Entrevista com Jovani Scherer – Parte II #NovembroNegro

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2019.11.20 Jovani

No trecho da entrevista publicada na semana anterior, o historiador Jovani Scherer explicava a origem e sua participação no projeto Documentos da Escravidão.

A gente lia um monte de coisas da documentação judiciária, comecei a perceber então de onde que os historiadores tiravam as informações, as ideias deles e comecei a pensar. Então surgiu esse momento do Daniel Saraiva, que era o nosso colega aqui responsável pela sala de pesquisa, me indicar para a diretora do Arquivo que foi uma pessoa muito importante para o projeto, a Rosani Feron, Rosani Gorete Feron… foi bem importante. Então quando ela me ofereceu, ela esperava que eu fosse me atirar na ideia de ser responsável pela sala de pesquisa, e eu achei que só seria interessante se tivesse uma abertura para um projeto, que eu nem sabia exatamente o que que era, alguma coisa nesse sentido, eu pensava nessa coisa do Moacir Flores e tal. Então eu fiz um projeto chamado “Escravos no Rio Grande do Sul” que sugeria que a gente fizesse então uma seleção de informações para criar instrumentos sobre quase todos os documentos que tinham no Arquivo, todos os acervos. Tinha carta de alforria, mas não era só carta de alforria, a carta de alforria viria depois que eu fiz o projeto, foi ajuntado porque daí a gente descobriu que o Paulo estava fazendo já o de Porto Alegre. Eu sabia que o Paulo estava pesquisando Porto Alegre, mas o Arquivo não tinha ciência de que existia um projeto vinculado a este e eles estavam num estágio avançado. Então a gente fez um projeto, um projeto assim… como a maioria das coisas que eu faço, meio megalomaníaco, que incluía todos os acervos, pesquisar os acervos todos, criar uma série de instrumentos sobre inventários, processos criminais e as suas variações, sumário crime, execução e outros documentos que eu já achava interessantes e que eu tinha certeza que teria horrores de coisas a respeito não só da escravidão, mas também dos livres e dos libertos. Já tinha começado a pesquisar. Visto que era coisa realmente grandiosa, se a gente organizasse algo assim teria uma grande serventia tanto para os pesquisadores, como do ponto de vista social. Haveria uma possibilidade de ter desdobramentos a respeito disso. Então eu apresentei um projeto para a Rosani e na mesma época surgiu um concurso de Ministério da Cultura da Espanha que financiava projetos Ibero-americanos e a gente conseguiu, a gente venceu lá, recebemos verba que na época era uns 20 mil euros ou 10 mil euros, não me lembro exatamente. Eu sei que o projeto começou com isso. Apresentei um projeto megalomaníaco para a Rosani, a Rosani deu uma adaptada, melhorou bastante, deu uma lapidada no meu projeto que tinha… esses projetos de universidade, cheio de página, cheio de citações, ela deixou de uma forma muito mais técnica, uma arquivista experiente. A Rosani, sensacional ela! E daí a gente ganhou, ganhamos essa verba aí e isso já deu uma outra, né… Porque imagina, né!? Pensa bem, né? Eu era o único estagiário de história, não era nem formado [risos]. Então deu uma dinâmica interessante, deu uma grana para a gente contratar estagiário, uma série de possibilidades para o projeto ir para frente. Então, nesse meio tempo, a Rosani descobriu, não sei se conversando com o Paulo ou com Frei Rovílio, eu sei que apareceu o projeto, a gente não sabia que estava acontecendo e que ele já estava em andamento. Daí se criou a ideia de fazer uma parceria. Eu achei ótimo porque eu tinha a minha experiência, que era uma experiência pequena, não estou nem comparando com a do Paulo, a minha é pequena comparada com a do Paulo, mas era uma experiência muito pequena. E de repente a gente tinha a possibilidade trazer para nós, eu não sabia exatamente como, uma experiência do Paulo que era um cara que trabalhava na época ainda no Arquivo Histórico e recém tinha defendido a tese dele, que recém tinha sido publicada. Então a gente começou o projeto pelas cartas de alforria em razão disso. A editora nos deu altos suportes, nos deu um suporte em vários níveis, levaram computadores, a Tatiane que era funcionária e estava assim, bá… nos deu toda a metodologia, primeiro ela vinha e revisava comigo, aprendi um monte com ela naquele momento super importante. Então nos deram um alto suporte, para o Arquivo, para a gente começar o projeto em termos práticos. Logo em seguida, a gente fez essa divisão, eles estavam trabalhando com as cartas de alforria de Porto Alegre que é um monte de alforria, acho que só Porto Alegre deve ter dez mil alforrias, mais ou menos, e nós começamos pelas alforrias dos principais e mais antigos municípios do restante do interior do Estado, Rio Grande, Pelotas, Cruz Alta, enfim. Depois a gente criou um calendário para seguir essa pesquisa que, de repente, foi a forma… De repente, não! Foi o que eu acabei trabalhando foi no catálogo das alforrias, mas a ideia era que o projeto se estendesse. Era um projeto para toda vida [risos]. E se estendeu. Mas ele tinha uma dinâmica diferente quando eu estava aqui, eu acho. Eu tinha uma coisa e tenho quando tomo e gasto no trabalho de brigar pelas coisas que eu acredito, eu insisto quando acredito que seja uma coisa justa. Então, quando eu entrei aqui no Arquivo e como não tinha um historiador concursado, não tinha área bem estabelecida, então, quando chegaram esses estagiários, os primeiros dez, a gente fazia todo um estudo. Eu não botava eles para ir para os livros, a gente fazia um estudo, lia livros de historiografia, fazia todo um seminário, até porque quando ele olhasse para um livro, ele conseguia entender o que que ele estava vendo. E mesmo porque o estagiário não está aqui como um trabalhador de remuneração mais barata, não, tem que ter uma contrapartida, ele vem aqui para aprender! E a minha ideia era de mapear essa documentação e fazer uma análise prévia, mais ou menos como saiu o trabalho da EST, que houvesse uma investigação em torno daquela documentação. Não era o meu projeto de doutorado, meu projeto de pesquisa, nada a ver com isso, mas no sentido de que o Arquivo enquanto instituição e, eu através da função que exercia na época, meio que me enfiando nessa função, fazer uma análise prévia, estabelecer algumas perguntas gerais, que a gente começasse a dialogar mais com a Academia e trabalhar com essas questões. A minha ideia era essa. Mas aí, o projeto teve alguns problemas, e isso eu não me lembro porque eu não participei, se eu tivesse participado, porque eu não tinha essa participação na ligação. Não sei exatamente o que houve entre a EST e, não sei se a direção do Arquivo, o pessoal lá, que não conseguimos nos estabelecer no final, antes das cartas de liberdade serem aprontadas. Ele [o projeto] acabou nem saindo pela EST, saindo pela CORAG. Não sei se já tinham se estabelecido antes, eu sei que teve algum problema ali no final, que a coisa não funcionou. O que também não me deixou muito contente na época, eu não gostei muito. E também acho que por isso eu não… Quando eu saí para o mestrado da Unisinos, daí fazendo o meu trabalho que envolvia as cartas de alforria dentre outras coisas, das experiências de liberdade lá em Rio Grande, eu me ofereci para continuar dando uma certa orientada sem nenhum custo para o Arquivo. Eu acho que poderia ter contribuído principalmente nessa ideia de formar e a gente ter um grupo que trabalhasse em torno dessa documentação, que pensasse essa documentação, porque a gente não quer ser um contador de documentos para publicar. Então aconteceu alguma coisa ali e eu também não consegui voltar mais, entendi que era outro viés que ia seguir e fico feliz que tenha seguido, foram anos publicando coisas. Mas, eu acho que poderia ter tido algumas outras maneiras de seguir esse trabalho, eu gostaria que tivesse um tempo maior. Eu via se estabelecendo algumas parcerias inclusive com as universidades, a gente tinha muita gente para ouvir. Não sei exatamente como é que se desenvolveu depois, mas imagino, pela maneira que estava se desenvolvendo naquela época, acho que o caminho seria esse, de ter uma escuta de profissionais mais experimentados, a própria Regina Xavier, entre outras pessoas. Que era, de certa maneira, o caminho que a gente estava tentado consolidar dentro do Arquivo, enquanto uma instituição que também começasse a permitir uma pesquisa, fornecer instrumentos e fomentasse e dialogasse. A gente criou a mostra de pesquisas do Arquivo junto com a Márcia, tinha outro evento que era o “Arquivo Público discute” que a gente fazia discussões de temáticas do momento. Porque o Arquivo tem essa possibilidade, guarda os documentos, mas ele também é um espaço. Um espaço incrível!

Vocês tinham noção do número de documentos, do volume documental que seria encontrado ou foi uma surpresa?

Assim, o número exato não. Mas, eu tinha uma ideia de que seria bastante, que era muita coisa. Não posso dizer que eu não tinha noção. Porque isso que fez eu gerar. Claro que algumas coisas nos surpreenderam. Eu não tenho uma ideia do projeto inteiro agora, porque, enfim, a vida pulsa lá fora, eu também estou enterrado de cabeça nas minhas questões como educador e as coisas que eu desenvolvi aqui no Arquivo continuam, mas eu não sei o volume dos outros acervos de quando eu estava aqui. Mas as cartas, não diria que me surpreendeu o volume final de números de alforriados, mas sabia que era muito grande. Porque pegava os livros e via, livros inteiros de Pelotas e cada alforria com 70… 80… 90, as vezes, pessoas no final da escravidão.

Leia a parte final da entrevista com Jovani Scherer na próxima semana!

 

O 20 de Novembro e o APERS

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A sexta-feira da semana passada foi marcada por mais um Dia da Consciência Negra, data escolhida pela comunidade para celebrar as lutas, as conquistas, a cultura do povo negro, para discutir e denunciar a permanência de relações racializadas e racistas entre as diferentes etnias que formam a população e para reivindicar mais direitos àqueles que contribuíram decisivamente para a construção do Brasil.

Embora o APERS não tenha conseguido realizar na semana da Consciência Negra um evento sobre as diversas temáticas possíveis e desejáveis de discussão para essa data, há tempos temos problematizado a história da escravidão, da luta por liberdade e das relações étnico-raciais, no decorrer de todo o ano. Nesse, especialmente, realizamos um trabalho de fôlego que, em paralelo à realização de um curso de formação para professores e para nossa equipe sobre tais temas, reformulou a oficina de educação patrimonial Os Tesouros da Família Arquivo, que os aborda a partir de documentos aqui salvaguardados e permite entrar em contato com vestígios do passado que registram a história de pessoas que foram escravizadas no Rio Grande do Sul.

A oficina foi a primeira criada na parceria entre o Arquivo Público e a UFRGS, sendo oferecida desde 2009 no âmbito do Programa de Educação Patrimonial (PEP). Em 2015 dedicamos a ela o primeiro semestre, aprofundando a pesquisa histórica em nosso acervo para escolher novos documentos que deem conta de ressaltar a diversidade de experiências e a resistência cotidiana de sujeitos históricos muitas vezes generalizados pela categoria “escravo” ou “escravizado”.

Hoje, como forma de valorizar e difundir o trabalho realizado, e de celebrar a Consciência Negra, compartilhamos um produto especial desse percurso: as gravuras que representam os personagens presentes na documentação analisada na oficina, que foram produzidas por Bruno Ortiz, professor de história e desenhista contratado pelo PEP. Até 2014 os estudantes recebiam uma silhueta com o perfil de uma mulher ou um homem escravizados, que deveriam caracterizar desenhando e escrevendo informações coletadas na pesquisa documental, buscando dar identidade aos indivíduos, como nestas fotos:

Entretanto, ainda que os estudantes fossem incentivados a personalizar as silhuetas, e a discussão fosse canalizada para a recuperação de histórias que foram conectadas pela experiência do cativeiro, mas que tinham suas singularidades, como utilizar o mesmo perfil para retratar a Maria, identificada como tendo vindo da região do Congo, que recebia sua alforria em 1883, quando tinha “noventa anos, mais ou menos”, e a Jacinta, nascida no Brasil, que estava sendo vendida com seu marido, Vicente, e com seu filho, Fortunato, de 1 aninho? Foi na tentativa de dar identidade a estas pessoas que as novas gravuras foram produzidas, e hoje são parte do material pedagógico utilizado pelas turmas que vivenciam a oficina Tesouros. Aqui estão:

As gravuras foram produzidas a partir da caracterização feita com base na pesquisa documental, transmitida ao artista pela equipe do PEP, e também em pesquisas bibliográficas e iconográficas realizadas por ele. Documentos e imagens possibilitam debates sobre a origem de cada escravizado, condições de vida, formas de resistência e de trabalho, especialização, cultura trazida do continente africano, reorganizada desde o tráfico transatlântico e produzida no Brasil, casamento e formação de famílias, luta pela liberdade e formas de alforria, entre diversos outros temas, que contribuem para que possamos conhecer trajetórias e relações sociais, entender sua complexidade, e nos apropriar de histórias que nos constituem.

Com esta postagem não apenas celebramos o Dia da Consciência Negra, mas especialmente reafirmamos o compromisso do APERS com a difusão de acervos, temáticas e pesquisas relacionadas ao conhecimento e valorização da história de negras e negros em nossa sociedade. Nesse sentido, é oportuno destacar uma recente conquista: a partir do próximo ano 20 de novembro será feriado municipal em Porto Alegre, decisão aprovada recentemente pela Câmara Municipal de Vereadores como resposta a uma reivindicação histórica da comunidade negra dessa cidade.

De nossa parte, assumindo nossa responsabilidade enquanto instituição pública de memória, continuaremos, por meio do desenvolvimento de diversas atividades, valorizando as lutas e o legado do povo negro, e multiplicando os 20 de novembro no APERS.

AfricaNoArquivo: desdobramentos do trabalho (I)

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2015.06.24 AfricaNoArquivo

    Até o mês passado disponibilizamos nessa categoria todos os materiais que compõem a caixa pedagógica AfricaNoArquivo, de forma que educadores e demais interessados possam ter acesso e montá-la para trabalhar com o tema da escravidão e da luta por liberdade a partir das fontes arquivísticas salvaguardadas no APERS. Hoje começamos a compartilhar atividades relacionadas, ou desdobramentos construídos a partir desse material, mostrando suas potencialidades.

    Além da distribuição e da difusão do projeto AfricaNoArquivo, uma das ações centrais com a qual a equipe de Ação Educativa do APERS está envolvida nesse primeiro semestre de 2015 é a reformulação da oficina de educação patrimonial Os Tesouros da Família Arquivo, realizada no âmbito do Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS desde 2009. Esta oficina é oferecida às turmas de 6º e 7º anos do Ensino Fundamental e também debate a resistência à escravidão a partir de inventários, processos criminais, testamentos, registro de compra e venda e cartas de liberdade.

    Uma das medidas para sua qualificação foi a construção de uma atividade preparatória a ser realizada pelas turmas antes da vinda ao Arquivo, tendo como principal objetivo contribuir para que os/as estudantes reconheçam diferentes tipologias documentais do acervo do APERS que podem ser usados na pesquisa histórica, e com os quais terão contato na oficina. Compreendemos que a participação das crianças e adolescente na oficina oportunizada nas dependências do Arquivo é potencializada com uma preparação anterior, que aproxime-os do tema e do universo do Arquivo. Tendo como eixo os conceitos de fonte histórica e diversidade, a proposta foi produzida pela professora Carla Rodeghero (História/UFRGS) a partir dos debates realizados pela equipe, é composta com um pequeno vídeo, que está disponível no YouTube, e duas questões simples que buscam, primeiro, levantar os conhecimentos prévios trazidos pelos estudantes sobre as tipologias documentais, e em seguida, a partir do manuseio e análise dos fac-similes disponíveis na caixa pedagógica AfricaNoArquivo – que já estão na escola! – produzir uma ficha de investigação que evidencia as funções daqueles documentos e que tipos de informações podem ser extraídas a partir deles.

    Nesse sentido, a atividade preparatória à oficina Tesouros pode servir como uma introdução ao trabalho com a caixa pedagógica, assim como a caixa pedagógica qualifica e potencializa o trabalho realizado presencialmente no Arquivo.

    Se você é professor, ainda que não tenhas como agendar oficinas no Arquivo para suas turmas, cremos que podes introduzir o trabalho com a caixa pedagógica AfricaNoArquivo a partir das questões propostas na atividade preparatória. E, se tiveres registros das atividades realizadas em sala de aula a partir de todos esses materiais, assim como outras produções a partir deles, compartilhe conosco! Estamos em contato pelo e-mail acaoeducativa@smarh.rs.gov.br.

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