Entrevista com Maria do Carmo Aguilar – parte II

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No trecho da entrevista publicado na semana anterior, a historiadora Maria do Carmo Aguilar explicava a forma como relaciona fontes escritas e orais em sua pesquisa.

E outra questão, assim, te provocando um pouco. Tu não acha que existe o risco para nós, e eu me coloco também como historiador do pós abolição em áreas rurais, de a gente se centrar nas fontes orais no pós-abolição ao contrário de fazer um cruzamento com as fontes escritas como a gente faz para o século XIX?

Na dissertação eu fiquei centrada nas fontes orais, mas se a gente pegar a minha dissertação e a minha tese e unir as duas aí a gente vai ver o cruzamento. Porque a minha dissertação começa em 1930/40 e a tese ela vai de 1870 a 1900. E aí na tese eu voltei para o final do XIX justamente para poder analisar esse contexto dessas relações de trabalho que eles, os entrevistados, estavam falando. Então eu fiz essa partição, na dissertação eu usei história oral e na tese eu fiquei nas fontes escritas, mas na tese eu também puxo, eu vou puxando as entrevistas; tem as entrevistas na tese também, eu vou trazendo argumentos da minha dissertação para a tese, então, eu uso ali na tese também história oral e as fontes escritas, faço meio que esse cruzamento. Mas num capítulo, num capítulo que eu estou discutindo o trabalho análogo ao escravizado e tal, aí eu vou puxando essas entrevistas. Mas se juntar, porque eu vejo a minha dissertação e a minha tese como um grande conjunto. Porque o que me levou a pesquisar o meu problema na tese foram as provocações que os quilombolas fizeram na dissertação, então, eu vou pegando na mesma região; se eu for pegar os dois em conjunto é de 1870 a 1960, então eu tenho esse recorte temporal e ali tem fontes primárias, fontes orais, fontes escritas, tem uma gama de fontes. Mas é difícil fazer isso.

É um desafio?

É um desafio, é difícil. Tem a questão do tempo, o nosso tempo de pesquisa. No mestrado são dois anos, é pouco tempo para você aprofundar, para você fazer esses cruzamentos de fontes. É difícil, né? É difícil você conseguir fazer isso.

2019.10.09 Maria do Carmo Aguilar

E continuando na questão das fontes, dá para ver nos teus trabalhos que você é uma historiadora com fundamentação empírica muito grande. Então, queria te pedir para falar um pouco sobre o papel das fontes do Arquivo Público no teu trabalho.

