Novo site do APERS: nosso blog de casa nova!

Deixe um comentário

Nosso blog de casa nova

Em meio as comemorações dos 114 anos do Arquivo Público, no dia 10 de março a instituição celebrou o lançamento de seu novo site, desenvolvido pela PROCERGS em parceria com servidores da instituição.

Respeitando parâmetros de acessibilidade e buscando ampliar a transparência em relação aos trabalhos desenvolvidos pelo APERS, o site nasce com um layout moderno e intuitivo que convida seus usuários a conhecer tanto os serviços ofertados à comunidade quanto as atividades desenvolvidas no interior do Arquivo, desde a construção de uma política de gestão documental para o estado do RS até os inúmeros processos aplicados ao tratamento, preservação e difusão de seus acervos.

A partir de um menu principal estão sistematizadas informações sobre a instituição, gestão documental, serviços prestados, acervos, comunicação e publicações. A página inicial traz em destaque, além dos principais serviços, os ícones de acesso aos núcleos de trabalho nos quais o Arquivo organiza-se e o frame “Blog do APERS”, hospedado na aba “Comunicação”, que incorporará a tarefa até então exercida aqui, na plataforma WordPress: compartilhar semanalmente conteúdos relacionados ao nosso trabalho, assim como textos produzidos para difusão do acervo e de temáticas pertinentes à área de arquivos. Visualize a nova estrutura pela imagem a seguir:

Blog do APERS

Assim, informamos que nosso querido Blog institucional será mantido no ar como um repositório para consulta a notícias anteriores a março de 2020. Essa será a última postagem aqui. A partir de agora, para manter-se conectado conosco, navegue no site www.apers.rs.gov.br. Vem conosco! Mudamos de casa para melhor recebê-los!

Entrevista com Melina Kleinert Perussatto – Parte I

Deixe um comentário

logo apers entrevista

Melina Kleinert Perussatto é licenciada em História pela UNISC (2007), mestra em História pela UNISINOS (2010; dissertação disponível aqui) e doutora em história pela UFRGS (2018; tese disponível aqui). Foi professora substituta na Universidade Federal da Fronteira Sul, é docente de história na Secretaria Municipal de Educação de São Leopoldo e realiza estágio pós-doutoral na UNISINOS.

Melina, por favor, você pode falar um pouco sobre a sua trajetória acadêmica?

Eu sou graduada em História pela UNISC, Santa Cruz do Sul, me graduei em 2007. Mestre em História pela UNISINOS, concluí a dissertação em 2010, sob a orientação do Paulo Moreira. Fiz o meu doutorado na UFRGS, sob orientação do Fábio Kuhn, com sanduíche na UNICAMP, sob supervisão da Lucilene Reginaldo. Defendi em 2018. E agora eu curso o pós-doutorado, de novo com o Paulo Moreira na UNISINOS, voltando à casa. É isso em termos de formação acadêmica.

Qual é o papel das fontes do Arquivo Público nessa formação?

São fundamentais em minha trajetória de pesquisa, ao lado das fontes do Arquivo Histórico Municipal de Rio Pardo, onde fui bolsista de iniciação científica, entre 2006 e 2007. Acabou que uma colega, a Fábia Beling, encontrou uma documentação da junta de emancipação de escravos, de Rio Pardo, que eu passei a pesquisar. O professor José Remedi, que era o coordenador do projeto e que se tornou meu orientador, me deu a liberdade de começar uma pesquisa autônoma, da qual derivou o meu TCC. E as fontes do Arquivo Público foram fundamentais para complementar essa documentação e ampliar minha pesquisa. Chegaram até mim por meio do guia de fontes “Documentos da Escravidão”. Como eu morava e estudava do interior, em Santa Cruz do Sul, e era bolsista em Rio Pardo, o acesso foi facilitado por essa disponibilidade online, ressaltando a importância da produção desses materiais. E foi por meio desse guia, o guia das alforrias, que eu iniciei meu contato com o Arquivo Público do Rio Grande do Sul. Mais para frente, em 2007, já no final da graduação, consegui vir algumas vezes para cá para pesquisar, não só os documentos originais, mas também levantar outras fontes para elaborar o meu projeto de mestrado. Todo o meu mestrado eu passei aqui, foram dois anos de imersão profunda no Arquivo Público em que eu trabalhei não só então com as alforrias, mas também com os inventários, testamentos, processos crime. Depois eu trabalhei também com fontes da Cúria e do Arquivo Histórico, também fundamentais. Na tese eu retorno, depois de um bom tempo afastada daqui, porque acabei mudando de tema, abordagem e período, mas voltei para cá para olhar de forma mais qualitativa uma tipologia documental muito utilizada durante o mestrado e ressignificar também a fonte, no caso, os inventários post-mortem.

Eu creio que entre a sua dissertação e sua tese, a gente percebe uma nítida transição que não é do seu trabalho somente, mas é mais geral da historiografia, em que uma ênfase em aspectos estruturais cede lugar à atuação subjetiva dos sujeitos históricos. Isso não quer dizer que antes você desprezasse a atuação dos atores sociais, mas você mesma me disse uma vez que é muito diferente deduzir ela com os processos-crime, depoimentos, ou você ver diretamente as palavras das pessoas nos jornais, nas fontes dos jornais. Você concorda? Como você vê essa questão?

Então, eu concordo sim. É um processo, embora exista uma nítida ruptura, uma mudança bastante significativa, eu entendo como processo que acompanha a historiografia. Na dissertação eu fiz um trabalho bastante quantitativo, porque me inseri dentro de um debate historiográfico, de uma produção historiográfica, voltada a mostrar empiricamente, quantitativamente, o quão estrutural foi a presença de pessoas escravizadas no Rio Grande do Sul e como as lutas por liberdade estiveram sempre presentes. Trabalhei nessa dialética entre escravidão e liberdade a partir dessas fontes diversas, com um método quantitativo. O cruzamento nominal foi fundamental para eu chegar em algumas trajetórias e humanizar o processo, evidenciando experiências e agências. No doutorado, passei a trabalhar com imprensa negra e buscar a trajetória dos fundadores e apoiadores [do jornal O Exemplo], levando a uma mudança da perspectiva de análise. Se antes eu chegava às histórias por meio da quantificação, digamos assim, por meio da serialização de fontes localizava alguns casos, algumas histórias que se destacavam, e ia buscando fontes e cruzando para compor essas trajetórias, na tese foi um processo contrário. Eu tinha alguns nomes, nomes completos, inclusive, porque na dissertação acabei, por contas dos homônimos e da ausência de sobrenomes, realizar a busca nominal a partir nome do proprietário de pessoas. Na tese, ao me dedicar a compreender a formação do grupo que fundou o jornal O Exemplo em 1892, eu pude buscar pelo nome próprio das pessoas nas fontes. Enfim, se na dissertação as trajetórias foram emergindo da serialização das fontes, na tese elas foram o ponto de partida e marcaram meu retorno ao APERS. Por meio dos nomes dos fundadores de O Exemplo e seus familiares pude encontrar inventários, testamentos e outras fontes para recompor suas trajetórias. Também fontes de outros arquivos, como a Cúria e o Arquivo Histórico, se somaram a isso. Então sim, houve uma mudança e eu diria que muita influenciada pelos trabalhos do campo do pós-Abolição, com destaque à tese da Ana Flávia Magalhães Pinto, que lança o desafio de a gente rever a lente de análise, o foco, as perguntas, nos estudos sobre experiências negras no Brasil oitocentista. Ou seja, ao invés de partir da escravidão, partir da liberdade. Mediada por novas leituras e propostas de trabalho, voltei para o século XIX, para o período que trabalhei na dissertação, mas olhando para as fontes pelo viés da liberdade. Todos os fundadores do jornal O Exemplo nasceram livres em tempos de escravidão. Até o momento identifiquei que somente o pai de dois dos fundadores, Calisto Felizardo de Araújo, passou pela experiência da escravidão. Ainda assim, o foco recaiu sobre a forma como ele foi construindo sua liberdade desde os tempos de escravidão no espaço urbano de Porto Alegre, entre meados do XIX até as primeiras décadas do XX. Isso para ficar em apenas um exemplo.

2020.03.04 - Melina

Uma questão que tenho para você é a seguinte: boa parte do impulso de uma história quantitativa e serial no Rio Grande do Sul tem a ver com as fontes do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul como inventários, alforrias… Então essas fontes são tidas como preferenciais na análise serial quantitativa. Como é que você vê o papel dessas fontes na reconstituição de trajetórias?

Bom, eu acho que já marquei um pouco disso na questão anterior. A análise quantitativa, serial, permitiu que eu demonstrasse em minha dissertação, por uma visão macro, estrutural, o peso da escravidão até sua derrocada final, mas também da liberdade negra desde o século XVIII na sociedade sul-rio-grandense. Basta ver os trabalhos do [Luís Augusto Ebling] Farinatti, da Helen [Osório], do Paulo [Roberto Staudt Moreira], do Thiago [Leitão Araujo], da Sherol [dos Santos], do Jônatas [Marques Caratti], do Jovani [Scherer], do Gabriel [Santos Berute], do Marcelo [Santos Matheus], da Natalia [Garcia Pinto], do Leandro [Goya Fontella], do Luciano [Costa Gomes], da Bruna [Emerim Krob], do Matheus [Batalha Bom], dentre tantos outros. Todo esse conjunto de trabalhos apresenta trajetórias e/ou experiências de pessoas negras, em parte, reconstruídas a partir de informações contidas em inventários, mas também alforrias, documentos de compra e venda etc. Se os resultados de análises quantitativas vindos deste trabalhos nos ajudam a pensar na presença negra mais em termos estruturais, não só na escravidão, mas também na liberdade, percebo que os trabalhos de hoje tem avançado em termos de problemas e abordagens. Não há mais a necessidade de provar empiricamente, serializar a documentação para provar que houve escravidão e que a liberdade sempre esteve presente, ou mostrar quantitativamente o predomínio e o protagonismo de mulheres negras buscando a liberdade, de que elas estavam majoritariamente no mundo do trabalho doméstico, por exemplo. Hoje a gente já parte desse dado, como um dado comprovado, que demanda que se refine e sofistique as questões e abordagens. Como exemplo os trabalhos que têm sofisticado a análise a partir das intersecções de gênero, raça e classe, do aporte teórico-metodológico de feministas negras, do pensamento de mulheres negras. Ainda que em diálogo com as produções anteriores, acordada sobretudo em E. P. Thompson, estes novos trabalhos certamente marcam uma nova inflexão historiográfica e informam formas outras de ler uma fonte, de perceber elementos em uma fonte, e produzir análises e resultados bastante diferentes, ainda que em diálogo. Então, respondendo à pergunta, as diversas peças que compõem um inventários viabilizam que acessemos informações qualitativas valiosas para o estudo de trajetórias, seja na escravidão ou na liberdade, e hoje presenciamos uma importante inflexão teórico-metodológica.

Quais fontes mais especificamente você usou nessa análise qualitativa? Você mencionou os inventários… E o que mais?

