Servidor do APERS participa do 30º Simpósio Nacional de História

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Na semana entre os dias 15 e 19 de julho, o servidor Rodrigo de Azevedo Weimer, historiador do APERS, esteve presente no 30º Encontro Nacional de História, ocorrido na UFPE, Recife, Pernambuco.

2019.07.24 logo simposio nacional de historia

Além de assistir várias conferências e mesas redondas com intelectuais de destaque da historiografia nacional e internacional, houve a participação no simpósio temático “Clio sai do armário: homossexualidades e escrita da história”, coordenado por Rita Colaço e Elias Veras, no qual foi apresentada uma pesquisa sobre homossexualidade na década de 1930 no Rio Grande do Sul (pode ser lida clicando aqui), com base em processos criminais custodiados no Arquivo Público do RS. Destaca-se a discussão realizada no ST sobre a preservação de acervos relacionados à história LGBT e o papel das instituições arquivísticas.

2019.07.24 ST Simpósio Nacional de História

Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS V – História da Ditadura Civil-Militar

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    Chegamos à quinta publicação de Revisitando as Mostras de Pesquisa, na qual divulgaremos alguns artigos publicados nos anais das Mostras sobre a temática da Ditadura Civil-militar. Diferentemente das anteriores, nesta postagem vamos explorar um artigo, em especial, e apresentar outros títulos.

2016.07.20 Imagens

    Muitas foram as apresentações na V Mostra que versaram sobre a história da Ditadura Civil Militar, tanto no Brasil quanto em outros países do Cone sul. Dentre elas, selecionamos o artigo de Caroline Silveira Bauer, hoje professora da UFRGS, O “crime das mãos amarradas”: sequestro, tortura, desaparição e morte do ex-sargento Manoel Raimundo Soares durante a ditadura civil-militar brasileira (1966), no qual foram exploradas várias práticas, a partir de um caso emblemático, que caracterizaram a ditadura no Brasil.

    Nesse artigo é analisado o sequestro, a tortura, o desaparecimento e a morte do ex-sargento do Exército Manoel Raimundo Soares, que ocorreu no ano de 1966. A autora toma o caso como exemplo das práticas de terrorismo de Estado aplicadas no Brasil. Conforme a Bauer, uma primeira versão deste trabalho havia sido apresentada como parte de sua dissertação de mestrado, intitulada Avenida João Pessoa, 2050 – 3° andar: terrorismo de Estado e ação de polícia política do Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (1964-1982), defendida em abril de 2006 junto ao PPG em História da UFRGS. Entretanto, como parte do resultado daquela investigação, o assassinato de Manoel Raimundo Soares, de acordo com Caroline, não recebeu atenção particular naquela análise, uma vez que inserido em uma lista maior de exemplos de arbitrariedades cometidas pelo DOPS/RS.

    O assassinato de Raimundo Soares ficou conhecido como o “crime das mãos amarradas”, porque seu corpo foi encontrado nas águas do Rio Jacuí com as mãos amarradas às costas. As práticas empregadas pelos órgãos da repressão e o impacto na sociedade que, segundo a autora, pela primeira vez, de forma explícita, tomava conhecimento das ações repressivas da ditadura, levaram a historiadora escrever tal artigo, com atenção voltada para esse crime.

    A principal fonte utilizada por ela foi o processo de indenização movido pela viúva de Manoel Raimundo Soares, Elizabeth Challupp Soares, que faz parte do Acervo da Luta contra a Ditadura, localizado no Memorial do Rio Grande do Sul. Também foram consultadas outras fontes, tais como a documentação produzida pela Comissão Parlamentar de Inquérito e jornais.

    Manoel era segundo sargento do exército e desertou em 23 de abril de 1964, quando passou a viver na clandestinidade. Foi sequestrado em 13 de março de 1966, em frente ao Auditório Araújo Viana em Porto Alegre, numa cilada levada a cabo por Edu Rodrigues Pereira. Foi levado para o quartel e dois dias depois para o DOPS, lugares onde sofreu inúmeras torturas. Permaneceu ali até o dia 18 de março, quando foi levado para a Ilha do Presídio. De acordo com informações oficiais, teria sido solto no dia 12 de agosto, embora ainda haja registro de sua presença no DOPS no dia 13 do mesmo mês. Três habeas corpus, foram impetrados nos meses de junho, julho e agosto por Elizabeth, no qual era solicitado notícias sobre a localização de Manoel. Em resposta a um telegrama recebido do Supremo Tribunal Militar, no dia 20 de agosto, o DOPS informou que Manoel não se encontrava naquele órgão, conforme sequência de informações trazidas por Bauer.

    A autora afirma ainda que no dia 24 de agosto de 1966, por volta das 17 horas, foi encontrado por agricultores um corpo boiando no Rio Jacuí, próximo a Ilha das Flores. Enquanto isso, Elizabeth veio a Porto Alegre para impetrar um quarto pedido de habeas corpus, para saber onde e sob a responsabilidade de qual autoridade estava o ex-sargento. No dia seguinte, Dilmar Machado, jornalista da Zero Hora, recebeu um telegrama anônimo, informando que aquele cadáver, com as mãos amarradas às costas, seria de Manoel Raimundo Soares. Elizabeth procurou o repórter e foram juntos ao Instituto Médico Legal, onde reconheceu o corpo do seu esposo, cuja causa mortis foi por afogamento anterior ao dia 21 de agosto, conforme o auto de necrópsia.

