Aplicando a Lei 10.639 III: Tesouros da Família Arquivo & Ensino de História Afro

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   Chegamos às reflexões sobre nosso terceiro dia de evento, quarta-feira, 07/11, quando os participantes tiveram a oportunidade de experienciar a oficina de Educação Patrimonial Os Tesouros da Família Arquivo, e da participar de uma mesa de debates focada nas ferramentas e possibilidades metodológicas para o ensino de história da África e afro-brasileira.

   No turno da tarde realizou-se a vivência da oficina Os Tesouros da Família Arquivo, que faz parte do Programa de Educação Patrimonial do APERS e vem sendo oferecida desde 2009 para turmas de 6º e 7º ano do Ensino Fundamental. Foi elaborada a partir de fontes primárias salvaguardadas no Arquivo que tratam sobre a escravidão no RS, e tem como principal objetivo debater a importância do patrimônio cultural para a compreensão de nossa história, a construção e questionamento de nossas memórias, buscando debater sempre as marcas da escravidão em nossa sociedade explicitando o racismo como algo que precisa ser combatido. As turmas visitam as dependências do Arquivo, participam de atividades como teatro de bonecos de luva e caça ao tesouro, e tomam contato com documentos como carta de liberdade, registro de compra e venda de escravos, inventário, processo crime e testamento. Ainda que a atividade tenha sido idealizada para um público com faixa etária em torno de 10 e 13 anos, sempre que é oferecida como espaço de vivência para adultos, seja com turmas de cursos de licenciatura, com grupos de educadores ou público diverso, surte excelente debate, afinal, apresenta-se como uma alternativa lúdica e atrativa de trabalho com a temática afro a partir do patrimônio cultural que nos circunda. Além disto, as vivências com grupos adultos oportunizam conversas e reflexões que auxiliam a equipe da instituição a repensar e aprimorar a oficina a partir das contribuições levantadas pelos participantes.

   No turno da noite a mesa foi composta pelas historiadoras Clarissa Sommer e Vanessa Menezes, ambos do APERS, e pela Prof.ª Carla Moura, da Escola Estadual Santa Luzia, em Porto Alegre. Todas as falas focaram-se em abordar possibilidades de trabalho em sala de aula e formas de vencer as dificuldades impostas pela escassez de recursos, pouco conhecimento advindo de formações universitárias ainda deficitárias nesta área, e em muitos casos o pouco apoio das direções ou do Estado para realização de atividades inovadoras, que quebrem a lógica de currículos eurocêntricos, lineares e factuais. Este foi o tema central abordado por Clarissa, que ressaltou a importância da organização e luta dos educadores na busca pelo avanço destas pautas, e aproveitou a oportunidade para compartilhar materiais de subsídio que podem ser baixados gratuitamente pela internet, como a coleção História Geral da África, da UNESCO. Vanessa criou propostas de atividades apresentadas como sugestões a serem aplicadas pelos professores nas escolas, como oficina de culinária afro-brasileira, trabalhos com literaturas infanto-juvenis, e também com mapas de diversos períodos, que ajudam a localizar e ressaltar a complexidade da história africana, seus reinos e diferentes formas de organização. Já Carla apresentou o projeto O poder da Memória, que desenvolveu na Escola Santa Luzia a partir de sua participação no curso para professores em Educação Patrimonial e Cidadania, oferecido pelo APERS em ao longo de 2012. Carla desenvolveu com seus educandos atividades de prospecção, identificação, registro e apropriação dos patrimônios da comunidade em que a Escola está inserida (bairro Santo Antônio, Vila Maria da Conceição, mais conhecida como “Maria Degolada”), propondo a “Educação Patrimonial como ensino centrado nos bens culturais, não como simples objetos de contemplação e conformação social, mas como testemunhas da história, elo entre o passado e o presente, entre vivos e mortos e acima de tudo como um convite à ação, portanto, ao exercício da cidadania”. Como a comunidade é de maioria negra, grande parte dos patrimônios elencados por seus alunos referiam-se às matrizes afro-brasileiras, ainda que a princípio poucos dos estudantes se reconhecessem neles ou se auto-afirmassem negros. Assim, Carla buscou problematizar e valorizar o patrimônio da comunidade e dos afro-brasileiros, para a partir da realidade dos estudantes e de seus familiares trabalhar diversos outros conhecimentos e conceitos. Saiba mais sobre O Poder da Memória.

   Para baixar História Geral da África, clique aqui.

   Para acessar o blog da profª Carla, clique aqui.

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