Então, aqui no Arquivo eu acabei buscando nominalmente – também é outro recurso bem importante que o Arquivo disponibiliza que é a busca nominal no site. Com auxílio deste recurso encontrei os inventários de apoiadores e fundadores do jornal, os testamentos que estão anexos aos inventários, também documentação de despejo, no pós-Abolição, inclusive você me ajudou a localizar esses documentos, que envolvem a irmã de dois dos fundadores de O Exemplo. Também encontrei outra ação de despejo, realizada pelo patriarca desta família, citado anteriormente, na década de 1880. Por meio desses despejos temos também os arranjos de moradia e as dificuldades de materiais de existência que a população negra enfrentou, mas também a formação de patrimônio e as possiblidades de renda e sobrevivência. Eu acho que foram essas fontes, que eu me lembro agora.

Queria pedir para falar um pouco sobre o “Exemplo”, porque quem vai ler a entrevista não está conhecendo o seu trabalho. Então queria lhe pedir para falar um pouco desse jornal.

Então, o jornal O Exemplo surgiu em Porto Alegre em 1892, bem no finalzinho do ano, sob iniciativa de oito jovens homens negros ou “homens de cor”, que era forma como eles se autonomeavam, se autoidentificavam, na barbaria do Calisto Felizardo de Araújo que, por sua vez, é um desses caras que consegui reconstituir e que venho reconstituindo a trajetória no pós-doutorado. Dois filhos dele, que também eram barbeiros, participaram da fundação, que é o Esperidião e o Florêncio Calisto. Também se fizeram presentes o Aurélio Júnior e o Sérgio de Bittencourt, dois filhos do Aurélio Viríssimo de Bittencourt, que o professor Paulo Moreira tem biografado,1 e outros quatro jovens “homens de cor” (Marcílio Freitas, Alfredo Souza, Arthur de Andrade e Arthur Gama). O projeto, o programa do jornal, era “defesa de nossa classe e o aperfeiçoamento de nossos medíocres conhecimentos”, que se desdobrou basicamente na luta contra o preconceito de cor e a luta por instrução. Esta última pode ser compreendida como a luta pela massificação do ensino, porque eles entendiam que a instrução seria a via de melhorar a condição da população negra no pós-Abolição, viabilizando o acesso a direitos ou a conquistas de direitos, como a cidadania política, mas também de lutar contra todos os males do preconceito de cor e erradicá-lo. Porque no entendimento deles, aí pensando na maneira como manejavam a ideia de raça, a raça não era algo que conferia uma diferença inata, a raça era uma construção social. Então na medida em que os “homens de cor”, para além deles, também se instruíssem, porque todo mundo era capaz de alcançar os saberes, bastando pra isso a oportunidade, todo o preconceito de cor cairia por terra Por meio de O Exemplo pretendiam mostrar que um homem negro também era capaz de aprender, bastando para isso oportunidade e condições de permanência. Associando instrução e cidadania eles construíam, manejavam, politizavam ideias de raça, e aqui localizo todo debate em torno da racialização. Nesse sentido, a luta registrada em O Exemplo era uma luta por direitos, por cidadania, por humanidade. Era, enfim, um projeto civilizatório, de humanidade, que eles tinham em vista, que eles encabeçaram por meio de O Exemplo. O jornal durou até 1930, teve várias pessoas que participaram, vários grupos que foram constituindo esse projeto e alguns desses nomes que fundaram seguiram por um bom tempo, ainda que com renovações no quadro. Um deles é o Esperidião Calisto, que é filho do já referido Calisto Felizardo de Araújo, proprietário do estabelecimento onde se deu a fundação do jornal. Então, se num primeiro momento a gente tem esse grupo mais reunido em torno desse coletivo formado pelos filhos do Calisto, pelos filhos do Aurélio, um funcionário dos Correios e um funcionário da Alfândega, um funcionário do Tesouro, um da Santa Casa, depois tem a entrada de militantes do movimento operário, mostrando também a aproximação das lutas promovidas por grupos negros instruídos e que viam no funcionalismo público um espaço de inserção profissional, com as lutas promovidas por homens negros operários e professores, inseridos no movimento operário. O Tácito Pires, por exemplo, aparece na historiografia do trabalho, mas não como homem negro e no O Exemplo a questão racial é por ele marcada o tempo todo. Tácito Pires era socialista e por meio dele é possível perceber como o socialismo informou e atualizou o projeto de O Exemplo, marcando o lugar do negro como um trabalhador do pós-Abolição e as especificidades que a raça conferia a essa condição. Este último ponto viabiliza ainda tensionar a prevalência da classe sobre a raça nos estudos sobre história do trabalho. A trajetória de Tácito Pires ajuda a problematizar a intersecção de classe e raça. A gente tem a entrada dos anarquistas também. Com o passar do tempo, outros grupos, outros vieses ideológicos informam o projeto. Então, em resumo, O Exemplo é um projeto múltiplo, plural, composto por pessoas com diferentes trajetórias, diferentes projetos, mas que se unem em torno de uma causa que é a luta contra o preconceito de cor e por instrução, por direitos e humanidade, fora outras bandeiras que acabam se somando.

Confira na semana que vem a segunda parte da entrevista com a historiadora Melina Kleinert Perussatto!

1 MOREIRA, Paulo R. Staudt; BITTENCOURT, Aurélio Viríssimo de. Burocracia, política e devoção. In: GOMES, Flávio; DOMINGUES, Petrônio (org.) Experiências da emancipação: biografias, instituições e movimentos sociais no pós-Abolição (1890-1980). São Paulo: Selo Negro, 2011. p. 83-107. MOREIRA, Paulo R. Staudt. O Aurélio era preto: trabalho, associativismo e capital relacional na trajetória de um homem pardo no Brasil Imperial e Republicano. Estudos Ibero-Americanos, v. 40, n. 1, p. 85-127, jan-jun. 2014.

Participe do evento “Moradia popular: a cidade em disputa no pós-Abolição” #NovembroNegro

Deixe um comentário

WhatsApp Image 2019-11-15 at 11.36.03

No novembro negro, o Arquivo Público promove, em parceria com o GT Emancipações e pós-Abolição da ANPUH-RS e com o Quilombonja, o seminário “Moradia popular: a cidade em disputa no pós-Abolição” no dia 25 de novembro.

A atividade é gratuita e não necessita inscrição prévia. Vamos participar!

Programação:

25 de novembro | 09h-12h

Lutas por moradia em Porto Alegre: perspectivas históricas e geográficas

– Daniele Vieira (POSGEA / UFRGS)

– Álvaro Klafke (APERS)

– Rodrigo Weimer (APERS)

– Vinícius Furini (DEE)

25 de novembro | 14h-18h

Da Bonja pro Mundo: territórios e lugares na cidade plural

Coletivo Quilombonja

Clique aqui para acessar o evento no Facebook. Informações pelo e-mail gteprs@gmail.com.

Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS no VII Ofícios de Clio

Deixe um comentário

2019.10.23 APERS no Ofícios de Clio

Ontem pela manhã, 22 de outubro, parte de nossa equipe do Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS esteve na Unisinos participando do evento VII Ofícios de Clio – Patrimônio e Memória em Risco: Desafios do Século XXI, promovido pelo GT Acervos, Memória e Patrimônio da ANPUH/RS e pelo Programa de Pós-Graduação em História da Unisinos. Nossa contribuição se deu por meio da oferta da oficina “Desvendando o Arquivo Público: relações de gênero na história” como parte da programação do evento.

Foi uma excelente oportunidade para difundir o Arquivo Público, seus acervos e serviços, além de reafirmar o compromisso da instituição com o acesso à informação e a valorização de seu potencial educativo e cultural. Agradecemos a todas e todos os participantes, que se engajaram na oficina e participaram ativamente das reflexões e debates propostos, assim como à organização do evento, pela oportunidade e reconhecimento ao nosso trabalho. Desejamos vida longa ao “Ofícios de Clio”!

 

DSC05163

 

Participe do curso “Close na Sala de Aula: Educar para a Diversidade”

Deixe um comentário

2019.09.18 Close na sala de aula

O Arquivo Público do Estado está participando, junto com o grupo Close – Centro de Referência da História LGBTQI+ do RS, da organização do evento “Close na Sala de Aula: Educar para a Diversidade”. A iniciativa é um curso de formação de professores da Educação Básica voltado às temáticas de diversidade de gênero e sexualidade. Ocorrerá no dia 19 de outubro, sábado, no Auditório do APERS, é gratuito e as vagas são limitadas. Participe!

Informações e inscrições pelo e-mail: closehistoria@gmail.com.

APERS na II Semana Acadêmica do Curso de História da PUC – Aconteceu!

Deixe um comentário

Semana Acadêmica

Na última quinta-feira, a historiadora do APERS, Nôva Brando, participou da II Semana Acadêmica do Curso de História da PUCRS a convite dos estudantes que compuseram a Comissão Organizadora do Evento. Durante o turno da manhã, ofereceu a oficina “Historiadores em Arquivos: porquê?“, na qual problematizou a presença desses profissionais em arquivos públicos a partir da sua experiência no APERS.

Nôva apresentou a Instituição, suas principais funções e trabalhos, a partir do Acervo da Comissão Especial de Indenização a Ex-presos Políticos, no qual esteve pessoalmente envolvida durante os anos de 2013 a 2015. A ideia foi propor reflexões acerca do papel do historiador em um arquivo à luz das problematizações da história pública, tendo como ponto de partida um conjunto documental específico e num determinado contexto, aquele no qual o Estado brasileiro instaurou a Comissão Nacional da Verdade.

Também teve espaço para a participação daqueles que acompanharam a oficina. Foram reproduzidos processos dos ex-presos políticos Carlos Alberto Telles Franck, Dario Viana dos Reis, Elson Bidigaray, José Wilson da Silva e Pedro de Arbues Martins Alvarez. Com a característica de serem processos de ex-militares que se opuseram ao Golpe de 64 e que por isso sofreram perseguições e torturas, os documentos se transformaram em fonte para proposições de atividades de difusão de acervo na perspectiva de diálogo com questões do tempo presente, da história pública e da função social do historiador.

O Arquivo agradece pelo convite e pela participação dos estudantes e reconhece, mais uma vez, a importância desses encontros entre academia, experiências docentes e instituições de memória. Foi ótimo!

E se quiser dar uma espiadinha em parte do que foi apresentado, clica aqui!

Entrevista com Jonas Moreira Vargas – parte I

Deixe um comentário

logo apers entrevista

Jonas Moreira Vargas é professor no departamento de História da Universidade Federal de Pelotas. Graduou-se em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2004 e defendeu seu mestrado na mesma instituição em 2007 (dissertação premiada no concurso de teses e dissertações da ANPUH – RS, em 2008). Defendeu sua tese de doutorado em 2013, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (menção honrosa do concurso de melhor tese de doutorado da Associação Nacional de História no biênio 2013-2014). De volta à UFRGS, realizou estágio pós-doutoral entre 2014 e 2015. Sua dissertação e sua tese foram publicadas: “Entre a Paróquia e a Corte – os mediadores e as estratégias familiares da elite política do Rio Grande do Sul (1850-1889)” (Editora UFSM / ANPUH, 2010) e “Os Barões do charque e suas fortunas. Um estudo sobre as elites regionais brasileiras a partir de uma análise dos charqueadores de Pelotas (Rio Grande do Sul, século XIX)” (Óikos, 2016).

