conhecimento, hábito alimentares, técnicas artesanais…

Conquista dos Campos de Guarapuava. Chegão os novos Indios ao arranchamento, tirão os Camaradas da sua rôpa quanto puderão até ficarem alguns sem camiza, e só os ponches cubertos, e os vestem. Guache e aquarela: atribuído a José de Miranda, século XVIII

Conquista dos Campos de Guarapuava. Chegão os novos Indios ao arranchamento, tirão os Camaradas da sua rôpa quanto puderão até ficarem alguns sem camiza, e só os ponches cubertos, e os vestem. Guache e aquarela: atribuído a José de Miranda, século XVIII

Para que haja a garantia de direitos a estes povos, tão múltiplos em sua origem, tão ricos culturalmente, e tão massacrados pelo processo de colonização, acreditamos que é necessário passar pelo processo de (re)conhecimento e valorização de sua história, de sua diversidade, de suas contribuições à nossa composição societária, processo com o qual os arquivos e seus acervos certamente têm muito a contribuir!

Neste sentido, hoje gostaríamos de compartilhar o trabalho “De Coroados a Kaingang: as experiências vividas pelos indígenas no contexto de imigração alemã e italiana no RS do século XIX e início do XX”, (clique aqui para acessar) da historiadora Soraia Dornelles, pesquisadora do APERS e de outras instituições de memória, que a partir de acervos diversos buscou problematizar as experiências vividas pelos indígenas Kaingang ou Coroados, como eram conhecidos ao longo do período estudado, no processo de contato com os imigrantes alemães e italianos no século XIX e início do século XX. Soraia analisa relatos memorialísticos e literários, relatórios policiais e de governantes da província, correspondências, mapas e jornais, buscando reconstituir as relações travadas entre os grupos Coroados originários que habitavam o planalto e os imigrantes destinados a tais territórios.

Contextualizando o leitor a respeito do modo de vida Kaingang e de sua subsistência ancorada na pesca, coleta e caça rarefeita, com alimentação baseada no pinhão, Soraia demonstra a importância da mata de pinheiros e da distribuição de territórios entre os grupos familiares segundo a disponibilidade deste alimento principal, evidenciando o impacto causado aos locais que se deparavam com os novos e desconhecidos habitantes explorando suas terras outrora delimitadas segundo critérios ignorados que foram completamente ignorados pelo Império. A autora também desenvolve análise em torno das formas de sociabilidade desses indígenas, sua organização familiar, o papel da guerra e a importância das mulheres entre os Coroados, para demonstrar a relação intrínseca entre os conflitos que se sucederam com os imigrantes e sua cultura originária, que em muitos momentos entrava em choque e era desarticulada pelos valores e práticas introduzidas pelo Estado e pelos colonos.Colares Kaingang p. 45

Um importante exemplo tratado ao longo da dissertação é a análise das chamadas “correrias”, ou assaltos praticados pelos Coroados às colônias, muitas vezes registrados pelas fontes documentais. Durante a prática das correrias os indígenas saqueavam as roças de milho e apropriavam-se de objetos de ferro, desde os mais simples. A introdução do metal influenciou de maneira direta sua organização, sendo utilizado para produção de pontas de flechas, machados e outras ferramentas, e em trocas de diversos tipos, inclusive por mulheres – prática que aos olhos dos imigrantes era abominável, mas que pode ser compreendida em relação à cultura do grupo em questão. Tamanho o impacto causado pela introdução desse material na sociedade Kaingang, que objetos como botões, fivelas, cartuchos de balas e moedas foram incorporados a colares e outros adornos por eles produzidos, originalmente com fibras vegetais, sementes, dentes, garras e conchas. Sabendo-se que “os colares apresentam-se enquanto objeto de demonstração de poder e prestígio, pois a inclusão de cada elemento exposto no adorno remete à incorporação da força e poder daqueles animais ao seu portador”, supõem-se que as anexações de tais objetos “condensam simbolicamente os dois principais instrumentos empregados pela sociedade colonial no empreendimento da conquista dos territórios Kaingang: as armas e o dinheiro”. Esta apropriação é exemplar dos processos de assimilação e transformação cultural nesse contexto de contato entre culturas, e reflete a complexidade das relações estabelecidas entre imigrantes e indígenas.