    De acordo com Caroline Bauer, as razões do interesse do DOPS/RS em Manoel deviam-se a dois motivos principais: a de que ele respondia processo criminal por atos de subversão; e a de que poderia “fornecer informações valiosas sobre a organização e outros companheiros foragidos e uma confissão sobre a subversão, para depois, castigá-lo e puni-lo exemplarmente”. A autora ainda lembrou da declaração absurda do delegado Teobaldo Neumann, ao Jornal Zero Hora, na qual disse que “os soldados incumbidos de dar um caldo no sargento Manoel Raimundo Soares perderam o controle do corpo e disto resultou a morte por afogamento”. Ressalta, já no final do texto, que além da execução arbitrária do inquérito, o DOPS/RS mentiu diante da Justiça Militar, negando sua presença nas dependências do órgão.

    Conclui o texto, com a informação de que o enterro de Manoel Raimundo Soares, cujo corpo foi “desaparecido” no Rio Guaíba, ocorreu em 2 de setembro de 1966 e foi acompanhado por uma multidão, que, ao reconhecer agentes do DOPS/RS infiltrados os chamou de “assassinos”.

    O artigo foi escolhido, por nele encontramos inúmeros elementos que caracterizam o terrorismo de estado presente na ditadura civil-militar brasileira e que extrapolavam as disposições “legais” do regime de exceção: prisões arbitrárias, sequestros, tortura, incomunicabilidade dos presos com seus familiares, assassinato e desaparecimento – e isso é bastante explorado pela historiadora. Abaixo, em outros artigos, eles seguiram presente, bem como outras formas de condução das relações políticas, econômicas e sociais que conformaram a ditadura civil-militar iniciada no ano de 1964 no Brasil. A lista com a presença da temática nas Mostras é extensa:

  • A ocupação da Faculdade de Filosofia da UFRGS (junho de 1968), de Jaime Valim Mansan (V Mostra de Pesquisa, p.311)
  • As relações de Leonel Brizola com os setores subalternos das Forças Armadas entre 1959-1964, de César Daniel de Assis Rolim (V Mostra de Pesquisa, p.301)
  • Os arquivos virtuais sobre os regimes repressivos (V Mostra de Pesquisa, p.379)
  • A política educacional da Ditadura Militar e a UFRGS (1964-1970), de Janaína Dias da Cunha (V Mostra de Pesquisa, p. 327)
  • As conexões repressivas entre a ditadura civil-militar brasileira e o Uruguai: o caso do sequestro do cônsul brasileiro pelos tupamaros como denúncia, de Ananda Simões Fernandes (V Mostra de Pesquisa, p. 349)
  • Auditoria Militar de Santa Maria: um novo enfoque sobre a repressão e a oposição ao Regime Militar, de Taiara Souto Alves (V Mostra de Pesquisa, p. 339)
  • A resistência dos exilados brasileiros no Uruguai e o controle pelos órgão de repressão e espionagem, de Ananda Simões Fernandes (VI Mostra de Pesquisa, p.373)
  • A atuação repressiva da ditadura civil-militar brasileira durante a construção da Anistia, de Julio Mangini Fernandes (VIII Mostra de Pesquisa, p.73)
  • Episódios de uma trajetória: o apelo das Mulheres pela Anistia em meio ao trágico retorno do presidente deposto pelo golpe civil-militar, Marluci Cardoso de Vargas (X Mostra de Pesquisa, p.297)
  • O Pensamento Militar e a Política de Segurança Nacional: a elaboração do conceito estratégico nacional, 1968-1969, de Diego Oliveira de Souza (X Mostra de Pesquisa, p. 317)
  • A colaboração do Estado frente ao uso excessivo da violência policial: início e fim da questão Fleury (1968-1979), de Diego Oliveira de Souza (XII Mostra de Pesquisa, p.163)
  • Os arquivos sobre a repressão: o sequestro dos uruguaios no acervo particular Omar Ferri, de Paola Laux e Renata dos Santos Mattos (XII Mostra de Pesquisa, p.369)
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Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS IV

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    Na quarta publicação do Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS, vamos recordar de alguns artigos que problematizaram a saúde e a doença numa perspectiva histórica.

2016.06.15 Mostra

     Na V Mostra, Paulo Roberto Staudt Moreira e Fabiano Fischer de Queiróz, apresentaram o trabalho E o cadáver é escravo: comentários sobre a doença e morte entre a população cativa de Porto Alegre no século XIX (1830/1834). Nela os autores expuseram dados preliminares de uma pesquisa desenvolvida a partir da análise de livros de óbitos de escravos das paróquias de Porto Alegre. Conforme os autores, houve um crescimento das pesquisas que enfocam a temática da saúde e da doença, entretanto, poucas voltadas para a população escravizada. Por conta disso, o objetivo dos autores foi estabelecer como variáveis as causas das mortes de negros escravizados, cruzando-as com as faixas etárias, origem e gênero. Eles iniciam o texto descrevendo episódios que envolveram o enterro de Laurenço Cabinda – a narrativa passou pelo assassinato, enterro clandestino, exumação e provável sepultamento africano Cabinda. Os autores também fizeram advertências sobre os subregistros dos óbitos, “não só por extravio ou esquecimento, mas simplesmente porque era muito fácil enterrar cadáveres de cativos ilegalmente”. Outro dado mencionado por eles, foi a heterogeneidade das anotações encontradas, que seguiam critérios dos párocos. Além disso, para muitas causas de morte eram descritos os sintomas dos quais os médicos não tinham condições de diagnosticar ou eram definidas genericamente. A despeito dos limites descritos, Moreira e Queiróz apontaram algumas considerações, dentre elas, as de que (1) os homens eram a maioria em todas as faixas etárias entre os africanos; (2) entre os crioulos havia um equilíbrio entre os sexos; (3) a porcentagem considerável de africanos jovens falecidos comprovaria os dados levantados, em outra pesquisa, pelo historiador Gabriel Berute; (4) tais registros poderiam trazer informações sobre o tráfico inter-provincial. Por fim, Moreira e Queiróz, desde esses breves comentários de um projeto que estava em andamento, sublinharam a contribuição que tal problemática poderia trazer para o conhecimento da história regional “em função do crescimento das demandas de pesquisa ligadas ao estudo da população negra no sul do Brasil”.