– Jonas, queria te pedir para falar um pouco da tua trajetória profissional e das principais pesquisas que tu realizaste.

Então, eu considero que o meu primeiro grande trabalho com fontes e com arquivos, início da trajetória profissional, foi quando eu fui estagiário do Memorial do Judiciário aqui no Rio Grande do Sul. Eu lembro que escolhi estudar os juízes de direito no Rio Grande do Sul, os magistrados, fazer uma prosopografia dos juízes de direito que atuaram na província entre 1833 e 1889, ver a prática mesmo da Justiça no cotidiano. E aí eu tive contato com o meu primeiro acervo que foi o Arquivo Histórico, nessa ocasião eu conheci o Paulo Moreira e a gente sabe que o Paulo, se tu conversas com ele um pouco, ele te dá várias dicas, se empolga e tudo. E aí eu acabei vindo pesquisar aqui no Arquivo Público, que nesse primeiro momento eu não utilizei muito as fontes do Arquivo. Logo depois eu entrei para o mestrado na UFRGS e aí eu já tinha esse meu interesse de estudar as elites, né? Acho importante estudar elas porque as decisões que elas tomam afetam um grupo muito maior de pessoas, acabam afetando nossas vidas, com projetos muitas vezes contrários ao da maioria da população. E aí no mestrado eu trabalhei basicamente com as famílias da elite política daqui do Rio Grande do Sul, na segunda metade do século XIX, até o fim da Monarquia. E depois, no doutorado, continuei o meu interesse pelos estudos das elites, mas em vez de estudar, digamos, os mais poderosos relacionados a política, eu tentei investigar as famílias mais ricas, aí eu fiz um recorte sobre os charqueadores em Pelotas. Aí foi um trabalho, que aí sim, o Arquivo Público foi a minha segunda casa, porque eu pesquisei muito aqui e foi fundamental para a minha tese. Entre o mestrado e o doutorado, eu fui professor substituto em Santa Maria na federal, aprendi muito lá. E ainda depois do pós-doutorado na UFRGS, eu comecei a pesquisar um pouco o caudilhismo, o pós Revolução Farroupilha e logo depois eu fui para UFPEL, que é onde eu estou. Mas, basicamente, eu destacaria isso.

E qual é a importância das fontes do Arquivo Público nas suas pesquisas, principalmente no doutorado que tu mencionaste que tem uma base mais forte no Arquivo Público?

2019.09.04 Jonas

Eu gostaria de começar respondendo essa pergunta falando um pouco da minha pesquisa de mestrado, porque eu acho importante, né? Porque a princípio se tu examinares o rol de fontes que tem no Arquivo Público, tu achas que não dá para se trabalhar com história política. Mas, como no mestrado eu estava predisposto a fazer uma história social da política, porque muitos da historiografia tradicional trabalhavam só com o anais da Assembleia, com imprensa, com o programa dos partidos e eu achei que outros tipos de documentação poderiam ser possíveis de ser tratados, a partir do ponto de vista da história social da política. Então utilizei processos crimes, inventários de Deputados, crimes em que os escravizados deles estavam envolvidos, ações que eu encontrei aqui para o alistamento eleitoral, então, eu comecei a perceber a riqueza da documentação daqui. Os inventários e os processos crimes são os que eu mais gosto. E aí já com essa experiência no doutorado, sim, como eu estava focando mais nas famílias mais ricas de charqueadores, eu pesquisei muito aqui os inventários post-mortem em Pelotas para fazer uma estrutura de posse dos cativos, os níveis de riqueza, o perfil dos investimentos dessa elite e analisar o patrimônio da população pelotense no período, mais na segunda metade do XIX. Os processos crimes também; crimes envolvendo escravizados nas charqueadas eu pesquisei muito aqui também. E os registros notariais de compra e venda, muita coisa, nossa… Essa documentação foi importante pra mostrar que as charqueadas de Pelotas não perderam escravizados para os cafezais do sudeste como se defendia. E aí ajudou a traçar então esse perfil socioeconômico da população pelotense, esses movimentos desses padrões no tempo e tal. Então, foi fundamental, eu tive aqui a minha tese e ela não teria surgido se não fosse a documentação aqui do Arquivo.

– Eu queria te pedir para falar um pouco sobre as metodologias que tu utilizaste…

Então, tanto no mestrado, como doutorado, eu fui fortemente influenciado pela micro-história italiana, principalmente pelos textos do Giovanni Levi, sobre estratégias familiares, mercado de terras, mediação política. Mas, eu destacaria assim, mais o método da prosopografia que, para quem não sabe é a análise de diversas biografias de um grupo em comum buscando tentar traçar um perfil coletivo deste grupo a partir de um questionário, uma origem social, trajetória, carreira, padrão de recrutamento, casamento, relações familiares e a partir do mestrado eu comparei então a elite do Partido Conservador com o Partido Liberal; se tinha uma ideia na historiografia que o Partido Liberal representava os interesses dos estancieiros da região da campanha e a partir do método prosopográfico eu mostro que isso não acontecia, o Partido Conservador estava muito presente na campanha e se tem um partido que representava os interesses dos estancieiros foi mais o Conservador. E no doutorado, esse método, eu utilizo também para ver o que diferenciava as famílias mais ricas de charqueadores das menos ricas, no caso. Qual seria, talvez, brincando, né, o segredo dessa… por que um grupo de famílias estava no topo dessa hierarquia social e conseguia de uma geração para outra reproduzir essas estruturas patrimoniais e comportamentais, e enfim…? E também um método que eu gosto bastante é a análise de redes sociais que eu uso muito. Na política é muito importante as relações que os parlamentares tinham com outras famílias de outras províncias do interior, como eles manejavam isso para ganhar as eleições e aí as correspondências é uma fonte muito importante para essa metodologia, eu acabei explorando ela mais lá no Arquivo Histórico. Acho que é importante o historiador cruzar vários métodos, né. Dependendo do objeto de pesquisa, das fontes e tal.

Confira a continuação da entrevista com Jonas na próxima semana!

APERS lança perfil no Instagram e abre espaço para pesquisadores

Deixe um comentário

No dia 1º de agosto, comemorando os 8 anos do Divulga APERS, seu serviço de difusão virtual, o Arquivo Público do RS lançou sua conta no Instagram, rede social online de compartilhamento de fotos e vídeos entre seus usuários.

2019.08.07 Lançamento Instagram

Desde 1º de agosto de 2011 o APERS mantém o Divulga APERS, criado a partir da compreensão de que seria importante acolher as novas ferramentas de comunicação para ampliar a visibilidade da instituição e divulgar suas ações; estimular a pesquisa em seus acervos e fidelizar seus usuários; aproximar a sociedade e incentivar a sua participação nos eventos promovidos. À época, após estudo das mídias em meio eletrônico utilizadas por instituições públicas afins, em 2011 optou-se por criar o blogue livre (plataforma WordPress), e o microblogue Twitter. Em março de 2012 criou-se também a fanpage do APERS junto ao Facebook.

Passados alguns anos dessa rica experiência, após 1.445 postagens, mais de 900 mil visitantes e uma média diária de 330 visualização no blog, 1.794 seguidores no Twitter e 6.258 curtidas no Facebook, acreditamos que é tempo de renovar. Acompanhando os desdobramentos dos usos das mídias sociais e percebendo o crescimento do Instagram enquanto ferramenta de conexão entre pessoas, propusemos que o APERS passasse a fazer parte dessa rede com o objetivo de ampliar a interação com a sociedade por meio de uma rede social visual e dinâmica, assim como de celebrar mais um aniversário do Divulga.

Serão quatro categorias de postagem: Conjunto Arquitetônico, enaltecendo seus prédios com fotos antigas e atuais os prédios, tanto externas quanto internas, de suas estantes/prateleiras, escadarias, iluminação, janelas, portas, jardim, ou seja, toda estrutura patrimonial do APERS; Acervo Documental, divulgando acervos e documentos do Arquivo, aqueles mais acessados, mais pesquisados, ou até mesmo aqueles fundos que ainda não são conhecidos pelo grande público/pesquisadores, também documentos relativos a datas importantes do estado, ou aqueles que remetem a temas e acontecimentos presentes no imaginário e nas memórias afetivas dos gaúchos; e por fim, Conservação e Preservação, categoria em que apresentamos processos de conservação preventiva e restauro, materiais e maquinários utilizados nessas atividades. As postagens acontecerão todas as segundas e quintas-feiras.

A última das categorias é um convite à interação: chama-se Imagem do Pesquisador, e foi pensada para aumentar nosso diálogo com as e os usuários do APERS, abrindo a possibilidade destes fazerem parte da nossa história também nas redes sociais! Você que conhece o APERS e realizou algum registro fotográfico atual dos prédios, acervos ou documentos de sua pesquisa, ou possui registros antigos da instituição (com gravura, recorte de jornal, folheto, etc), convidamos a nos enviá-lo para que, se selecionado, seja compartilhado na rede social.

Para participar, você pode escolher uma imagem autoral dos prédios, acervos ou documentos e mandar para o e-mail divulga-apers@planejamento.rs.gov.br com o título “Imagem do Pesquisador”. A fotografia deve vir com uma breve descrição, por exemplo, se for de um documento, breve conteúdo do mesmo, seu número, de qual acervo faz parte, temática de pesquisa, etc, assim podemos contextualizá-lo na postagem, e claro, o nome completo do autor da fotografia.

Todo último dia de postagem do mês, o APERS escolherá uma “imagem do pesquisador” para compartilhar no perfil, e dar os créditos especiais ao usuário participante. Neste mês de Agosto, essa postagem especial acontecerá dia 29.

Se você ainda não nos segue, poderá acessar nosso perfil no Instagram pesquisando por @arquivopublicors ou acessando o link. Nos vemos lá 😉

Entrevista com Paulo Roberto Staudt Moreira – parte 4 de 4

Deixe um comentário

logo apers entrevista

Hoje compartilhamos a última parte da entrevista com o professor Paulo Roberto Staudt Moreira. Na semana anterior, parte 3, o entrevistado observava o vigor e a riqueza da pesquisa empírica no Rio Grande do Sul.

Rodrigo:

– Mas ao mesmo tempo a gente percebe, não tem nenhum estudo mais consistente sobre isso, mas a gente percebe, a intuição que se tem muito claramente e tem a mesma intuição de outros arquivos, é a diminuição, talvez, do número de frequentadores nas salas de pesquisa, diminuição dos frequentadores dos arquivos. A gente tem alguns movimentos contrários, a gente tem essa renovação e esse enriquecimento da historiografia, mas a gente tem uma diminuição, um recuo ao período anterior do número de historiadores que tem essa pesquisa empírica. Então, a gente queria perguntar se tu acha que tem um risco de um empobrecimento da produção historiográfica com esse recuo por procura aos arquivos, ao mesmo tempo em que existem profissionais da História que meio que exortam a abrir mão da pesquisa empírica, secundarizar, como se não fosse tão importante assim…?

2019.08.07 PauloPaulo:

– Eu acho que a gente teve um crescimento, assim, geracional da questão empírica. Quer dizer, a minha geração sentiu direto isso, era uma empolgação de ir para arquivo e pesquisar documentação de arquivo de uma forma intensa, muito quantitativa e tal, a gente foi muito para arquivo e foram gerações nesse sentido. Eu não consigo ainda avaliar direito, não sei se a gente pode nesse momento avaliar se a diminuição do público de arquivo ela está diretamente ligada a uma diminuição da utilização de fontes primárias na pesquisa histórica ou se é um pouco do impacto da tecnologia. Porque hoje em dia a gente tem várias fontes primárias que estão disponíveis na internet, por exemplo, quem já caiu na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional sabe disso, a gente enlouquece lá. Então tu tem muitos jornais a disposição, tu tem muitos acervos que estão ligados a essa questão. Acho que também as pessoas que vem para o Arquivo, muitas vezes, é uma frequência rápida, a máquina digital possibilita isso, então, as pessoas vão para os arquivos e fotografam e levam para casa pesquisar. Os tempos de mestrado e doutorado são muito exíguos, um mestrado de dois anos, cara, é muito pouco tempo. Então as pessoas têm que otimizar muito isso. Eu ainda não estou vendo essa questão muito de um recuo da empiria, assim, eu acho que a gente ainda está numa certa onda mais empírica que eu espero que se mantenha, só que eu acho que os próprios prazos estão prejudicando que o pessoal faça pesquisas mais exaustivas. É por isso que normalmente o cara que vai fazer uma boa pesquisa no mestrado, ele já vem com essa pesquisa como bolsista de iniciação científica, ele já está inserido num projeto, então, eu acho que nesse sentido a gente vai verificar isso. O que eu sinto como historiador é que a gente perdeu um pouco dessa sociabilidade arquivística, assim, sabe? A gente tem frequentado muito pouco arquivo. Às vezes eu acho que certas iniciativas dos arquivos, como eu tenho visto aqui, me parece muito positiva, por exemplo, a Mostra do Arquivo Público eu acho muito legal, não tenho vindo nas últimas, mas as primeiras que a gente teve era muito bom. Era a gente vir para arquivo para discutir pesquisas entre pessoas que frequentavam o Arquivo, então, isso era um ambiente que saía um pouco das disputas institucionais e tal, e o Arquivo aparecia como tipo um oásis, assim, “Venham aqui discutir as suas pesquisas”. Então eu não sei, eu ainda não consigo avaliar direito que a gente está tendo um recuo do empírico, eu acho que a gente ainda tem que pensar um pouco a respeito disso, um pouco esse impacto tecnológico, as fontes sendo disponibilizadas pela internet e tal, não sei ainda como é que isso vai impactar. O que eu vejo é que há um certo desânimo com as ciências humanas em geral, eu acho que tenho visto muita gente deprimida na pós-graduação, doente mesmo pelo clima político que se instalou no país nos últimos tempos, de agressividade a determinados temas, temas mais reivindicatórios que dialogam com a contemporaneidade, questão de gênero e também, assim, tenho visto pessoas que sentem muito o impacto da própria profissão de professor, porque tu termina um mestrado, tu vai ser professor, doutorado, tu vai ser professor, então, o impacto disso, assim, negativamente dentro do nosso ethos profissional, a gente tem sido muito achincalhado. Eu vejo muito isso, as pessoas se sentindo muito tocadas por essa questão. Mas eu continuo achando que a investigação empírica é muito importante para nós. Acho que é um pouco da coisa do campo, que é de você sair da Academia e ir para campo, seja tu fazer história oral, seja tu frequentar arquivo, isso mexe com a tua sensibilidade. Produzir uma investigação que tenha esse contato com fontes, seja elas de que origem for, eu acho que acaba modificando a tua sensibilidade ou aprimorando a tua sensibilidade com relação aos projetos de pesquisa e também os objetos de pesquisa.

Rodrigo:

Mas tu não achas que de parte [da academia], de dentro, não vem, por alguns setores, um questionamento à pesquisa empírica?

Paulo:

Pode ser, e eu acho também que, uma coisa que eu vejo e percebo em alguns colegas, a gente hoje em dia está numa onda que não sei como vai sair, porque somos corresponsáveis disso: nós estamos numa superprodutividade, a gente é obrigado a produzir muito em termos de artigo, não só de produção técnica, de dar parecer, mas de produção bibliográfica, escrever artigo, capítulo de livro e tal. E a pesquisa empírica, ela não é algo rápido de fazer, então, se você pensa um projeto de pesquisa e tem como lastro a pesquisa empírica, tu pensa em algo que tem um tempo de maturação mais longo e que, muitas vezes, tu não consegue durante esse tempo produzir coisas, mesmo que sejam resultados parciais. Hoje em dia a gente tem produzido muitos resultados parciais, a gente não está dando tempo de a pesquisa terminar. Então, eu vejo em alguns colegas de que se você faz um projeto de pesquisa cujo lastro é a documentação empírica, a fonte primária, é a frequência em instituições que custodiam, quer dizer, a frequência a lugares de memória propriamente dito, isso demanda que o tempo que tu tem de produção bibliográfica e de produção intelectual é um tempo maior. Então, nesse sentido, talvez sim. Talvez o que eu tenho percebido, as vezes, é um acréscimo ou um desvio para projetos de discussão mais historiográfica. Mas eu acho que isso está muito ligado a essa armadilha que a gente se colocou que é da superprodução, de que a gente tem que produzir. Hoje em dia o mundo acadêmico não permite que tu termine teu projeto para produzir alguma coisa, tu é demandado a, durante o projeto, ir produzindo produtos ocasionais, subprodutos daquilo. Então, trabalhar com documentação empírica tem isso, tu está alicerçando o teu projeto numa potencial produção de no mínimo médio prazo, é no mínimo médio prazo, ninguém vai se jogar numa pesquisa empírica e produzir a curto prazo. Isso pode gerar uma certa timidez dos historiadores de pensar uma pesquisa que – os colegas não empiristas não vão gostar – mas de uma pesquisa mais cômoda, talvez, uma pesquisa que tu realize de forma historiográfica e tal. Acho que a gente perde o prazer da pesquisa, acho que quem faz isso não sabe o que está perdendo. Porque nada como sentar a bunda num arquivo e saborear um processo-crime… (risos) é genial isso, é muito bom.

Rodrigo:

– Bom, uma última questão. Em um mundo de pós-verdades, de narrativas autovalidadoras, como tu percebe a importância dos arquivos para a historiografia?

Paulo:

– Eu acho que o Arquivo, quando eu digo que o arquivo ele tem sentido para mim, que é sentido político, para mim dialoga diretamente com essa questão mais profissional, mais historiográfica. Eu acho que o documento, a fonte primária, a frequência em arquivo, para mim, ela representa um pouco, não vou dizer a garantia porque isso me parece muito empirista e positivista, mas eu acho que é um certo investimento quanto historiador numa história que não desiste de ser explicativa, de uma história que não desiste de ser interpretativa, de montar um discurso historiográfico. Às vezes, eu sinto um certo receio das pessoas de construírem essa verdade histórica com medo de virar vitrine, com medo de receber pedrada e fazerem críticas. Mas eu acho que o acesso a esses documentos de experiência humana no passado nos ajudam a pensar essa ideia de que a história pode construir, pode elaborar um discurso explicativo e sempre um discurso que dialoga entre passado e presente. É um discurso que, as vezes, é muito cheio de ansiedade, né? Quando o presente nos oprime e nos enche de ansiedade, mas é também um discurso que nos enche de esperança, porque a gente sabe que vai passar. Então, eu acho que a possibilidade de construção de um discurso histórico explicativo, para mim, eu sei que tem historiadores que não estão nessa perspectiva, mas eu acho que eles ajudam a gente pensar numa história que construa algo, um discurso do entendimento do passado, assim como um diálogo com o presente. Para mim é um pouco essa questão.

********

A partir do mês de setembro, voltamos com o “APERS Entrevista” sempre na primeira e na segunda quarta-feira de cada mês. Nos acompanhe. Até lá!

Entrevista com Paulo Roberto Staudt Moreira – parte 3 de 4

Deixe um comentário

Na semana anterior, segunda parte da entrevista, Paulo Moreira vinha falando sobre o seu trabalho de pesquisa com as cartas de alforria, contando em seguida sobre sua participação na equipe de elaboração do relatório de reconhecimento da comunidade de Morro Alto (Osório / Maquiné – RS) como remanescente de quilombo.

logo apers entrevista

E aí depois, bom, depois das cartas de alforria ou meio paralelo com isso teve o Morro Alto, que foi uma experiência que, para mim, me jogou em outras searas que era a questão da história oral, de trabalhar com pessoas vivas, o que para mim até hoje é uma coisa meio dramática de participar de entrevistas e tal, que para mim foi uma experiência genial, é uma coisa que lincou muito. Se eu pensava esse passado escravista dentro de uma perspectiva política de diálogo com a contemporaneidade, trabalhar com o Morro Alto foi me jogar na contemporaneidade, foi me jogar para uma demanda contemporânea viva, lincada de uma forma muito legal na minha vida, porque isso é de uma reivindicação lá da constituição de 1988, das disposições transitórias, dos direitos que as comunidades quilombolas teriam de reivindicar seus direitos à terra. Para mim, na verdade, linca dois períodos da minha trajetória profissional e de vida, que é eu lá no início da graduação pensando nisso que seria a comemoração da lei Áurea em 1988 e aí depois essa questão toda da Constituição e tal, e depois, já nesse século agora, fazendo essa pesquisa de Morro Alto. Para mim foi, assim, sei lá, trabalhar num grupo interdisciplinar, de trabalhar com gente que é da Geografia, gente que é da Antropologia, de gente que é da História, trabalhar com uma fonte que para mim era completamente desconhecida e que, na verdade, eu não retomei basicamente depois, ou muito pouco, que a questão da história oral. Então, entrar em contato com essas comunidades, perceber a demanda e perceber também como os trabalhos da gente, trabalhos muito isolados, muito distantes, acadêmicos, eles dialogam com essas reivindicações contemporâneas atuais, de como elas são importantes para isso e como esse passado escravista é recente, é um troço que eu fico apavorado. Eu sempre lembro… Como que é o nome da senhora lá que a gente entrevistou?… A Dona Aurora… A Dona Aurora que, a gente conversando com ela, a gente se deu conta de que ela era filha de um escravo, era filha de um escravizado e ela tinha tido um contato com um cara que tinha sido, que tinha a experiência de ser escravizado, e ela tinha uma experiência de décadas convivendo com esse cara que era o pai dela! E estava ali, era uma coisa impressionante, né? Então, isso para mim foi um choque, um choque político. As vezes a gente sabe as coisas, a gente se conscientiza de que o nosso trabalho tem relevância política contemporânea, mas tem certos momentos que a vida nos joga isso muito na cara, evidencia tudo. Morro Alto foi isso, né? De perceber o link da nossa pesquisa histórica com essas demandas contemporâneas de comunidades ainda atuantes e reivindicando o próprio inventário de Morro Alto, da Rosa, que nunca saiu, que nunca foi concluído, como o pessoal da comunidade dizia, de uma forma meio mítica. Eles diziam assim: “Olha, isso aqui nunca foi demarcado e quando for demarcado o morro vai cair”. Quando a gente encontrou o inventário aqui, o inventário não foi terminado justamente por isso, porque eles teriam que chamar os descendentes, os moradores da senzala, os escravizados que receberam direitos no testamento e os herdeiros resolveram não chamar porque isso comprometeria a própria distribuição da herança. E aí eles justificaram dizendo que eles não tinham encontrado esses herdeiros, que eles tinham se dispersado, e aí no final das contas o inventário não foi terminado. Então, essa experiência para mim foi marcante, foi de ter contato com uma comunidade atuante e reivindicatória, foi muito legal. E isso de certa forma eu acho que… Eu nunca tinha pensando muito nisso, mas talvez isso tenha me alertado para o legal, que seria trabalhar com o período pós 88, que é uma coisa meio pós-Abolição. Isso, para mim, me caiu muito. Também foi uma provocação das próprias fontes, que é a pesquisa que até hoje eu tenho… Que foi o que me jogou muito para o pós-Abolição que é trabalhar com Aurélio Viríssimo de Bittencourt. Eu acho que foi um pouco isso, porque mais ou menos nessa época eu já tinha terminado o doutorado e tal, mas eu sempre estava vasculhando e procurando, trabalhava no Arquivo Histórico. E aí eu comecei a pesquisar documentação eclesiástica, que era algo que eu conhecia, mas não tinha, assim, tanta intimidade. E comecei a constatar que… Bom, eu estava levantando os registros de batismo, de casamento de escravizados lá na cúria metropolitana de Porto Alegre e toda hora aparecia como padrinho, seja de casamento, seja de batismo o tal de Aurélio Viríssimo de Bittencourt. E a gente sabe, que quem faz nominal, quem segue o rastro nominal, a gente sabe que se tu tiver que seguir um cara chamado Paulo Moreira, tu está ralado, porque tu tem tantos homônimos que tu não vai conseguir encontrar o desgraçado. E para gente é complicado porque, muitas vezes, tu trabalha personagens que só tem prenome, então complica ainda mais. Por isso que muitas vezes tu pesquisa é o senhor daquele sujeito escravizado, família senhorial que é onde tu vai encontrar isso. Mas quando eu encontrei um cara chamado Aurélio Viríssimo de Bittencourt, eu pensei “Pô, esse é um nome que dá, né?”; e ele aparecia repetido e eu comecei a vasculhar e pensar quem era esse sujeito. Eu fui conversar com um conhecido meu que era do Instituto Histórico e Geográfico aqui do Rio Grande do Sul e perguntei para ele, assim: “Escuta, tu já ouviu falar de Aurélio Viríssimo de Bittencourt?” e ele disse: “Claro que sim, o cara era chefe de gabinete do Júlio de Castilhos” e eu disse: “Porra, não pode ser!” aí ele: “É sim!” e eu olhei para o cara e falei: “Eu tenho pressentimento que esse cara era negro.” E ele olhou para mim e disse: “Não. É impossível, ele não era negro”, e eu disse: “Por que ele não era negro?”, ele disse: “Porque ele era filho de um oficial da Marinha.”2019.07.31 Paulo (Risos). Porque a minha cara era uma sociedade, no Brasil tem essa coisa. Não que tu vá embranquecer completamente, mas a tua cor invisibiliza, ela desaparece e tu te torna como se fosse um socialmente branco e no caso do Aurélio tinha isso. Aí eu comecei a pesquisar o Aurélio e descobri que não. A gente tem um inventário, não dele porque eu nunca achei, mas tem inventário da viúva dele, tem inventário da primeira mulher dele, tem inventário da mãe dele que morreu lá em Jaguarão, onde ele nasceu e tal. Então, o Aurélio, acho que me jogou um pouco no pós-Abolição, começou a fazer com que eu entrasse no pós-Abolição a partir de algo que eu gosto de fazer cada vez mais, que é a ideia da trajetória e a trajetória é pensar essa vida individual, as opções que essas pessoas têm, as estratégias, as inserções que essas pessoas têm e como ir seguindo aquilo que o Giovanni Levi chama de vicissitudes biográficas, já que a gente nunca vai conseguir reconstituir toda a biografia do cara. Também, a gente não tem que pirar com isso, né? Nem a nossa biografia a gente conhece, né? Com pouco de psicanálise a gente sabe disso, né? Se a gente sentasse com o Aurélio hoje em dia e ele contasse a vida dele, nós íamos duvidar dele. Ele ia fazer uma versão da vida dele que era uma versão dele, como a gente faz da nossa.

Rodrigo:

E os nossos entrevistados de história oral…

Paulo:

Então a gente não tem que pirar muito com isso, né? As vezes, eu pego algumas discussões, assim, entre o que é trajetória e o que é biografia e fica uma discussão que, as vezes fico pensando onde é que a gente vai chegar com isso; porque “Ah não, trajetória é possível porque é mais fragmentado e tal, e biografia é uma coisa mais completa”, mas não rola isso, cara, biografia nunca vai ser completa. Mesmo que tu entreviste o cara, mesmo que tu conte o diário do cara, que o cara conte diariamente tudo o que ele fez, tem muito ilusão biográfica ali dentro, então não tem como tu achar que vai reproduzir na totalidade. Então, para que pirar no que é trajetória e o que é biografia, né? E as vezes, a impressão que eu tenho – e espero que isso não caia mal, se tu achar que cai mal tu não coloca na entrevista (risos) –as vezes eu acho que os pesquisadores que são acostumados a trabalhar sociedades escravistas, eles, talvez, tenham uma certa vantagem quando eles pulam o pós-88, porque eles tem um hábito de certos documentos que muitos historiadores do pós-88, do pós-Abolição, não estão tão acostumados assim. Eu vejo que, bom, para nós que trabalhamos sociedades escravistas, é habitual tu pegar uma habilitação matrimonial, registro de batismo, inventário post-mortem, testamento, de você usar esses documentos, para nós fica, né… E eu acho que quando a gente começou a trabalhar sociedade escravista, quando a gente avança para o pós-Abolição eu acho que tem uma densidade empírica nas pesquisas, não estou falando de mim, estou falando do Rodrigo [Weimer], que eu acho que ajuda a gente a tornar consistentes essas trajetórias. Por exemplo, a tese da Melina Perussatto, a Melina se atreveu a trabalhar com o assunto que é o Jornal Exemplo, porque tu já tem gente boa que trabalhou com isso, tem a Zubarán, tem o José Antônio dos Santos, tem gente que já trabalhou com isso, mas a Melina, ela faz um esforço de pensar esses promotores do Exemplo dentro de uma perspectiva geracional, de ver os caras para trás, que dá uma consistência para essas trajetórias. Quer dizer, tu pensa esses caras como imiscuídos numa estrutura familiar, de parentesco, de redes mais afetivas e tal, tu percebe esses caras ali. Eu acho que tem uma… isso pode ser piração minha, assim, mas a vezes eu acho que a gente tem uma vantagem do pessoal que trabalha com isso. E no caso do Aurélio, foi um cara que me abriu esse campo do pós abolição. Eu comecei a pesquisa do Aurélio ao lado de parceiros, o Jonas [Vargas] que começou comigo e que está em Pelotas agora, a própria Daniela Vallandro de Carvalho começou, a Sherol [Santos], a gente começou juntos trabalhando, porque o Aurélio é um cara que ele está em tudo! E ele permitiu isso, como é um cara que tinha nascido lá em Jaguarão, de um ventre negro e tal, vem para Porto Alegre e se constitui como sujeito negro aqui em Porto Alegre, então eu acho que ele ajudou bastante, assim, a me interessar um pouco mais para essa questão do pós-Abolição, porque eu estava muito nesse período mais na sociedade escravista. E nos últimos tempos me caiu no colo, assim, que foi, literalmente isso, outra figura negra que é do Alcides de Freitas Cruz, que é um cara que, para mim, também, foi genial, porque ele vem de uma orientação. O Ênio Grigio que eu estava orientando e que trabalha com a Irmandade do Rosário de Santa Maria; e de repente o Ênio descobre uma discussão num jornal de Santa Maria em que um cara chama o outro de mulato e o cara, esse mulato, vai para o jornal, faz um a pedido e o cara se apresenta. O cara tinha sido chamado só de mulato, não tinha sido nominado. E aí o cara vai para o jornal e diz: “Meu nome é esse e não sei o quê, não sei o quê… e quanto a ser chamado de mulato, como diz o grande Doutor Alcides de Freitas Cruz, eu não me molesto por epítetos como este porque eu sei quem eu sou e tal”. E quando o Ênio me passou isso eu pensei “Não, só um pouquinho, eu conheço o Alcides Cruz, né? Nome de rua de Porto Alegre, mas eu não sabia da negritude desse cara, não tinha sido alertado para isso”, e aí eu comecei a conversar com várias pessoas, aí a gente encontrou três manifestações de Alcides de Freitas Cruz. Alcides de Freitas Cruz foi formado agrimensor na Escola Militar de Porto Alegre, ele se formou em direito em São Paulo e ele foi fundador da Faculdade de Direito aqui de Porto Alegre. E ele, sorte de historiador, três vezes ele é ofendido de forma racista nos jornais e três vezes ele vai para o jornal se defender. Então, a gente tem uma posição de um cara assim, se posicionando dentro do seu auto-pertencimento e tal, muito bom. E aí, uma outra coisa que é genial é que ele morre em 1916 e ele era professor da faculdade de Direito, o inventário dele está aqui no Arquivo Público e ele deixa uma biblioteca de mais de 3.000 livros. Bom, se isso não fosse pouco… A sorte mesmo é que ele doa os livros para a faculdade de Direito, então, os livros são listados individualmente. A gente tem aqui no inventário a biblioteca dele listada. Então, tu pode, no meio dessa trajetória toda que tu pode fazer do Alcides, trabalhar com a biografia intelectual dele, porque tu pode saber o que ele lia. Então ele lia desde textos sobre Darwin, ele lia Machado de Assis e Shakespeare, então tu pode pirar um pouco nessa coisa das práticas de leitura do cara e isso são coisas que os inventários nos possibilitam. Então, trabalhar com pós-Abolição eu fui meio jogado para isso. E nesse trabalho do Alcides eu fiz com a Vanessa, a Vanessa que é historiadora e arquivista lá da cúria e do Instituto Histórico e Geográfico, então a gente trabalhou juntos e foi uma dobradinha perfeita. A Vanessa é especialista nessa coisa da genealogia e da pesquisa com documentação eclesiástica. A gente recuou a família do Alcides de Freitas Cruz à colônia de Sacramento, a gente recuou até lá e a gente foi encontrando depois os inventários aqui no Arquivo Público, os testamentos e tal, foi bá… é uma possibilidade de construir essas trajetórias. E é interessante que no registro de batismo dele assim, ele já vem de uma família, que é uma família negra, mas é uma família bem posicionada socialmente. Só que é muito interessante, tu pega o livro de batismo, tu abre o livro e tem registros dos dois lados, então, tem um escravizado, porque tá escrito que o cara é escravo, aí depois tem três brancos, está dizendo ali que o cara é branco e tem ele que não tem cor. Então a própria invisibilidade da cor é uma marca de racialização, né? Os caras não botam a cor nele, quer dizer, eles não dizem que o cara é negro, mas também não apontam a branquitude dele. Apesar de que eu acho que para ele também isso não era questão, porque nesses textos que ele se defende da questão racial, ele trabalha de uma forma muito tranquila. Ele diz: “Não, eu sei que não sou branco”, ele diz isso com todas as letras, ele fala isso com toda clareza e é interessante porque essas trajetórias nos ajudam a pensar essa coisa da racialização, que é como a Wlamyra Albuquerque diz, que esse trato cotidiano da questão racial, de como é que as pessoas se definem, como é que elas são definidas, como é que isso aparece sutilmente nos documentos. É por isso que também eu acabo não… eu não sinto monotonia na pesquisa, porque a pesquisa historiográfica nos últimos tempos ela tem se tornado muito rica, ela tem, bá… está sendo muito bom. Muito bom ser historiador nos últimos tempos. Não, quer dizer, nos últimos tempos não mais, ciências humanas não mais é muito bom assim… (risos)

Leia na próxima semana a parte final da entrevista com Paulo Moreira!

