Projeto AfricaNoArquivo: sobre a distribuição das caixas pedagógicas!

4 Comentários

     Na última sexta-feira, 28/11, aconteceu o evento de lançamento das caixas pedagógicas produzidas a partir do Projeto AfricaNoArquivo, que desde então passaram a ser distribuídas. Foi uma excelente atividade cultural que se transformou em uma linda festa!

     Contamos com a comunicação do historiador Rodrigo Weimer, que compartilhou conhecimentos e experiências a respeito do maçambique de Osório, expressão cultural e religiosa negra em devoção à Nossa Senhora do Rosário característica do Rio Grande do Sul, que mescla elementos de matriz africana, memórias do período da escravidão e ritos católicos que se expressam em uma festa de coroação da rainha do maçambique, preparada ao longo de todo o ano e repleta de símbolos e significados. Rodrigo demonstrou os percursos de pesquisa que o levaram ao quilombo de Morro Alto, local onde o maçambique acontece, evidenciando as contribuições do acervo do APERS para traçar a genealogia das rainhas e as relações sociais estabelecidas entre suas famílias no contexto do final da escravidão e no pós-abolição. Sua fala demonstrou a importância da presença negra em nosso estado, e a necessidade de (re)conhecimento de seu legado, que é um legado de todas e todos nós.

     Em seguida, realizamos a solenidade de lançamento das caixas pedagógica, que contou com a presença da diretora do Arquivo Público, Isabel Almeida, da presidente da Associação dos Amigos do APERS (AAAP-RS), Clara Kurtz, e do prof. Igor Teixeira, coordenador na UFRGS do Programa de Educação Patrimonial UFRGS/APERS, que também foi parceiro nessa iniciativa. Na oportunidade a diretora Isabel historicizou o processo de escrita do Projeto AfricaNoArquivo e as ações que vem sendo desenvolvidas na área de história da escravidão, de resgate e valorização da história negra no RS, salientou a importância da captação de recursos através do Prêmio Pontos de Memória, do IBRAM, assim como o envolvimento e esforços da equipe para concretizar o projeto. A presidente Clara registrou a satisfação da AAAP-RS em contribuir para o desenvolvimento técnico, científico e cultural do Arquivo, e reafirmou seu compromisso em aprofundar e qualificar projetos que tenham tal objetivo. O professor Igor demonstrou a alegria em ver concretizado o sonho de distribuir materiais pedagógicos que levassem um pouco do Arquivo para dentro de 650 escolas, ideia que inicialmente se apresentava como audaciosa e complicada, mas que tomou corpo e mostrou-se viável.

     Após a solenidade o grupo presente foi conduzido ao jardim do Arquivo, onde pode desfrutar de uma belíssima apresentação musical do grupo Três Marias, que interpretou canções de nossa cultura popular, em sua grande maioria de matriz afro-brasileira. A apresentação conectou-se perfeitamente com temas debatidos no evento e com os objetivos centrais do Projeto AfricaNoArquivo: conhecer e valorizar a cultura negra no Rio Grande do Sul! Confira abaixo as fotos do evento.

     Salientamos que desde sexta-feira as caixas pedagógicas estão a disposição das escolas da rede pública de Porto Alegre, Canoas e Gravataí, e podem ser retiradas no APERS por servidores das instituições de ensino desses municípios mediante assinatura de um termo de compromisso, de segunda a sexta, das 09h às 17h sem fechar ao meio dia. Informações pelo e-mail acaoeducativa@sarh.rs.gov.br e pelo fone 3288-9117.

     Em 2015 tentaremos ampliar o alcance da ação. Assim, escolas de outros municípios que estejam interessadas em receber o material devem enviar e-mail registrando nome da instituição, cidade, nome do professor/coordenador, email e telefone para contato, de forma que possamos fazer uma listagem de espera. Entraremos em contato informando quando houver disponibilidade.

     Confira as fotos do evento:

Este slideshow necessita de JavaScript.

Projeto AfricaNoArquivo: Lançamento das caixas pedagógicas!

Deixe um comentário

Ao longo desse ano nossa equipe dedicou-se à execução do Projeto AfricaNoArquivo: fontes de pesquisa & debates para a igualdade étnico-racial no Brasil, patrocinado pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) através do Prêmio Pontos de Memória 2012, com aportes da Secretaria da Administração e dos Recursos Humanos (SARH) e do Edital Proext/MEC, através de nossa parceria com a UFRGS.

É um trabalho de fôlego, através do qual conseguimos adquirir equipamentos, reproduzir nossos Catálogos de Documentos da Escravidão em CD para distribui-los a pesquisadores, e especialmente, construir caixas pedagógicas que serão distribuídas como doação a 650 escolas da rede pública de Porto Alegre, Canoas e Gravataí, os três municípios mais populosos da região metropolitana. As caixas contém reproduções de documentos de nosso acervo, um jogo de tabuleiro elaborado pela equipe a partir de tais documentos, com cartela de regras, pecinhas e material de apoio ao professor, e um DVD, com vídeo também produzido especialmente para o projeto e outros materiais de apoio.

