Pesquisando no Arquivo: Secretaria da Justiça IV

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Hoje finalizamos a sequência de postagens referente aos processos de utilidade pública do acervo da Secretaria da Justiça com enfoque nos serviços prestados à coletividade em âmbito histórico-cultural. A cultura possui um papel de grande importância na sociedade, operando de certa maneira como um forte agente de identificação pessoal e social. Na busca de contribuir com a construção destas identidades estão as propostas dos museus, entidades que se caracterizam como espaços de memória dedicados à preservação da cultura. Nesta perspectiva, localizamos processos administrativos de solicitação de declaração e de manutenção de utilidade pública do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, compreendidos entre os anos de 1978 a 1982.

Com o propósito de ressignificar a presença alemã em território nacional, viabilizar as discussões sobre o teuto-brasileiro e sobre a nacionalização surge como proposta a criação de um museu que viesse a contribuir com a memória da Colônia Alemã de São Leopoldo, desta maneira tornando-se um centro de referência de conservação e pesquisa voltadas à imigração alemã. O Museu Histórico Visconde de São Leopoldo foi fundado em 20 de setembro de 1959, e traz como peculiaridade o fato de ser o primeiro museu no Brasil dedicado a esta temática. Situado em São Leopoldo, município considerado o “berço da imigração alemã”, o Museu é uma entidade cultural privada, sem fins lucrativos.

A instituição possui um dos acervos mais importantes sobre a imigração alemã do país. Atualmente conta com cerca de 35.000 itens do acervo tridimensional, 30.000 fotografias, cerca de 360 títulos de jornais (parte em alemão) e 250.000 documentos. Compreende também uma biblioteca com mais de 24.000 livros referentes à história do Rio Grande do Sul e da imigração alemã. Defronte à dimensão numérica do acervo do Museu torna-se presumível a sua relevância cultural para a cidade e região e sua forte contribuição na construção da identidade local.

Como forma de propagar suas memórias e se aproximar do público, uma das propostas utilizadas pelo Museu são as visitas ao acervo exposto. Mencionadas já nos relatórios analisados e prosseguindo até os dias de hoje, as visitas são marcadas com antecedência e contam com um guia que acompanha o grupo no intuito de compartilhar o seu conhecimento acerca do acervo em questão e sanar eventuais dúvidas que possam surgir. Durante o período analisado (1978-1982), a média anual relatada circula entre 10.000 a 12.000 visitantes, que se dividem em grupos escolares, sociedade em geral e pesquisadores, especificados nos relatórios.

Os processos administrativos referentes a declaração e manutenção de utilidade pública do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo compõem mais uma dentre as viabilidades de pesquisa no acervo da Secretaria da Justiça. Assim, encerramos a série de postagens destinadas a difundir as diversas possibilidades de linhas de pesquisas que integram o acervo da Secretaria da Justiça. Como citamos em postagem anterior, os processos de utilidade pública constituem a parcela do acervo que já está disponível ao público. Se você tiver interesse em pesquisar estes documentos, envie um e-mail para a Sala de Pesquisa do APERS (saladepesquisa@smarh.rs.gov.br) e solicite seu atendimento!

Referência: http://www.museuhistoricosl.com.br/index.cfm

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Pesquisando no Arquivo: Sugestões para o Historiador III

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Os Arquivos Públicos, como o nosso Arquivo Público do Estado do RS, tem um público em geral bastante significativo de pesquisadores que buscam por meio dos documentos salvaguardados reconstruir trajetórias de vidas de sua família, por motivos que variam desde a simples curiosidade de saber sobre seus antepassados, como a necessidade de levantar documentos para obtenção de cidadania em outras nações (italiana, portuguesa, alemã, polonesa, etc) ou academicamente, por meio de estudos biográficos.

Dentro do campo de estudo da História, o gênero de estudo biográfico experimentou um retorno nos últimos anos, em função principalmente da descrença de modelos totalizantes de explicação histórica. Durante muito tempo, principalmente durante a hegemonia dos Annales, o entendimento era de que apenas as explicações estruturais de longa duração seriam capazes de recuperar os grandes movimentos das sociedades, escapando a superficialidade dos fatos. O mal estar suscitado pelo retorno da biografia foi aos poucos sendo dissipado; porém, ainda dentro dessas perspectivas totalizantes, a biografia encontrou-se numa encruzilhada teórica, se limitando a dois modelos: ora como biografia representativa, ora como estudo de caso.

Neste mês, queremos propor aos nossos pesquisadores que lancem um olhar para as fontes custodiadas pelo APERS no sentido de reconstruir trajetórias de vidas. Contamos com um acervo riquíssimo, composto por diversos fundos que podem auxiliar nesta tarefa. Começando pelo Poder Judiciário, que nos aponta a possibilidade de conhecer um pouco do indivíduo quando de seu acesso à justiça, seja no feitio de um inventário, como inventariante ou inventariado. Que bens ou dívidas este indivíduo deixou? Como os adquiriu? Ainda temos a possibilidade de verificar os processos-crime, outra fonte com potencial de nos auxiliar a responder diversas perguntas: este indivíduo é réu ou vítima? De que está sendo acusado ou acusando? Que discursos constrói perante à justiça para se defender ou para acusar?

Ainda contamos com o Acervo do Registro Civil (certidões de nascimento, casamento e óbito, além dos processos de Habilitação para Casamento) que podem nos dizer um pouco sobre as configurações familiares. Onde casou, se era o primeiro casamento (no caso de haver mais de uma habilitação), qual o motivo do primeiro enlace ter sido desfeito. E os Livros Notariais de Tabelionatos, onde diversos tipos de contratos podem ter sido registrados (compra ou doação de um imóvel, de um pedaço de terra, de outros tipos de bem).

Não podemos perder de vista, contudo, que o historiador-biógrafo precisa tomar certos cuidados, como o de tentar formatar seus biografados e induzir o leitor a acreditar numa vida marcada por regularidades, repetições e permanências. Sabemos que as trajetórias de vidas são singulares e não respeitam, necessariamente, as nossas necessidades de linearidade, de causa-efeito. Neste sentido, acreditamos que nosso Acervo pode ser um ponta-pé inicial para àqueles que pretendam se aventurar por esta forma de escrita da História.

Fonte:

AVELAR, Alexandre de Sá. A biografia como escrita da História: possibilidades, limites e tensões. Acesso em julho de 2016.

Pesquisando no Arquivo: Sugestões para o Historiador II

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    Fenômenos como o da Imigração alemã e italiana sempre desafiaram àqueles que buscam compreender a sociedade brasileira. Pesquisadores se debruçaram sobre este tema, buscando compreender o que fez com que milhões de pessoas atravessassem o Atlântico entre meados do séc. XIX e início do séc. XX, buscando uma nova vida no continente americano. Ocorre que este processo migratório muitas vezes ainda é analisado sob a perspectiva da historiografia tradicional, que enxerga nesses imigrantes europeus a explicação para algumas regiões brasileiras, como Sul e Sudeste, serem mais “desenvolvidas” que as demais. Obviamente, esta visão é recheada de preconceitos, cabendo aos historiadores do presente desmitificar este fenômeno, e a pesquisa em fontes documentais arquivísticas é um importante forma de auxiliar nesta tarefa.

Registro de uma família de imigrantes

Registro de uma família de imigrantes

   As causas da vinda de imigrantes para o Brasil neste período são diversas e estão longe de uma explicação única. Desde a vinda de alemães para serem mercenários do exército imperial a partir de 1824, passando pela fixação de fronteiras e formação de um novo modelo econômico baseado no regime de propriedade privada em pequenos lotes (em contraposição ao latifúndio e ao regime escravista). Se ora a imigração era promovida e incentivada pelo Poder Público (com doação de lotes, pagamento de passagens, etc), em outros momentos o Estado brasileiro se retirou de forma que os imigrantes buscassem por si próprios fazer a vida na América.

     Se no passado a história buscou explicar a trajetória desses imigrantes por meio de uma narrativa heroica e linear, hoje sabemos pelo estudo das relações que travaram entre si, perante as autoridades e demais grupos étnicos que compunham o caldeirão da sociedade brasileira deste período, que estes trajetos são diversos, permeados de conflitos e instabilidades. A ideia de um imigrante pouco afeito as relações políticas, “apolítico”, por exemplo, já foi desmistificada por uma série de dissertações e teses que tecem o curso de vida destes imigrantes que participavam ativamente da vida política das colônias.

     A partir de documentos custodiados pelo Arquivo Público do RS, como processos-crime, inventários, testamentos, medições de terra, entre outros, podemos tentar reconstruir trajetórias muitas vezes singulares, lançando perguntas gerais para contextos mais específicos, tentando dessa forma responder aos questionamentos mais diversos. Localidades com populações bastante expressivas de imigrantes, como Bento Gonçalves, Garibaldi, Caxias do Sul, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, entre outras tantas, fazem parte do Acervo do Poder Judiciário do APERS, disponível para consulta.

APERS Entrevista: Patrícia Bosenbecker

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APERS entrevista Pesquisadora Patricia Bosenbecker

Patrícia Bosenbecker, 28 anos, é bacharel em História (FURG/2006), mestre em História (UFRGS/2011) e, a partir de março, doutoranda em Sociologia (UFRGS). Pesquisadora sobre a temática da imigração alemã, Patrícia é nossa entrevistada deste mês!

Blog do APERS: Patrícia, você poderia comentar um pouco sobre o trabalho que vens desenvolvendo atualmente?

Patrícia: Sim. Trabalho com imigração, mais especificamente imigração alemã na Região Sul do Estado, que é uma área com muitas possibilidades de pesquisa para os estudiosos da imigração. Trabalho com inventários, com mapeamento de casais imigrantes, e com os primeiros anos da colônia São Lourenço. Por outro lado, também sou bolsista e meu trabalho, nesse sentido, é fazer um levantamento sobre os escravos da metade Sul do Estado, ou seja, são duas temáticas completamente diferentes, mas que me oportunizam conhecer bastante sobre a situação da Região Sul do Estado, no século XIX. Basicamente trabalho com isso, em especial com processos de inventários e processos criminais envolvendo estas duas linhas.

Blog do APERS: Como se deu a tua aproximação com este tema?

Patrícia: Acho que tudo começou com minha primeira anotação, ainda adolescente, da história da minha família. Sentei junto a minha avó e ela ditou tudo que lembrava e tinha capacidade de fornecer como informação. A partir daí comecei a pesquisar sobre a família, não se tinha nada, nenhuma informação, foto ou qualquer coisa e essa pesquisa começou a crescer… até que cheguei aos casais de imigrantes que aportaram na Colônia São Lourenço, de onde sou natural. Quando cheguei nesses imigrantes, pronto! Sabia o que queria para minha vida! Queria ser historiadora para estudar imigração! Entrei para a faculdade e isso começou a ganhar um peso, passei a trabalhar com acervos… Lembro que o primeiro acervo em que pesquisei foi o da Biblioteca Rio-Grandense, que tem uma massa documental bem valiosa. Desenvolvi meus primeiros trabalhos nessa temática e vim para Porto Alegre para ampliar as pesquisas. São Lourenço é uma região de muitas estâncias e sempre fui fascinada por esse contraponto, a estância ao lado de uma colônia alemã. Aqui tive a oportunidade dê virar bolsita, trabalhando com processos que envolviam escravos, fazendeiros… foi muito interessante porque meu trabalho foi ligado a isso, a relação entre esses primeiros colonos imigrantes e esse sistema já montado. A pesquisa sobre escravidão foi importante para o meu crescimento profissional, mas a questão da imigração é algo que me impulsiona a trabalhar na história. Comecei fazendo a genealogia da minha família, fiquei muito curiosa com os casais e filhos que se perderam, pois se tem pouca informação sobre eles. Consegui listas de imigração, fui formando os casais e famílias… Hoje busco mais informações no sentido da condição de vida que tiveram, como se relacionaram naquele ambiente, mas quando tenho um tempinho continuo ampliando a pesquisa sobre a família.

Blog do APERS: Qual a importância do acervo do APERS para tua atuação enquanto pesquisadora?

Patrícia: Fundamental! Aqui tu tens acesso a documentos de todo o Estado, das mais variadas localidades. Não trabalhas apenas com aquela pessoa que em geral produziu mais documentos, que são os grandes fazendeiros ou militares, por exemplo. Tens acesso a documentos produzidos por muitas famílias. Trabalho com colonos, pessoas que em geral tinham um lote de terra e algumas delas eram analfabetas, então não deixaram muitos documentos. Quando tu encontras um inventário deles é fantástico, porque tem informações as mais variadas possíveis! Em alguns tu encontras informações que nem esperava, como referência a parentes na Alemanha ou de outros países… Este acervo é fundamental para o trabalho do pesquisador que gosta de fontes primárias, quem quer trabalhar com fontes precisa visitar, mesmo não sendo de Porto Alegre, o que é uma dificuldade.

Blog do APERS: Você participou da Mostra de Pesquisa do APERS, a qual valoriza o uso das fontes primárias. Enquanto pesquisadora como avalia a importância da participação de pesquisadores em eventos como a Mostra?

Patrícia: Acho muito importante esses eventos. Primeiro pelo intercâmbio entre os trabalhos, um pesquisador colabora com o outro, apresenta um arquivo que ele desconhecia ou acervo que não estava acostumado a trabalhar… O intercâmbio é para mim o mais importante, depois a oportunidade de divulgar o trabalho. Muitas vezes, assistindo à apresentação de alguém é possível obter informações que temos interesse e não sabemos muito sobre. Para alunos que estão começando a pesquisar é interessante participar para saber a quem procurar no caso de troca de informações, é um campo fundamental. Na maior parte das vezes tu ficas só produzindo artigos, são raros os eventos que tu podes falar com outros pesquisadores… Gostaria que tivesse mais nesse nível.

Blog do APERS: Qual a tua dica para os pesquisadores que estão começando agora a lidar com fontes primárias?

Patrícia: São duas. A primeira é paciência. Seja para o pesquisador que esta fazendo a genealogia ou pesquisando sobre as terras do avô ou um tio que morreu na guerra ou aquele pesquisador acadêmico, que é bolsista e vem para o Arquivo fazer um trabalho bem específico. É preciso ter paciência! A letra, a grafia dos processos é diferente do que ele está habituado a ver, então leva um tempo para conseguir pegar prática na leitura. É um trabalho demorado. Depois tem que se habituar à documentação, como manusear, entender como funcionava a administração dos sistemas… comarca, fundo, subfundo, município, distrito… às vezes não há uma boa noção disso, então é preciso estudar. Realmente é demorado, e junto com a paciência vem a persistência. A segunda dica é organização! Para o pesquisador da faculdade, o estudante em geral, o orientador já explica como é, mostra que tipos de recursos utilizar para organizar o material, como vai organizar o banco de dados, o que não pode esquecer de anotar, como página, número do processo… Mas quem está iniciando a pesquisa sobre a família ou veio apenas olhar algumas coisas, muitas vezes não consegue ter essa percepção quando está na sala de pesquisa. Ele quer fazer tudo hoje e, às vezes, não funciona assim. É importante pensar desde a primeira nota o que precisa… a página, o número do processo, da caixa/maço onde está a informação… Depois, claro, vai se dar conta que tem informação desnecessária e outra importante que esqueceu de anotar… É preciso cuidar esse quesito, o da organização do material. São essas as duas coisas para começar: paciência e organização.

Blog do APERS: Nas tuas horas vagas, quando não estás pesquisando, quais são tuas atividades preferidas de lazer?

Patrícia: Depende! Se ficar na cidade, gosto muito de filmes, então provavelmente esta vai ser a primeira atividade da lista. Também se tiver um cantinho com um pouco mais de silêncio, vou procurar alguma coisa de literatura clássica, autores do século XIX. Lembro que no colégio não lia muito, e depois fui ficando com essa vontade. Acho bem legal, é um exercício de paciência. Mas se tiver condições vou para o campo, onde minha família mora, na zona rural de São Lourenço, equilibrar minhas energias com a natureza. É o que vai me deixar de bateria carregada, pelo menos uma vez por mês, se eu consigo está ótimo!

Para acessar a dissertação de Patrícia, clique aqui.

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