Entrevista com Paulo Roberto Staudt Moreira – parte 1 de 4

Deixe um comentário

logo apers entrevista

Paulo Roberto Staudt Moreira é professor de História da Universidade do Vale do Rio dos Sinos e bolsista de produtividade em pesquisa 2 do CNPq. Graduou-se em História na Unisinos em 1989, e defendeu mestrado e doutorado na UFRGS em 1993 e 2001, respectivamente. É autor de diversos livros e artigos científicos. Dentre eles, destacam-se sua tese de doutorado (“Os cativos e os homens de bem”, EST, 2003), a dissertação de mestrado (“Entre o deboche e a rapina”, Armazém Digital, 2009), além de “Que com seu trabalho nos sustenta” (EST, 2007, com Tatiana Tassoni), “Histórias de escravos e senhores em uma região de imigração europeia” (Óikos, 2014, com Miquéias H. Mügge) e “Comunidade Negra do Morro Alto: Historicidade, Identidade e Territorialidade” (UFRGS, 2004, com Daisy Barcellos, Miriam Chagas, Mariana Fernandes, Nina S. Fujimoto, Cíntia Müller, Marcelo Vianna e Rodrigo Weimer). Por seu papel na historiografia do Rio Grande do Sul e pelo destaque na pesquisa no Arquivo Público, decidimos realizar com Paulo Moreira uma entrevista mais extensa. Diferente das demais entrevistas, nesta Rodrigo de Azevedo Weimer contou com a colaboração de Clarissa Sommer Alves para a formulação das perguntas.

Rodrigo Weimer:

– Paulo, como você vê sua inserção no campo da história da escravidão e do pós-Abolição?

Paulo Moreira:

– Como eu vejo? Eu acho que são temas que de certa forma grudaram em mim, assim, meio sem eu ter pensado muito a respeito, pelo menos não no início. Eu comecei a pesquisar sobre isso ainda na graduação, foi lá no século passado na década de 1980, na época que eu fazia ainda a graduação na UNISINOS e aí eu tinha aulas com a professora Helga Piccolo. A Helga na época dava aula na UFRGS e na UNISINOS e aí eu me apaixonei pelas aulas dela, pelas aulas expositivas dela. E, também, hoje em dia a gente naturalizou muito essa coisa de professor pesquisador, né? Mas durante a minha graduação não era, assim, “normal” que os professores fossem pesquisadores, principalmente pesquisadores de frequência a arquivo. A gente não tinha muito… Não era tão frequente que os 2019.07.24 Pauloprofessores levassem para sala de aula a experiência de ter frequentado o arquivo ou qualquer coisa assim. Aí então as aulas da Helga tinham muito esse sentido, ela era uma professora que não só gostava muito de história do Brasil, como ela frequentava arquivo. Se a gente pegar a produção da Helga e comparar com produções que vieram depois com o boom da pós-graduação, a gente até acha que a Helga não era, assim, uma frequentadora tão assídua de arquivos como a gente vai ter depois uma certa geração bem mais empirista. Mas a Helga, ela já trazia isto, essa coisa do prazer de frequentar arquivo, de viajar para frequentar o Arquivo Nacional, de conhecer os arquivos, de falar do Arquivo Público, de falar do Arquivo Histórico e então ela passava isso muito. E eu me lembro que a Helga fez uma disciplina uma vez na graduação e ela pediu que essa disciplina tivesse documentos, que ela fosse alicerçada em fontes primárias e aí então pela primeira vez eu entrei em um arquivo, que foi o Hipólito da Costa para pesquisar jornais. E aí comecei a pesquisar jornais, fiz esse trabalho com a Helga e já aí, é interessante, que eu já comecei a pesquisar escravidão. E eu acho que eu comecei a pesquisar escravidão e me inseri nesse campo, primeiro da escravidão e o pós abolição veio depois. E eu me inseri porque é… Primeiro que, durante as aulas da Helga, a Helga falava muito de que o campo historiográfico da escravidão no Rio Grande do Sul ainda era muito… era um vazio historiográfico, digamos assim, e tu tinha pouquíssima gente investindo nisso ou que já tinha investido. E ela estava absolutamente certa, né? Se a gente pegar aquela época, estou falando da década de 1980 do século passado, né… tu tem lá o Dante de Laytano na década de 1930, aí depois tu tem o Fernando Henrique Cardoso no final da de 1950 e início de 1960, e aí depois tu tem os trabalhos do Maestri dentro de um campo mais acadêmico e ainda era muito pouco, assim, pesquisa realmente de arquivo e tal. E por outro lado, eu acho que a Helga também, ela estava se preparando para um certo “vôo” que foi para mim muito importante, de que estava se aproximando a comemoração de cem anos da abolição, 1988. E a Helga então organizou, saiu da sua área de conforto e ela organizou um projeto de pesquisa, entre vários no país todo que estavam acontecendo, que era de… na época se falava muito da transição da mão de obra escravizada para mão de obra livre e a Helga pensou em fazer isso com um projeto de pesquisa que pensava quatro locus regionais, ela pensava Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre e São Leopoldo, são as quatro cidades que ela elegeu. Porto Alegre porque era a capital administrativa, de uma população escravizada bem grande; Rio Grande por ser o nosso porto atlântico, então também tinha uma população grande escravizada e também um lastro de africanidade bem grande; Pelotas por ser charqueada e ter uma proporção demográfica até de mais população escravizada do que livre em vários momentos; e São Leopoldo talvez tenha sido uma das melhores sacadas da Helga, porque como a Helga ela vem… na verdade ela trabalhava, né? Ela era conhecida por estudos de história política do império e por história de imigração alemã. Ela tinha se tocado de que esse vazio historiográfico no Rio Grande do Sul sobre escravidão no geral, era, na verdade, em áreas de imigração europeia, maior ainda. Eu acho que a Helga foi a primeira pessoa talvez que tenha começado a pesquisar os inventários aqui do Arquivo Público, os inventários post-mortem de São Leopoldo, e viu presença escravizada. Ela não aprofundou muito isso, ela fez esse projeto, produziu um caderno de história na UFRGS, alguma coisa nesse sentido, mas ela, pelo menos, fez esse projeto e foi quando eu me inseri como bolsista. Então por um lado, eu acho que fui incentivado por esse projeto da Helga, pela comemoração do centenário de 1988, e também por esse vazio historiográfico que tinha sobre a escravidão no Rio Grande do Sul, então me pareceu que era uma boa. E politicamente, eu acho que me… Também não dá para a gente esquecer que me constituí um pouco como historiador, como pesquisador no período de redemocratização, então a gente estava vivendo um momento de emergência de uma série de discussões, estávamos vivendo um momento de pressão de movimentos sociais, de movimento negro e tu tinha uma pressão para que as universidades se voltassem para isso e discutindo isso, discutisse o racismo atual. E aí então, eu acho que comecei a entrar dentro dessa nessa onda, de trabalhar escravidão. Aí que eu me constituí, eu acho, um pouco como historiador da escravidão e um pesquisador de arquivo. Eu me identifico muito com esse perfil, assim, eu sou um cara muito empírico. Para mim a frequência em arquivo, frequência aqui no Arquivo Público, para mim tem um sentido profissional, eu sou um pesquisador profissional, me sinto assim, profissional. Tem um sentido político: eu acho que frequentar arquivo, fazer pesquisas históricas de temas, que são esses que a gente pesquisa, escravidão, pós abolição, história da presença negra e da própria constituição do racismo e essas coisas todas, eu acho que tem um sentido também político que eu não consigo retirar. E, para mim, pela coisa lúdica, pesquisar em arquivo é lúdico, arquivo é o “lugar nenhum”, onde eu fico e me desligo das políticas acadêmicas, dos papos de corredor, “facebooks” da vida e consigo voltar para o século XIX e início do XX. Então, para mim, tem isso: para mim, frequentar arquivo e ser um pesquisador de arquivo tem o lado profissional, político e lúdico, então não tem como desvirtuar. Acho que não te respondi nada, assim, né? (risos).

Rodrigo:

– Respondeu várias coisas, eu inclusive vou mudar um pouquinho a ordem das perguntas… Na apresentação aos “Os cativos e os homens de bem”, a Sandra Pesavento, que foi a sua orientadora, faz a brincadeira de “que tu atravessa o espelho e quando tu desaparece, tu vai para o século XIX”. Então, o que a gente queria te perguntar é: se essa metáfora faz sentido para você e se o arquivo tem esse sabor, que a Arlette Farge fala?

Paulo:

– Para mim tem todo o sentido. Para mim, quando eu li o livro da Arlette Farge, eu digo: “Bá, eu gostaria muito de sentar e tomar um vinho com ela ou um café e falar da experiência de arquivo”. Para mim, a frequência no arquivo é uma experiência de prazer, de sentidos mesmo. Os meus sentidos são alertados quando eu entro num arquivo, eu gosto do prazer, assim, de sentar na mesa e tal. Tanto que é uma coisa interessante isso, quando eu comecei a pesquisar aqui no Arquivo Público, os arquivos em geral, mas, pensando no Arquivo Público e minha experiência aqui, a gente… é interessante explicar isso para os alunos hoje em dia, que não tinha computador, não tinha máquina digital, então eram muitas horas “bunda-trabalho”. A gente se apega em copiar, a gente era escriba, né? A gente lê o “Nome da Rosa” e a gente se identificava com aqueles caras fazendo iluminuras, não dos documentos em si, mas copiando os documentos. Eu não quero parecer um velho nostálgico, mas eu acho que isso, de certa forma, a gente perdeu. É o ônus e o bônus da tecnologia na pesquisa, né? Bom, eu não vou querer dizer que fotografia, máquina fotográfica digital, não é uma maravilha, não vou querer dizer que o computador não é um troço fantástico, mas quando eu comecei a pesquisar aqui no Arquivo Público e a sala de pesquisa era lá no fundo, eu adorava quando eu chegava na sala de pesquisa, adorava que a mesinha onde eu sentava estava sempre desocupada, era uma mesa que dava para o pátio com aquelas janelas grandes e dava para ficar olhando para o pátio. Como não tinha máquina digital, não tinha computador, a gente ficava mais tempo aqui. Então, as vezes, eu fico pensando que esse é um espaço de sociabilidade que a gente acabou perdendo. Porque eu me lembro, por exemplo, na década de 1980, quando eu entrei no mestrado, um pouquinho antes até, quando eu comecei a frequentar aqui o Arquivo Público, eu frequentava a sala de pesquisa e tinha o Roger Kittleson que é um norte-americano e pesquisava populares aqui, tinha a Sílvia Arend que pesquisava famílias populares, tinha a Rita Gattiboni trabalhando escravidão em Rio Grande e tinha o Jorge Euzébio Assunção que pesquisava também escravidão em Pelotas. O Jorge e a Rita eram orientandos do Maestri na PUC, a Sílvia era orientada pela Sandra Pesavento no mestrado da UFRGS, era minha colega de mestrado, e o Roger veio dos Estados Unidos para pesquisar o Rio Grande do Sul e os populares. E era muito legal essa coisa do entrosamento, a gente trocar experiência do sabor do documento e na apreciação de cada um sobre os documentos. Isso é uma coisa que a gente não tem muito, né? Porque a frequência no arquivo é muito mais rápida, a gente vem aqui, fotografa o documento. Então, acho que a gente perdeu um pouco isso. Eu gosto ainda de sentar na sala de pesquisa e fazer o fichamento e as vezes acham, dizem que eu sou muito burro por fazer isso, mas eu digo assim: eu tenho muita coisa para fazer fora daqui e se eu tirar foto e tiver que trabalhar com essas fotos em casa, fazer o fichamento em casa as vezes demora muito. Então, acabo fazendo isso aqui. Então, eu acho que o arquivo como espaço de sociabilidade, principalmente para a minha geração, que era uma geração que ficava manhã e tarde, a gente almoçava juntos aqui no centro, então, a gente ficava trocando um pouco isso. E era legal, porque se a gente pensar direito, assim, eram escolas diferentes de apreciação dos documentos e quando eu digo de apreciação do documento eram também de escolas historiográficas diferentes. A gente tinha o Roger Kittelson e Sílvia, – a Silvinha, que hoje é professora em Santa Catarina – que trabalhavam mais na onda de uma renovação historiográfica, trabalhar populares e tal. Porque essa é uma época que a UNICAMP já estava, não só nos servindo com os trabalhos do Chalhoub e da Sílvia Lara, como em função da redemocratização, a gente estava tendo acesso aos neomarxistas ingleses, então a gente estava lendo Thompson, a gente tava relendo Hobsbawm, a gente estava pensando nessa coisa da experiência social e isso faz com que a gente olhe as fontes de forma diferenciada. Então eu sinto muito esse prazer, esse sabor de frequentar arquivo, eu tenho um gosto muito grande de sentar, usufruir, de curtir o documento, de pensar o documento, esse gosto do arquivo, para mim, ele é fantástico. Essa coisa da Sandra é pouco uma puxada de orelha, assim, porque ela achava que as vezes eu não dava muita atenção para ela, quando ela me mandava os recados, mas ela sabia também que se eu não estava ali, eu estava dentro de arquivo. É um lugar que eu me sinto muito bem, me sinto muito seguro e quando eu digo “lugar nenhum” é como se… é um momento mesmo que parece de interrupção da correria, de interrupção de tempo, é meio maluco dizer isso, eu sei, mas, é uma coisa que eu sinto bem. O arquivo parece que é um pouco… acho que é meio lugar-comum dizer que é uma máquina do tempo, mas é um hiato no tempo, é uma percepção minha que tenho, assim, de que o tempo passa mais lento – talvez seja isso. As vezes, a gente está tão na correria de relatórios, da superprodução acadêmica que a gente está envolvido, das orientações, das aulas, que é muito legal se dar esse tempo. O que também é uma coisa, para mim, é… às vezes as pessoas dizem “Como tu consegue ir para arquivo?”; mas é um prazer que eu me dou indo para arquivo, eu tenho prazer de ir para arquivo. Porque, para mim, arquivo, também a documentação que eu acesso, ela é acesso a experiências humanas do passado. Eu sou de uma geração que humanizou essas experiências, que olhou esses documentos de uma forma que não era só de, sei lá… Acho que a gente vinha de uma história muito rígida em termos de comportamento humano e isso marca muito a historiografia. Quando a gente pensa o próprio Maestri, que foi muito importante, que é muito importante historiograficamente, se pensa muito, talvez, de uma forma muito fechada, muito monolítica a própria experiência humana. Então, eu acho que a minha geração, ela se permitiu humanizar os personagens que a gente encontra na documentação privada e na documentação pública, e com isso eu acho que se tornou mais interessante acessar os documentos. A gente não está procurando essa heroicização mais absoluta, né? A gente não está mais tão interessado em pegar heróis absolutos. As próprias fraquezas que a gente encontra, como o pessoal diz, muitas vezes os nossos personagens agem pelo estoco, eles estão agindo pela necessidade e isso, eu acho que essa fluidez no comportamento, nos permite olhar com muito mais sabor o documento, curtir muito melhor o documento, entender muito melhor os nossos personagens, isso dá uma sensibilidade com relação ao arquivo, que eu acho muito legal. E nesses momentos, assim, que a gente tinha de troca, eu, o Roger, o Euzébio, a Rita, a Silvinha, era muito interessante que cada um via diferente os documentos e trocávamos muito e isso tudo foi muito bacana.

Aguarde a continuação da entrevista com Paulo Moreira na próxima semana!

Participe da 3ª Semana Nacional de Arquivo: programação do APERS vai até dia 8 de junho!

Deixe um comentário

Nesse segunda-feira tivemos a abertura da 3ª Semana Nacional de Arquivo no APERS com a realização do “Júri Simulado”, em parceria com o Serviço de Assessoria Jurídica Universitária SAJU, da Faculdade de Direito da UFRGS. A atividade foi um sucesso, mas a III SNA não para por ai! Confira a programação, que vai até 08 de junho, e participe:

Programação completa SNA

Aproveite e clique aqui para acessar o site da exposição virtual Caminhos dos Arquivos: nossas histórias, nossas heranças, também lançado essa semana!

APERS comemorou seus 112 anos

Deixe um comentário

   Celebramos mais um aniversário do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS: 112 anos de uma trajetória de desafios, conquistas e afirmação em diversas searas. Ao longo deste período, o APERS foi palco de encontros com o passado e registros de transformações sociais, como de tempos em que o acesso aos documentos públicos e à produção de conhecimento eram privilégio de poucos; e tornou-se um lugar que presa pelo direito ao conhecimento, ao acesso à informação e ao patrimônio cultural.

   O início das comemorações foi realizado no dia 07 de março, pela Diretora do Arquivo Público, Aerta Moscon, que ressaltou o legado deixado pelo APERS para a sociedade. Logo após, teve a abertura da exposição ‘’ARQUIVO EM REVISTA” que reúne documentos administrativos emitidos por ex-diretores e fotografias de eventos do APERS. Em seguida foi realizada a palestra “Positivismo e Memória: A importância do positivismo na preservação e construção da memória nos arquivos” com os historiadores Paulo Moreira, Arnoldo Doberstein e Clarissa Sommer e mediação de Caroline Acco Baseggio.

   No dia 08 de março, data de fundação, aconteceu a Roda de Memória com a participação das ex-diretoras Eloá Maria Possebon, Rosani Gorete Feron e Isabel Oliveira Perna Almeida e a arquivista Neida Regina Ilha, representando o ex-diretor Carlos Aléssio Rossato, com mediação de Maria Cristina Fernandes. Cada uma pôde explanar sobre sua gestão e as contribuições no desenvolvimento de técnicas e metodologias para a qualificação da preservação dos documentos públicos do Estado, na promoção no campo da difusão do acervo e na melhoria do conjunto arquitetônico da Instituição. Alguns ex-diretores, que não puderam comparecer, enviaram mensagens.

   Na continuidade das comemorações, houve o lançamento da “Galeria de Diretores do APERS”, disponível no site institucional do Arquivo, com o objetivo de divulgar a biografia dos diretores que ocuparam o cargo desde a fundação do Arquivo até a gestão atual. A Galeria contempla, atualmente, a biografia de sete diretores com recorte temporal de 1987 a 2015, clique aqui para acessar. À medida que a pesquisa biográfica for avançando, as demais gestões serão inseridas no site.

   O Secretário da Modernização Administrativa e dos Recursos Humanos, Raffaele Di Cameli, presente no dia, parabenizou a todos pela trajetória e contribuições da Instituição. A solenidade contou com a presença de servidores, funcionários terceirizados, estagiários e convidados. Também prestigiaram o evento o Secretário Adjunto da Casa Civil, José Guilherme Kliemann, o Diretor-Geral da SMARH, Henrique Abrahão, e o Presidente da Associação de Amigos do APERS – AAAP, Daniel Leite.

   Por fim, como todo aniversário, teve Parabéns a Você, bolo e brinde! Foram momentos de reconhecimento pelo trabalho de cada um, que fez e faz parte da equipe do Arquivo Público, para que a instituição se mantenha viva e atuante.

   As atividades foram organizadas pelas arquivistas Iara Gomide Machado, Marta Helena de Araújo e Renata Pacheco de Vasconcellos e pela Técnica em Assuntos Culturais Caroline Baseggio, com o apoio da Associação do Amigos do Arquivo Público – AAAP, ASCOM/SMARH, DIPES/DEADM/SMARH, Museu da Comunicação Hipólito José da Costa e Museu Julio de Castilhos.

    Aproveitamos a oportunidade para convidá-los a fazer parte desta história também, conhecendo o Arquivo Público através das mídias sociais e, presencialmente, pesquisando na Sala de Pesquisa, participando das visitas guiadas e eventos.

    Lembramos que a exposição “ARQUIVO EM REVISTA” permanece aberta ao público até 30 de março de 2018. Venha prestigiar! (Rua Riachuelo, 1031 – Centro Histórico – Porto Alegre – RS. Das 8h30min às 17h no Espaço Joel Abílio Pinto dos Santos, Térreo.)

    Confira algumas fotos de evento abaixo e para ver o álbum dos 112 anos do APERS no Facebook, clique neste link.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Abaixo relacionamos os links sobre a repercussão dos eventos comemorativos pelos 112 anos do APERS nos meios de comunicação, clique para acessar:

Pesquisando no Arquivo: curioso relatório sobre um ‘ladrão de galinhas’ do século XX

Deixe um comentário

No Pesquisando no Arquivo deste mês, selecionamos um Processo Judicial de Autuação de 1964. Dada a distância temporal e a complexidade dos crimes atuais, o conteúdo desse documento pode parecer mais uma lenda urbana do nosso Estado do Rio Grande do Sul. Mas, não é. O crime teve materialidade e tramitou nos principais órgãos do nosso Estado entre 1964 a 1967.

O Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul possui a custódia do documento, o qual possui 22 páginas e possibilita conhecer um pouco mais da realidade de Porto Alegre na década de 60. Trata-se de um relatório de indagações policiais sobre Furto e Receptação que além de outros curiosos objetos furtados estão os inocentes galináceos.

A expressão “ladrão de galinhas” pode soar como ficção e é bem possível que as gerações Y, Z e Alpha, embora possivelmente já a tenham ouvido, possam entendê-la como sendo uma gíria antiga. Ela está caindo em desuso no seu sentido denotativo, pois atualmente poucos se interessariam em roubar bípedes uma vez que daria muito trabalho alimentar, higienizar o local onde ficariam as galinhas. Indiscutivelmente, os ladrões preferem smartphones e carros.