Neste trabalho, construído a partir de farta documentação, Soraia também aborda a relação entre as lideranças dos Coroados, especialmente de Cacique Doble, com as autoridades provinciais, as tentativas de aldeamento e as formas de resistência a ele, entre outras importantes questões, demonstrando de forma clara as potencialidades dos arquivos e seus acervos para a produção de conhecimento a cerca de nossa história, que é também a história dos povos indígenas! Boa leitura e bom trabalho para aqueles que desejarem se aventurar em descobertas conduzidas pelas páginas dos arquivos!

Índios do Toldo Cacique Doble

Arquivos & Diversidade Étnica: muitas Áfricas no Brasil

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Ao escrever artigo para a Ciência Hoje Online sobre as raízes africanas da população brasileira a partir de estudos genéticos, Sergio Pena, geneticista e professor da USP, recorda os estudos artísticos feitos entre 1821 a 1825 pelo pintor alemão Johann Moritz Rugendas, que viajou por nosso país registrando e catalogando através de seus pincéis nossa fauna, flora e população. Rugendas “se encantou particularmente com a ampla variedade de povos africanos no Rio de Janeiro, que captou em sua arte (ver figura). Como relatado por ele, ‘em um só golpe de vista o artista pode conseguir resultados que, na África, só atingiria através de longas e perigosas viagens a todas as regiões dessa parte do mundo’”.

Etnias Africanas

No artigo em questão Sergio foca sua análise na unidade encontrada entre as amostras genéticas de brasileiros brancos de diversas partes do país, demonstrando a presença de marcadores genômicos que comprovam a ancestralidade africana da população pesquisada, e aponta para a África Central, de matriz bantu, como sendo a principal origem de tal ancestralidade. Assim como Rugendas já teria observado ao perceber o quanto os africanos escravizados passavam a comunicar-se com facilidade, mesmo sendo oriundos de diferentes partes da África e falando diferentes línguas – o que para ele era sinal de que sua fala possuía algo em comum – os estudos referenciados pelo geneticista comprovam a unidade da matriz étnico cultural bantu e sua preponderância entre a ascendência dos brasileiros, presente em 69% do total de amostras estudadas, contra 31% de marcadores que representariam outras origens africanas. Além da diversidade de etnias de origem bantu, predominantes nos atuais Congo e Angola, tanto os estudos artísticos de Rugendas, quanto os estudos genéticos, históricos e antropológicos que vêm sendo realizados nos últimos anos evidenciam a ampla gama de povos e culturas que foram trazidas ao Brasil, a partir de africanos monjolo, fon, cassange, benguela, cabinda, rebolo, mina, moçambique…

Mas o quê tudo isso tem a ver com documentos de arquivo? Bem, a verdade é que um olhar mais atento às fontes arquivísticas pode nos ajudar a ter uma experiência concreta de imersão na história, e de contato com essa diversidade! Como exemplo, hoje apresentamos um testamento de 1832, da localidade de Piratini, aparentemente mais um testamento entre tantos que foram legados a nós pelas gerações anteriores. E por um lado, realmente é apenas mais um documento, afinal, entre as prateleiras de nosso acervo há tantos outros capazes de contribuir nessa reflexão. Mas quando sabemos olhar para suas linhas, escritas com uma grafia de outro tempo, com tinta, pena e papeis de outro tempo, com abreviaturas e expressões que hoje estão datados, percebemos que dependendo de nossas interrogações não são apenas mais algumas folhas: são o registro da existência e de parte da história da testamentada Dona Maria Caetana da Conceição – ou seja, a pessoa que está deixando seu testamento – assim como de Esméria, Maria, Joaquim, José e Joanna, como você poderá acompanhar a partir da digitalização do documento, aqui abaixo.

