Mulheres no APERS, gênero e história (XIII): verdade e reflexões históricas.

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Você já parou para refletir a respeito do que são fontes de pesquisa histórica? O que pode ser utilizado como referência para a produção de conhecimento sobre o passado? Ou ainda, o passado, enquanto tal, pode ser realmente acessado no presente, como aconteceu? Estas e outras perguntas relacionadas aos estatutos e bases deste conhecimento são cotidianas para aquelas e aqueles que têm a História como profissão, enquanto pesquisadores e educadores.

Se voltarmos o olhar para a História enquanto área do conhecimento, que também pode ser analisada no tempo, em suas transformações, tendências e usos, logo perceberemos que houve uma época, não tão distante, em que a busca por um estatuto científico fez com que se estabelecessem métodos e procedimentos muitas vezes rígidos para sua escrita. Estes métodos deveriam incluir o acesso e a exploração de documentos, que deveriam passar por uma crítica arguta, no intuito de apreender sua veracidade, sua fidelidade aos fatos transcorridos. Em geral, passou-se a priorizar as fontes de arquivos, produzidas a partir de funções institucionais do Estado, ou geradas e acumuladas por homens “notáveis”, que poderiam ser inquiridas a partir de análises diplomáticas, do cruzamento com informações de outras fontes, de reflexões e ponderações que levavam em conta o caráter oficial destes documentos como um primeiro importante passo para garantia de se chegar à verdade. Entre estes documentos, certamente poderíamos relacionar os processos judiciais, como os que foram descritos para a elaboração do Catálogo História das Mulheres & Relações Familiares: Vara de Família e Sucessão de Porto Alegre.

O tempo passou… E a ciência da história certamente mudou. Mas não por completo: não se abandonou a noção de “fonte”, ainda que ela tenha sido bastante ampliada; não se deixou de buscar referências ao passado que, como rastros ou marcas, permitam acercarmo-nos dele, entretanto, as noções ingênuas de que determinadas fontes falavam por si e eram registros fiéis dos fatos, de que por vezes ao historiador quase bastaria compilar informações e dispô-las em forma de texto, ou de que o conhecimento produzido a partir destas análises e narrativas chegaria a uma versão completa e inequívoca da História, foram amplamente questionadas.

2016.06.22 Mulheres no APERS XIIIMas tais questionamentos também fazem sentido quando pensamos na produção de conhecimento histórico relacionado a mulheres e relações familiares? Indo às fontes, para não dizer “indo aos fatos”, seria possível visualizar um exemplo? Vamos lá!

Amador, funcionário público de 35 anos, move ação de desquite litigioso contra a esposa, alegando que a mesma passou a “cometer barbarismos” no matrimônio, chegando a ameaçar de morte a ele e aos filhos, motivo pelo qual teria saído de casa, levando consigo as duas filhas mais velhas, de 10 e 5 anos. Afirma ainda que, estando livre de sua presença, Maria teria passado a exercer “vida irregular, de orgia e libidinagem”.

Maria, a ré, costureira de 31 anos, defende-se em ação de desquite movida pelo marido, contestando suas alegações. Afirma que jamais o ameaçou de morte ou cometeu barbaridades, que vivia em companhia do irmão e não de forma irregular ou libidinosa, e que o motivo para que ele tenha saído de casa era bem outro: há anos vivia amasiado com uma mulher, de nome Alice. Para comprovar sua versão, apresenta extensa lista de testemunhas, e um documento registrado na Delegacia, assinado poucos meses antes do abandono do lar, em que o marido comprometia-se a não mais procurar por Alice, e voltando a ser o mesmo marido dedicado de antes!

Resultado: Amador não compareceu à última audiência, e Maria foi absolvida em juízo, recebendo como indicação que o casal entrasse em acordo para um desquite amigável.

