TransENEM realiza formação de professores no APERS

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No sábado, dia 15 de fevereiro, o TransENEM, Coletivo pela Educação Popular, reuniu-se nas dependências do Arquivo Público. Sua atuação tem como objetivo oportunizar o acesso de pessoas trans ao ensino superior, tendo, a partir de 2017, acolhido também pessoas LGBTQI+ cisgêneras.

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Para quem não sabe, pessoa transgênera é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer, ao passo que pessoa cisgênera é aquela que se identifica com o gênero que lhe foi designado ao nascer.

No Auditório Marcos Justo Tramontini ocorreram atividades de formação de professores, discussões pedagógicas por área de conhecimento e encaminhamentos organizativos. Destaque para a fala do professor Blue Mariro, que tratou do tema “Ensino e acessibilidade: para além da teoria”.

O blog do APERS conversou com Alef de Oliveira Lima, Professor de Sociologia do Coletivo pela Educação Popular TransENEM POA, com Caio de Souza Tedesco, Professor de História e organizador do Coletivo pela Educação Popular TransENEM POA, e com Claudia Penalvo, pedagoga e fundadora do Coletivo pela Educação Popular TransENEM POA .

1) Vocês podem explicar os aspectos pelos quais a transfobia dificulta enormemente o acesso de pessoas trans ao ensino superior?

Alef – A transfobia é um tipo de violência estrutural, portanto, ela tem uma dimensão difusa. Quem não é uma Pessoa Trans vai ter dificuldades de entender um conjunto de micro-agressões cotidianas, frequentes e naturalizadas. Quando pensamos um ciclo de vulnerabilização das Pessoas Trans, estamos apontando que, por exemplo, a escola enquanto instituição social apresenta uma série de resistências para compreender as singularidades desse recorte populacional: a não garantia do nome social, a defesa de ideias cisheteronormativas (implicitamente), a naturalização das relações heterossexuais e a invisibilização do debate das identidades de gênero. Essa resistência é o principal aspecto de uma espécie de transfobia escolar. Se você frequenta um espaço que despreza ou apaga a sua identidade é comum que se opte pelo abandono desse lugar. A evasão de Pessoas Trans e sua intermitência na vida estudantil encampa justamente a dificuldade de acessar o ensino superior, porque esses sujeitos e sujeitas não alçam em completude todas as etapas da educação básica no Brasil. Em resumo: Pessoas Trans não ocupam, não ingressam nas universidades porque são evadidas da escola; depois, se começa a tentativa de conseguir um emprego formal que também é dificultado pela ausência de qualificação. Dessa forma, você verifica um ciclo vicioso que precariza a vida dessas Pessoas.

2) O que é o TransENEM e quais suas propostas e práticas para modificar essa situação?

Caio – O TransENEM é um coletivo de Educação Popular, que atualmente oferece um curso pré-ENCCEJA (para a conclusão do Ensino Médio), pré-ENEM e pré-vestibulares. Fundado em 2015, a partir de reuniões de elaboração do coletivo, iniciou as aulas em abril de 2016. Na época, funcionava como um curso pré-ENEM exclusivo para pessoas Trans – mulheres e homens transexuais, pessoas transgêneras não-binárias, mulheres travestis e transgêneres num geral. Todavia, a partir de outubro 2017 passou a acolher pessoas LGBTQI+ cisgêneras.

A própria criação do TransENEM é uma proposta para modificar essa situação, pois funciona como um espaço de Educação não-formal alternativo, buscando proporcionar um espaço de ensino-aprendizagem acolhedor e seguro para a população LGBTQI+, tendo em vista as questões mencionadas acima, das inúmeras violências físicas, psicológicas, simbólicas que pessoas LGBTQI+, sobretudo Trans, costumam sofrer nas escolas.

Tem duas frases que ex-alunes falaram no ano passado, que acredito possam elucidar isto. Primeiro, uma ex-aluna, ao ser questionada do que era o TransENEM para ela, respondeu “é um espaço”, e explicou a resposta curta, por ser um espaço no qual ela podia existir. No país que mais assassina pessoas transgêneras no mundo, isso é extremamente significativo. Ainda, outro aluno comentou, no decorrer de uma atividade, que não apenas se formou no Ensino Médio, mas “agora eu tenho um futuro e sonhos”.

3) A presença de professoras e professores trans gera uma identificação com alunas e alunos? Até que ponto isso facilita o aprendizado?

Alef e Claudia – Sim, a presença de professores Trans favorece a construção de regimes de identificação e representatividade. Trata-se, de compreender uma espécie de pedagogia do exemplo. Muitas vezes os/as alunes trazem história de desprezo e apagamento, e o próprio TransENEM se torna um vetor de desconstrução e acolhimento e favorece a produção de identidades positivadas.  Na medida em que se constrói um ambiente que favorece o bem-estar social e o respeito às Pessoas Trans, se inicia também formas de enfrentamento contra estigmas de aprendizagem. Isto é, existindo a respeito podemos aprofundar e desenvolver habilidades e competências dos/as/es nossos/as/es alunes de modo a contemplar um conhecimento socialmente situado que tenha sentido para todos. Não é apenas dizer que existe o ADC 26 (Ação de Inconstitucionalidade Direta para casos de homofobia e transfobia) é compreender como o documento nasce de uma luta social e por quais modos pode ser acionado, por exemplo, quando se faz um Boletim de Ocorrência em qualquer delegacia do país. Assim, se entende a aprendizagem enquanto um campo de prática. Dessa forma, entende-se que a prática educativa é uma prática política, antes de qualquer questão.