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Maria Caetana era uma senhora da elite rio-grandense, que em 03 de junho de 1829 mandou chamar em sua casa o “escrivão do lar” da localidade para registrar seu testamento, por temer a morte devido a “seus costumados achaques” e “avançada idade”. Conforme nos permite descobrir o documento, era viúva do primeiro casamento, do qual teve cinco filhos, todos falecidos. Seu segundo marido, Manoel José da Silva Santos Velleda, com o qual teve dois filhos que declara seus herdeiros, foi vereador de Piratini na primeira composição de sua câmara, logo que a localidade foi elevada a vila. Seu nome figura entre os que assinaram importantes decretos durante a Guerra dos Farrapos, no período em que o Rio Grande proclamou-se uma república independente do Império do Brasil. Já Esméria era uma menina mulata, de sete anos, provavelmente nascida na província, filha da mulata Maria. Joaquim, já em idade avançada, declarado cego, era de nação mina. José, de cinquenta e seis anos, era casado com Joanna, de cinquenta. Ele era de nação congo, e ela, benguela. Todos eram escravos de Maria Caetana, que à vésperas da morte os libertou, com diferentes observações que podem ser abordadas a partir da leitura do testamento.

Essa descrição nos suscita diversas questões que se conectam a discussão inicial: em um pequeno plantel arrolado no testamento dessa senhora conseguimos identificar pessoas escravizadas de diferentes origens – mina, benguela, congo e criola, esta última relacionada aos escravizados nascido aqui. A mesma descrição nos permite inferir que dentro do plantel de Dona Maria, mesmo com as prováveis diferenças étnico culturais carregadas por Joaquim, José e Joanna, estabeleceram-se laços de afeto e família, expressos entre mãe e filha, marido e mulher, compadres e comadres. Que língua falaria o velho Joaquim ao chegar ao Brasil? Como passou a relacionar-se com José e Joanna, adultos de origem diferente da sua? Que histórias estes deviam contar à pequena Esméria, filha de Maria? O documento não afirma isso, mas quais seriam as chances de que José ou Joaquim fosse seu pai? Ou teria seu pai morrido, ou sido afastado dela ao ser vendido para outro senhor? Que palavras, comidas, ritmos, formas de cultivar a terra, tecer e trabalhar teriam trazido da África cada uma dessas pessoas? E como tais conhecimentos teriam se relacionado, amalgamado, traduzido em uma nova cultura, agora brasileira, da qual Esméria é grande expressão?

Uma pesquisa de maior fôlego certamente poderia nos ajudar a responder algumas dessas questões, analisando outros documentos produzidos ao longo da vida por Dona Maria Caetana, como registros de batismo e casamento de seus escravos, inventários e testamentos de outros membros de sua família, assim como relatos de afro descentes daquela região do estado, estudos sobre a cultura legada por escravizados mina, benguela ou congo à região sul do país, etc. Claro que esse é um exercício que gostaríamos de instigá-lo a realizar! Observando rapidamente a partir do Catálogo Seletivo de Documentos da Escravidão relativo aos testamentos já pudemos identificar a existência em nosso acervo do testamento de seu marido, Manoel Santos Velleda. Que outros bens o “chefe” daquela família traria arrolados em um documento de mesma tipologia produzido vinte anos depois? Conforme é possível observar no verbete, também são elencados diversos escravos:

Verbete Inventário Manoel Velleda

Nosso objetivo com este breve mergulho entre o mundo dos arquivos é justamente mostrar mais um indício das múltiplas “Áfricas” trazidas ao Brasil, das quais todos nós somos parte, somos fruto, enfim, somos filhos. Áfricas já observadas por Rugendas, por Sergio Pena, e por tantos outros… Para nós, servidores do APERS, este é um mundo muito presente e fascinante, com o qual convivemos a cada caixa de documentos que abrimos em nosso cotidiano. Descubra-o você também, e multiplique esse conhecimento entre seus alunos, seus colegas, amigos, familiares!