No passado, grandes escritores como Rui Barbosa e Luís Fernando Veríssimo escreveram sobre “os ladrões de aves” com perfeição. O ato de violar o que não lhe pertence, a malandragem de tomar para si algo que não lhe diz respeito é tão antigo quanto a Humanidade.

O “ladrão de galinhas” era jovem e vivia em outros tempos. E de acordo com a investigação da vida pregressa, encontrada na autuação, verifica-se que também era pobre e marginalizado, frequentou a escola mas, assim como muitos, só assinava o nome. “Furto simples” era uma maneira de conseguir alguns trocados. Ora furtando galinhas, ora furtando sapatos. Brancos. E bons tempos eram aqueles onde o delegado tinha tempo para se debruçar sobre o “Furto Simples”. Fazer uma portaria, determinar a instauração do inquérito policial. Ouvir as testemunhas, e tomar seus depoimentos, cuidadosamente registrados, à máquina de escrever, pelo escrivão de polícia. Fazer o levantamento da vida pregressa dos indiciados e colher informações para o serviço de estatística judiciária. E, passados dois anos, voltava-se o delegado ao mesmo caso, aliás resolvendo-o com sucesso.

Esse era o quotidiano da cidade de Porto Alegre na década de 60 nas delegacias de polícia. E mais curioso ainda é que o documento revela sobre a vítima do furto: Lupicínio Rodrigues. Lupicínio viveu sua vida com muita intensidade e foi apaixonado por música e futebol. Nascido em Porto Alegre, conseguiu reconhecimento por seu trabalho e trajetória de vida. Torcedor fanático do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, em 1953, em um guardanapo de papel num restaurante, compôs o atual hino do clube. Segundo o que relatam, Lupicínio e “alguns amigos aguardavam o horário do bonde para ir até o estádio assistir ao jogo, mas souberam que o serviço estava em greve. Tiveram, então, que seguir a pé até o estádio, e lá vendo seu time jogar, o compositor teve a ideia da letra. A canção venceu um concurso em comemoração ao cinquentenário do time e depois se tornou o hino oficial”.

Ele compôs vários sambas-canção e diversas músicas de carnaval as quais interpretadas por grandes nomes da música popular brasileira, ainda permanecem na memória e no coração de muitos brasileiros. Boêmio por natureza, foi proprietário de vários bares e inventou o termo “dor-de-cotovelo”, que se refere à prática de quem apoia os cotovelos num balcão ou mesa de bar e sob a companhia de uma bebida ‘forte” chora a perda da pessoa amada. Ele foi constantemente abandonado pelas mulheres e talvez tenha buscado inspiração na própria vida para compor suas canções. A traição e o amor eram temas constantes.

Lupi, como era carinhosamente chamado, foi uma figura complexa. Em seu relato, no documento, indicou o nome do possível réu e a quantia de seu prejuízo em dinheiro: 100.000 cruzeiros. Ao analisarmos brevemente a autuação, verificamos que ele não apenas acertou “em cheio” o nome do ‘meliante’ como teve suas galinhas e seus sapatos velhos recuperados.

Lupicínio foi e continua sendo um grande cidadão porto-alegrense. Enfrentou com bravura o preconceito racial da época conseguindo reconhecimento social, artístico e musical e é um 20 gaúchos mais lembrados do século XX.

Este documento integra o Acervo do Poder Judiciário, Fundo Comarca de Porto Alegre. Se você tiver interesse em pesquisar no APERS, envie um e-mail para a Sala de Pesquisa (saladepesquisa@smarh.rs.gov.br) e solicite seu atendimento!

Fonte:
ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa6600/lupicinio-rodrigues Acesso em março de 2017.

.

Notícia relacionada:

Divulga APERS – Novidades

Ação Educativa em Arquivos VIII: serviço educativo no “The National Archives”, do Reino Unido

Deixe um comentário

Chegamos ao último texto do ano na série Ação Educativa em Arquivos, que abordará as experiências do The National Archives, ou Arquivos Nacionais do Reino Unido. Suas ações são bastante complexas, densas e bem estruturadas, certamente interessantes para motivar uma reflexão qualificada a respeito do potencial e do papel educativos dos arquivos públicos.

TNA 0

Ele é responsável pela documentação do Reino Unido, composto pelos países da ilha da Grã-Bretanha – Inglaterra, Escócia e País de Gales – e a Irlanda do Norte. Interessante notar que é uma instituição jovem, fundada em 2003 a partir da fusão de quatro organizações: o Public Record Office, criado em 1838 para ocupar-se dos arquivos de governo produzidos pela Inglaterra, País de Gales e Reino Unido; a Royal Commission on Historical Munuscrip, comissão criada em 1869 pelo poder real para identificar a localização e conteúdos de registros privados de interesse à história do Reino; o Her Majesty’s Stationery Office, que desde 1786 era responsável pelos documentos e publicações oficiais de autoria da Coroa e do Parlamento; e o Office of Public Sector Information, criado em 2005 por diretiva da União Europeia, para tratar e utilizar as informações reproduzidas e recolhidas pelo setor público do âmbito da UE.

Esta diversidade e amplitude faz com que o The National Archives reivindique o posto de maior arquivo organizado do mundo, detentor de documentos que permitem a análise de mais de 1.000 anos de história, desde a ocupação daquele território insular até a atualidade, passando pelo “tombo feudal”, pelas obras de Shakespeare até chegar nos recentes documentos desclassificados e disponibilizados ao público pelos governos do Reino Unido. A fundação contemporânea da instituição se deu a partir de uma concepção moderna de arquivo, enquanto espaço vivo, acessível, responsável pela gestão de documentos públicos, mas especialmente amplamente conectado e voltado à comunidade. Uma breve navegação pelo site da instituição evidencia isso: um programa consolidado voltado ao atendimento de professores e estudantes, instrumentos de pesquisa descomplicados, serviço de atendimento especial e personalizado aos pesquisadores, de todas as áreas, faixas etárias e níveis de formação – desde estudantes das escolas até pós-graduandos.

Obviamente não é possível comparar diretamente a realidade dessa instituição com a do APERS, ou com outros arquivos públicos brasileiros. É um universo bastante diverso do nosso, não só por ser uma instituição de caráter nacional, enquanto nos colocamos em uma posição estadual, mas também por questões históricas, econômicas e políticas. No processo de desenvolvimento da Revolução Industrial o Reino Unido constituiu-se enquanto a maior potência mundial imperialista, cuja riqueza permitiu alto grau de desenvolvimento econômico e social – em grande parte às custas da exploração de outras regiões do planeta – e onde a educação e o acesso à cultura puderam efetivar-se em outro patamar. Entretanto, reconhecendo tais diferenças ou desigualdades, nada impede que nos inspiremos com o trabalho desenvolvido por lá, sempre buscando aprofundar as relações entre sociedade e arquivo!

Nesse sentido, é um prazer navegar pela sessão “Education”, em destaque no portal institucional. Seria inviável desenvolver qualquer análise mais aprofundada de cada proposta, pois são muitas, então nosso principal objetivo, mais uma vez, é incentivar que nossas leitoras e leitores sintam vontade de navegar por lá também! Podemos encontrar uma grande variedade de ações educativas:

  • Longa série de propostas pedagógicas para uso em sala de aula, disponíveis para baixar, tratando de temáticas diversas e sobre todos os períodos históricos contemplados no acervo da instituição. Em geral, em cada uma delas são disponibilizados textos introdutórios, documentos digitalizados com suas respectivas transcrições, e propostas de questões para análise. Também há conteúdos maiores, ou mais aprofundados, voltados aos professores, para que possam preparar suas aulas a partir de uma gama de documentos e conhecimentos – podemos comparar com as propostas pedagógicas de nosso projeto “APERS? Presente, professores!“;
  • Workshops, ou oficinas, que podem ser agendadas para turmas escolares nas dependências do Arquivo, oportunizando o trabalho a partir de documentos originais – também podem ser comparadas com as oficinas oferecidas a partir de nosso Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS (PEP);
TNA 6 Workshops

Página de acesso às oficinas oferecidas pelo Arquivo.

  • Videoconferências, que também podem ser agendadas para “levar” os arquivos até as escolas. Nessas atividades um profissional do setor educativo apresenta a instituição, seus serviços, espaços e acervos, em uma visita virtual interativa;
Conhecendo as opções de videoconferências.

Conhecendo as opções de videoconferências.

  • Virtual classrooms, ou aulas virtuais, em que um educador do Arquivo interage com as turmas apresentando, analisando e debatendo contextos históricos e documentos que são disponibilizados em alta resolução através de um ambiente virtual;
  • Professional development, ou programa de desenvolvimento profissional voltado para professores. Nesta área, são oferecidas atividades e formações que tem como foco oportunizar que eles tenham acesso aos fundos e coleções do Arquivo, e desenvolvam suas próprias pesquisas e planos de ensino a partir deles – neste tópico, também é justo destacar os cursos de formação para professores oferecidos anualmente através do PEP. O programa realiza encontros de treinamento para grupos de professores mediante agendamento; desenvolve propostas pedagógicas em parceria entre a equipe de educação do Arquivo e pesquisadores universitários; mantém um curso de formação online, Making History: Using archives in classroom, em que compartilham com professores sua experiência com a utilização de fontes arquivísticas nas salas de aulas; e realizam anualmente um curso de formação, sempre em parceria com universidades, sobre o qual cabe dizer algumas palavras a mais.

Chamou-nos a atenção a última proposta de formação de professores mencionada, por buscar desenvolver algo que nos parece central: a habilidade de manuseio, leitura, interpretação e produção de conhecimento em parceria entre professores da educação básica, educadores do arquivo e professores universitários. O curso desenvolve-se a partir de palestras, atividades práticas, encontros no Arquivo e na sede da Universidade parceria, e tem como principal resultado a produção de pesquisa voltada ao ensino de história a partir de documentos arquivísticos, com a apresentação de novas propostas pedagógicas criadas pelos professores, que são publicadas pelo The National Archives. Certamente é um avanço em um longo e necessário caminho que visa desconstruir abismos ou hierarquias entre professores acadêmicos, professores da educação básica, e profissionais das instituições de memória. Muitas vezes ainda percebemos o acadêmico como aquele que produz e detém conhecimento, os professores do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio como aqueles que vão “traduzir” para uma linguagem “simples” o conhecimento produzido pelos primeiros, e os historiadores, arquivistas de demais profissionais de arquivo como técnicos que devem simplesmente organizar e dar acesso às fontes para que outros “pensem-nas”. Nessa perspectiva, deixamos de lado a importante compreensão de que o processo de ensino-aprendizagem exige e envolve complexa produção de conhecimento, assim como ocorre nos processos de gestão documental, descrição, difusão e educação em arquivos.

Encerramos as postagens de 2015 sobre ação educativa em arquivos, felizes por difundir esse caminho de valorização, tanto da educação quanto dos arquivos, e de todos os profissionais que podem ser responsáveis pela construção de uma sociedade mais informada, preparada, ciente de seus direitos e de sua história, capaz de se apropriar do patrimônio cultural que a cerca, de questioná-lo e preservá-lo. Que em 2016, apesar das crises que vivenciamos e que lutaremos para superar, possamos seguir abrindo caminhos nessa perspectiva por aqui.

%d blogueiros gostam disto: