Entrevista com Paulo Roberto Staudt Moreira – parte 2 de 4

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Na semana anterior, primeira parte da entrevista, Paulo Moreira vinha nos falando do prazer intelectual ocasionado pela pesquisa em arquivo, prosseguindo falando sobre espaços de sociabilidade entre pesquisadores que estão se perdendo e, em seguida, sobre o impacto dos processos criminais como fonte sobre sua geração de historiadores.

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Também uma outra coisa que deve ser destacada, que é geracional, é de que nesse momento na década de 1980, existe, talvez, um documento que esteja sendo salientado como foco principal, onde a gente pode encontrar essa experiência humana na história, que são os processos criminais, os documentos judiciários. O Arquivo Público conservou aqui para a gente. Então, esses pesquisadores todos, é interessante que cada um deles, com a temática diferente, eles estavam indo para uma mesma fonte e estavam encontrando nessa fonte não uma fonte monolítica, porque o documento judiciário não é isso, o documento judiciário ele é quase um dossiê, ele é um dossiê, ele é um conjunto de várias fontes que estão ali juntos, vários documentos que são costurados juntos e no final se coloca uma capinha. Então, essa coisa de acessar essa realidade histórica e essa experiência humana através dos processos crimes, eu acho que marcou muito essa minha geração, o que eu acho que é muito uma geração marcada pela UNICAMP; de novo Sílvia Lara, Chalhoub ou mesmo o João José Reis e outros caras que estavam pesquisando por aí e estavam tentando entender um pouco essa experiência humana através dos processos judiciários. E eu continuo, é uma coisa que eu não perdi ainda, o prazer de frequentar arquivo, por mim eu continuo com o maior prazer de frequentar arquivo, adoro sentar e vasculhar. Tenho encontrado experiência humana em outras fontes, obviamente, né? Tu pode pesquisar um inventário post-mortem, um testamento, uma fonte policial ou alguma coisa nesse sentido que é muito do olhar que tu vai dar para essa fonte, mas, o prazer eu continuo sentindo do mesmo jeito. Isso para mim é muito bom, acho que isso mantém o tesão que tenho ainda pela pesquisa, porque eu estou sempre inventando coisa nova para pesquisar e eu acho que se tem uma coisa que eu transmito bem é essa paixão pela pesquisa. Quando eu começo a falar as pessoas sentem e veem assim, que para mim é profissão, é político, mas é lúdico também. Para mim, isso tudo está lincado e é indissociável.

Rodrigo:

– Uma coisa que me chama atenção no teu trabalho, justamente é isso, a variedade de temas que despertam teu interesse, é saúde, é infância, é escravidão em áreas de colonização alemã… Então, queria te pedir para falar um pouco sobre qual é a fonte de tanta curiosidade intelectual.

Paulo:

– Eu acho que é uma crítica… Acho que tudo isso navega um pouco numa certa crítica política bem contemporânea, né? Acho que as minhas insatisfações políticas contemporâneas acabam condicionando também a minha visão do passado. E nesse sentido, eu acho que sou um grande privilegiado, num certo sentido. Quando eu trabalhava em arquivo – eu trabalhei 22 anos em arquivo – isso também me dava contato com gerações sempre novas de historiadores, e eu estou ligado há 17 anos a um programa de pós-graduação, durante um período político em que os programas de pós graduação cresceram, então, eu vi esse crescimento e essa estruturação dos programas de pós-graduação. Eu sou, eu fui cria disso como aluno, fiz mestrado e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e depois retornei professor de um programa de pós-graduação, durante 17 anos. Então, essa questão da orientação, ela também te mantém atualizado e te rejuvenesce, porque são gerações que vão chegando e que vão, e digo isso com maior a tranquilidade, mais do que você chegar e bancar o orientador e ter resposta para tudo, mas, na verdade, tu se atualiza com as orientações. 2019.07.24 PauloPorque os caras trazem novas demandas. Agora, por exemplo, eu tenho orientado muitas historiadoras ligadas a gênero, historiadoras feministas e tal, e isso tem me obrigado a atualizar, me obrigado a ler historiografias que não estava… eu sou obrigado a sair da minha zona de conforto. É um “problema” porque tu tem que estar toda hora se sentindo um pouco desconfortável, mas, por outro lado, tu se atualiza e tu te sente sempre provocado. Então, eu acho que nunca me senti num certo fim de carreira historiográfico, porque parece que sempre novas temáticas têm me provocado e eu acho que muito por essas duas coisas, uma questão de orientação, que eu tenho que me atualizar e outra por questões contemporâneas. Por exemplo, os trabalhos que fiz com a presença negra em São Leopoldo, isso para mim foi, como professor de universidade localizada no Vale dos Sinos, em São Leopoldo, eu percebia isso, ou seja, é uma região marcada pela imigração alemã, pela imigração europeia, um local que tu tem um clube negro, tu tem o clube negro em São Leopoldo, tem o Cruzeirinho em Novo Hamburgo que pertencia a São Leopoldo, tu tem uma presença negra muito grande, desde os tempos da própria instalação da colônia alemã, tem a Feitoria do Linho Cânhamo, tem uma presença escravizada, tu tem uma presença negra escravizada, mas também livre e forra, muito grande durante todo esse período, os trabalhadores dos curtumes daquela região que vão dar origem a indústria calçadista mais contemporânea, eram basicamente trabalhadores negros e essa população era praticamente invisibilizada. Então, se a gente tem uma invisibilidade da população, se a gente tinha uma invisibilidade da população negra muito extensa, em alguns locais essa invisibilidade era ainda maior. Então, trabalhar população negra nessa região com um passado escravista, para mim, politicamente, foi muito interessante. Porque esse livro que eu lancei com o Miqueias, que é sobre a presença negra escravizada em São Leopoldo, talvez tenha sido o livro que eu mais apresentei por aí, porque a editora Óikos fez questão de entrar em contato com as prefeituras municipais do Vale dos Sinos, então a gente saiu dando curso para os professores, palestras e tal, falando disso, falando para os professores que sentiam necessidade disso, eles não tinham muito material para a sala de aula. E eu acho que esses temas todos vão se desdobrando, essa questão da presença escravizada em zonas de imigração foi um pouco essa questão. No início quando eu fui para o mestrado, eu entrei para trabalhar com escravidão, meu projeto de entrada na UFRGS foi sobre escravidão, mas quando comecei a trabalhar com processos crimes eu comecei a me encantar muito pelos processos crimes, com as experiências populares e eu estava muito thompsoniano, eu nunca deixei de ser thompsoniano, eu sou muito conservador, assim, (risos) e aí eu comecei a me encantar muito por essas coisas das experiências populares. Então, o processo-crime me levou muito para isso, porque eu sou muito influenciável, as fontes me levam… É muito aquela coisa da dialética do conhecimento histórico do Thompson, eu não tenho essa de entrar com a caixinha pronta em arquivo, a minha própria dialética do conhecimento, as próprias fontes, elas vão bagunçando o meu esquema e aí, no mestrado, eu acabei trabalhando uma questão mais de populares, que é um troço que eu gostei muito de fazer. Eu mesmo tenho várias críticas ao meu trabalho de mestrado, mas eu gostei de fazer, me deu muito prazer em trabalhar com isso, de pensar Porto Alegre através de uma perspectiva “de baixo”, pensar essas questões. E aí depois que eu terminei o mestrado, em 1992 o Arquivo teve um concurso público, isso modificou muito as instituições também, porque o último grupo que entrou nas instituições tinha sido na década de 1970 e aí em 1992 nós temos o ingresso de um monte de gente. O Arquivo Público muda muito, né? E a partir de 1992 que eu entrei no Arquivo Histórico e aqui nós tivemos vários arquivistas no Arquivo Público, nesse hiato entre mestrado e doutorado eu percebi que a historiografia começou a bombar uma certa fonte que eu não