     Nos Anais da VII Mostra, foi publicado o artigo Mortalidade escrava na cidade de Rio Grande (1860-1870), de Natália Garcia Pinto. O trabalho também abordou a questão da mortalidade escrava, agora na cidade de Rio Grande no período de 1860-1870, a partir de registros de óbitos de cativos e libertos. A autora focou nas causas da mortalidade de escravos através das doenças registradas nos óbitos. Cruzou esses dados com informações a respeito da idade, da origem e do sexo, na tentativa de estabelecer um estudo das “condições de vida destes agentes históricos”. Com um total de 1121 óbitos coletados de obituários e de registros paroquiais custodiadas pela Biblioteca RioGrandense e pela Cúria Metropolitana da cidade de Rio Grande, a autora constatou altos índices de mortalidade infantil, principalmente na faixa etária de 0 a 1 ano de idade, que poderia estar ligado a uma dieta alimentar deficitária, às más condições do parto e ao desmame do recém-nascido. Os escravos, cujo enterro foi feito na Santa Casa de Misericórdia da cidade, tiveram como causa de morte doenças infecto-parasitas, como a tuberculose. Observou uma distinção entre os padrões de mortalidade dos africanos e dos crioulos, uma vez que aqueles apresentavam maior índices em relação aos cativos brasileiros. Da mesma forma, uma grande diferença entre os números de mortes entre homens, que eram maiores, e mulheres.

    Na V Mostra, Gabriele Werenicz Alvez, apresentou o trabalho Os braços da salvação: a mobilização de auxílio aos infectados pela Gripe Espanhola (Porto Alegre, 1918). O artigo abordou a trajetória da “Gripe Espanhola”, epidemia que assolou o mundo nos anos de 1918 e 1919, na cidade de Porto Alegre, os problemas sociais provocados ou agravados por ela e a mobilização para auxiliar os doentes e necessitados no período epidêmico. Segundo a autora, tanto os governos do Estado e Município quanto a própria população porto-alegrense criaram estratégias de combate à epidemia e de auxílio aos doentes. O problema, cuja resposta foi perseguida pela autora, foi saber como a sociedade porto-alegrense se mobilizou para ajudar os doentes e necessitados? Quais foram as ações surgidas desta mobilização? Quais foram os grupos que maior destaque tiverem nesse auxílio? Que papéis tinham? A pesquisa se deteve à cidade de Porto Alegre nos meses de outubro a dezembro de 1918, meses em que a doença foi considerada epidêmica na cidade. O conceito chave para este estudo é o conceito de epidemia, entendida a partir da esfera social. A principal fonte utilizada nesta pesquisa foi a fonte jornalística. Foram consultados os jornais Correio do Povo, A Federação, O Independente e Gazeta do Povo, dos meses de outubro a dezembro de 1918. Como considerações, a criação de redes de solidariedade e auxílios isolados foram apontados por Gabriele. Três grupos que se mobilizaram para combater a epidemia e auxiliar os enfermos foram destaque: a Escola Médico-Cirúrgica, a Maçonaria e a Federação Operária, de acordo com autora, que, por fim, adverte que se “essa mobilização não tivesse ocorrido, talvez a situação das camadas pobres da sociedade tivesse piorado, talvez tivesse havido um número ainda maior de mortes.

    Ainda na quinta edição do Evento, Alisson Droppa apresentou o trabalho A exclusão social a partir da rotulação de patologias: Ijuí, 1920 a 1940. O trabalho teve como objetivo a análise das práticas sociais de controle às populações, desenvolvidas no município de Ijuí. Foram utilizados como fontes, documentos relacionados à prefeitura municipal de Ijuí que se encontram no MAPD – Museu Antropológico Diretor Pestana, no Arquivo Ijuí – e documentos do Hospital Psiquiátrico São Pedro. A autora realizou uma revisão bibliográfica levantando diferentes aspectos do desenvolvimento da cidade de Ijuí até chegar ao seguinte questionamento: “Quem eram os indesejáveis de Ijuí?”. De acordo com ela, eram os considerados loucos que se confundiam com os pobres, os bêbados, os vadios, os vagabundos. Também eram aqueles que deixavam de “interferir somente no espaço privado, interferindo também no espaço público, causando distúrbios ao funcionamento ideal da sociedade”. Dos encaminhamentos ao Hospital Psiquiátrico São Pedro, notou que não eram somente os doentes mentais que respondiam pelas internações: a instituição “servia de depósito de indesejados”, como, por exemplo, homens pobres que faziam uso sistemático de bebidas alcoólicas e que, por conta disso, deixavam de trabalhar e ameaçavam a moral e os bons costumes. Verificou, portanto, que a proletarização e a urbanização da cidade, somadas às práticas segregacionista do discurso científico, acabaram por excluir os pobres que não contribuíram com o modelo burguês.