A partir do documento anexado ao processo* pela esposa, da própria ausência de Amador na audiência, e da conclusão determinada pela Justiça, denota-se que a versão verdadeira para os fatos fora a apresentada por Maria. Se a Justiça teria como papel estabelecer a verdade, e a partir dela encaminhar resolução correta, ou justa, à História não cabe necessariamente estabelecer a verdade nesta perspectiva. Muitas vezes historiadoras e historiadores são chamados a público para dizer “o que realmente aconteceu”, mas quando se analisa este ou outros casos a partir de um olhar histórico é possível questionar múltiplos elementos, buscar outras fontes que ampliem sua compreensão, sem necessariamente ter como pretensão “resgatar o passado”.

O adultério de Amador é inegável, e injusto seria condenar Maria por ele ter abandonado o lar. Mas será que em algum momento este comportamento do marido não pode ter levado a esposa a cometer atitudes que ele poderia ter considerado “barbarismos”, quando vindos de uma mulher? Tendo conhecimentos sobre os valores e padrões morais vigentes na década de 1950, é possível inferir que a relação entre os dois impunha opressões à esposa, e que provavelmente Amador aproveitou-se dessa moral para incutir culpa a ela, buscando arrancar um desquite que Maria não parecia disposta a conceder. Mas aquilo que foi registrado pela ré e seu advogado no processo foi pensado para afastar a culpa e garantir que seu comportamento seria percebido como correto – mulher honrada, ilibada, que na ausência do esposo colocou-se sob a proteção (e o disciplinamento?) dos irmãos. Obviamente não faria sentido confessar qualquer atitude que pudesse lembrar “libidinagem” de sua parte. Em muitos casos, saber utilizar-se destes códigos para vencer uma ação na Justiça pode ser encarado como forma de resistência.

Ou seja: não necessariamente por terem sido registradas perante a Justiça as declarações de Amador e Maria foram totalmente fiéis à realidade das relações estabeleciam entre o casal, e é importante considerar isto ao analisar processos judiciais enquanto “matérias-primas” da pesquisa histórica. Ao mesmo tempo, poder levantar estas reflexões não desqualifica o potencial destes documentos para a História, ao contrário! Por estas e outras é possível reafirmar a riqueza de tais fontes, que podem ser lidas a partir de múltiplos problemas de pesquisa e perspectivas teóricas. Ao Arquivo, cabe difundi-las. Aos pesquisadores e pesquisadoras, caberá questionar, inovar, criar.

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* Processo de desquite n.º 1547, de 1951. Verbete: p. 319 do referido Catálogo.

Mulheres no APERS, gênero e história X: resgatando trajetórias

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Estamos no mês das mulheres! No último domingo, 08 de março, celebramos o Dia Internacional das Mulheres, um dia de homenagens, mas especialmente de reflexão sobre direitos conquistados e direitos ainda almejados, e de luta para garantir equidade, respeito e autonomia. No mesmo dia o Arquivo Público comemorou seus 109 anos de existência, celebrando vida longa numa instituição centenária que se atualiza e dinamiza a cada ano, atenta às transformações da sociedade.

Nesta data tão especial, duplamente marcante, nada melhor do que reafirmar o compromisso institucional com a preservação do patrimônio documental por nós custodiado e com a garantia do acesso a ele, sempre buscando difundi-lo ampliando os “pontos de acesso” e os mecanismos de aproximação entre usuários e documentos. Neste sentido, conectando a celebração do aniversário do Arquivo à celebração do Dia das Mulheres, melhor ainda reafirmar este compromisso relembrando nosso empenho em construir instrumentos de pesquisa que lancem luz especial sobre as mulheres: até o final do mês de março pretendemos lançar o tão mencionado catálogo sobre História das mulheres e das relações familiares, que descreve os documentos da Vara de Família e Sucessão do Porto Alegre.

São documentos que estamos apresentando no blog mensalmente “em pílulas”, desde o começo do ano passado. Leitoras e leitores já devem ter percebido seu grande potencial para a pesquisa nas áreas de história das mulheres, das relações familiares e de gênero. Obviamente sabemos que o recorte do acervo descrito no catálogo não registra apenas partes de histórias de mulheres, mas de mulheres e homens em relação, entretanto, o projeto “Afinal, onde estão as mulheres no APERS? Gênero, memória e história”, através do qual o Catálogo História das Mulheres & Relações Familiares vem sendo lentamente construído desde 2011, apresenta uma intencionalidade política, de afirmar a história das mulheres. De apontar acervos que têm potencial para ajudar a resgatar e problematizar trajetórias, traçar perfis, questionar comportamentos, refletir sobre sofrimentos, resistências e conquistas.

Hoje, neste post celebrativo, apresentamos mais uma “pílula” torcendo para que ela instigue o desejo de pesquisar mais, de tornar-se uma usuária ou usuário do Arquivo Público, de desvendar muito mais sobre tantas mulheres que viveram em nosso estado, cujas histórias de vida são registradas aos fragmentos entre as caixas e milhares de folhas de nosso acervo. Apresentamos Ottilia em sua relação com Affonso, chamando a atenção para alguns aspectos que podemos analisar a partir dos documentos.

Ottilia era órfão de mãe e pai quando se casou, em dezembro de 1920, aos 16 anos. Seu marido, comerciante de Porto Alegre, era 18 anos mais velho, com 34. Menos de quatro anos após o matrimônio, em junho de 1924, dão entrada nos papéis de desquite amigável, documento salvaguardado pelo Arquivo e descrito no referido catálogo. Além de problematizar a grande diferença de idade entre o casal e o pouco tempo que durou a relação, outros elementos contribuem para aproximar-nos da história de Ottilia: através da pesquisa realizada para construção do instrumento, verificamos que há em nosso acervo um processo de tutela de agosto de 1920 em que Affonso aparece como tutor de Ottilia e de seu irmão, logo após o falecimento da mãe dos adolescentes. Pouco tempo depois, em novembro de 1920, ele passa o papel de tutor para o irmão mais velho dos jovens, que alcançou a maioridade.

Assim como ocorre em diversos outros casos, a tutela não foi descrita no catálogo por ser da 3ª Vara de Família, que está fora do recorte para esta ação, mas será referenciada em um campo do verbete de desquite, facilitando o trabalho de pesquisa ao relacionar os documentos da Vara de Família e Sucessão de determinado casal a outros documentos deles produzidos em outras varas/comarcas do Poder Judiciário. Mesmo que o processo de desquite amigável de Ottilia e Affonso seja relativamente simples, relacionando apenas a petição inicial, a certidão de casamento, despachos e pedidos de certidões, sem registrar a voz de testemunhas ou qualquer disputa entre os cônjuges, cruzá-lo com outros processos, como o de tutela, oportuniza ao(à) pesquisador(a) diversos elementos para construir análises e narrativas: qual seria a relação entre Affonso e a família de Ottilia, que lhe permitiu chegar a tutor? Como interpretar um casamento entre tutor e tutelada tão pouco tempo depois de sua morte da mãe, e sendo a noiva apenas uma menina? Era comum naquele período que tutores de meninas se casassem com elas? Quais as relações de poder se estabelecem em um casamento como este?

Aqui levantamos brevemente alguns apontamentos a partir de dois processos relacionados. Uma pesquisa que relacione uma quantidade maior de documentos a partir de questionamentos pertinentes, que busque localizar habilitações de casamento, processos criminais, ações de alimentos ou separação de corpos de um mesmo casal, ou de vários casais em determinado período, certamente poderá produzir reflexões expressivas e resgatar diversas trajetórias de vida!

Mulheres no APERS, gênero e história IX: onde estão as Alaydes?

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Almiro e Alaide Capa

Após um longo percurso de trabalho com os processos judiciais da Vara de Família e Sucessão da Comarca de Porto Alegre, em 2015 finalmente conseguiremos finalizar o Catálogo História das Mulheres & Relações Familiares. Diante de um acervo vultoso, como é o acervo do Poder Judiciário salvaguardado pelo APERS, esse Catálogo certamente lançará luz sobre uma pequena parcela da referida documentação ao descrever os processos de apenas uma Vara, em uma Comarca. Porém, quando pensamos que cada história destacada através dos verbetes desse instrumento de pesquisa nos faz conectar com tão múltiplas possibilidades de análise e reflexão, temos certeza de que este foi um trabalho grande e importante.

A cada dia nos deparamos com histórias que, quando olhadas com atenção, nos soam tão singulares, tão impactantes. Ao mesmo tempo, sabemos que são representativas de uma época, de um contexto sociocultural, de uma mentalidade marcada no tempo e que lentamente se transformou – ou ainda está se transformando – desde a primeira metade do século XX. Nos últimos dias, ao buscarmos elementos para construir esta postagem, nos deparamos com a história de Alayde e Almiro, casados em 1924, tendo gerado uma filha dessa união. Em 1948, mais de 20 anos depois do enlace, Almiro procura a Justiça para oficializar através de um desquite litigioso a separação que já havia se dado de fato há muitos anos.

Exceto por ser uma separação realizada num período em que comumente imaginamos os casamentos como “eternos”, até aqui, nada de especial, correto? Afinal, tantos casais se separam! Mas o documento não acabara por ai: Almiro moveu a ação litigiosa contra sua esposa pois ela encontrava-se em “local incerto e não sabido”, logo, o processo correu à sua revelia e não temos acesso à sua versão para os fatos. Ele declara que se casou por intervenção policial, pois Alayde acusou-o de tê-la deflorado e, segundo o autor, optou pela “lei do menor esforço: casar”, já que naqueles anos “imperava o borgismo, regime policial de verdadeiro terror”. De fato a certidão de casamento apresentada no processo registra que o juiz dispensou os editais e prazos da lei devido a urgência do casório, comprovada com o auto de corpo de delito a que fora submetida a noiva, em função do defloramento. Almiro afirma ainda que conheceu a esposa trabalhando em uma pensão na Rua do Rosário onde sua irmã era meretriz (local que era “ambiente destinado a abrigar o baixo meretrício”), que viveram juntos por apenas dois meses após o casamento, indo em seguida a ré para a “orgia”, vivendo desde então da “profissão de meretriz” em locais como a “rua Nova e da Ponte”. O autor e suas testemunhas citam “bordéis” em que ela teria trabalhado.

Todas as expressões apresentadas no parágrafo acima podem ser identificadas em quatro páginas do processo. Duas vidas quase devassadas em poucas páginas, uma série de valores registrados, uma infinidade de questionamentos possíveis: para os que se dedicam ao estudo da Primeira República, interessantíssimo notar a forma como o autor do processo adjetiva o governo de Borges de Medeiros no Rio Grande do Sul: “regime policial de verdadeiro horror”; para quem estuda representações de gênero, um prato cheio para analisar a representação das mulheres nas páginas da Justiça; para quem dedica-se à história de Porto Alegre certamente ver as descrições das ruas da cidade em que funcionava o “meretrício” e ler o nome de antigas “casas de tolerância” ajuda a pintar um cenário e voltar no tempo; para quem reflete sobre sexualidade e direitos das mulheres as poucas linhas aqui apresentadas fazem pensar no exercício da prostituição enquanto profissão – um debate até hoje muito polêmico – e no quanto os homens buscavam atrelar as mulheres a ela como um elemento explícito de corrupção e de vida indigna. São tantos elementos, e exploramos neste post apenas uma parte do documento. Mais informações e reflexões poderiam ser promovidas a partir do depoimento das testemunhas arroladas pelo autor, por exemplo.

Ao longo do trabalho para elaboração dos verbetes que vão compor o Catálogo nos deparamos com muitos processos em que as esposas estavam ausentes e eram acusadas de terem se tornado meretrizes. Muitas mulheres simplesmente abandonaram o lar, estando em tal “local incerto e não sabido”. Em alguns casos as rés foram localizadas e contestaram a versão dos autores. Em diversos deles podemos identificar que eram chamadas de meretrizes apenas por terem construído relações com outro homem. Em muitos outros, não houve contestação, não houve forma de registrar suas vozes…

Nos indagamos a respeito de que motivos poderiam ter levado Alayde à prostituição, se é que isso era verdade. Também nos indagamos sobre que tipo de relação ela estabelecia com Almiro quando se conheceram; sobre o paradeiro e a vida da filha do casal; sobre os motivos que levaram a ré a não se pronunciar no processo – estaria mesmo distante, ou optou por não responder? Qual a trajetória de vida e qual o paradeiro de Alayde? Seria possível, através de mais pesquisas e de outros documentos, aproximar-nos mais de sua história real, assim como da história de tantas outras mulheres anônimas que fizeram história por ai? Onde estão essas mulheres no acervo do APERS?

A leitura de apenas um processo já nos instiga a pesquisar e desvendar mais a partir desse acervo. Este é um documento ora destacado, mas certamente a análise de mais processos do mesmo período, talvez cruzados com outras fontes diversas, ajudaria a traçar retratos daquele contexto sócio-histórico, nos fazendo questionar o ontem e o hoje. E certamente instigar a pesquisa nos documentos do APERS é nosso principal objetivo, com esta postagem e com a publicação, em breve, do Catálogo História das Mulheres & Relações Familiares!

Mulheres no APERS, gênero e história VIII: problematizando papéis de gênero a partir de processos de desquite.

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CapaNilzia, operária, e Manoel, pedreiro, formavam um jovem casal no final da década de 1940. Sem filhos ou bens a partilhar, decidem desquitar-se judicialmente após pouco mais de dois anos de relacionamento. A história deles poderia ser a história de qualquer uma ou qualquer um de nós. Embora estejamos acostumados a pensar os desquites como mais raros há mais de sessenta anos, é uma história parecida com muitas que conhecemos ao longo da vida. Porque refletir a respeito dela então? Porque considerar importante o processo de desquite desse casal, que está salvaguardado no Arquivo Público?

A verdade é que esse desquite, assim como muitos outros documentos de arquivo, ajuda a registrar a história de pessoas comuns em um terminado tempo histórico, permeado por seus referenciais morais e culturais, que mudam ao longo dos anos. Estudar essa história é uma chance de se aproximar daquele contexto, entender um pouco mais de perto como a sociedade brasileira e sul-rio-grandense enxergava os papéis atribuídos à mulheres e aos homens no período, e problematizar nossas próprias relações sociais na atualidade.

Manoel solicitou o desquite alegando na inicial que vinha desconfiando do procedimento da ré, “pois que deixára de ser obediente, cumpridora de seus deveres, para passar a chegar do serviço muito tempo mais tarde que o necessário para a caminhada entre sua casa e a fábrica onde trabalha”. Que assim, passou a “controlar os passos da ré”, até que a encontrou conversando com um desconhecido. Em meio à discussão Nilzia acabou confessando o adultério, em razão do que Manoel se separou imediatamente, estando a ré no momento do desquite já “amancebada” com o amante. Chega a anexar documento em que leva a conhecimento da Justiça o nome do amante, informando que eram colegas na fábrica.

Nilzia contesta a versão e pede reconvenção do processo. Alegou ter depositado muita esperança na relação com Manoel, já que tinha sido abandonada por outro homem com um filho no ventre, situação que o autor teria compreendido por ter cometido “idêntico delito”. Mas “durou pouco sua ilusão”, pois o autor “não quiz se conformar mais com aquela situação passando, então a maltratar moral e fisicamente a Ré e seu filho, culminando com uma agressão em plena via pública”. Alega ainda que o marido se entregou ao jogo e às bebidas, tornando-se “um elemento socialmente inútil”, deixando de cumprir “os deveres de esposo”, obrigando-a a sustentá-lo. Faz questão de afirmar que sua carteira de trabalho comprova que ele não conseguia “parar” em emprego algum. E por fim informa que já havia solicitado a separação, deixando de viver com o marido desde que se interessara pelo atual companheiro. Ou seja: Nilzia não nega que possui outra relação. Ao contrário, tenta demonstrar que o relacionamento com Manoel já estava fracassado, por culpa dele.

Todas as três testemunhas apresentadas são testemunhas do autor. A ré não consegue intimá-las. São três homens, todos são unânimes em afirmar que Nilzia tinha comportamento irregular, que já teriam a visto em companhia de outros homens, e que o autor era um homem honesto, trabalhador, cumpridor de suas obrigações. A esta altura da descrição, já é de imaginar a sentença: o processo é considerado procedente para Manoel com fundamento no Código Civil, e improcedente a reconvenção solicitada pela ré. Não há informações surpreendentes. Já poderíamos imaginar que esse seria o desfecho. Entretanto, se desejamos compreender as relações de gênero e os papéis a eles atribuídos em uma perspectiva histórica, podemos fazer muitas observações.

À mulher é atribuído o dever se manter-se “obediente”, e não era permitido chegar em casa um pouco além do horário. Ao homem, era atribuída a obrigação de sustentar a casa, sendo trabalhador. Referenciais que hoje já foram questionados, que não são mais uma realidade na maioria das famílias, mas que ainda preponderam em diversas relações. Outro elemento muito interessante para abordar é a condição de classe das partes envolvidas: ainda que em determinado momento Nilzia afirme que Manoel é de família “relativamente abastada”, ambos são trabalhadores, acessam a Justiça por meio de assistência judiciária, e alegam possuir poucos recursos. Ainda assim, ambos recorrem aos marcos legais para sancionar a relação, e depois para dissolvê-la. Por outro lado, tal condição pode ser uma das chaves explicativas para compreendermos um comportamento aparentemente tão “desviante” de uma mulher naquele contexto: não podemos comparar de forma direta o comportamento esperado das mulheres ricas, de famílias tradicionais, com aquele esperado ou praticado pelas mulheres da classe trabalhadora, que construíam relações a partir de outras mediações, de outros interesses e expectativas. Ainda podemos questionar o motivo pelo qual Nilzia não apresentou testemunhas: será que desistiu de brigar pela ação, agora que já estava em outra relação? Será que não conseguiu pessoas de confiança que desejassem depor a seu lado, por sua condição de “mulher adúltera”?

Mais uma vez se evidencia a riqueza desse acervo, que pode contribuir para a escrita da História e para a introdução de conceitos e reflexões nos processos de ensino e aprendizagem!

Mulheres no APERS, gênero e história VII

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Mensalmente temos apresentado em nosso blog exemplos de processos de desquite, divórcio, anulação de casamento, entre outros pertencentes ao sub-fundo Vara de Família e Sucessão, do Poder Judiciário. Documentos que estão sendo descritos a partir do projeto “Afinal, onde estão as mulheres no APERS?”, e que têm possibilitado reflexões na perspectiva da história das mulheres e das relações de gênero. É claro que no espaço de uma postagem não seria possível realizar problematizações mais densas, que levassem em conta um número maior de processos e pudessem apontar para resultados a partir de problemas de pesquisa, e para alguns leitores talvez pareça um pouco abstrato imaginar que tipo de trabalhos poderiam ser escritos através de acervos como este. Assim, hoje compartilharemos alguns textos elaboradas com base em documentos similares, ou a partir de questões que podem ser pensadas através deles.

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Na dissertação intitulada “Quod Deus Conjuxit homo non separet: um estudo de gênero, família e trabalho através das ações de divórcio e desquite no Tribunal de Justiça de Campinas (1890-1938)”, a pesquisadora Cristiane Fernandes Lopes busca demonstrar através de tais documentos “como as mulheres utilizaram a seu favor o mito da mulher submissa e anjo do lar buscando proteção diante de uma estrutura de poder que lhes negava a possibilidade de decisão e participação. Por meio destes testemunhos [tenta], ainda, identificar os mecanismos pelos quais estes mitos foram forjados e como diversos setores da sociedade utilizaram-se deles procurando manter os instrumentos de poder e dominação sobre as mulheres, a família e o matrimônio”. Utilizando processos de origem judicial, que expressam majoritariamente vozes masculinas, a autora consegue problematizar os papéis atribuídos às mulheres no contexto em apreciação.

No artigo “Gênero, Representações Modelares e Desquite em Sobral (1962-1977)”, Leidejane Araújo Gomes tem por objeto as relações de gênero na cidade de Sobral, além do conjunto de representações incidentes sobre os homens e mulheres no período em questão. Partindo da percepção das relações e construções de gênero e de aspectos sócio-econômicos levantados no contexto da ação de desquite, a autora analisa as táticas e recursos mobilizados para vencer a ação, ou chegar à formulação de um acordo. Suas fontes são compostas por 28 processos de desquite, 03 de nulidade de casamento e matérias de jornal. Para Leidejane “as fontes analisadas nos revelam tanto os desejos quanto a opressão da mulher na sociedade, demonstrando também que os ideais de família, amor e sexo restritos ao casamento vinham sendo na prática desconstruídos.

2Vânia Nara Pereira Vasconcelos, na dissertação intitulada “Evas e Marias em Serrolândia: práticas e representações sobre as mulheres em uma cidade do interior (1960-1990)”, utiliza processos judiciais de desquite, divórcio e ação de alimentos ao lado de relatos orais, censos e reportagens, para tratar “dos estereótipos femininos ‘moça de família’, ‘moça falada’ e ‘puta’, apontando os resquícios da misoginia da Idade Média, que fundamentou as dicotomias Eva/Maria e prostituta/santa”. Neste intuito, a autora sublinha que “a partir da análise de processos judiciais foi possível perceber um discurso misógino, no qual essas dicotomias estavam presentes. A desqualificação das mulheres envolvidas nos processos pressupõe a defesa de um modelo de mulher, associado à Santa. As mulheres que fugiam desse padrão eram desmoralizadas, associadas à prostituta.”

Já Carlo Nazário Maia explorou o conteúdo de desquites em sua monografia de conclusão de curso, “Até que a morte nos separe? Tensões entre gêneros através de processos de desquite (Rio Grande do Sul, 1920-1930)”. Analisando os conflitos entre os cônjuges ele observa que “adultério, incompatibilidade de gênios e até o término de amor foram motivações alegadas para o encerramento do matrimônio, além de acordos entre o casal”. Carlo realiza suas reflexões a partir dos casos relacionando-os ao contexto sociocultural, balizado por normatizações religiosas e morais específicas.

É claro que estes são apenas alguns exemplos de trabalhos recentes produzidos a partir de fontes similares as que temos difundido em nosso blog, que podem lançar luz sobre as potencialidades desse acervo.

Parece-nos também importante ressaltar que o uso das fontes arquivísticas é uma entre as diversas possibilidades que se abrem em termos de fontes de pesquisa para esse campo do conhecimento. Após as inúmeras transformações sentidas pela historiografia no último século, com grande impacto da produção e das inovações trazidas pela Escola dos Annales e a Nova História Social, certamente estamos longe do tempo em que se pensavam os documentos oriundos do Estado como as únicas confiáveis, oficiais ou verdadeiras fontes de informação para as historiadoras e historiadores. Em nosso horizonte de possibilidades estão jornais, revistas, relatos orais, diários, correspondências, imagens, entre tantas outras. O trabalho “Amor, casamento, desquite e sangue: caminhos da conjugalidade no Brasil através das páginas da Revista Feminina”, de Ana Carolina Coelho Soares é um bom exemplo de reflexão similar às que levantamos até aqui feita a partir da análise de uma revista enquanto fonte. Entretanto, defendemos que, assim como os pesquisadores foram capazes de ampliar seu rol de fontes, também podem e devem ser capazes de renovar seus olhares, problemas e questionamentos, tornando acervos arquivísticos muito interessantes para (re)escrever a história das mulheres e das relações de gênero.

APERS? Presente, professor! – Mobilidade Urbana e Violência no Trânsito

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2014.08.27 Mobilidade Urbana_BlogHoje estamos disponibilizando a oitava proposta pedagógica do Projeto APERS? Presente, professor! Ela está inserida dentro do eixo temático A Transversalidade nas Fontes – diversas fontes arquivísticas para diferentes trabalhos pedagógicos e recebeu o nome de Mobilidade Urbana e Violência no Trânsito, que tem como objetivo a problematização, a partir de um documento de Investigação Policial, da paisagem urbana atual, do seu funcionamento e de suas contradições a partir da historicização do desenvolvimento das cidades e do transporte urbano. Vamos abordar o tema da violência no trânsito como uma evidência do desrespeito ao direito à mobilidade urbana e à cidade, que entendemos ser estendido a todos os habitantes de uma determinada circunscrição territorial.

Acreditamos que esse material pedagógico, aliado a um referencial que perceba o acesso a múltiplas formas de sociabilidade dentro de uma cidade como um direito que dever ser estendido e garantido a todos, consiga auxiliar o professor no encaminhamento do complexo trabalho de desnaturalização das difíceis relações vividas dentro de um espaço urbano e de construção, junto aos alunos, de outras possibilidades de organizarmos as relações urbanas. Acesse aqui o arquivo da proposta.

Caso o professor tenha interesse em acessar uma cópia na íntegra do fonte utilizada na construção da proposta, clique aqui. Para acessar as propostas anteriores, clique aqui.

Bom trabalho!

APERS? Presente, professor! – História das Mulheres e das Relações Familiares

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2014.06.25 História das Mulheres_Blog

Hoje estamos disponibilizando a quarta proposta pedagógica do Projeto APERS? Presente, professor! Ela está inserida dentro do eixo temático A Transversalidade nas Fontes – diversas fontes arquivísticas para diferentes trabalhos pedagógicos e recebeu o nome de História das Mulheres e das Relações Familiares. Tem como proposta a problematização, a partir de processos de desquite, das relações nas quais estiveram envolvidas mulheres que viveram em contextos históricos diferentes dos nossos. Com ela, pretendemos contribuir para processo-ensino-aprendizagem de desnaturalização e de historicização das relações nas quais estiveram e ainda estão envolvidas as mulheres. Acreditamos que essa proposta, aliada a um referencial antissexista e afirmativo naquilo que diz respeito ao debate em torno da discriminação ainda sofrida pelas mulheres, consiga auxiliar o professor no encaminhamento do trabalho complexo que é discutir as relações de gênero e problematizar os papéis sociais atribuídos às mulheres, bem como a invenção de múltiplas formas de resistência e de luta por esses sujeitos desenvolvidas. Acesse aqui o arquivo da proposta.
Caso o professor tenha interesse em acessar a cópia na íntegra das fontes utilizadas na construção da proposta, clique aqui: processos 1 e 2; processos 3, 4 e 5; e processo 6. Para acessar as propostas anteriores, clique aqui.
Bom trabalho, professora e professor!

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