Arquivos & Diversidade Étnica: 12 anos de Escravidão e (re)escravizações – o que isso tem a ver com documentos de arquivo?

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Capa 12anosEscravidão     O filme 12 anos de Escravidão, do diretor Steve McQueen, está positivamente “na boca do povo”. Todos comentam a respeito do filme forte e sensível que deu o primeiro Oscar de Melhor Filme a um diretor negro. Steve, um britânico de 44 anos, levou para a telona a história real de Solomon Northup, um homem negro de Nova York, livre, pai de família, culto, que sabia ler e escrever em uma sociedade de maioria analfabeta, que tocava violino, mas que em 1841 foi sequestrado, transformado em escravo no Sul dos Estados Unidos, obrigado a trocar de nome, vendido a diversos proprietários, submetido aos mais cruéis regimes de trabalho e castigos. Solomon deixou sua história registrada em livro, que foi best-seller no final do século XIX e agora é redescoberto nos EUA.

     Realmente 12 anos de Escravidão pode ser considerado um belíssimo filme-denúncia, que nos faz refletir sobre os horrores da Escravidão. E é importante lembrarmos que a história de Solomon não é única, e infelizmente não é uma exceção, o que com certeza não diminui a importância de seu resgate, mas ao contrário, torna o papel desempenhado pelo filme ainda mais preponderante: a obra ajuda a ampliar o conhecimento e o debate em torno da escravidão, de suas perversidades, e de suas marcas em nossa sociedade. Nesse sentido, foi com grande satisfação que tomamos conhecimento do artigo 20 anos de escravidão, publicado pelo historiador Jônas Marques Caratti no Jornal Zero Hora. Jônas é pesquisador assíduo do Arquivo Público do RS, tendo conhecido, visitado e revisitado as histórias de muitos indivíduos escravizados e reescravizados através das páginas de nosso acervo, e nesse artigo lançou luz sobre tais documentos evidenciando que a história de Solomon tem inúmeras correspondências no Rio Grande do Sul: “Não é preciso ir longe para encontrarmos experiências de reescravização e escravização ilegal. É só dirigir-se à Rua Riachuelo, 1.031, no Arquivo Público do Estado, situado no Centro Histórico de Porto Alegre. Lá, o interessado encontrará milhares de documentos que revelam casos cinematográficos que mereceriam ser gravados por cineastas gaúchos”.

     Um dos casos citados por Jônas, em seu artigo, é o de Reina Rodrigues, que em 1854 foi sequestrada enquanto preparava a ceia em sua casa, e levada para São Leopoldo, onde foi vendida como escrava. A história de Reina está registrada em um dos processos crimes salvaguardados pelo APERS, e pode ser facilmente localizada a partir de nossos instrumentos de pesquisa, como o volume de Processos Crimes dos Catálogos Seletivos de Documentos da Escravidão. O processo mostra que Reina, solteira, 26 anos, e seu filho Candido Luz, de seis anos, foram sequestrados no dia 26 de março no Estado Oriental (Uruguai), e vendidos na localidade de São Leopoldo. Infelizmente os réus foram absolvidos.

     Caminhando entre acervos, percebemos diversos outros casos semelhantes. Assim como Cândido, filho de Reina, o menino Anacleto, livre, 11 anos, de Camaquã, filho de Marcela e ex-escravo de Antônio Escôto, foi capturado no Estado Oriental pelos réus José Maria e Crispim, que o conduziram a força até Jaguarão, onde foi vendido a Francisca Gomes da Porciúncula, que o obrigou a atender pelo nome de Gregório. Novamente nesse caso os réus foram absolvidos. Quem já pode assistir ao filme 12 anos de Escravidão certamente se lembrará das crianças que foram capturadas juntamente com Solomon, e da mãe, que desesperada ao encontrá-los em cativeiro, acreditando que poderia levá-los consigo, foi surpreendida pela escravização e venda de toda a família, inclusive para proprietários diferentes.

