APERS entrevista Pesquisadora Patricia Bosenbecker

Patrícia Bosenbecker, 28 anos, é bacharel em História (FURG/2006), mestre em História (UFRGS/2011) e, a partir de março, doutoranda em Sociologia (UFRGS). Pesquisadora sobre a temática da imigração alemã, Patrícia é nossa entrevistada deste mês!

Blog do APERS: Patrícia, você poderia comentar um pouco sobre o trabalho que vens desenvolvendo atualmente?

Patrícia: Sim. Trabalho com imigração, mais especificamente imigração alemã na Região Sul do Estado, que é uma área com muitas possibilidades de pesquisa para os estudiosos da imigração. Trabalho com inventários, com mapeamento de casais imigrantes, e com os primeiros anos da colônia São Lourenço. Por outro lado, também sou bolsista e meu trabalho, nesse sentido, é fazer um levantamento sobre os escravos da metade Sul do Estado, ou seja, são duas temáticas completamente diferentes, mas que me oportunizam conhecer bastante sobre a situação da Região Sul do Estado, no século XIX. Basicamente trabalho com isso, em especial com processos de inventários e processos criminais envolvendo estas duas linhas.

Blog do APERS: Como se deu a tua aproximação com este tema?

Patrícia: Acho que tudo começou com minha primeira anotação, ainda adolescente, da história da minha família. Sentei junto a minha avó e ela ditou tudo que lembrava e tinha capacidade de fornecer como informação. A partir daí comecei a pesquisar sobre a família, não se tinha nada, nenhuma informação, foto ou qualquer coisa e essa pesquisa começou a crescer… até que cheguei aos casais de imigrantes que aportaram na Colônia São Lourenço, de onde sou natural. Quando cheguei nesses imigrantes, pronto! Sabia o que queria para minha vida! Queria ser historiadora para estudar imigração! Entrei para a faculdade e isso começou a ganhar um peso, passei a trabalhar com acervos… Lembro que o primeiro acervo em que pesquisei foi o da Biblioteca Rio-Grandense, que tem uma massa documental bem valiosa. Desenvolvi meus primeiros trabalhos nessa temática e vim para Porto Alegre para ampliar as pesquisas. São Lourenço é uma região de muitas estâncias e sempre fui fascinada por esse contraponto, a estância ao lado de uma colônia alemã. Aqui tive a oportunidade dê virar bolsita, trabalhando com processos que envolviam escravos, fazendeiros… foi muito interessante porque meu trabalho foi ligado a isso, a relação entre esses primeiros colonos imigrantes e esse sistema já montado. A pesquisa sobre escravidão foi importante para o meu crescimento profissional, mas a questão da imigração é algo que me impulsiona a trabalhar na história. Comecei fazendo a genealogia da minha família, fiquei muito curiosa com os casais e filhos que se perderam, pois se tem pouca informação sobre eles. Consegui listas de imigração, fui formando os casais e famílias… Hoje busco mais informações no sentido da condição de vida que tiveram, como se relacionaram naquele ambiente, mas quando tenho um tempinho continuo ampliando a pesquisa sobre a família.

Blog do APERS: Qual a importância do acervo do APERS para tua atuação enquanto pesquisadora?

Patrícia: Fundamental! Aqui tu tens acesso a documentos de todo o Estado, das mais variadas localidades. Não trabalhas apenas com aquela pessoa que em geral produziu mais documentos, que são os grandes fazendeiros ou militares, por exemplo. Tens acesso a documentos produzidos por muitas famílias. Trabalho com colonos, pessoas que em geral tinham um lote de terra e algumas delas eram analfabetas, então não deixaram muitos documentos. Quando tu encontras um inventário deles é fantástico, porque tem informações as mais variadas possíveis! Em alguns tu encontras informações que nem esperava, como referência a parentes na Alemanha ou de outros países… Este acervo é fundamental para o trabalho do pesquisador que gosta de fontes primárias, quem quer trabalhar com fontes precisa visitar, mesmo não sendo de Porto Alegre, o que é uma dificuldade.

Blog do APERS: Você participou da Mostra de Pesquisa do APERS, a qual valoriza o uso das fontes primárias. Enquanto pesquisadora como avalia a importância da participação de pesquisadores em eventos como a Mostra?

Patrícia: Acho muito importante esses eventos. Primeiro pelo intercâmbio entre os trabalhos, um pesquisador colabora com o outro, apresenta um arquivo que ele desconhecia ou acervo que não estava acostumado a trabalhar… O intercâmbio é para mim o mais importante, depois a oportunidade de divulgar o trabalho. Muitas vezes, assistindo à apresentação de alguém é possível obter informações que temos interesse e não sabemos muito sobre. Para alunos que estão começando a pesquisar é interessante participar para saber a quem procurar no caso de troca de informações, é um campo fundamental. Na maior parte das vezes tu ficas só produzindo artigos, são raros os eventos que tu podes falar com outros pesquisadores… Gostaria que tivesse mais nesse nível.

Blog do APERS: Qual a tua dica para os pesquisadores que estão começando agora a lidar com fontes primárias?

Patrícia: São duas. A primeira é paciência. Seja para o pesquisador que esta fazendo a genealogia ou pesquisando sobre as terras do avô ou um tio que morreu na guerra ou aquele pesquisador acadêmico, que é bolsista e vem para o Arquivo fazer um trabalho bem específico. É preciso ter paciência! A letra, a grafia dos processos é diferente do que ele está habituado a ver, então leva um tempo para conseguir pegar prática na leitura. É um trabalho demorado. Depois tem que se habituar à documentação, como manusear, entender como funcionava a administração dos sistemas… comarca, fundo, subfundo, município, distrito… às vezes não há uma boa noção disso, então é preciso estudar. Realmente é demorado, e junto com a paciência vem a persistência. A segunda dica é organização! Para o pesquisador da faculdade, o estudante em geral, o orientador já explica como é, mostra que tipos de recursos utilizar para organizar o material, como vai organizar o banco de dados, o que não pode esquecer de anotar, como página, número do processo… Mas quem está iniciando a pesquisa sobre a família ou veio apenas olhar algumas coisas, muitas vezes não consegue ter essa percepção quando está na sala de pesquisa. Ele quer fazer tudo hoje e, às vezes, não funciona assim. É importante pensar desde a primeira nota o que precisa… a página, o número do processo, da caixa/maço onde está a informação… Depois, claro, vai se dar conta que tem informação desnecessária e outra importante que esqueceu de anotar… É preciso cuidar esse quesito, o da organização do material. São essas as duas coisas para começar: paciência e organização.

Blog do APERS: Nas tuas horas vagas, quando não estás pesquisando, quais são tuas atividades preferidas de lazer?

Patrícia: Depende! Se ficar na cidade, gosto muito de filmes, então provavelmente esta vai ser a primeira atividade da lista. Também se tiver um cantinho com um pouco mais de silêncio, vou procurar alguma coisa de literatura clássica, autores do século XIX. Lembro que no colégio não lia muito, e depois fui ficando com essa vontade. Acho bem legal, é um exercício de paciência. Mas se tiver condições vou para o campo, onde minha família mora, na zona rural de São Lourenço, equilibrar minhas energias com a natureza. É o que vai me deixar de bateria carregada, pelo menos uma vez por mês, se eu consigo está ótimo!

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