Foram fundamentais, foram as fontes que jogaram luz nesse imediato pós abolição. Então eu pesquisei. O meu objetivo na tese era analisar as relações de trabalho estabelecidos entre libertos e empregadores nesse pós abolição, de ver algumas questões, a questão de inclusão e exclusão desse mercado de trabalho, como é que se deu esse processo, quais eras as expectativas de ex senhores, dos libertos em relação a esse mercado de trabalho, que mercado de trabalho era esse e o que é esse trabalho livre para ex senhores e para libertos. Então havia a possibilidade de trabalho autônomo na região que eu pesquisei, que foi Cruz Alta, eles ficaram nas propriedades. Qual era o grau de autonomia ficando ali na propriedade, onde conheceram o cativeiro? Como é que eles negociaram com esses ex-senhores os termos dessa nova relação? Então tinha uma série de perguntas e para eu responder eu fui paras fontes fazer esse cruzamento. Então, eu analisei uma série de fontes documentais, analisei os processos crimes, eu acho que para Cruz Alta tinha uns seiscentos e poucos processos, desses seiscentos e pouco eu achei uns cerca de cinquenta e poucos que mencionava negro, preto ou pardo, e desses cinquenta e poucos quase trinta mencionava a condição; era preto forro ou ex escravo de fulano de tal, era o preto liberto ex escravo de fulano de tal e aí era em torno de uns trinta, assim. Aí, nos processos crimes eu consegui ver ali a experiência, a trajetória desses sujeitos ali envolvidos naquela contenda. E nos processos crimes você vê as redes de sociabilidade, no que trabalhavam, a partir dos processos eu consegui. Eu tinha acesso à planta de Cruz Alta de 1880 e poucos, aí eu consegui mapear as residências deles ali, então eles estavam, alguns, próximo, perto uns dos outros, aí tem processos crimes sobre festas, bailes de fandangos na casa de libertos, porque tem vários libertos juntos e são moradores das proximidades ali. Então, a gente consegue pesquisar, fazer esse mapeamento essa trajetória e experiência que o processo crime me deu. Fui para os inventários para ver a questão da produção, a estrutura fundiária da região. Os inventários em Cruz Alta eu acho que era quatrocentos e poucos, aí já tem mais de mil documentos que eu pesquisei. E aí ali também tinha… eu consegui localizar alguns libertos trabalhando nessas propriedades, também pesquisei os livros de transmissão em notas que aí eu fui olhar os contratos de locação de serviços, os contratos estabelecidos entre os libertos e empregadores e também dei uma olhada nas cartas de alforria com clausulas de prestação se serviços. Então, eu acho que os processos, os documentos custodiados pelo Arquivo são fundamentais, sem eles… com eles eu consegui responder aos meus problemas de pesquisa e através deles, igual aos processos crimes, eu consegui problematizar os dados do censo. Você pega as profissões que aparem no censo, as profissões em Cruz Alta tem um alto número de assalariados, números que eu jamais encontrei nos processos crimes, então, eu consegui problematizar os dados do censo. A gente sabe que tem todo um problema na questão dos censos e que os censos eles vem a fixar no tempo, ali, aquele sujeito e nos processos crimes você vê o movimento e te permite fazer uma análise mais qualitativa. Então, no processo crime tem o liberto que vai dizer que a sua ocupação é lavrador, mas ele está construindo um muro. Então como é que ele aparece no censo, ele é um lavrador ou ele é um jornaleiro? Como é que isso aparece? Até a questão dos libertandos, não tem no censo os libertandos. Eles não são assalariados, estão trabalhando num trabalho compulsório para cumprir as cláusulas da carta de alforria. Então como é ele aparece ali? Onde é que ele está? Não está, né? Os libertos trabalhando por casa e comida, também não são assalariados, né? Os libertos trabalhando para pagar dívida não estão ali. Então, isso os processos crimes e os contratos, eles me permitiram fazer essas problematizações dos dados do censo. Então, para mim foi fundamental para a minha tese, né? Foi um trabalho gigante, porque eu esgotei toda a documentação que tinha para Cruz Alta, deu trabalho, a gente fica no Arquivo, vem toda semana, já conhece todo mundo. Eu colocava o Jorge como um doido correndo atrás de processos para mim, ia atrás da Neide… Mas, tem que fazer isso, né? Lá pelas tantas a gente começa a sonhar, eu sonhava, assim, com… você sonha! (risos). Porque você está ali. Quando eu fui fazer a estrutura de pós, então gente, era um tal de contar boi. Você tem que fazer isso, né? Olhar ali as propriedades, nossa! Aquilo para mim, sabe? (risos) Eu sou historiadora qualitativa e quando você vai para fazer essa questão mais quantitativa, para a estrutura de pós, isso para mim foi meio um desafio. Entrava num desespero para fazer aquelas quantificações ali, mas fiz…

Tu encontraste testamento e inventário de libertos, de pessoas negras?

Pouquíssimos. Acho que inventários eu achei uns dois e testamento um. Muito, muito poucos… e parcos recursos. Você vê ali a pobreza, o processo de exclusão ali, quando você vai ler esses documentos. Mas foram muito poucos ali, uns dois ou três, assim…

Eu queria te pedir para falar um pouco sobre os livros notariais. O que tu encontra nesses livros, que tipo de informação?

Os contratos, contratos de prestação de serviços. Eu achei alguns. Eu achei libertos pegando empréstimos com terceiros, escravizados pegando empréstimos com terceiros para pagar a carta de alforria e aí voltando ao cartório para poder assinar o contrato de locação de serviços com esse terceiro, para poder pagar a dívida de liberdade. Então eu acho esses contratos de locação de serviços e também contratos firmados entre libertos e empregadores que, não está ali especificado que emprestou algum dinheiro para pagar a dívida de liberdade. E são contratos também que não tem muitas especificações, né? Então, o liberto vai trabalhar no horário de trabalho que é comum na região. Mas aí que horário de trabalho que é comum? É o horário de trabalho de quem? Porque você tem vários, na realidade, tipos de trabalho em disputa ali, você tem o trabalho compulsório, trabalho escravizado, trabalho assalariado, você tem vários arranjos de trabalho. Então, o horário de trabalho vai ser referente a que tipo desses arranjos? Então, os contratos são poucos, achei muito poucos, acho que não chegou a dez e assim, não tem nenhuma especificação, não são muito específicos. É de acordo com a região. O valor também, o valor do salário também nesses para pagar a dívida de liberdade. Aí eu tive que fazer as contas, né? Aí a gente percebe que a mão de obra é cotada muito abaixo do valor, que daí eu pego o trabalho dos libertos e comparo com esses libertos que estão assinando contrato de trabalho para pagar dívida de liberdade, a mão de obra deles é cotada muito abaixo do valor e aí eles tem que trabalhar um tempo maior. Isso é uma forma de você esticar o máximo essa dominação, esse instrumento de dominação.

