Arquivos & Diversidade Étnica: fontes e materiais didáticos para a História Indígena

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Após uma série de postagens sobre documentos relacionados à escravidão que serão difundidos nas escolas através do projeto AfricaNoArquivo, hoje retornamos às dicas e reflexões sobre História Indígena, apresentando o site América Indígena: repositório digital de fontes históricas e materiais didáticos.

Site América Indígena

Elaborado a partir do Projeto de Pesquisa “América indígena: Cultura Histórica e Ensino de História”, desenvolvido no Laboratório de Ensino de História (LABEH) da Universidade de Brasília (UnB), o portal tem como principal objetivo difundir fontes históricas e propostas pedagógicas para o ensino de história da América indígena pré-colombiana e colonial. Apresenta fichas temáticas com propostas de abordagem em sala de aula a partir de excertos de cartas, crônicas, relatos de viagens e tratados, assim como disponibiliza uma série de mapas, imagens e vídeos.

Na ficha temática intitulada “Casamento e poligamia entre os tupinambás”, por exemplo, escolheu-se um trecho do relato de 1557 de Hans Staden, marinheiro alemão que foi aprisionado por indígenas tupinambás e com eles conviveu por nove meses. No capítulo 18 de sua obra Hans afirma: A maior parte dos homens tem apenas uma mulher; mas alguns têm mais. Certos chefes chegam a quatorze mulheres. O chefe, Abati-poçanga, a quem fui dado por fim, e de quem os franceses compraram minha Liberdade, tinha muitas mulheres. Sua primeira mulher era a de maior prestígio entre elas. Cada uma possuía seu espaço reservado na cabana, sua fogueira própria e sua plantação de mandioca. Ele permanecia no espaço reservado daquela com quem estava no momento e que lhe dava comida. Assim, o chefe ia percorrendo o circulo de suas mulheres. Os filhos que já eram capazes caçavam e traziam todas as presas capturadas para suas mães, que cozinhavam e dividiam com as outras. Elas se relacionavam bastante bem entre si. Também é comum que um homem dê sua mulher de presente para outro, quando está farto dela. Do mesmo modo, costumam dar suas filhas ou irmãs de presente.

Gravura de Theodore de Bry para o livro de Hans Stade (1557) - Viagem à terra do Brasil.

Gravura de Theodore de Bry para o livro de Hans Stade (1557) – Viagem à terra do Brasil.

Mesmo que estejamos em pleno século XXI, o relato apresentado no trecho entra em choque com nossa cultura ocidental cristã baseada na monogamia. A partir dele a proposta didática levantada pela equipe do projeto sugere que os estudantes discutam o ponto de vista dos europeus cristãos a respeito dos casamentos e da poligamia observada entre os índios na época colonial; que mudanças os europeus colonizadores introduziram nas formas de casamento e nos papéis desempenhados por homens e mulheres no Brasil; por que estas mudanças foram introduzida; e de que forma os relatos do autor puderam interferir nas relações dos portugueses com os índios na época da colonização. Sugerem ainda a utilização de imagens e multimídias nessa aula.

Percebemos que a partir de um pequeno texto, que pode ser facilmente acessado através da internet, é possível realizar uma série de questionamentos, e aproximar os estudantes de uma realidade que lhes é muito distante, afinal, o ensino de história indígena vem sendo negligenciado, ou tratado com parte da história colonial portuguesa, sem dar a visibilidade necessária aos ameríndios como agentes históricos. A utilização de fontes históricas, sejam elas arquivísticas ou não, pode ser uma excelente forma de qualificar o processo de ensino e aprendizagem nesse sentido. Em seu artigo sobre documentos e instrumentos de pesquisa para a história indígena a historiadora Juciene Apolinário aponta que “não é tarefa fácil identificar, documentar e interpretar os eventos, processos e percepções que envolveram as populações indígenas, haja vista que a documentação trata, na sua maioria, das visões dos colonizadores. ‘Até mesmo algumas posturas historiográficas desqualificam os índios enquanto atores sociais legítimos’ (MONTEIRO, 1999). No entanto, até mesmo a negação e silenciamento, como já se asseverou, explícita na documentação colonial, tornam-se vestígios e sinais para se repensar as ações políticas dos povos indígenas, reavaliando as relações sociais que os diferentes atores nativos criaram a partir do pós-contato”.

Desejamos que o acesso a informações e propostas pedagógicas desse tipo seja um estímulo ao trabalho com história indígena nas escolas!

APERS Entrevista: Édina Santos Agliardi

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2012.12.26 APERS Entrevista Pesquisadora Edina Santos Agliardi

Édina Santos Agliardi, 30 anos, é auxiliar de biblioteca no IPA/Porto Alegre e está no 8º semestre do Curso de História na FAPA. Foi estagiária no APERS de 2009 a 2012 e hoje faz uso de nosso acervo para explorar sobre a temática indigenista. Confira nossa entrevista com Édina:

Blog do APERS: Édina, você pode comentar sobre a pesquisa que vens desenvolvendo atualmente?