     Já no caso do menino Firmino, pardo livre de 12 anos, da localidade de Pelotas, filho de Felisbina, que foi capturado no ano de 1856 por Manoel Marques de Noronha e vendido a Joaquim José d’Assumpção, os réus foram condenados a três anos de prisão e multa.

     Esses e outros documentos podem ser acessados livremente na Sala de Pesquisa do Arquivo Público. São acervos que nos colocam em contato com o passado, e nos possibilitam diversas reflexões, de cunho humano, filosófico, sociológico, histórico… Como se transformava a vida dessas pessoas reescravizadas? A que sofrimentos eram expostos? Como tentavam lutar contra a escravização? Que fatores contribuíam para ampliar os casos de captura e reescravização de pessoas nascidas livres ou libertas? Será possível relacionar esses casos ao fim do tráfico internacional de escravos na segunda metade do século XIX? Como se dava o acesso à Justiça para essas pessoas, tão marginalizadas na sociedade brasileira escravista? De que forma os negros que lutavam contra a escravidão buscaram se organizar para disputar os rumos de sua história a partir do sistema judiciário, e que dificuldades enfrentavam? Porque em grande parte dos casos os réus eram absolvidos, se a legislação era clara ao tipificar como crime o ato de “reduzir à escravidão pessoas livres”?

     Essas e outras questões podem e devem ser levantadas a partir do filme, e a partir de nosso patrimônio documental, que está aqui no APERS, acessível a todos e todas!

Arquivos & Diversidade Étnica: novas histórias entre acervos e catálogos

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Na semana passada nós discutimos alternativas para atividades pedagógicas que podem ser suscitadas a partir do trabalho com os catálogos seletivos de Documentos da Escravidão, construídos e publicados pelo APERS. Vimos que o acesso aos catálogos e aos verbetes neles contidos viabilizam diversas atividades possíveis em sala de aula, assim como facilitam a pesquisa do professor, caso este opte por consultar os documentos na íntegra, em nossa sala de pesquisa.

capa_indiosHoje gostaríamos de difundir outra iniciativa semelhante, desse vez empreendida pelo Arquivo Público do Estado do Paraná, focada na temática indígena. Como parte da Coleção Pontos de Acesso, são os Catálogos Seletivos de Documentos Referentes aos Indígenas no Paraná Provincial, que estão em dois volumes: 1853-1870 (volume 03 da Coleção), e 1871-1892 (volume 04).

capa_indiosbConforme nos diz a introdução do volume 03, os verbetes desses catálogos “procedem de documentos do Fundo Administração Provincial, selecionados dos volumes encadernados sob o título Correspondências do Governo e de encadernados avulsos denominados Códices. Os primeiros consistem em correspondências que informam o presidente da província do Paraná sobre o desenvolvimento dos aldeamentos, os conflitos regionais entre etnias indígenas diferentes, dificuldades econômicas e outras que impediam o cumprimento de ações para a civilização e catequese; os últimos, cópias das correspondências com os ministérios, tratam de nomeações e demais atos do poder central relativos à civilização e catequese dos indígenas. Os temas extraídos dessas fontes primárias oferecem um rico panorama da construção das complexas relações entre os indígenas e os representantes dos poderes provincial e imperial, permeadas por conflitos e alianças, avanços e recuos” Ambos volumes totalizam 2.970 verbetes, que descrevem cada unidade buscando extrair informações de maneira padronizada, conforme normas arquivísticas.