tinha nunca olhado, que eram as cartas de alforria. Eu fiquei muito curioso de pesquisar essas cartas de alforria e aí, sem ter entrado ainda no doutorado e já comprando um computador, eu vinha aqui para o Arquivo quando tinha tempo livre e comecei a fichar as cartas de alforria cartoriais, foi quando eu comecei a preparar o material para aquilo que eu achava que ia ser o meu doutorado. Aquele era um momento que o Arquivo Público estava começando a mudar, porque quando eu pesquisava aqui no Arquivo Público lá atrás, tinha uma senhora que se aposentou e eu não lembro o nome dela, me lembro que era assim: a gente era atendido por essa senhora, pelo Jorge e pelo Zé Carlos, que eram os caras que nos atendiam ali. E não tinha instrumento de pesquisa, então a gente chegava aqui e tinha uns fichários antigos, mas eram uns fichários que remetiam para os documentos individuais, não para conjuntos documentais. Então me lembro quando eu cheguei aqui e dizia “Eu quero os processos criminais de Porto Alegre de 1850” e a senhora essa que trabalhou aqui, ela dizia para os guris “Subam aqui, estante tal, eles estão ali” e aí eles traziam um maço e a gente ia… “Bom, então esse aqui é o maço 58 que é de tal ano”, “então eu terminei, me dá o 59”… A gente ia pesquisando desse jeito, então a gente ia pesquisando esse tipo de coisa. Hoje em dia tu vê, o Arquivo Público tem os instrumentos de pesquisa, o grosso do acervo ele está organizado e catalogado, o Arquivo não é um arquivo morto, então a todo momento estão entrando fontes novas e refinando, hoje a gente tem um site onde tu pode fazer a pesquisa individual, a gente tem os catálogos maravilhosos. Quando eu comecei então a pesquisar, quando eu saí do mestrado, comecei a pesquisar as cartas de alforria que era algo que começou a me atiçar muito a curiosidade. Aí eu tive outras experiências, não eram só aquelas experiências dos processos judiciários, mas eram outras experiências que remetiam a outras coisas que estavam presentes também nos processos judiciários, mas que nas cartas de alforria eu acho que estavam mais, que eu via mais, que era, por exemplo, a questão familiar, a questão de um escravizado ser alforriado por grana da madrinha, ou por grana da mãe, ou por grana do pai. Então, tu percebia um certo esforço coletivo por trás daquilo, um esforço coletivo e político ainda dentro do período da escravidão, então isso me remetia a coisas muito legais. Aí então, as cartas de alforria acabaram me ajudando nesse sentido, assim, que foi quando eu fui para o doutorado e fiz um trabalho sobre a questão das alforrias em Porto Alegre nesse período. E esse trabalho das alforrias acabou crescendo depois, que é o livro que vem depois. Porque eu terminei meu doutorado, defendi meu doutorado, orientado pela Pesavento, meu mestrado foi pela Helga, aí eu fui para a Pesavento porque a Sandra estava passando de fase, assim, ela estava saindo do marxismo gramsciano dela, ela estava numa fase que estava namorando os neomarxistas ingleses e ela estava indo para uma nova história cultural, e aí eu meio que fiquei no meio termo do caminho dela; eu fiquei nos neomarxistas, nessa coisa da experiência social, namorei um pouquinho com história cultural, tem gente que fala que eu faço uma história muito sociocultural, que a história cultural acabou me dando uma sensibilidade nesse sentido; o Rodrigo [Weimer] tem a mesma sensibilidade, mas pela via da antropologia, eu acho, então, para mim, foi um pouco da via da história cultural. E depois de eu ter defendido a tese, eu fui convidado pelo Frei Rovílio, Frei Rovílio Costa, que é meu conhecido já do Arquivo Histórico, o Frei Rovílio me convidou para fazer uma palestra na feira do livro em São Leopoldo, que era justamente para dar uma mexida nessa questão da escravidão e tal. E eu fiz essa palestra e o Frei Rovílio depois me perguntou duas coisas. Ele perguntou: “Vamos publicar tua tese? Eu publico ela em livro pela EST” e eu digo “Tá, tudo bem”. A gente não tem canais de financiamento de livro, então quando a gente tem condições de colocar na rua… e aí ele disse assim: “E outra coisa, será que a gente não podia ampliar essa tua pesquisa? Será que tu não podia pensar essa pesquisa das alforrias de uma forma maior, pensando Porto Alegre, mas pegando um período meio completo das cartas de alforria cartoriais?” Daí foi que a gente começou a fazer esse trabalho. A gente conversou com o pessoal aqui do Arquivo Público que estava interessado em começar a fazer isso, em pensar essas ideias. Era um projeto que unia EST e Arquivo Público num primeiro momento e foi legal, porque o pessoal do Arquivo Público inclusive nos liberou documentos que estavam fora de acesso, alguns livros de cartório que estavam fora de acesso e tal, para mim e para a Tatiane Tassoni. A gente conseguiu pegar esses livros para fazer o levantamento das cartas de alforria, então a gente pegou do século XVIII até 1888. Isso nos possibilitou fazer, pelo menos de Porto Alegre, depois o Arquivo Público completou esse projeto fazendo as cartas de alforria do interior e por isso agente tem os catálogos aqui no Arquivo Público, que são as cartas de alforria do interior, mas não tem catálogo de Porto Alegre, porque esse projeto que a gente fez era para fazer parte desse projeto.