    Esses artigos que foram apresentados na quinta e na sétima edição do evento são uma amostra das problematizações sobre as quais a historiografia tem se debruçado nas últimas décadas. Esperamos que em outras edições da Mostra essa temática, extremamente relevante para o conhecimento das relações sociais nos diferentes períodos históricos, seja novamente compartilhada.

    As inscrições na modalidade ouvinte para a XIII Mostra de Pesquisa APERS, evento que acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de setembro no Arquivo Público estão abertas. Para se inscrever basta enviar um e-mail para mostradepesquisa@smarh.rs.gov.br com o nome completo e um e-mail para contato.

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     Chegamos à terceira publicação sobre os trabalhos apresentados nas doze edições da Mostra de Pesquisa APERS. Hoje vamos retomar algumas das apresentações que problematizaram a história dos povos indígenas.

2016.05.18 Imagens

    Na X Mostra de Pesquisa, tivemos uma presença expressiva da temática no evento. Por conta disso, decidimos explorar os trabalhos nela apresentados na postagem de hoje.

   Vamos começar pelos autores Ismael Silveira e Vinícius de Almeida que apresentaram, no formato pôster, o trabalho Indígenas no sul da América através dos relatos jesuítas. Foi elaborado a partir do estudo de cartas, diários, balanços administrativos, documentos manuscritos jesuítas do século XVIII custodiados pelo Archivo General de La Nación, na cidade de Buenos Aires, Argentina. Segundo os autores, trata-se de um recorte da pesquisa desenvolvida pela professora Maria Cristina Bohn Martins, no Programa de Pós-Graduação da Unisinos, que investiga os quatorze anos durante os quais indígenas do pampa buenaerense foram reduzidos em três missões – Nossa Senhora dos Pampas, Nossa Senhora do Pilar e Mãe dos Desamparados. Para o trabalho dos autores, foram privilegiadas as descrições dos padres missioneiros que registraram em diários as experiências vividas no século XVIII. Nelas foram identificados aspectos culturais e sociais das populações indígenas localizadas na região do Prata, tais como hábitos cotidianos, rituais festivos, aspectos organizacionais. Os autores utilizaram como metodologia a transcrição dos manuscritos, a leitura e a interpretação dos conteúdos. Como resultado, destacaram a identificação de uma “retórica jesuítica que avalia os indígenas a partir da perspectiva que ressalta a infidelidade – que por vezes resultaram em atos de hostilidade da parte nativa – e a sua necessária conversão”.

    Os autores Leandro Goya Fontella e Max Roberto Ribeiro apresentaram o trabalho O êxodo missioneiro: um estudo sobre os fluxos migratórios de Guaranis das Missões (fronteira do Rio Pardo, 1801-1845). Nele, os autores analisaram o processo de êxodo dos guaranis naturais das missões orientais e a reorganização diante da anexação à Coroa Portuguesa. Apresentaram características das migrações e algumas estratégias utilizadas nas relações com a empresa expansionista lusitana. Para isso, tomaram como foco da pesquisa, a Capela de Santa Maria, localizada na Fronteira do Rio Pardo. Segundo eles, a anexação dos povos da margem oriental do rio Uruguai pelos portugueses, em 1801, resultou em “mudanças dramáticas no modo de vida dos guaranis que lá viviam”. Ela também originou diversos fluxos migratórios que tinham como destino a Fronteira do Rio Pardo, ocasionando uma acentuada queda demográfica na região missioneira. Nas correspondências dos comandantes da fronteira, as motivações destas migrações e o rumo tomado por algumas destas famílias foram objetos de análise, da mesma forma que os registros de batismo, com base numa análise serial, dos quais pode-se perceber que a “decisão de migrar fazia parte de estratégias ordenadas” e organizadas coletivamente. De acordo com os autores, os guaranis “operavam dentro de uma lógica coletiva, visando traçar estratégias de sobrevivência em um mundo incerto onde a segurança significava algum grau de previsibilidade e, neste sentido, a busca por novos territórios possibilitava reduzir as ameaças que por ventura colocassem em risco a existência do grupo”.

    Camila de Almeida foi autora da apresentação Pedro Lozano e o trabalho missioneiro no Paraguai através da Carta Ânua de la Província Jesuítica del Paraguay (1735-1743). O artigo resultou de estudos realizados no grupo de pesquisa da Professora Maria Cristina Martins, “Jesuítas, missões e viagens nos ‘confins do império’ (século XVII)”. Como um recorte, trabalhou com a Carta Ânua enviada pelo Jesuíta Pedro Lozano ao seu Superior. Ela relatava os acontecimentos de interesse na Província do Paraguai. O objetivo do estudo, a partir de uma análise baseada no conceito de “lugares de produção” de Michel de Certeau, foi mostrar como o jesuíta descrevia seus irmãos de ordem, as dificuldades enfrentadas e os nativos que encontrava. Para eles, ao analisar o documento a luz desse conceito, existia uma retórica edificante com a qual construía sua narrativa. Dessa forma, para a autora, ficou evidente o cunho enaltecedor e a construção de uma imagem gloriosa dos membros da Ordem. Caracterizada por sua ampla descrição, a ânua de Lozano favoreceu a visualização de disputas travadas diariamente pelos missioneiros da mesma forma que se transformou em ferramenta de informação, não apenas dedicada a comunicar ao superior da companhia, mas também ao público letrado, os trabalhos realizados nas Américas.