Assim como já havíamos referenciado em relação aos catálogos produzidos pelo APERS, ressaltamos que a análise desses verbetes feita em conjunto entre educadores e educandos pode contribuir para aproximar os estudantes de uma temática muitas vezes negligenciada nas escolas brasileiras. Além disso, a quantidade de documentos ali representada demonstra que não são poucos os sujeitos históricos que viveram no período em questão. Há um grande número de indígenas retratados nas páginas desses acervos, pessoas que lutaram contra a morte e a escravização, e resistiram das mais diversas formas para manter sua cultura, suas formas de vida, sua integridade. Os verbetes a seguir são exemplos disso:

Verbete 05

Verbete 1162

Verbete 1165

Obviamente, para os professores do Rio Grande do Sul o acesso presencial aos documentos sobre indígenas no Arquivo do Paraná não será tão fácil quanto no APERS. Ao mesmo tempo, além de demonstrarmos que os próprios catálogos podem ser fontes inspiradoras para aulas e projetos pedagógicos riquíssimos, é importante lembrar que as novas tecnologias, que cada vez mais são aplicadas ao mundo dos arquivos, vêm encurtando distâncias, e a possibilidade do acesso a documentos por meios digitais vem se tornando cada vez mais disseminada. A própria navegação por páginas de diferentes arquivos e instituições de memória de diferentes locais do país, e até mesmo do mundo por ser uma boa pedida na hora de incrementar as aulas e expandir o horizonte de aprendizado e conhecimento. Explore esses recursos e acompanhe nossa série de postagens! No próximo mês trabalharemos a partir de sugestões de atividades pensadas a partir de documentos específicos do acervo do APERS.

Arquivos & Diversidade Étnica: descobrindo histórias entre acervos e catálogos

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Buscando efetivar a proposta de, através da série “Arquivos & Diversidade Étnica”, lançar luz sobre documentos que auxiliem na discussão a respeito de nossa constituição étnica, evidenciando as múltiplas potencialidades das instituições arquivísticas e de seus acervos para os processos de ensino e aprendizagem em torno da temática, hoje gostaríamos de difundir instrumentos de pesquisa que são uma porta de entrada de fácil acesso aos Arquivos para todos os seus usuários, e que com certeza podem ser utilizados por educadores nos mais diversos contextos educacionais para aproximar estudantes do patrimônio documental.

Estamos falando dos catálogos seletivos, produzidos a partir da pesquisa, seleção e descrição de acervos que tratam de determinada temática. São instrumentos de pesquisa construídos com a intencionalidade de ampliar o acesso e a difusão de terminados acervos, e elaborados a partir de um minucioso trabalho em que cada documento é apresentado em sua essência informacional a partir de um verbete.

Há anos o APERS vem trabalhando com o tema da escravidão e da luta por liberdade no Rio Grande do Sul, lançando 10 volumes de catálogos seletivos que evidenciam o peso da escravidão em nosso estado, e a presença dos africanos e afrodescendentes em nossa constituição societária. Todos esses catálogos podem ser baixados de nosso site em formato pdf, e estão referenciados de forma organizada em nossa aba “Publicações”. Partindo de exemplos extraídos de um desses volumes, gostaríamos de instigar visitas virtuais e reflexões coletivas a partir dos próprios catálogos, que podem gerar o desejo de realizar visitas presenciais e pesquisas no Arquivo!

Capa Processos CrimeComo o nome já diz, no volume intitulado “Processos Crimes: o escravo como vítima ou réu”, lançado em 2010, você poderá encontrar relacionados e descritos todos os processos crimes envolvendo escravos ou libertos mapeados em nosso acervo do Poder Judiciário, em cada Comarca. Os verbetes trazem informações a respeito dos escravizados, como nome, estado civil, cor, idade, origem, profissão, filiação e nome do proprietário, além de informações sobre o crime e a conclusão do processo. A introdução do instrumento explica de maneira detalhada a forma como foi construída a descrição dos cerca de 2 mil processos, auxiliando em sua compreensão. Veja exemplos:

Exemplo verbete crime 1

Exemplo verbete crime 2

Exemplo verbete crime 3

No primeiro caso encontramos três escravos, sendo dois “de nação”, ou seja, nascidos na África, e um crioulo, nascido no Brasil. São acusados de ferir com arma de fogo e ofender o proprietário de dois deles. No segundo caso encontramos relacionados uma série de escravos, de diversas idades e origens, acusados de organizar uma insurreição, formando um quilombo. Em ambos, os escravizados aparecem como réus. São apenas dois exemplos, entre tantos outros crimes semelhantes, que expressam a revolta e a organização de indivíduos que foram escravizados. São escravos congos, nagôs, moçambiques, angolas, crioulos da província e de outras localidades do país, com diferentes profissões e idades, de diferentes senhores, que, ligados pelos laços da opressão escravista, se encontram, se identificam e se rebelam.

Já no terceiro exemplo, a menina escravizada aparece como vítima de um crime que provavelmente foi muito mais comum do que os processos recolhidos ao APERS puderam registrar, já que o abuso de mulheres escravas por parte de seus senhores e outros homens brancos era muitas vezes percebido como natural. Fato que nos faz questionar até que pontos esses crimes chegavam a juízo.

O que esses processos demonstram? Que discussões a simples problematização de seus verbetes pode gerar em sala de aula? Que dados podem ser ressaltados? Acreditamos que os crimes e a violência, em si, devem ser o foco da análise quando o objetivo é questionar as bases da sociedade escravista, da qual somos legatários. Porém, também é possível realizar cruzamentos de dados entre processos para problematizar as origens dos escravos trazidos ao RS; analisar as funções por eles desempenhadas, expressas através de suas profissões, que muitas vezes eram bastante especializadas e complexas; relacionar suas idades e o envolvimento com determinados crimes; buscar processos de crimes ocorridos na localidade em que está situada a escola, para refletir sobre possíveis marcas na memória local… Enfim, as possibilidades são muitas, e isso apenas com o “resumo” dos documentos, que podem ser facilmente acessados e lidos através da internet.

Em relação ao método de trabalho, também há diversas possibilidades, adaptáveis à realidade da sua escola e ao tempo disponível para planejamento e construção da atividade. Sugerimos que você inicie o trabalho realizando uma pesquisa prévia, “viajando” pelas páginas dos catálogos a procura de casos que se relacionem com os objetivos traçados em seu plano de aula. Em seguida, anote as páginas que pretendes trabalhar com os alunos no laboratório de informática, onde eles mesmos poderão entrar em nosso blog e baixar o arquivo com o catálogo escolhido, primeiro explorando-o de maneira geral e em seguida se direcionando às páginas indicadas por você. Caso não seja possível utilizar o laboratório de informática, é possível preparar uma apresentação com os verbetes selecionados, que pode ser projetada em sala de aula com equipamento multimídia, ou até mesmo impressa para distribuir entre todos os alunos, ou por grupos. Com certeza em qualquer desses formatos a atividade renderá debates excelentes!

Mas, se com os verbetes a aula já será ótima, imagine o que você pode propor a partir de uma visita com sua turma à sala de pesquisa do APERS, ou a partir de imagens dos documentos que podes captar em pouco tempo e levar até a escola?! Neste caso, realize a pesquisa prévia no catálogo, anote as referências dos documentos que gostarias de analisar com seus alunos, entre em contato conosco fazendo o pedido dos mesmos, para que sejam separados e fiquem a sua espera na sala de pesquisa, e em seguida opte pelo que mais se encaixar na sua dinâmica: agende a visita para o grupo, ou se organize para vir ao Arquivo e tirar suas fotos, que depois poderão ser trabalhadas com os estudantes. Visualizando os processos certamente a aula poderá se tornar ainda mais interessante.

Arquivos & Diversidade Étnica

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2014.01.15 Arquivos e Diversidade Etnica     Ao longo de todo o ano de 2013 nosso blog apresentou postagens mensais relacionadas à aplicação da Lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas brasileiras. Foram posts que exploraram diversas possibilidades pedagógicas a serem utilizadas em sala de aula para trabalhar o tema em questão.

     Para 2014 estamos preparando postagens um pouco mais abrangentes em relação à temática, porém focadas nos documentos de arquivo: mensalmente apresentaremos propostas de reflexão sobre diversidade étnica no Brasil a partir de documentos de arquivo, com enfoque nas matrizes africanas e indígenas de nossa sociedade. Com isso pretendemos lançar luz sobre processos crimes, inventários, testamentos e outros documentos que auxiliem na discussão a respeito de nossa constituição étnica, assim como evidenciar as múltiplas potencialidades das instituições arquivísticas e de seus acervos para os processos de ensino e aprendizagem.

     Para uma ideia do que está por vir, releia a postagem “Aplicando a Lei 10.639: ensino de história afro e o uso de documentos de arquivo” clicando aqui, que foi produzida a partir de uma proposta semelhante, e confira as novidades na categoria “Arquivos & Diversidade Étnica” a partir de fevereiro. Esperamos que gostem!

Divulga APERS – Diretrizes 2014

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2014.01.08 Divulga APERS - Diretrizes 2014

Veja algumas novidades que teremos aqui nas mídias do Arquivo Público do RS em 2014:

Hoje acrescentamos mais uma aba em nosso blog a “Publicações”, com a finalidade de reunir, de forma clara, as publicações técnicas e científicas sobre o Arquivo Público do RS.

Na primeira quarta-feira de cada mês os arquivistas Silvia Soares e Carlos Henrique Nery escreverão artigo sobre o Sistema de Arquivos do Estado do RS (SIARQ/RS), onde explicarão de forma clara e sucinta como implementar a gestão documental nos órgãos da administração direta do Poder Executivo Estadual a partir do Decreto 47.022/10.

A categoria “Aplicando a Lei 10.639” escrita pela historiadora Clarissa Alves será remodelada e tratará sobre “Arquivos & Diversidade Étnica”, com artigos mensais a serem publicados na segunda semana de cada mês.

Já nas terceiras quartas-feiras a historiadora Clarissa Alves escreverá, a partir do mês de março, sobre a temática “Mulheres”, tendo como ponto de partida o catálogo seletivo resultante do projeto “Afinal, onde estão as mulheres no APERS? Gênero, memória e história”.

Na última quarta-feira de cada mês a arquivista Viviane Portella escreverá sobre os conceitos básico de arquivo na categoria “Arquivos & conceitos” voltada para não iniciados na área, visando explicar de forma clara e objetiva conceitos que permeiam a arquivística.

Nas segundas e últimas quartas-feiras, a partir do mês de maio, a historiadora Nôva Brando escreverá na categoria “APERS? Presente, professor!” propostas pedagógicas com a utilização de fontes arquivísticas voltadas para escolas de educação básica. Aguarde, no final do mês de abril mais novidades sobre o projeto!

A partir deste ano a categoria “APERS Entrevista” será atemporal e não terá como foco apenas pesquisadores de nossa Sala de Pesquisa ou que utilizaram nosso acervo ou ações como objeto de pesquisa.

Além disso, em uma iniciativa de valorizarmos e continuarmos a debater algumas questões, a partir da próxima semana publicaremos em nossa página no Facebook, às terças-feiras, informações sobre o SIARQ/RS. Nas quintas-feiras relembraremos os posts do “APERS Entrevista”, “APERS Conta histórias” e “Aplicando a Lei 10.639” já veiculados em nosso blog, também publicizaremos os serviços que o Arquivo presta a comunidade e as maneiras que esta tem para usufruí-los.

E claro, como não poderia faltar, na próxima semana inicia mais uma temporada da série “Mundo dos Arquivos”, com novas dicas de livros, filmes e seriados que tem em seu enredo arquivos, bibliotecas e museus!

Para 2014 desejamos que você continue a nos acompanhar pelas mídias, mas claro, também queremos sua presença em nossa Sala de Pesquisa, eventos e demais atividades que realizamos visando sua participação e interação!

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