Então, para finalizar, uma pergunta mais descontraída. O que a Maria do Carmo faz quando não está pesquisando?

A gente precisa namorar com meu companheiro (risos). Sair para dançar, eu sou dançadeira, gosto de dançar, gosto de ler e ouvir música. Enfim, acho que todo mundo gosta, né? Namorar, dançar, ouvir música, ler um livro… Ler, porque depois que você termina o doutorado, você senta, relaxa e vai ler sem aquela preocupação de ter que fichar, você lê de forma mais descontraída, relaxada. Acho que é isso…

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Maria do Carmo Moreira Aguilar é licenciada em história pelo La Salle (2009), mestra (2012) e doutora (2018) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É coautora do laudo histórico-antropológico de reconhecimento da comunidade quilombola do Rincão dos Caixões e agora trabalha naquele de reconhecimento da Família Machado.

Maria, queria te pedir para falar um pouco sobre a tua trajetória acadêmica.

Bom, eu iniciei a minha graduação em 2005 lá no La Salle, logo quando eu iniciei a graduação já fui para a iniciação científica. Na iniciação científica eu participava de um projeto em uma comunidade quilombola que era a Chácara das Rosas, é um projeto de memória e identidade quilombola e nesse projeto a gente trabalhava com história oral. 2019.10.02 Maria do Carmo AguilarEntão, eu ia com a orientadora, o grupo de pesquisa, participava das entrevistas, fazia as transcrições, tinha as leituras, mas a fonte era fonte de história oral. Então fiquei na iniciação científica, eram dois projetos, um com Chácara das Rosas e outro com Manoel Barbosa que são da mesma parentela, um em Canoas e outro em Barro Vermelho, Gravataí. Aí eu estava na iniciação científica e nesse período eu conheci o Vinícius, Vinícius Pereira de Oliveira, quefoi o historiador que fez e participou do relatório socioantropológico da Chácara das Rosas. A gente começou a conversar, trocar bibliografia, ele me indicava autores e livros. Aí ele me convidou, ele estava compondo a equipe da elaboração do laudo sócio histórico-antropológico da comunidade do Rincão dos Caixões, que fica em Jacuizinho no planalto do Rio Grande do Sul, aí ele me convidou para participar da elaboração desse relatório. E aí que deu meu primeiro contato com o Arquivo Público, porque antes disso as minhas fontes eram, basicamente, história oral; aí eu vim para o Arquivo, pesquisei inventários, processos crimes e aí deu-se o meu primeiro contato com Arquivo Público. Aí eu me formei e quando eu conheci essa comunidade o meu tema de mestrado começou a ser elaborado, ali na graduação eu já comecei a pesquisar algumas coisas e aí no mestrado os sujeitos da minha pesquisa foram os quilombolas dessa comunidade. E aí, mais uma vez foi com história oral, né? Então trabalhei com história oral, mas vim também aqui no Arquivo fazer pesquisas pontuais sobre alguns aspectos do contexto do pós-abolição e rever alguns fichamentos que já tinha feito nesse projeto, na elaboração do laudo. E aí eu terminei a dissertação e também no andamento da dissertação veio o tema, a proposta da minha tese. A minha tese foi sobre a relação de trabalho de libertos pós-abolição e aí eu me joguei no Arquivo, aí sim eu vim para o Arquivo, pesquisei inventários, processos crimes, livros de transmissão de notas, aí a base da minha pesquisa foi o acervo documental aqui do Arquivo Público, na minha tese.

E como tu encaras o compromisso social do historiador que trabalha com comunidades remanescentes de quilombos ou outros temas sensíveis?