Caio – Enquanto professor trans, acredito que sim. É uma identificação que eu não tive durante a escola ou na graduação. O mais próximo que cheguei foi a professoras ou professores homossexuais, e já foi significativo.

Penso que a docência enquanto transgênero traz consigo alguns desafios que um(a) docente cis não passa, devido ao marcador de diferença, da transfobia e da ininteligibilidade/abjeção do corpo trans, que é um corpo que fala por si para além da cisnormatividade, da pretensa “normalidade”. Em outros contextos que não o TransENEM, isso traz consigo uma espécie de quebra e desestabilização das relações de poder, pois a pessoa trans, que supostamente estaria marginalizada, ocupa a posição de poder na relação professorie-alune.

Contudo, no contexto do TransENEM, há identificação, visibilidade, reconhecimento e empoderamento. E alune trans pode se enxergar numa posição de poder, pode se vislumbrar para além das margens. Além de ter como e professorie trans ume aliade, alguém com quem compartilhar situações e realizar trocas que com pessoas cisgêneras não seria possível pela falta de vivência em comum. Nesse sentido, ser docente trans para alunes trans é uma grande responsabilidade, também, pois não há muites professories transgêneres no coletivo. Atualmente somos quatro, ano passado fomos dois.

Também acho interessante mencionar que pessoas trans entram no coletivo, enquanto organizadories e professories a fim de participar de um espaço trans que proporcione uma possibilidade de produção de si enquanto trans – para além do ativismo/militância. Eu mesmo tive no TransENEM abrigo antes de ter nome e, em 2017, enquanto atuava enquanto “professora de História”, convivi com alunes trans que me auxiliaram a me assumir e viver enquanto o homem que sou.

4) Existem discussões sobre políticas para projetos de manutenção das pessoas trans na universidade, evitando a evasão?

Alef e Claudia – A pergunta é complexa demais. O TransENEM não é uma política pública educacional, trabalhamos na ausência dela e por causa dessa ausência: que fique evidente. Esse ponto deve ser debatido por toda a sociedade, pelas escolas, pelo MEC, não apenas o TransENEM que faz parte da iniciativa civil. Mas, nesse ponto devemos admitir que o próprio Coletivo é um bom exemplo de uma política afirmativa para pessoas trans nos espaços educacionais. Nossa pauta serve, justamente, para demonstrar formas possíveis de acolhimento e respeito – estamos dispostes a conversar com escolas e outras organizações para pensar estratégias de acolhimento e de permanência escolar e universitária para pessoas transgêneras.

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Para conhecer melhor o TransENEM:

Instagram: @transenempoa

Facebook: https://www.facebook.com/transenempoa/

e-mail: transenempoa@gmail.com

Vakinha: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/transenem-porto-alegre-2018

Exposição Descobrindo o Acervo do Arquivo Público: processos criminais de uma sociedade racista e homofóbica como a de Porto Alegre da década de 1940

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Redes Sociais

Neste mês, em continuidade ao projeto exposição “Descobrindo o Acervo do Arquivo Público”, no intuito de revelar vestígios comprobatórios de ações, paixões e concepções deixadas pelos sujeitos históricos em documentos, selecionamos em nosso acervo os Processos Criminais de Deoclécio Martins, também conhecido como “Carmem Miranda”, que nos remetem a uma cidade em que homens realizavam encontros noturnos furtivos em espaços públicos como a Praça da Alfândega, em Porto Alegre.

A visitação está aberta no Arquivo Público do RS de 01 de outubro até 01 de novembro,  segunda a sexta-feira, das 08:30h às 17h, sem fechar ao meio dia. A entrada é franca e a exposição localiza-se na Sala Joél Abílio Pinto dos Santos, andar térreo do APERS.

Servidor do APERS participa do 30º Simpósio Nacional de História

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Na semana entre os dias 15 e 19 de julho, o servidor Rodrigo de Azevedo Weimer, historiador do APERS, esteve presente no 30º Encontro Nacional de História, ocorrido na UFPE, Recife, Pernambuco.

2019.07.24 logo simposio nacional de historia

Além de assistir várias conferências e mesas redondas com intelectuais de destaque da historiografia nacional e internacional, houve a participação no simpósio temático “Clio sai do armário: homossexualidades e escrita da história”, coordenado por Rita Colaço e Elias Veras, no qual foi apresentada uma pesquisa sobre homossexualidade na década de 1930 no Rio Grande do Sul (pode ser lida clicando aqui), com base em processos criminais custodiados no Arquivo Público do RS. Destaca-se a discussão realizada no ST sobre a preservação de acervos relacionados à história LGBT e o papel das instituições arquivísticas.

2019.07.24 ST Simpósio Nacional de História

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