    Juliana Aparecida da Silva apresentou Vivendo nas margens: respostas indígenas ao avanço colonial na pampa bonaerense (século XVIII), trabalho que problematizou as relações que se estabeleceram na fronteira entre o mundo hispano-crioulo e o mundo índio, bem como as respostas indígenas para o avanço das fonteiras coloniais no Novo Mundo. Avaliou como se constituíram as três missões Nuestra Señora de La Concepción de los Pampas (1740) Nuestra Señora Del Pillar (1746) e Madre de los Desamparados (1750), e quais foram às respostas dos índios “pampas e serranos” para tais feitos. Para tanto, utilizou como fontes principais os textos produzidos pelos próprios missionários e preocupou-se em desmistificar a passividade diante das ações dos colonizadores que é empregada aos indígenas por grande parte da historiografia tradicional. Alertou ainda que para os índios “pampas e serranos” existiu um preconceito ainda maior, por conta de seu nomadismo, o que, para alguns, explicaria o fracasso das missões austrais quando comparadas às missões guaranis. A autora pretendeu explorar a ativa participação indígenas no contato com o ocidente, bem como as diversas formas de resistência índia na fronteira colonial bonaerense.

     Por fim, Elisa Fauth da Motta apresentou o trabalho intitulado “Sulfría allí una pobre india de crueles dolores de parto”: um estudo sobre a saúde da mulher indígena e sua atuação como curandeira na província do Paraguai. Por meio dele foram socializados os resultados preliminares da pesquisa que a autora desenvolveu como bolsista junto ao projeto “Medicina e Missão na América meridional: epidemias, saberes e práticas de cura (séculos XVII e XVIII)”. Como recorte desse projeto e a partir da leitura e da análise das Cartas Ânuas da Província Jesuítica do Paraguai referentes à segunda metade do século XVII, a autora procurou identificar as enfermidades que atingiam os indígenas sul-americanos, por um lado, e as práticas curativas que eles adotavam, por outro. E para este artigo especificamente, tratou das informações referentes à saúde da mulher indígena e aos recursos terapêuticos empregados por mulheres xamãs. Conforme a autora, os relatos encontrados nas Cartas, acerca da saúde da mulher indígena, são frequentes, uma vez que esses documentos tinham a intenção de mostrar o “êxito do processo de conversão dos povos indígenas reduzidos pelos missionários, seja através dos processos de cura exercidos pelos padres, seja através da menção acerca do crescimento demográfico que atesta a aceitação da missão”. Por outro lado, a presença das xamãs na documentação, servia como evidência dos vícios que possuíam os índios e as dificuldades encontradas pelos jesuítas.

     Como você pode perceber, trabalhos repletos de problematizações acerca da história dos povos indígenas já foram apresentados na X Mostra, evento que tomamos como exemplo para abordagem da temática. E por se tratar de um assunto de imensa relevância, ficamos na torcida para que tantos outros possam ser compartilhados nas edições futuras.

    As inscrições na modalidade ouvinte para a XIII Mostra de Pesquisa APERS, evento que acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de setembro no Arquivo Público estão abertas. Para se inscrever basta enviar um e-mail para mostradepesquisa@smarh.rs.gov.br com o nome completo e um e-mail para contato.

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Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS II

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     Seguindo a proposta de revisitarmos as publicações que resultaram das doze Mostra de Pesquisa APERS organizadas até o momento, hoje vamos relembrar algumas apresentações sobre Arquivos e sobre o trabalho arquivístico.

2016.04.20 Revisitando II

     Na VI Mostra de Pesquisa, Ana Carla Sabino Fernandes tratou da atuação dos funcionários da província do Ceará, antes ainda da criação do Arquivo Público do Império daquela província (1865), e o significado que deram aos documentos que hoje compreendemos como históricos. Para tanto, partindo de Pierre Nora, Ana Carla abordou a questão da “memória arquivística”, que não necessariamente está representada, guardada, acumulada em Arquivo (lugar), mas que “é norteada por uma prática social de políticos eruditos e de funcionários públicos treinados, dignos da acumulação documentária, baseada no registro, no colecionismo […] anteriores ao Arquivo”. Na tentativa de compreender a história do Arquivo Público do Estado do Ceará, ela considerou o conceito amplo de documento como fonte e objeto de estudo e percebeu tanto a instituição quando o documento em diferentes processos de disputa da memória. Ao tentar responder a esse problema no artigo intitulado Entre papéis, pennas e livros: os archivistas na província do Ceará, a autora apresentou o Arquivo Público do Estado do Ceará (APEC), instituição subordinada à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE), que custódia um acervo com documentos datados entre o século XVIII e XX, formado por correspondências, processos criminais, relatórios, inventários, mapas e demais tipos documentais provenientes dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e de particulares. Sabendo desse recorte, já podemos imaginar tratar-se de um dos principais espaços para pesquisa em história no Brasil.

    Na IX Mostra, Carlos Dinarte de Oliveira Keppler, Isabel Cristina Arendt e Marli Pereira Marques trabalharam com informações a respeito do Memorial Jesuíta-Biblioteca da Unisinos, que faz parte do Centro de Documentação e Pesquisa (CEDOPE), e abordaram aspectos da organização deste fundo documental, da história da instituição que o gerou e da metodologia de trabalho utilizada na sua organização e difusão. As finalidades específicas do Memorial compreenderiam, de acordo com os autores, a guarda, conservação, preservação e disseminação de acervos bibliográficos, documentais, científicos e artísticos produzidos e reunidos, em sua maioria, pela Província do Brasil Meridional da Companhia de Jesus nos últimos 150 anos. Dentre os acervos custodiados por este Memorial, encontram-se mais de 200 mil livros e periódicos que compõem coleções provindas dos seminários e paróquias sob a responsabilidade de padres jesuítas, reunidos por eles desde o século XIX. Encontram-se também livros considerados raros, editados entre os séculos XV e XVIII, que somam em torno de 2.600 obras. Além disso, conforme as autoras, o Memorial guarda acervo arquivístico, de caráter histórico e, portanto, permanente, também relacionado com a atuação dos jesuítas no sul do Brasil. São fundos documentais referentes a temas como cooperativismo e imigração, compreendendo arquivos pessoais e institucionais, alguns produzidos por setores da própria Universidade, especialmente a atuação dos jesuítas. De acordo com os autores, a organização e disponibilização de fundos documentais demonstram o reconhecimento que o Memorial Jesuíta possui sobre sua o fato de que acervos restritos à responsabilidade de instituições privadas também podem ter uma função pública.

     Na V Mostra, Enrique Padrós apresentou o trabalho de nome Os arquivos virtuais sobre os regimes repressivos, especialmente, o National Security Archive (NSA), que disponibiliza, em suporte papel e em meio eletrônico, os documentos desclassificados pela administração estadunidense. A documentação contem uma diversidade de informação alimentada pelos órgãos de inteligência de cada uma das ditaduras e pelas organizações de oposição dos governos autoritários da América Latina, confirmando a conexão entre os EUA e aqueles regimes. Segundo o autor, os arquivos virtuais são aqueles que resultaram da digitalização de seus fundos. E esse é o caso do NSA, fundado em 1985 por jornalistas e acadêmicos que haviam obtido documentação governamental através da lei da Liberdade de Informação, cujo acervo o transformou no arquivo governamental de documentação desclassificada de maior relevância mundial. Por fim, Padrós ressaltou que emergência de arquivos virtuais resultam de condições tecnológicas, por um lado, “mas também podem ser mecanismos compensadores na agilização de processos, demandas reparatórias e de produção de conhecimento histórico após décadas de entraves e paralisia político-sociais”, por outro.

    Na X Mostra, Mauro Sérgio da Rosa Amaral apresentou o trabalho Os Arquivos Sonoros do Judiciário: breve relato sobre a migração de suporte de fitas magnéticas de áudio cassete no tribunal Regional da Quarta Regional (TRF4). A partir de um estudo de caso, que resultou no trabalho de conclusão de curso de Arquivologia da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, o autor escreveu sobre a migração de suporte e a estruturação de procedimentos padronizados para a implantação do programa de digitalização de fitas magnéticas de áudio daquele Arquivo. No mesmo evento, Carmem Schiavon e Sara Orcelli dos Santos apresentaram o trabalho intitulado Conservação e Difusão do acervo de história demográfica do CDH-FURG: preservação de um patrimônio documental Rio-grandino, que abordou relações entre a teoria e a prática arquivística, com vistas à organização e conservação que foram aplicadas no Acervo de História Demográfica, localizado no Centro de Documentação Histórica “Professor Hugo Alberto Pereira Neves” na Universidade Federal do Rio Grande. Ao mesmo tempo que socializaram reflexões, prestaram algumas informações a respeito do Acervo e do Centro, que se transformou em local de pesquisas e práticas pedagógicas dos Cursos de História, Arquivologia e Biblioteconomia da Universidade.

     Na XI Mostra, Angélica Bersch apresentou o trabalho de implementação de um arquivo fotográfico na empresa Renner Hermann S/A. No texto, a autora relata o processo de negociação com os proprietários, que possuíam a intenção de organizar e de preservar os documentos. Com o objetivo de demonstrar a importância desse tipo de trabalho, mesmo quando em um formato simplificado, a autora propôs um diálogo sobre as condições de implantação e de acesso aos arquivos históricos, sobretudo em instituições privadas. Ela defendeu que, nessas situações, o trabalho dos historiadores, arquivistas, museólogos “pode ser o início de um novelo que se desemaranha, tanto no campo da pesquisa e arquivologia, como no campo da educação histórica patrimonial”.

     Na XII Mostra, Francisco Cougo Jr. apresentou o trabalho Reflexões arquivísticas sobre o acervo do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF). Segundo o autor, ao escrever sobre a trajetória do Instituto, o IGTF pode ser considerado o maior repositório documental público sobre a “música gauchesca”. Neste artigo, ele abordou a formação do acervo, as condições de guarda, de arranjo, preservação, acesso e difusão dos registros custodiados pelo IGTF. Além de divulgar o arquivo, teve como objetivo refletir sobre a inexistência de métodos arquivísticos na organização do fundo e as divergências conceituais existentes na forma como a instituição vê o repositório de fontes primárias. Por fim, a partir de um exercício hipotético, esboçou um possível quadro de arranjos para organização da documentação e a necessidade de um diálogo entre os responsáveis pela administração do instituto e o poder público, uma vez que acredita na finalidade cultural que desempenha o IGTF.

     No mesmo evento, última Mostra ocorrida até o momento, Paola Laux e Renata dos Santos de Mattos apresentaram o trabalho Os arquivos sobre a repressão: o sequestro dos uruguaios no acervo particular Omar Ferri. Aborda a trajetória de Omar Ferri enquanto advogado dos uruguaios, Lilián Celiberti e Universindo Díaz, sequestrados em Porto Alegre, no ano de 1978 pelas polícias políticas gaúcha e uruguaia. Doado pelo próprio advogado ao Arquivo Histórico do RS nos anos 2000, o conjunto documental faz parte do Acervo da Luta contra a Ditadura e passou pelo processo de ordenação cronológica, higienização, desmetalização e descrição das dezesseis caixas. O acervo é composto por jornais, revistas, processos, correspondências. A partir das características do acervo documental, refletem sobre a importância dos arquivos da repressão “na reconstituição da história e memória coletiva, na consolidação da democracia e dos Direitos Humanos”.

     Como o leitor pode notar, muitos foram os trabalhos que, até o momento, abordaram a temática dos arquivos (isso que não mencionamos todos os artigos aqui!). Com certeza, trata-se de uma problemática muito mais que bem-vinda à Mostra. Esperamos por outras apresentações que tratem do assunto na XIII Mostra de Pesquisa!!!

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Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS I

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2016.03.16 Mostras de Pesquisa

     Neste ano de 2016, chegaremos a 13ª Edição da Mostra de Pesquisa APERS, evento que ocorrerá em setembro (acesse o regulamento aqui). Nas doze edições passadas, muito conhecimento foi construído, discutido, problematizado e publicado. Por isso, do mês de março até o mês do evento, vamos revisitar os eventos anteriores por meio da divulgação de alguns dos artigos que foram publicados nos Anais das Mostras, a partir da sua quinta edição. Selecionamos seis temas, desde os mais recorrentes até assuntos abordados recentemente pela historiografia.

     Vamos começar pelas apresentações que abordaram a temática da Escravidão e da Liberdade, assunto que marcou forte presença na V Mostra de Pesquisa, realizada no ano de 2007. As apresentações resultaram em sete artigos bastante qualificados.

     O primeiro, de Jônatas Caratti, investigou as apreensões de negros livres no Estado Oriental do Uruguai a partir da trajetória da crioula oriental Faustina, nascida livre no Uruguai em 1843. Ela foi trazida do Uruguai para a Província de São Pedro durante uma incursão militar e levada a Jaguarão onde foi vendida como escrava. Posteriormente foi para Pelotas onde foi vendida mais duas vezes. O objetivo do autor foi perceber as motivações que levaram a sequestros de negros livres uruguaios, a partir das experiências vividas por Faustina.

     Gabriel Aladrén apresentou algumas experiências de libertos no RS no início do século XIX, a partir de fragmentos da trajetória do preto forro Pedro Gonçalves, registrados em um processo criminal aberto após seu assassinato e em inventários post-mortem. As atividades econômicas, a constituição do patrimônio de Pedro, bem como as relações que travava com escravos e homens livres são ressaltadas no texto. Jovani Scherer aborda a formação da população escrava no sul do Rio Grande. Utiliza inventários produzidos entre os anos de 1825 e 1860 e um resumo da população escrava de 1842 e dedica atenção especial ao inventário do preto forro Joaquim de Antiqueira, que, na sua trajetória, conforme o autor, carrega consigo diferentes aspectos da experiência africana ao conquistar a liberdade e tornar-se senhor de escravos. Gabriel Berute, desde uma pesquisa quantitativa, analisou a concentração do tráfico rio-grandense entre os anos de 1790-1825. Utilizou guias de transportes de escravos e despachos e passaporte escravos. Apontou que, na localidade, o tráfico de cativos tinha como característica a presença de um elevado número de pequenos comerciantes não especializados, responsáveis pelo funcionamento desse mercado.

     Sherol dos Santos apresentou a pesquisa realizada para a elaboração do relatório sócio-histórico-antropológico de reconhecimento e delimitação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Mormaça. Esse relatório, nos termos da Instrução Normativa nº 20 (IN20/2005), elaborado a partir do convênio entre o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e o Núcleo de Antropologia e Cidadania da UFRGS (NACi/UFRGS), garantiu o atendimento à demanda da comunidade. Arilson dos Santos Gomes levantou questões sobre a visibilidade negra, partindo de informações e imagens sobre o Primeiro Congresso Nacional do Negro (1958) presentes em três jornais de Porto Alegre. Por fim, Jonas Vargas, Paulo Moreira, Daniela de Carvalho e Sherol dos Santos problematizaram a trajetória de um homem negro, Aurélio Viríssimo de Bittencourt (1849-1919) que nas suas redes de relações sociais, políticas e intelectuais, que passava pelas Irmandades e Palácios, ascendeu socialmente em um mundo hegemonicamente branco.

     A temática da escravidão e da liberdade esteve, desde a V Mostra, presente em todas as edições do evento. Não fosse os limites dessa publicação, poderíamos mencionar todas as pesquisas (fica o convite ao leitor!). Entretanto, vamos divulgar alguns artigos de todos os Anais que sucederam.

     Na VI Mostra, realizada em 2008, Melina Perussato analisou as alforrias registradas nos livros de notas de Rio Pardo/RS, a partir da segunda metade do século XIX, em especial as condicionadas à prestação de serviços. A carta sob contrato de serviço, segundo a autora, poderia ser vista como um mascaramento de uma outra relação de trabalho que atrelava o ex-escravo ao ex-senhor por uma dívida prevista nos registros dos livros de notas. Já na VII Mostra, a mesma autora discutiu possibilidades de agência de escravos e libertos em busca de direitos nos espaços jurídicos-legais nos anos finais do cativeiro. A partir do caso da negra Rosa, ocorrido no município de Rio Pardo/RS, a autora defende que a justiça era um espaço possível para a conquista da liberdade bem como espaço privilegiado para a identificação de posicionamentos e atitudes de autoridades jurídicas e funcionários público no que tange à libertação de escravos.

     Em 2010 na VIII Mostra, Vinicius de Oliveira atentou para a presença escrava em Bagé no século XIX. Tal pesquisa foi um recorte de uma investigação maior realizada no ano de 2007 para a elaboração de relatório histórico-antropológico para identificação e delimitação do território remanescente de quilombo “Com unidade de Palmas”. Como resultado, evidenciou que a gênese desta comunidade remonta ao período final da escravidão e a um contexto de relações de trabalho e resistência frente a famílias pecuaristas, proprietárias de grandes quantidades de terra.

     Na IX Mostra de Pesquisa, no ano seguinte, Jaqueline Brizola, investigou o perfil dos escravos acometidos por moléstias diversas em Porto Alegre no contexto do fim do tráfico negreiro no Brasil a partir de pesquisa no arquivo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre. A autora percebeu haver nas enfermarias um número elevado de homens, jovens, nascidos provavelmente em algum ponto do continente africano, que portavam doenças infecto-contagiosas. Para que fossem atendidos, seus proprietários pagavam pela internação, conforme a autora, na tentativa de evitar que seus investimentos fossem perdidos.

     Na X Mostra de Pesquisa, Maximiliano Meyer, analisou um processo-crime no qual Nazário, um jovem escravo, menor de idade, assassinou sua senhora e após isso foi capturado e julgado e que mesmo tendo todos os atributos necessários à pena capital, teve seu castigo comutado em açoites. Conforme o autor, os autos processuais revelam ricas informações para análises de questões variadas relativas à escravidão, tais como valores das peças, quantidades de cativos nos planteis, por exemplo.

    Em 2013, Natália Garcia Pinto, apresentou na XI Mostra, um artigo que problematizou a dicotomia existente na visão sobre a dinâmica econômica da sociedade pelotense que separa de um lado senhores do charque e do outro, trabalhadores escravizados. Por fim, na XII Mostra, evento ocorrido no ano de 2014, Marina Haack analisou os registros de casamento dos escravos da freguesia Madre de Deus de Porto Alegre entre os anos de 1772 a 1822, sobre os quais afirmou que o casamento entre os livres eram numericamente superior aos dos cativos, que, no entanto, aumentou a cada década, indícios da importância do casamento entre a população cativa.

     E isso foi apenas uma amostra de todo o conhecimento compartilhado nesses doze anos de Mostra acerca dessa e de muitas outras temáticas. Que venham mais doze!!!

* Além de disponibilizadas no site e no Blog do Arquivo, as publicações da Mostra de Pesquisa podem ser adquiridas junto ao balcão de atendimento do APERS.

Acervo custodiado pelo APERS é fonte de reportagem do Jornal Zero Hora

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     Nesse sábado, dia 13 de junho, o Jornal Zero Hora publicou a reportagem RS torna Público os nomes de vítimas da ditadura que pediram indenização (clique aqui par ler), cujo conteúdo foi produzido a partir de pesquisas realizadas no Acervo da Comissão Especial de Indenização custodiado pelo Arquivo Público do RS – tal acervo foi resultado do trabalho da Comissão Especial de Indenização que recebeu e avaliou pedidos de indenização pelo Estado do RS.

     Elaborada pelo Jornalista Humberto Trezzi, além do texto mais amplo, divulgado nessa notícia, também foi publicada uma matéria especial que recebeu o nome de O Custo da Repressão – Indenizados pela Ditadura.

Reportagem Zero Hora

     Além do texto, a reportagem especial conta com um vídeo produzido a partir de imagens do acervo e de depoimento. São veiculadas informações a respeito do Catálogo Resistência em Arquivo: Memórias e Histórias da Ditadura no Brasil, disponível no site do APERS (clique aqui para acessar) como o número total de solicitações de indenização, o número de deferimentos e indeferimentos. Alguns casos particulares são apresentados aos leitores que ainda podem acessar depoimentos de Bona Garcia, Tarso Genro, Ademar Vargas de Freitas, Adair Batista Antunes e Suzana Lisboa, que se dispuseram a falar ao Jornal um pouco do contexto em que solicitaram, ou não, indenização e um pouco do funcionamento da Comissão Especial de Indenização.

     Por parte do APERS, a equipe da Zero Hora contou com o auxílio, após contato com a diretora Débora Flores, da equipe da Sala de Pesquisa e com a equipe de Pesquisa Histórica da Instituição.

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