Clarissa Alves:

– Era, mas não foi?

Paulo:

– Eu não sei. Não sei direito como é que foi. Eu sei que deu algum desentendimento e acabou não rolando, assim, acabou a EST lançando o livro das alforrias, meu e da Tati [Tatiane Tassoni], e não ficou fazendo parte dos catálogos, mas no final das contas acho que… Quer dizer, foi uma experiência genial, foi uma experiência muito boa, sei lá, foi uma experiência muito legal de trabalhar com essa fonte que eu não conhecia.

Aguarde a terceira parte da entrevista com Paulo Moreira, na próxima semana!

APERS Entrevista: Bruno Stelmach Pessi

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   A partir deste mês entrevistaremos pesquisadores que utilizam o nosso acervo como fonte para seus trabalhos, ou que tiveram o APERS como objeto de pesquisa. Nesta primeira edição, conheça um pouco mais sobre Bruno Stelmach Pessi, que trabalha com nossas fontes desde 2007.

Bruno é historiador formado pela UFRGS, tem 26 anos e está cursando mestrado no Programa de História Social da USP. É o atual presidente da Associação dos Amigos do APERS.

Blog do APERS: Bruno, você poderia comentar um pouco sobre o trabalho que vens desenvolvendo no Mestrado?

Bruno: A minha pesquisa tem o objetivo principal de tentar entender as características da escravidão em Pelotas depois do fim do tráfico. Ou seja, a partir do estudo da estrutura de posse e da demografia, principalmente nos dados dos inventários post-mortem, eu quero entender como se estruturou, continuou se estruturando ou se fragmentou a escravidão em Pelotas depois da cessão do tráfico atlântico.

Blog do APERS: Como se deu a tua aproximação com o tema da escravidão?

Bruno: Foi a partir de um trabalho desenvolvido pelo APERS, onde eu trabalhei como estagiário no projeto Documentos da Escravidão, começando a trabalhar com os inventários. A aproximação com o tema na documentação me fez procurar bibliografia, buscar leituras que embasassem o meu conhecimento, e me aproximou como pesquisador também. As fontes, aliadas à literatura, me fizeram problematizar a questão e desenvolver pesquisa na área.

Blog do APERS: Qual a importância do acervo do APERS para tua atuação enquanto pesquisador?

Bruno: O acervo do APERS foi fundamental. Inicialmente como o primeiro contato com documentação histórica, em segundo o contato com documentação sobre escravidão, e terceiro em continuar desenvolvendo trabalhos em cima deste acervo, que é um dos mais bem organizados do Estado e do Brasil.

Blog do APERS: Qual a tua dica para os pesquisadores que estão começando agora a lidar com fontes primárias?

Bruno: Eu acho que é importante ter paciência, porque às vezes não é fácil manusear a documentação, e nem sempre sabemos solicitar os documentos que precisamos. Além disso, é fundamental ter bastante clareza do tema e de como as fontes podem te ajudar nesta pesquisa.

Blog do APERS: Nas tuas horas vagas, quando não estás pesquisando, quais são os teus hobbies ou tuas atividades preferidas de lazer?

Bruno: Eu gosto bastante de esportes, gosto bastante de praticar corrida, jogo futebol às vezes com meus amigos, faço cerveja artesanal em casa, viajar e também adoro ficar em casa, curtir um filme, cozinhar um pouco…

Participação do APERS no I Seminário do Centro de Memória Regional do Judiciário – 10 anos de história

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     Realizado pelo Instituto de Memória Histórica e Cultural da Universidade de Caxias do Sul, na semana de 7 a 11 de novembro, o I Seminário do Centro de Memória Regional do Judiciário, cujo objetivo foi conhecer e divulgar a produção historiográfica elaborada em todo o país a partir da utilização de fontes judiciais, contou com a participação de arquivistas do Arquivo Público do RS no dia 09 de novembro.

     As arquivistas Aline Maciel, Camila Couto e Maria Cristina Fernandes apresentaram as fontes documentais do Poder Judiciário sob custódia do APERS, bem como o trabalho de organização realizado pelas equipes de Descrição e de Gerenciamento do Acervo, e o trabalho da equipe de Pesquisa Histórica na realização de pesquisas, projetos e promoção de eventos sobre a temática.

     Estiveram presentes também, a servidora do Poder Judiciário, Anelda de Oliveira, apresentando o trabalho realizado pelo Arquivo do Tribunal de Justiça do Estado do RS e o professor Arno Wehling, presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Este elogiou a publicação dos Catálogos Seletivos Documentos da Escravidão e a realização de atividades voltadas para Educação Patrimonial no APERS.

     Um dos objetivos do evento foi conhecer e divulgar a produção historiográfica produzida em todo o país a partir da utilização de fontes judiciais.

Acesse os Catálogos Seletivos Documentos da Escravidão nos links abaixo:

Documentos da Escravidão – Cartas de Liberdade Vol. 1

Documentos da Escravidão – Cartas de Liberdade Vol. 2

Documentos da Escravidão – Compra e Venda

Documentos da Escravidão – Inventários Vol. 1 e 2

Documentos da Escravidão – Inventários Vol. 3 e 4

Documentos da Escravidão – Processos Crimes

Documentos da Escravidão – Testamentos

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