A gente está lidando com pessoas vivas, né? É uma demanda extremamente atual! Eu tive todo o cuidado na minha dissertação na questão das discussões que ei ia fazer, as discussões dos laudos, como eu faria essa discussão de uma forma que a discussão que eu colocasse ali não fosse capturada para contralaudos. Então, eu tive toda essa preocupação. Eu sou historiadora e sou ativista também, então, a minha pesquisa de mestrado teve todo o rigor acadêmico, a objetividade, estar bem fundamentada, mas ela foi criada para servir de instrumento de demandas daquela comunidade quilombola. Então, o meu objetivo era também esse de que servisse para demandas da comunidade como serviu. Então eles pegaram a minha dissertação, colocaram de baixo do braço e foram bater à porta da Prefeitura reivindicando direitos dizendo “Olha, nós temos um livro contando a nossa história, meu antepassado fulano de tal foi escravizado nessa região e está aqui e isso, isso, isso, isso…” e demanda os seus direitos. Então tem toda essa preocupação. A gente é muito impactada, acho que a primeira vez que eu cheguei numa comunidade quilombola e que você vê aqueles sujeitos e aquelas demandas, você conversa com eles igual, conversando com a Dona Funé, a Dona Edoilde, acho que uma tinha 102 e a outra 98 [anos de idade] e elas contando que o pai contava o que o avô contava, elas estavam relembrando coisas do tempo da escravidão. Então, nossa, elas conviveram; aí elas falavam “a minha bisavó foi escravizada e eu convivi com ela, ela sentava na beira do fogão” e contava os casos das tristezas como que era, então você ficando ali com aquelas pessoas e elas estão reivindicando seus direitos, isso dá aquele impacto. Eu tive todo esse cuidado na minha escrita, que a minha escrita fosse servir de mais um instrumento para as demandas quilombolas. E é muito bacana isso, porque eu me lembro que estava lendo a questão da economia interna dos escravizados e tal, e eu estou lá em Rincão dos Caixões a seis horas de distância de Porto Alegre, a gente chega na cidade e ainda tem que andar de carro uma meia hora de estrada de chão batido, estou sentada lá com o senhor Etuíno e aí eu pergunto “Com quem o senhor aprendeu a plantar?”, “Ah, com o meu pai, que aprendeu com o meu avô, que aprendeu com o meu bisavô e o meu bisavô é lá do tempo dos escravos”, eles contavam que tinham um pedacinho de terra para plantar; “era só um pedacinho que o senhor deixava para plantar só para comer mesmo, né?”, aí você, poxa… que fantástico. Isso a gente só consegue quando vai lidar com essas pessoas, com essas pessoas que estão vivas, porque quando a gente vem aqui para o Arquivo vê os processos e tal, mas é quando a gente sai para as comunidades quilombolas a gente vê essa memória, essa coisa viva, isso é muito bacana. Não sei se eu te respondi…

Eu acho que sim e tu também deixou um gancho para a próxima questão. Como tu vê esse cruzamento entre a oralidade e a escrita, entre a fonte oral e a fonte escrita?

Elas são, as duas, importantes, né? Eu acho que na minha dissertação uma complementou a outra. Mas, eu usei muito pouco fontes escritas na minha dissertação e mais fontes orais. E não senti falta. Tem toda uma questão em torno da história oral. Tinha, né? Não se tem mais em torno da história oral, mas eu não senti a necessidade de “Ah, tem que comprovar aquilo que a Dona Erocilda está falando”, não, é o que ela está falando, é isso! Mas eu acho que são fontes que elas se complementam, uma complementa a outra. Eu, na minha dissertação, vim para o arquivo para poder mostrar esse contexto com pós-abolição que eles estavam falando, então tentei mapear um pouco esse contexto, mas eu não vim para o Arquivo tentar comprovar a partir de uma fonte escrita o que eles estavam me dizendo. Mas eu acho que são duas fontes… A história oral, eu gosto de trabalhar com história oral, mas é difícil trabalhar porque eles subvertem os nossos marcos temporais o tempo inteiro. Você vê, eu venho aqui para o Arquivo, na minha tese de doutorado o meu marco é 1870 a 1900, então eu pego os processos de 1870 a 1900. Mas quando eu vou para uma entrevista o meu marco é 1960, mas eles não estão nem aí para o meu marco, eles vão contar história lá da época do cativeiro e volta e vem e vai; e as senhoras que a gente faz entrevistas com elas, conversam entre elas e ignoram a gente por completo. A gente fica ali tentando, mas eles vão subvertendo e é interessante como é que a história oral problematiza as fontes. Então, na minha dissertação, os meus entrevistados estão sempre subvertendo marcos e problematizando 1888 como marco universal do trabalho negro, eles estão dizendo que “Não é bem assim do jeito vocês estão falando nesses livros, aqui nós tivemos tentativas de captura do trabalho negro aos moldes do trabalho escravo”, eles estão falando de 1930, 1920 e 1940, então eles problematizam. Na dissertação, eu também utilizei história oral para problematizar esses nossos marcos, porque a gente cria esses marcos muito fixos ali e os entrevistados subvertiam o tempo inteiro esses nossos marcos.

Na próxima semana, confira a continuação da entrevista com Maria do Carmo Aguilar!

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