Na semana em que celebramos o dia da Consciência Negra, 20 de novembro, nos alegramos em convidar a todas e todos para participar das atividades de lançamento das caixas pedagógicas, em evento que ocorrerá no dia 28/11, às 18h, no auditório do APERS. Teremos um bate papo com o pesquisador Rodrigo Weimer em que debateremos o legado negro em nosso estado a partir do Maçambique de Osório como expressão cultural de matriz afro-brasileira, além da solenidade de lançamento e de atividade cultural musical.

Não perca! A entrada é franca. Informações: 51 3288-9117 ou acaoeducativa@sarh.rs.gov.br

Esperamos com mais essa ação seguir contribuindo institucionalmente para a superação do racismo e do preconceito em nossa sociedade, e para a recuperação da história e da cultura negra no Rio Grande do Sul.

Cartaz final Lançamento AfricaNoArquivo

Arquivos & Diversidade Étnica: AfricaNoArquivo I

Deixe um comentário

Como divulgamos em publicação no dia 12/02 (aqui), através da Associação dos Amigos do Arquivo o APERS conseguiu captar recursos para o projeto “AfricaNoArquivo” junto ao IBRAM, que somados a recursos da UFRGS via Edital Proext – MEC oportunizará, entre outras ações, a distribuição para escolas públicas de caixas pedagógicas contento reproduções de documentos de nosso acervo, jogo pedagógico, textos e um vídeo de apoio.

Após um minucioso trabalho de pesquisa e seleção de documentos, que vem sendo realizado desde abril, nossa equipe escolheu um conjunto de seis documentos que foram digitalizados, transcritos, serão impressos, plastificados e organizados nos kits, previstos para serem distribuídos entre a última semana de outubro e a primeira de novembro. Hoje, como forma de divulgar essa ação, e de já principiar o compartilhamento das informações constantes nos documentos escolhidos, iniciamos dentro da categoria Arquivos & Diversidade Étnica uma série com três postagens, neste e nos próximos dois meses, elaboradas a partir de parte desses documentos. Esperamos que estes posts contribuam para aguçar a curiosidade de professores, estudantes e nossos usuários em geral, de forma que desejem conhecer melhor esse projeto!

Começamos pela história de Antônio Gaia, preto forro de nação nagô, da Costa da Mina, que no ano de 1883 deixou seu testamento registrado na cidade de Rio Grande. Aparentemente este é mais um entre tantos testamentos que fazem parte do acervo do Arquivo Público. Porém, quando olhamos com mais atenção nos damos conta de seu potencial e riqueza. Ele registra com um bom grau de detalhes a vida de um homem das classes populares e oprimidas que, ao contrário de grandes líderes ou homens abastados, a princípio não teria sua trajetória registrada e sua história de vida discutida nos dias de hoje. A análise desse testamento pode trazer uma série de elementos para problematizar o contexto da escravidão no Brasil, a resistência dos escravizados, as brechas abertas no sistema escravista a partir da atuação desses sujeitos históricos.

Com seus “cincoenta e tanto de idade” e já adoentado, como declara Antonio, o ex-escravo decide registrar suas últimas vontades, demonstrando que possuía família – reconhecendo oficialmente uma filha natural e uma companheira –, bens e uma rede de relações com outras pessoas já alforriadas que parece lhe aferir status de um homem reconhecido entre os seus, capaz de acumular pecúlio e contribuir financeiramente para que outros indivíduos alcançassem a liberdade, como é possível acompanhar através da transcrição de parte do documento:

[folha 1] Declaro que tenho uma filha natural de nome Zeferina Gaia, havida da finada preta forra de nome Leopoldina, a qual minha filha natural n’este momento solene, reconheço e legitimo, como se filha legitima fosse, e a considero e a instituo por herdeira universal de tudo quanto possuo. Declaro que deixo ao preto forro de nome Claudino, filho da finada preta Leopoldina, a quantia de quatro centos mil réis. Declaro que o preto forro, de nação Mina, de nome Natasso Lubi Marinho, que foi escravo do Visconde Pereira Marinho, da Bahia, me é devedor da quantia de nove centos e cincoenta mil réis, dinheiro este que faz parte, do que dei pela sua liberdade (…) [folha 2] Declaro que deixo a preta forra Izalina, minha companheira, todos os moveis e roupa que existirem dentro de minha moradia, do tempo do meo fallecimento.

Tanto no trabalho de pesquisa quanto de ensino, nas diferentes formas de escrita da história, o caso de Antonio pode ser muito ilustrativo de uma série de relações estabelecidas no cotidiano escravista que dizem respeito às formas de negociação entre senhores e escravizados, assim como pode suscitar discussões sobre como era a vida das pessoas escravizadas naquele contexto – que de alguma forma permitia que uma parcela desses homens e mulheres alcançassem a liberdade –, sobre sua origem étnica e cultural, o lugar de onde ele veio (Costa de Mina) e os elementos pertencentes a tal sociedade no contexto em que foi trazido ao Brasil, as contribuições de matriz africana que com ele atravessaram o Atlântico, etc.

Essas e outras questões serão levantadas a partir do projeto em questão, ao qual temos nos dedicado com muito carinho no último período, levando para dentro das escolas um pedacinho do APERS. Assim pretendemos contribuir para que educadores e educandos possam explorar os potenciais dos documentos como fonte de informação, de produção de conhecimento, de experiências de ensino e aprendizado mais dinâmicas, investigativas e instigantes. Em breve compartilharemos aqui mais informações e ideias de abordagem a partir de tais documentos.

%d blogueiros gostam disto: