APERS Entrevista: Fábio Kühn – Parte II

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Hoje publicamos a segunda parte da entrevista com o professor Fábio Kühn. Na primeira parte da entrevista, ele estava nos falando da documentação do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul empregada em sua pesquisa. Aqui, ele segue respondendo sobre o assunto.

Mas devo confessar que o que me deu mais gosto e que eu realmente viajei, muitos meses a fio, foi a pesquisa nos livros de notas do século XVIII, que estavam inacessíveis na época. Para minha sorte, como professor aqui da Universidade Federal, tenho muitos alunos que trabalham como estagiários lá, e me lembro que na época era estagiário o Jovani Scherer. Eu fiz uma solicitação pra direção do Arquivo Público pra poder acessar esses livros que estavam fora de acesso por motivos de má-conservação. Eu insisti muito, justificando a importância dessas fontes, e a diversidade. Se os inventários e testamentos são documentos mais ou menos padronizados, e que seguem um determinado modelo (a partir da legislação portuguesa, da legislação civil e eclesiástica), nos livros de notas… e eu tinha uma noção do que existia nesses livros de notas por conta de uns catálogos publicados pelo Arquivo Público no início do século XX. Catálogos do notariado de Porto Alegre, publicados ainda na época do Borges de Medeiros, logo depois da inauguração do arquivo. Não me lembro como é que me deu nas mãos esses catálogos, acho que através do Instituto Histórico. E aí eu me surpreendi com a diversidade de fontes que esses livros traziam. Escrituras de compra e venda, cartas de alforria, contratos dos mais diversos tipos, sociedades, arrendamentos, procurações, enfim, uma plêiade de informações sobre aquela sociedade que estava se formando, que eu pensei, não posso deixar de olhar. E consegui autorização pra consultar, ainda que em um lugar resguardado, mediante todo cuidado, porque alguns desses livros estavam literalmente se desmanchando, possivelmente eu fui o primeiro em cem anos a manuseá-los, porque outros colegas que tinham trabalhado com o período não tinham… e na verdade, meu interesse inicial nem era olhar todos tipos de fontes que os livros de notas tinham, mas sim as escrituras de dote. Como eu estava preocupado com estratégias familiares, eu tava muito preocupado em ver a disseminação dessa prática muito comum em sociedades de Antigo Regime, que era a dotação de filhos e filhas que se casavam, e tinha um caso especial, particular, do Manoel Fernandes Vieira que eu sabia que tinha escritura de dote. Estava justamente nesses livros inacessíveis. Ao acessar essa documentação um novo mundo se abriu, porque eu percebi a riqueza dessas fontes, transcrevi alguns desses documentos, fotografei outros, com muito cuidado, porque alguns desses livros eu me lembro que literalmente estavam… um deles tinha um buraco, literalmente, no meio do fólio que fazia com que cada vez que se virasse a página alguma informação se perdesse, então eu procurei fotografar. Os livros de notas me revelaram muitos detalhes sobre essa sociedade oitocentista…[1] Não apenas as informações sobre as famílias que eu queria, mas diversos tipos de transações comerciais, compra e venda de imóveis.

É possível, por exemplo, fazer um estudo, que eu saiba não foi feito ainda, sobre o mercado de terras no século XVIII a partir das escrituras de compra e venda de terras. Percebi que em alguns casos os personagens que eu estudei se aproveitaram da conjuntura de guerra para comprar propriedades a preços muito baixos e que, terminada a guerra, venderam as mesmas estâncias por valores muito maiores, ou seja, aquilo que a Helen já falava na dissertação de mestrado dela, a fronteira já estava de certa maneira fechada. A maior parte das terras estava apropriada e a ideia do Rio Grande do Sul como uma terra de ninguém, uma fronteira onde qualquer um podia chegar e se instalar não é bem verdade. Essa documentação notarial permite vários tipos de abordagem. Fiquei meses debruçado naquilo, passei muitas tardes dentro do arquivo pesquisando e agradeço publicamente.

A gente tem o teu trabalho, também o levantamento das cartas de alforria, mas de fato a documentação notarial é um universo a ser explorado.

Pouco explorado e eu, me chamava atenção que os historiadores locais não se valessem dessa fonte. Eu me lembro de ter visto referência a documentação notarial justamente no trabalho do Monsenhor Ruben Neis, que foi talvez um dos pioneiros… Mas também assim, uma consulta muito, muito pontual, e creio que mereceria um estudo sistemático. Mais sistemático. Uma documentação que permitiria estudos de história serial, quantitativa, mas não apenas, já que a documentação é muito variada e revela detalhes sobre o funcionamento daquela sociedade que não aparecem em outras fontes.

Veja só, Fábio. Já vai entender por que que eu tô perguntando isso. Em que ano tu pesquisaste lá?

Eu pesquisei em 2003 e 2004.

Chegaste aos nomes dos inventários através daquelas fichas?

Através daquelas fichas que existiam naquele armário.

Pois é, isso é uma informação que talvez te interesse, interesse a quem ler essa entrevista, que hoje em dia isso tá computadorizado. Está catalogado. É um sistema que ainda precisa ser aperfeiçoado, mas hoje em dia tu chega com um nome, eles vão lá procurar, tem condições de encontrar esses… Inclusive esses, talvez, que tu não encontraste antes.

Quem sabe, talvez uma nova busca hoje pudesse encontrar esses inventários, especialmente alguns que me impressionaram muito. Agora eu quero apenas fazer um adendo, que agora falando eu me lembrei. Além dos inventários, testamentos e livros de notas, outra coisa que aí graças ao Jovani, ele me chamou a atenção, eu nem sabia que existia, porque isso não existia registrado. Uma documentação bárbara e que ajuda a entender as dificuldades dos pesquisadores desse período mais recuado é a documentação da Câmara. Sim, alguém que conhece um pouco os fundos deve estar pensando “mas a documentação da Câmara de Porto Alegre não tá lá no arquivo Moysés Vellinho?” Sim. As atas da Câmara, boa parte da documentação tá lá. Correspondências. Livros de Posses. No entanto, alguns códices do Registro Geral da Câmara em Viamão estavam por algum motivo no Arquivo Público. Por algum motivo não. Na verdade a resposta eu descobri alguns anos depois. As Câmaras coloniais, como muita gente sabe, elas reuniam aquilo que podemos chamar hoje Poder Executivo, Legislativo e Judiciário. Quando da organização dessas fontes, absurdamente, elas foram desmembradas. E é por isso que o fundo Câmara, documentação da Câmara de Viamão e Porto Alegre, ela é encontrada em parte no Arquivo Moysés Vellinho, outra parte está no Arquivo Público, não sei se essa documentação não foi enviada depois para o Moysés Vellinho, e outra parte no Arquivo Histórico. Os livros da almotaçaria, os livros dos almotacéis, funcionários da Câmara, estão também no Arquivo Histórico. Então a incompreensão da estrutura administrativa colonial na hora de gerar os fundos pulverizou a documentação da Câmara, talvez de forma involuntária. Não deveria estar no Arquivo Público, mas estava lá.

Bom, Fábio, encaminhando pro fim da entrevista, tu pretende voltar pro Arquivo Público?

Com certeza. Um acervo como esse, acho que é inesgotável. Embora meus últimos projetos de pesquisa estivessem se debruçando sobre um espaço extra-Continente, agora por conta do novo projeto de pesquisa que estamos começando em 2019, sobre a produção cartográfica dos engenheiros militares na segunda metade do século XVIII, certamente o Arquivo Público vai entrar na nossa rota de novo, depois de alguns anos pesquisando em arquivos de fora de Porto Alegre. Certamente me verão lá em algum momento, buscando informações para o projeto novo, porque é um acervo, como eu disse, talvez o arquivo em si, o acervo que ele abriga é dos mais extraordinários que eu conheci comparando com arquivos de outros lugares, a própria ideia de ter um arquivo como esse em moldes modernos já é algo incrível.

Espero que essa entrevista te sirva como estímulo pra voltar a frequentar nossa sala de pesquisa.

Com certeza. Voltarei.

Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista.

[1]     Os livros notariais do século XVIII encontram-se indisponíveis devido ao seu mau estado de conservação.

APERS Entrevista: Fábio Kühn – Parte I

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Fábio Kühn é professor de História do Brasil na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tem 51 anos e concluiu sua licenciatura em 1992 e o mestrado em 1996, ambos pela UFRGS. Defendeu doutorado em 2006 na Universidade Federal Fluminense, e entre 2015 e 2016 realizou estágio pós-doutoral no King’s College London. Publicou o livro “Breve História do Rio Grande do Sul” (2002, Leitura XXI), além de sua tese “Gente da Fronteira” (2014, Óikos), para a qual pesquisou documentos cartoriais e notariais custodiados no Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul, de que nos falou na seguinte entrevista.

Fábio, eu queria começar te pedindo pra falar em termos gerais sobre a tua trajetória profissional e as principais pesquisas que tu realizou.

Bem, eu sou professor na Universidade Federal já há vinte anos. Talvez seja importante eu falar um pouquinho da minha trajetória anterior ao ingresso como professor e pesquisador. No início dos anos 90, quando começávamos a fazer o mestrado, a gente entrava ainda sem projeto de pesquisa definido. Depois de realizar algumas disciplinas, eu resolvi colocar em prática então um projeto de pesquisa pra estudar… eu queria, na verdade, fazer uma história das mentalidades do período colonial no Rio Grande do Sul. E tinha muita vontade, era um sonho antigo, de pesquisar na documentação, que já tinha sido consagrada por outros historiadores da época, do Brasil, documentação da Inquisição, inquisitorial, que tinha um pequeno problema: estava em Lisboa. Não existia o projeto Resgate, o projeto que digitalizou e democratizou essas fontes. Acabei focando uma documentação eclesiástica existente em Porto Alegre, no arquivo da Cúria, que se debruçou sobre as visitas pastorais, as visitas promovidas pelo bispado do Rio de Janeiro no século XVIII, início do século XIX, quando eram enviados representantes do prelado, visitadores, que percorriam as paróquias e freguesias e faziam relatórios sobre a situação material e espiritual dos fregueses. A gente tava em um momento em que procurávamos romper um pouquinho com aquela história mais de viés estruturalista, de fundo econômico e político. Procurávamos trabalhar mais com a história cultural. Cultural e história social. E portanto a minha dissertação se debruçou sobre uma documentação ainda inédita que procurou ver como se deu esse processo de normatização dos corações e mentes dos fregueses sul-riograndenses que moravam nessa remota fronteira do século XVIII. Essa foi minha dissertação de mestrado, não publicada até hoje, mas que foi minha porta de entrada para o período colonial. Ao ingressar na Universidade, aí pude me preparar para fazer minha tese de doutorado. Eu segui mais ou menos dentro da mesma linha, mas trabalhando com a história social, história da família em particular, e a pesquisa de doutorado resultou no trabalho que depois virou livro, “Gente da Fronteira”, um estudo sobre as estratégias familiares da primeira elite sul-riograndense que se formou no século XVIII. Depois do doutorado eu continuei perseverando na história colonial, e desenvolvi uma série de projetos, um projeto de pesquisa sobre o governador José Marcelino de Figueiredo, personagem que havia aparecido muito na minha tese, publiquei uma série de artigos e trabalhos sobre ele, e mais recentemente, nos últimos anos, acabei entrando num campo que nunca tinha trabalhado, campo da escravidão, em um projeto que está se encerrando, investiguei a questão do contrabando de escravos no Rio da Prata, principalmente a partir da Colônia do Sacramento. Meus interesses basicamente orbitam em torno de temas de história social, menos da história cultural, hoje, e principalmente dessas sociedades de antigo regime que existiram nessas paragens aí no século XVIII e comecinho do século XIX.

Certo. E me diz uma coisa. Quais fontes do Arquivo Público que tu pesquisaste que foram úteis nestes teus trabalhos de pesquisa?

Bem, o Arquivo Público é um capítulo à parte na minha formação. Talvez seja o arquivo mais formidável da cidade em termos de acervo… Pela quantidade e qualidade, embora, como eu disse, tenha outros arquivos fantásticos, o próprio Arquivo da Cúria tem uma documentação excepcional, Arquivo Histórico, agora o Arquivo Público, ele… até pelo perfil das fontes que ele guarda, pra minha pesquisa de doutorado ele foi absolutamente fundamental. E eu pesquisei três tipos de fontes que o Arquivo Público abriga. A documentação cartorária (e aqui eu me refiro aos inventários, mas também aos testamentos, que nem sempre estão apensos aos inventários, existe uma documentação, existe um fundo de testamentos que estão registrados em livros próprios), e a documentação notarial. São dois tipos de fonte. A documentação notarial que basicamente para mim residia no interesse em consultar os primeiros livros de notas, onde estavam registrados os mais diversos tipos de escrituras… Vou falar em partes, nesses dois momentos.

A documentação cartorária, em primeiro lugar. Ao contrário de outras pesquisas, como a da minha colega Helen Osório, que também examinou exaustivamente os inventários do Arquivo Público, eu optei por uma outra metodologia. A Helen, trabalhando com história serial, quantitativa, fez uma busca… por períodos. Ela estipulou um período que seria estudado do século XVIII e estabeleceu faixas de cinco anos, pegando todos os testamentos existentes naqueles anos, não me lembro quais os anos exatamente, mas enfim. Estabeleceu, o que é uma metodologia aplicada para esse tipo de trabalho em história serial, quantitativa. A minha abordagem foi um pouco diferente, talvez até pela minha influência teórica ser outra. Devo confessar que estava muito, na época, influenciado pela micro-história italiana, por uma abordagem qualitativa, e não quantitativa e assim eu elenquei um conjunto de famílias que eu estudei na minha tese, três famílias principais. Aonde eu emulei claramente o Giovanni Lévi no seu capítulo famoso d’“A Herança Imaterial” que ele estuda três famílias importantes da paróquia de Santena, e outras famílias que ajudaram na formação, no povoamento original da região de Viamão, que é o locus da minha tese.

Feito isso, estabelecidos quais eram os grandes troncos familiares, eu fui, eu fiz uma busca nominativa. Procurei todos inventários dos chefes de família, filhos, enfim, parentes que pudessem de alguma maneira informar sobre as estratégias desses núcleos familiares. Levantei algumas dezenas, o número exato eu não vou me lembrar agora, de testamentos, mas a partir dessa metodologia. Então em termos estatísticos poderia se questionar até que ponto minha mostra é representativa, já que de um universo talvez de milhares de inventários, eu trabalhei com algumas dezenas. No entanto, essa metodologia de fazer buscas nominais permitiu eu estudar a fundo o caso de algumas famílias emblemáticas e estabelecer ou sugerir ao menos alguns padrões de comportamento a partir de um modelo, também influenciado pelo Levi, um modelo generativo, modelo de sucessão familiar que estava embasado nas práticas desse conjunto de seis, oito famílias que eu me debrucei com detalhes. Nem sempre encontrei os inventários que procurava, no entanto. Esse foi um problema que, né, quando a gente faz a busca… Quando a gente faz uma busca, não digo aleatória, mas uma busca a partir de recortes que tu estabelece anos x pra buscar, tu pega inventários de sujeitos que tu nunca ouviu falar. Eu tinha os nomes das pessoas que eu queria. Mas não achava os inventários. Por isso, recorri aos testamentos. Embora uma parte dessa documentação esteja no Arquivo da Cúria, a legislação da época determinava que uma parte dos testamentos fosse aberta pela justiça eclesiástica e outra parte pela justiça civil. E é por isso que no Arquivo Público você encontra um conjunto de testamentos e no Arquivo da Cúria, outro conjunto de testamentos. Nunca cotejei pra ver se tem uma repetição, mas aparentemente são dois conjuntos diferentes. Pra quem se debruça sobre questões patrimoniais o testamento é muitas vezes frustrante, pela pouca precisão em relação aos inventários. Mas como eu procurava outro tipo de informação os testamentos… Pesquisei também algumas dezenas de testamentos que complementaram as informações dos inventários.

Na próxima semana será publicada a segunda parte da entrevista com Fábio. Aguarde!

APERS Entrevista: Sarah Calvi Amaral Silva – Parte II

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Hoje publicamos a segunda parte da entrevista com a historiadora Sarah Calvi Amaral Silva, que utiliza as fontes primárias custodiadas pelo APERS para desenvolver suas pesquisas.

Quais são as contribuições que tu acredita que o teu trabalho pode ter pro desenvolvimento do campo do pós-Abolição?

Eu acho que uma das principais questões que começaram a surgir ao longo da pesquisa é a vitalidade de uma noção de raça baseada na percepção do fenótipo. Tu nota que reconhecer as pessoas pela aparência é uma coisa muito, muito arraigada. Principalmente porque nos anos 30 é registrado, principalmente numa literatura mais sociológica como uma quebra do uso de noções biológicas de raça para pensar a população brasileira em políticas públicas e uma série de questões que envolvem identidade nacional e outras pautas políticas que surgiram nesse período. E o que tu vê na prática é uma noção bem diferente. A raça não só sobrevive a toda essa discussão como é reinventada e recolocada sob outros termos do mesmo objetivo, que é classificar as pessoas pelo fenótipo. Pela textura do cabelo, pela largura do nariz, pela cor. Então a cor e a raça, na sociedade brasileira que é racialmente hierarquizada, elas têm uma plasticidade teórica e dos seus usos sociais que ela é muito arraigada mesmo nas nossas relações, então eu acho que é ver mesmo que existe uma política institucional do Estado brasileiro de reconhecer as pessoas dessa maneira. Assim como as pessoas também têm a sua maneira de reagir a isso e reinventar e ressignificar a raça biológica científica, por exemplo, de acordo com as lutas negras. De se reapropriar desses conceitos de uma outra maneira pra poder organizar as pautas políticas dos grupos negros, enfim.

Tu tava falando e eu me lembrei de uma questão que é interessante se tu fizer um contraponto que é bem o período de difusão das teses do Gilberto Freyre. Da democracia racial, da positivação da mestiçagem.

É claro que as teses do Gilberto Freyre abriram uma nova perspectiva. Evidente que a gente não tá falando do mesmo contexto da virada do século XIX pro XX, daquele racismo científico super duro que veio com as teorias raciais no Brasil ali no final do XIX. Então é um outro contexto mesmo, e a discussão da positivação da mestiçagem recoloca o debate numa outra perspectiva. No mínimo as pessoas têm que responder àquela pauta ali. Ou seja, se tu quer justificar que tu ainda acredita na raça biológica, pelo menos tu tens que dar uma volta pra poder colocar aquilo como uma coisa aceitável frente a um contexto que já questiona isso de uma maneira bem veemente. Já tem vários contrapontos ao racismo científico à raça biológica, muito nessa esteira que o Gilberto Freyre criou no Brasil. Gilberto Freyre e os pares dele, porque ele não tava sozinho. Existia todo um grupo de intelectuais que também tava tentando repensar as relações sociais brasileiras de uma outra maneira que não baseadas na noção de raça. Mas eu acho que a gente tem que contextualizar esses debates de uma maneira adequada para não perder de vista que nem só de cânones vivia a intelectualidade brasileira e as áreas de saber que se apropriavam disso, porque os médicos, por exemplo, eles tão discutindo eugenia ainda nos anos 40. Nas revistas médicas, a discussão ainda é como formar uma raça eugênica, como a mestiçagem vai desembocar na degenerescência de toda população brasileira, esse discurso ainda existe, talvez travestidos de outros conceitos, de uma maneira um pouco diferente, mas ele persiste ainda. Então a gente tá falando de que? De medicina legal? De direito penal? De sociologia? De antropologia cultural? Apesar de essas áreas ainda nos anos 30 e 40 não serem bem delimitadas, tem um monte de intersecções entre elas, existem algumas especificidades. Em que um médico tá pensando quando vai interpretar o Brasil? Em que um antropólogo tá pensando quando vai interpretar o Brasil? Em que um delegado, um inspetor de polícia tá pensando quando ele enxerga os suspeitos dele andando na rua?

Qual é o sentido de discutir raça em um contexto de retrocesso como o que estamos vivendo e qual é a perspectiva de que esse debate possa chegar numa sala de aula?

Pra responder essa pergunta eu vou me deslocar do meu papel de pesquisadora para o meu papel de professora da educação básica. Quanto tu começa a pensar o pós-Abolição a partir dos teus alunos, quando tu olha pra eles e vê tudo aquilo que tu está pesquisando, que tu está pensando, ali no Arquivo, com as tuas fontes, acontecendo na tua frente, sabe, que os problemas… Por exemplo, discutir a criminalidade… O genocídio da juventude negra. Da violência que as mulheres negras ainda estão socialmente e estruturalmente falando na base da pirâmide. Quando tu vê na escola, por exemplo, várias mulheres chefes de família, a maioria negras, quando tu perde os teus alunos pro tráfico, são realidades que se vê nas periferias das grandes cidades, isso é uma coisa super comum. Tu vê como um trabalho como esse meu, por exemplo, eu acho que do campo como um todo, que pensa essas questões, como isso pode contribuir pra fazer a gente refletir. Eu acho que antes até de abordar diretamente esses assuntos em sala de aula, como estruturar as nossas relações com os nossos alunos de uma maneira antirracista. Sabe? Porque eu acho que fazendo uma história social do racismo o foco em estudar a criminalidade, quando eu fiz, tu vês que o pior do racismo é que ele desumaniza as pessoas. Sabe? Então pra mim, assim, como professora da educação básica, todo esse debate que eu tava fazendo na minha pesquisa ao mesmo tempo em que eu tava dando aula na escola pública, no ensino fundamental, serviu para eu estruturar minhas relações com meus alunos de uma maneira bem diferente. Sabe, tentando, trabalhando, sempre isso, autoestima dos meus alunos, tentando trazer temáticas que eles se enxergassem na história. Que eles vissem que eles são parte do processo histórico, que eles são protagonistas, na verdade. E que não é porque não tá ali no livro didático que a história não existe. Então são essas coisas que vão acontecendo assim do dia-a-dia da escola, na minha prática docente que vão sendo muito informadas pela pesquisa, claro, em confronto com a realidade que eu encontrava ali. Que é bem diferente da do Arquivo! Ali são meus alunos, e a gente trabalhando junto, mas assim: eu acho que nesses tempos de retrocesso político então, quando eles se tornam ainda mais vulneráveis, e a gente também como professor, como categoria, eu acho fundamental. Não tem como tu entrar numa sala de aula, no meu ponto de vista, ainda mais numa escola pública, sem abordar isso. Os nossos alunos são esses protagonistas.

Por fim uma questão para encerrar a entrevista. O que Sarah faz quando não está nem pesquisando nem na prática docente?

Sarah é mãe do João Antônio [risos], meu filho que fez dois anos de idade, e basicamente eu sou mãe. E tento também ser esposa, amiga, parceira dos meus colegas. Acho que é isso. [risos] Por enquanto minha vida tá tomada pelo João e pelas coisas boas da vida que a gente precisa: compartilhar com os amigos, de abraço, de amor, que eu acho que nessa conjuntura a gente tá muito carente dos afetos, então essas são minhas prioridades [risos].

Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista.

APERS Entrevista: Sarah Calvi Amaral Silva – Parte I

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Sarah Calvi Amaral Silva tem 36 anos e tem sua formação como historiadora pela UFRGS, completando sua licenciatura em 2005, o bacharelado em 2007 e o mestrado em 2010. Defendeu sua tese de doutorado recentemente, no dia 18/12/2018, sob orientação da Prof. Dr. Regina Célia Lima Xavier. Sarah veio pesquisar no Arquivo Público pela primeira vez em 2013, compulsando processos criminais do acervo judiciário custodiado na instituição.

Sarah, tu pode nos dar um resumo da temática do teu trabalho e das tuas principais conclusões?

Na minha tese eu analiso processos de significação da cor no sistema repressivo e no sistema de justiça de Porto Alegre, principalmente os procedimentos de identificação criminal feitos na Polícia Civil do Estado do Rio Grande do Sul, e depois como esses encaminhamentos identificatórios vão ser relidos no sistema de justiça, no Tribunal do Júri da Comarca de Porto Alegre. E, na medida do possível, quando as fontes permitem, quando os discursos registrados nas fontes permitem, eu procuro colocar essa significação mais científica, mais formal, em confronto com as significações da cor trazidas pelos sujeitos acusados, vítimas, testemunhas, os demais envolvidos. Isso tudo nos anos 30 e 40 do século XX, que é quando existe toda uma renovação dos arcabouços científicos da Polícia Civil e do Direito Penal no nível nacional. Daí eu percebo como isso funciona aqui no Rio Grande do Sul.

Nisso tu pega os Inquéritos Policiais anexados aos processos…

Aos processos que vão culminar no Tribunal do Júri. Então a análise tem essas duas partes. A primeira só referente ao Inquérito e numa segunda etapa, aí são incorporadas na análise as peças produzidas no sistema de justiça. Na mesma documentação. Esse conjunto é que forma o processo-crime.

E como é que tu chegou a esse assunto na tua trajetória?

Eu comecei a trabalhar com história social do racismo há mais ou menos onze anos, quando eu fui bolsista de iniciação científica da professora Regina Xavier e aí eu comecei a trabalhar com a temática em outro tipo de registro, registros historiográficos produzidos por intelectuais polígrafos que estavam interessados em pensar a formação do Brasil utilizando alguns conceitos, dentre eles a cor, a raça, e as categorias correlatas a esses conceitos de cor e raça. Aí no decorrer da pesquisa do mestrado, eu fui atrás um pouco das trajetórias desses intelectuais polígrafos que escreveram essas, essas interpretações historiográficas para interpretar a formação histórica e social do Brasil. Eu fui descobrindo que muitos desses intelectuais escreviam história mas também eram médicos, eram advogados, eram homens que estavam no aparelho de Estado pensando outras questões além da formação do Brasil, pensando a criminalidade, pensando as doenças mentais, pensando problemas sociais como a prostituição, que é a chamada vadiagem, que é uma noção que se usava bastante nas primeiras décadas do século XX, e aí pela trajetória desses intelectuais eu fui chegando no aparelho repressivo e no sistema de justiça, pelo fato de alguns deles atuarem nesses ambientes, então aos poucos os meus objetos de pesquisa foram se transformando, sempre com foco na cor e na raça mas dessa vez, já no doutorado, pensar esses conceitos a partir de outros contextos.

E qual a importância das fontes primárias do Arquivo Público na tua trajetória e no teu trabalho especificamente, o trabalho mais recente?

Ah, é toda, porque tu só consegue acessar o cotidiano de uma delegacia de polícia e do tribunal do júri através desses registros. Porque é nos processos crimes no caso das fontes que eu usei que tu encontra os delegados na sua atuação, os promotores, os advogados, os juízes, interagindo realmente com seus objetos, entre aspas, de intervenção e estudo. Que são as pessoas, na verdade, os moradores, os homens e mulheres da cidade de Porto Alegre que em algum momento tiveram suas práticas sociais criminalizadas, e dentro disso vão ser classificadas de acordo com as categorias que estavam ali disponíveis. Sem a fonte primária tu até pode estudar essas categorias, tu pode ir atrás das trajetórias desses homens em outros registros, mas perceber como isso acontecia na prática, nas instituições, como que isso era colocado no momento de identificar uma pessoa, no momento de interrogar um preso, um réu, só através das fontes primárias. Então o meu trabalho seria outra coisa se eu não tivesse acesso às fontes guardadas no Arquivo. Eu comecei a pesquisa no Arquivo Público em 2013. Que eu tomei contato com as fontes, que eu comecei a olhar os catálogos, que eu comecei a pedir as minhas amostras, conheci um pouco da documentação, que é uma documentação bem complexa, tem que entender como é que aquilo ali funciona, daí foi todo aquele processo, de fotografar, de tratar, fazer tratamento da documentação.

Tu encontra sistematicamente os registros de cor e raça ou não é uma coisa tão comum? Porque a gente tem toda aquela discussão historiográfica sobre a presença da cor e da raça.

Aparecem, aparecem. Nos anos 30. Isso é uma coisa que eu identifiquei nas fontes criminais, mas tem outros historiadores que para esse período, a partir dos anos 30, começam a identificar o registro da cor de uma maneira mais sistemática, então é raro tu não encontrar o registro da cor. Porque tu tem as peças produzidas nas delegacias, tu tem as peças produzidas no Instituto Médico Legal, tu tem as peças produzidas no Instituto de Identificação, tu tem as peças produzidas na Casa de Correção, já pras pessoas que estão encarceradas. Então em todas essas etapas da investigação criminal, e depois da investigação criminal no âmbito da polícia e depois na formação de culpa do Tribunal do Júri esses registros aparecem. Eles são mais comuns nas peças produzidas pela Polícia Civil. Tu não vai encontrar a cor como categoria num interrogatório feito por um juiz, por exemplo. Mas nos inquéritos, a cor aparece. Em quase todas as peças. Quando não, pela boca de um promotor, que chama uma pessoa de maneira pejorativa de um ou outro termo de cor, isso daí de vez em quando acontece. Fora daquele formulário mais duro, quando uma autoridade, um advogado, um promotor, até o juiz tem oportunidade de falar através de sua escrita, uma sentença, uma tese de defesa, acusação, às vezes a cor aparece. Não formalizada mas aparece.

Na próxima semana publicaremos a segunda parte de nossa entrevista com Sarah. Aguarde!

APERS Entrevista: Sara Dalpiaz Carlos

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Sara Dalpiaz Carlos é licenciada e bacharelanda em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e foi estagiária do APERS entre maio de 2016 e maio de 2018 participando dos projetos de conservação de documentos, Organização e Disponibilização do acervo da Comissão Estadual da Verdade do RS e Arranjo, Descrição e Difusão dos Acervos das Secretarias da Justiça (1891 – 1991). Em janeiro deste ano apresentou seu trabalho de conclusão de curso intitulado Os “zeladores” da democracia: ação democrática renovadora – um alicerce da ditadura civil-militar no Rio Grande do Sul tendo como fonte de pesquisa o acervo do APERS, confira nossa entrevista com Sara:

Blog do APERS: Sara, como e por que você decidiu cursar História?

Sara: Desde criança fui incentivada pelos meus pais a ler. Este privilégio através da leitura foi importante para que eu tivesse mais afinidade na escola com a disciplina de História. Além disso, as aulas do professor de História no ensino médio foram um grande incentivo para esta escolha. Naquela época ainda não tinha certeza se gostava da docência, porém a História, assim como as relações políticas e sociais ali estabelecidas, me encantavam.

Blog do APERS: Você poderia comentar um pouco sobre como teve interesse despertado para a temática da ditadura civil-militar?

Sara: Como comentei na primeira pergunta, as aulas deste professor de história e a sensibilidade com que ele tocava em temas como, por exemplo, ditadura civil-militar, possibilitaram que eu construísse uma opinião bem assertiva sobre o tema. Além disso, gostava muito de assistir filmes, ler textos ou livros que trouxessem relatos sobre este período, principalmente sobre questões de resistência. Quando finalmente iniciei a jornada universitária, a temática sobre ditadura civil-militar estava em voga, visto que houve muitos eventos em alusão aos 50 anos do golpe no país. Por inúmeros motivos, me afastei da temática, apesar de nitidamente estar inclinada a estudar história do Brasil, principalmente a partir da década de 1950. No entanto, ao iniciar o estágio no APERS, participei da organização do acervo da Comissão Estadual da Verdade, atividade que trouxe muitos aprendizados e acrescentou muito à minha vivência como estudante de História e como indivíduo. Com o encerramento da organização do acervo, durante as atividades de restauro, por acaso encontrei um processo administrativo de utilidade pública do fundo da Secretaria da Justiça que tratava de uma entidade anticomunista chamada Ação Democrática Renovadora (ADR), fundada durante a ditadura civil-militar em Porto Alegre. Assim, minha relação com a ditadura civil-militar tornou-se mais sólida, pois a partir deste “achado” comecei a pesquisar sobre o tema.

Blog do APERS: Qual a importância do acervo do APERS para tua atuação enquanto pesquisadora?

Sara: Julgo o acervo documental do APERS muito importante para todas(os) nós que estudamos e escrevemos História. No meu caso, por meio do acervo pude analisar processos administrativos que traziam informações muito importantes acerca deste grupo pró ditadura civil-militar que atuou após o golpe de 1964. Foi através do acervo do APERS que conheci a entidade e a partir dessas informações, encontrei outras fontes que me auxiliaram na construção do meu trabalho de conclusão de curso.

Blog do APERS: Como avalias a importância da experiência de estágio no APERS para tua formação e atuação profissional?

Sara: Durante a graduação há poucas cadeiras ou atividades que exploram atividades práticas do historiador com suas fontes. Portanto, estagiar no APERS facilitou o contato com diferentes tipos de fontes, pois permitiu que eu conhecesse inúmeros fundos, bem como o processo de preservação dos documentos. Particularmente, o contato com a documentação no estágio foi essencial para a criação do meu trabalho de conclusão de curso, portanto acredito que estar em contato com diferentes acervos documentais é um estímulo para formular problemas de pesquisa essenciais para a preservação da memória e que são relevantes para trabalhos acadêmicos exigidos pela graduação em História.

Blog do APERS: Nas tuas horas vagas quais são tuas atividades preferidas de lazer?

Sara: No meu tempo livre gosto muito de ler, ir ao cinema, estudar outros temas para além da História, viajar, conhecer novos lugares, culturas e pessoas, fugir para a minha cidade natal, Barra do Ribeiro e passar bons momentos com as pessoas que gosto.

Abaixo disponibilizamos o link para o trabalho de conclusão de curso de Sara e de nossos outros estagiários que também apresentaram seus TCCs em janeiro, porém sem utilizar fontes do APERS:

Os “zeladores” da democracia : ação democrática renovadora : um alicerce da ditadura civil-militar no Rio Grande do Sul de Sara Dalpiaz Carlos

“Nem Videla, nem Figueiredo!” : a batalha da Praça Argentina e a resistência estudantil na UFRGS através dos documentos do SNI de Letícia Wickert Fernandes

“Às urnas, cidadãos! Dia 6 vote não!” : o referendo de 1963 nas páginas do Diário de Notícias de Paulo Eduardo Fasolo Klein

Para saber mais sobre os acervos com que Sara trabalhou, acesse:

Acervo disponível para pesquisa: Comissão Estadual da Verdade (CEV/RS)

Acervo disponível para pesquisa: Secretaria da Justiça 

Catálogo Secretaria da Justiça: processos administrativos de utilidade pública

Catálogo Acervo da Comissão Estadual da Verdade

Acervo disponível para pesquisa virtual: Comissão Estadual da Verdade (CEV/RS)

Pesquisando no Arquivo: Secretaria da Justiça 

APERS Entrevista: Caroline Acco Baseggio

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2016.08.31 APERS Entrevista CarolineCaroline Acco Baseggio é graduada em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e cursa especialização em História do Rio Grande do Sul na Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Atualmente, atua na Sala de Pesquisa do Arquivo Público do RS e no Projeto Os Caminhos da Matriz. Confira nossa entrevista com Caroline em alusão ao dia do historiador:

Blog do APERS: Caroline, você poderia comentar um pouco sobre como decidiu cursar História?

Caroline: Até o 2º ano do ensino médio, eu queria ser jornalista esportiva e trabalhar em rádio. Sempre gostei muito de futebol, e lembro que na época estava surgindo a Débora de Oliveira na Bandeirantes aqui do RS (anos mais tarde me dei conta de como a representatividade é importante). A partir do 3º ano, as questões políticas e sociais começaram a me tocar mais, e então pensei em procurar um curso em que pudesse estudar e aprender mais sobre a realidade, a economia, política… a opção pela História surgiu naturalmente De forma nada modesta, o que eu queria mesmo era mudar o mundo. Hoje, sei que poderia ter cursado Psicologia, Direito, Ciências Sociais e, todas essas áreas, de alguma forma, me ajudariam nesse objetivo de entender o ser humano e a realidade em que ele vive, que constrói para si mesmo.

Blog do APERS: No Arquivo Público do RS, tu tens colaborado especialmente com a área de acesso, atuando junto aos pesquisadores na Sala de Pesquisa. No teu entendimento, qual pode ser a contribuição de um(a) historiador(a) neste importante espaço de uma instituição arquivística?

Caroline: Desde que entrei no Apers, há quase 2 anos e meio, tenho refletido e tentando entender qual o papel de um Historiador no acesso. Na Universidade, pelo menos na minha formação na Ufrgs, não tocávamos nesse tipo de questão. Então, o que entendo sobre o papel do historiador nesse espaço vem muito da prática. Penso que cabe ao Historiador mediar, fazer uma espécie de meio-de-campo entre o Acervo, os instrumentos de pesquisa e os pesquisadores que nos procuram. Exercitar uma escuta mais atenta, tentando pensar, a partir das temáticas e problemas de pesquisa que estes usuários nos trazem quais documentos podem auxiliar. Ter um conhecimento mínimo de outros acervos, para poder indicar locais e fontes, estar atualizada sobre a produção acadêmica e debate historiográfico também são importantes.

Blog do APERS: Tens atuado no Projeto Os Caminhos da Matriz, que em parceria oportuniza visitas guiadas às instituições de memória que circundam a Praça da Matriz. Como tem sido a experiência de difundir o APERS para um público diverso, que muitas vezes não é da área de arquivos ou da história?

Caroline: Então, este é o segundo ano que estou a frente do Projeto, ano passado fazia a parceria com outra colega, a Giglioli. Inicialmente eu tinha bastante dificuldade, achava as visitas pouco proveitosas para o público e isso me frustrava. No início deste ano pude participar das reuniões iniciais com as colegas das outras instituições e isso me ajudou a amadurecer, no sentido de entender que o importante para este público que nos visita aos sábados muitas vezes é somente conhecer, saber que existe escondido no centro de Porto Alegre uma instituição centenária que guarda milhões de documentos e que a maioria nem fazia ideia! Diminui a expectativa de fazer uma visita guiada cheia de informações sobre o Acervo e passei a curtir bem mais o trabalho.

Blog do APERS: A partir de tua experiência no Arquivo Público do RS, qual perfil acreditas que o historiador que atua na área de arquivos deve ter?

Caroline: Acredito que principalmente ser alguém aberto ao diálogo e flexível. Que saiba trabalhar em equipe e disposto a aprender.

Blog do APERS: Enquanto historiadora, podes comentar alguma situação inusitada ou maior desafio vivenciado?

Caroline: A prática de atendimento ao público é sempre algo complicado. Tu lida com anseios, prazos, expectativas. Pessoas que precisam do documento para “ontem”. O maior desafio é lidar com esses aspectos. Há pouco tempo, atendi uma menina que chorou na minha frente, pois precisava de um documento para cidadania italiana e não tínhamos, e ela não aceitava, não entendia. Mas o público, apesar disso, dá muito retorno, é gratificante ver o desenvolvimento das pesquisas, acabei aprendendo a gostar desse contato e a fazer amizades, sentir falta quando algum pesquisador não vem.

Blog do APERS: Para que conheçamos um pouquinho mais sobre você, nas horas vagas quais são tuas atividades preferidas de lazer?

Caroline: Eu gosto de estar com meus amigos, fazer uma janta, beber um vinho. Conversar sobre a vida, o ser humano, “filosofar” mesmo. Dar uma escapada em Canoas no fim de semana, minha cidade do coração, visitar a mãe, o mano, o Pighino (meu cachorro de dez anos).

Blog do APERS: Em alusão ao Dia do Historiador, 19 de agosto, deixe uma mensagem à classe!

Caroline: Eu acho a profissão apaixonante, sem dúvida. Mas precisamos lutar pela profissionalização, pela reserva de mercado, assumir um caráter mais profissional nesse sentido, não termos tanto pudor ao defender nosso espaço. E tudo isso passa pela regulamentação da profissão.

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Nôva Brando - APERSNôva Marques Brando, 32 anos, é historiadora do Arquivo Público do RS, possui graduação em História e especialização em Ensino de Geografia e de História, ambas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Já atuou profissionalmente como Professora de História nas séries finais do Ensino Fundamental e coordenou o Projeto APERS? Presente, professor! – Propostas pedagógicas a partir de Fontes Arquivísticas. Atualmente é membro suplente do Comitê Gestor do Sistema de Arquivos do Estado (SIARQ-RS) e da Comissão Mista de Reavaliação de Informações (CMRI). Trabalha com pesquisas, descrição documental, difusão cultural e educativa e atividades de conservação e restauro documental. Confira a entrevista com Nôva em alusão ao Dia do Historiador:

Blog do APERS: Nôva, você poderia comentar um pouco sobre como decidiu cursar História?

Nôva: Tenho a impressão que os motivos são muito semelhantes para todos que decidiram por graduar-se em História. Lembro da primeira semana na Faculdade, quando em uma aula de Sociologia o professor nos questionou sobre os motivos que nos levaram até alí. Boa parte das respostas continham, em suas justificativas, um desejo de contribuir para construção de um mundo mais justo e solidário e a certeza de que o historiador, o professor de história estaria a serviço disso. Para mim não foi diferente, decidi cursar história porque queria ser uma professora que trabalhasse para mudar o mundo. E não há muito de altruísta nessa posição, percebi tempos depois. A verdade é que o interesse pelo conhecimento histórico vinha antes e ficou fácil uni-lo, no momento de decidir minha profissão, à vontade de lutar por transformações nas relações sociais. Fora isso, também tive, assim como muitos colegas de profissão, aquele professor referência, que, através do modo como enxergava a história, provocava brilhos nos olhos durante suas aulas. E acho mesmo que a decisão final passou por isso também, por acreditar que meus dias de trabalho na sala de aula seriam vividos com paixão. O que aconteceu depois foi um pouquinho diferente (risos), mas isso é resposta para outra pergunta.

Blog do APERS: No Arquivo Público do RS, entre outras atividades que já desempenhas, estás te qualificando para assumir a área de preservação e conservação de documentos. No teu entendimento, qual o papel dos historiadores que atuam em arquivos?

Nôva: Sim. Depois de atuar em projetos de descrição e difusão documental, na organização de eventos, de participar do PEP UFRGS|APERS, de desenvolver materiais pedagógicos a partir dos acervos do Arquivo, hoje estou me qualificando para trabalhar nas atividades de conservação e restauração de documentos, área bastante importante dentro de um arquivo. Desde 2015 estou realizando cursos para poder responder a essa demanda. O trabalho é bastante complexo, sobretudo quando nos deparamos com documentos bastante castigados por fatores externos e internos. Uma responsabilidade e tanto. Esse, por exemplo, pode ser um dos papéis desempenhado por historiadores em um Arquivo e descobri isso bem recentemente (risos). De um modo geral, penso que os historiadores devem estar envolvidos em todas as principais atividades desenvolvidas em uma instituição arquivística – gestão documental, preservação, acesso e difusão. Entendo que a capacidade que temos de historicizar as relações sociais, inclusive a produção dos documentos, e os vestígios que sobre elas restaram, nos permitem contribuir de forma determinante para o cumprimento daqueles que eu considero como objetivos centrais de um arquivo, a preservação e a garantia de acesso ao maior número possível de documentos para um público que seja cada vez maior e mais diverso.

Blog do APERS: Tens contribuído para a organização de acervos, como o produzido pela Comissão Estadual da Verdade, que em breve será difundido aos nossos usuários. Quais foram as etapas do trabalho, e como você percebe esta experiência?

Nôva: Quando comecei a trabalhar no APERS, em fevereiro de 2013, fui acolhida pela equipe que estava elaborando o Catálogo Resistência em Arquivo, instrumento de pesquisa que tem auxiliado na divulgação do Acervo da Comissão Especial de Indenização. Esse foi o primeiro contato que tive com um conjunto documental custodiado pelo Arquivo. Tal acervo já estava organizado, avaliado, classificado, descrito e indexado no Sistema de Administração de Acervos Públicos (AAP), e passava, naquele momento, por um processo de descrição mais minuciosa que atendesse e qualificasse o atendimento ao pesquisador e que divulgasse a documentação. No final de 2014, foi recolhido ao APERS, o Acervo da Comissão Estadual da Verdade cujos documentos, na perspectiva do conteúdo, são semelhantes aqueles que havia trabalhado em 2013. Acho que esse foi o motivo principal pelo qual fui demandada para compor a equipe de organização desse acervo. E percebi, já no início da organização, que o conhecimento sobre o contexto e sobre o processo de elaboração da documentação, bem como sobre o conteúdo registrado nela, foram de importância ímpar para a qualidade do trabalho que sobre ela realizamos. Acho que esse conhecimento foi minha maior contribuição e acredito que ele tenha auxiliado nas fases que foram desde o mapeamento, passando pela classificação e avaliação, pela decisão dos critérios para organização da documentação (dossiês e documentos individuais), até a fase de descrição. Também elaboramos um Catálogo para auxiliar na pesquisa ao acervo. Hoje estamos indexando a documentos no AAP e em breve tanto ele quanto o Catálogo estarão disponíveis para consulta pública. Diferentemente da primeira experiência com o Acervo da Comissão Especial de Indenização, o trabalho desenvolvido com o Acervo da Comissão Estadual da Verdade me permitiu entrar em contato com todas as fases da organização de um acervo, uma atividade repleta de novos aprendizados e do desenvolvimento de competências que não possuía antes desse trabalho.

Blog do APERS: A partir de tua experiência no Arquivo Público do RS, qual perfil acreditas que o historiador que atua na área de arquivos deve ter?

Nôva: Mais que um perfil definido, penso que um historiador que atua em arquivos tem de ter é disponibilidade para aprender e para “navegar em águas misteriosas”. Aponto isso, porque exceto aquela “capacidade de historicizar”, que mencionei acima, pouco estamos preparados para o trabalho em um arquivo ao sair dos cursos de graduação (quantos de nós sabemos o que é um Plano de Classificação ou uma Tabela de Temporalidade de Documentos?). Acho que os currículos apontam para mudanças, mas ainda estão centrados na formação de professores e de pesquisadores que produzem um tipo específico de conhecimento, o conhecimento acadêmico. Embora nossas atividades encontrem pontos de intersecção com o ensino e com a pesquisa acadêmica, não são elas que caracterizam nossas principais atribuições. As atividades pedagógicas e de pesquisa que realizamos nos arquivos são qualitativamente diferentes daquelas desenvolvidas por professores nas salas de aula ou por pesquisadores na academia. Os tempos de produção de conhecimento e de execução de tarefas também são outros. Temos que dialogar com uma série de conhecimentos que vão desde os arquivísticos até os da Filosofia do Direito. Dessa forma, pelas lacunas existentes na formação inicial (que nunca contemplará tudo), acredito que a característica necessária seja a disponibilidade para aprender e para dialogar, numa perspectiva interdisciplinar, com os outros profissionais e com as experiências desenvolvidas nas mais diferentes instituições de memória.

Blog do APERS: Enquanto historiadora, podes comentar alguma situação inusitada ou maior desafio vivenciado?

Nôva: O desemprego. Sem dúvida alguma esse foi o maior desafio que enfrentei. Terminar um curso de graduação sem perspectivas de trabalho, foi um momento bastante difícil, superado, ainda bem! O segundo foi (está sendo) me ressignificar profissionalmente neste outro espaço de atuação (APERS) que era improvável para a acadêmica que mirava na sala de aula seu futuro local de trabalho.

Blog do APERS: Para que conheçamos um pouquinho mais sobre você, nas horas vagas quais são tuas atividades preferidas de lazer?

Nôva: Gosto de estar na companhia da família, dos amigos, da Capitú, da Negrinha e do Baixinho (meus cachorros). Assisto filmes e séries com meus sobrinhos e novela com a minha mãe. Com os cachorros, gosto mesmo é de ficar de frescura – correr no pátio, deitar no chão, ficar de barriga pra cima. Os amigos são aquela companhia indispensável para os Happy hours tão necessários à saúde psíquica da gente. Costumo também frequentar lugares com música ao vivo – como viver sem música. E quando sozinha, literatura.

Blog do APERS: Em alusão ao Dia do Historiador, 19 de agosto, deixe uma mensagem à classe!

Nôva: Porque desnaturalizamos as relações e porque questionamos o que parecia óbvio, nas mais diferentes esferas de atuação, nós somos parte daqueles que incomodam e que desacomodam. Que incomodam e desacomodam nas ruas, nas escolas, nas universidades, nos arquivos e nos churrascos de domingo. Que assim seja e que a gente possa ser feliz com isso!!!

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