Édina: Aqui no Arquivo, quando trabalhava com os documentos envolvidos no projeto Documentos da Escravidão, encontrei um processo que tratava sobre um conflito entre índios e fazendeiros na região de Passo Fundo. Isso despertou meu interesse e comecei a pesquisar. Esta problemática ainda é atual, pois os índios continuam em conflitos envolvendo disputa por território. Minha pesquisa ainda é incipiente no que se refere à questão indígena. No processo crime que estou pesquisando já identifiquei muitos dados tratados no processo, por exemplo: quando mencionam “índios” estão se referindo aos Kaingang e quando se referem às terras de Arechim, provavelmente, seja parte do território da cidade de Erechim… Este processo tem mais de 200 páginas e envolve 26 testemunhas, 16 réus indígenas e 06 vítimas. É um conflito onde os índios reivindicam terras da região da Grande Passo Fundo ocupadas por tropeiros e milicianos vindos dos Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina e começaram a se fixar nestas terras em torno de 1827. Estes tropeiros vinham em busca do gado que vagavam pelo planalto depois da expulsão dos jesuítas para comercializá-los nas feiras de Sorocaba. Porém esta região é rica em Araucárias e o seu fruto é o principal alimento dos Kaingang. Esses índios foram considerados mais hostis em comparação aos guaranis, por exemplo, e nessa época o homem branco não dominava a língua Kaingang. Na tentativa de amenizar a situação e “civilizar” estes índios o Estado começou o processo de aldeamento. Alguns índios, por uma questão de autoproteção, se aliaram aos mecanismos do Estado para tentar se proteger e outros tentaram reocupar regiões que já haviam sido demarcadas por fazendeiros. É a partir daí que inicia o conflito por terra analisado em minha pesquisa para o TCC, que depois pretendo dar continuidade.

Blog do APERS: O que despertou teu interesse por esta temática?

Édina: Participei de alguns seminários sobre a temática indigenista e comecei a me interessar pela temática. Nesses seminários tive a oportunidade de ouvir as falas do Cacique guarani Cirilo e da Cacique Charrua Acuab (primeira cacique mulher no Rio Grande do Sul) ambos da região da Lomba do Pinheiro e pude visualizar melhor a situação. Ficou clara a pouca assistência do Estado. Como historiadores não podemos estudar somente o passado, mas analisar o passado com os olhos no presente. Então essa questão social chamou minha atenção porque ainda hoje só se fala sobre a questão indigenista no mês de abril. São sempre os mesmos problemas, os índios são criticados por usarem telefone celular e outros objetos “modernos”, mas os tempos mudaram, eles foram tirados das suas terras… O processo colonizatório interferiu em sua cultura.

Blog do APERS: Foste estagiária no APERS. Como esta experiência contribuiu para tua formação acadêmica e profissional?

Édina: Considero muito emocionante falar dessa experiência porque antes era comerciária, estudava e trabalhava. Quando fiquei sabendo da oportunidade fiquei desesperada! E agora?! Já estava no meu emprego há algum tempo, mas pensava: “Eu não quero isso para minha vida”. Como estagiária minha renda diminuiria muito e seria complicado pagar a faculdade, mas a experiência seria única e foi isso que eu fiz! Pedi demissão e me aventurei! Apaixonei-me, era isso que eu queria! A experiência de trabalhar com fontes primárias não tem palavras para quem está cursando História. Analisar o contexto, a forma de escrita… Quando comecei a trabalhar com esse processo não sabia quem eram os índios em questão, mas fui pesquisando, mesclando as informações das fontes primárias com os referenciais bibliográficos… Além disso, teve o intercambio de conhecimento com os acadêmicos de outras instituições de ensino… Aprendi muito. O Arquivo, profissionalmente, é uma grande referência. Quando voltei à instituição como pesquisadora me senti muito feliz!

Blog do APERS: Qual a importância do acervo do APERS para tua atuação enquanto pesquisadora?

Édina: Os acervos são muito ricos, retratam grande parte da história do nosso Estado, as pessoas não têm dimensão da quantidade e qualidade dos documentos, claro tem muito a ser feito ainda, mas há a preocupação da guarda.

Blog do APERS: Nas suas horas vagas, quando não estás estudando/pesquisando, quais são tuas atividades preferidas de lazer?

Édina: Minha válvula de escape é dançar! É dançando que me desestresso, é um momento de lazer… Participo de ensaios, apresentações… É muito bacana! Eu gosto de outros esportes, mas por questões de tempo não consigo praticar. E claro, ficar com a família e amigos é sempre importante, gosto dessa convivência… Sempre volto com mais ânimo para o trabalho!

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