Aconteceu no APERS: evento Vozes que não se calam!

Deixe um comentário

Na última segunda-feira tivemos o privilégio de promover o evento “Vozes que não se calam! Direitos Humanos, Democracia, Liberdade”, mesa que contou com os depoimentos de Cláudio Antônio Weyne Gutierrez, Ignez Maria Serpa e Nilce Azevedo Cardoso, ex-presos e perseguidos políticos que tiveram suas vidas profundamente impactadas após o golpe de 1964 e a ditadura civil-militar que se instaurou no país perdurando por 21 anos.

A atividade foi realizada para marcar o encerramento das ações do Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS em 2018, e foi organizada com inspiração na oficina “Resistência em Arquivo: patrimônio, ditadura e direitos humanos”, afinal, os processos de indenização dos três protagonistas do evento, salvaguardados pelo Arquivo, são utilizados nessa oficina para debater com as e os estudantes a respeito do papel das instituições arquivísticas, do acesso à informação, da riqueza de acervos que tratam do período ditatorial em questão, e sobre os horrores perpetrados pelo Estado durante aquele período.

A principal motivação foi reunir professores, estudantes, servidores do APERS, pessoas que fazem ou já fizeram parte da equipe do PEP para ouvir pessoalmente os testemunhos daqueles com quem dialogamos tantas vezes no cotidiano por meio de seus registros, acolhendo suas falas, sensibilizando-nos com suas lutas, e refletindo sobre a importância dos valores democráticos e do respeito à dignidade humana, bases da Declaração Internacional dos Direitos Humanos, cuja assinatura completou 70 anos em 2018.

Em muitos sentidos o evento foi um sucesso: conseguimos reunir mais de 80 pessoas e construir um ambiente receptivo, em um auditório lotado e atencioso. Também pudemos dar visibilidade à instituição e às ações realizadas por meio do Programa de Educação Patrimonial em parceria com a UFRGS, que vem desde 2009 enraizando-se e gerando muitos frutos. Interessante registrar que pela primeira vez a equipe do PEP transmitiu um de seus eventos ao vivo pelo Facebook, o que oportunizou maior alcance para as falas e mais interações com nossas mídias sociais – não sem percalços, como é comum quando se está realizando algo pela primeira vez – mas certamente foi uma tarde gratificante, repleta de emoção e força.

Pensando na importância de partilharmos essas experiências, que consideramos como parte integrante de nosso patrimônio cultural imaterial, peças fundamentais para tecer memórias e entender nossa sociedade, nas próximas semanas disponibilizaremos a gravação da mesa através do Youtube do APERS. Acompanhe!

Atualizado em 19.12.2018.

PEP UFRGS-APERS convida: Mesa Vozes que não se calam! Direitos Humanos, Democracia, Liberdade.

Deixe um comentário

No Dia Internacional dos Direitos Humanos, no ano em que se celebram os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, dia 10 de dezembro, segunda-feira, às 14:30h, realizaremos a atividade de encerramento das ações do Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS em 2018. A mesa “Vozes que não se calam! Direitos Humanos, Democracia, Liberdade” será realizada com testemunhos de Claudio Gutierrez, Ignez Serpa e Nilce Azevedo Cardoso, ex-presos políticos que têm seus processos de indenização salvaguardados pelo APERS. Tais documentos são utilizados com as turmas escolares que participam da oficina “Resistência em Arquivo: patrimônio, ditadura e direitos humanos”.

Nosso objetivo é oportunizar um espaço de encontro e escuta sensível, em que estudantes e professores que leram e debateram sobre sus histórias – marcadas pela repressão, tortura e resistência à ditadura civil-militar – possam conhecê-los pessoalmente, prestar-lhes a homenagem merecida e aprofundar conhecimentos.

Cremos que será uma tarde muito significativa não apenas para pensarmos as relações entre passado e presente, mas também para reafirmarmos nosso compromisso com o livre acesso à informação e aos arquivos, com o direito à memória e com a democracia.

Informações podem ser obtidas pelo e-mail acaoeducativa@smarh.rs.gov.br ou pelo fone (51)3288-9117. O evento é aberto à comunidade, entretanto o público prioritário são os estudantes e professores que participaram das oficinas do PEP em 2018. Nesse sentido, as inscrições devem ser feitas por e-mail informando nome completo, telefone para contato e escola/instituição de vinculação, de forma que possamos confirmar as vagas oportunamente antes do evento.

Cartaz Vozes que não se calam PEP 2018 final

Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS V – História da Ditadura Civil-Militar

Deixe um comentário

    Chegamos à quinta publicação de Revisitando as Mostras de Pesquisa, na qual divulgaremos alguns artigos publicados nos anais das Mostras sobre a temática da Ditadura Civil-militar. Diferentemente das anteriores, nesta postagem vamos explorar um artigo, em especial, e apresentar outros títulos.

2016.07.20 Imagens

    Muitas foram as apresentações na V Mostra que versaram sobre a história da Ditadura Civil Militar, tanto no Brasil quanto em outros países do Cone sul. Dentre elas, selecionamos o artigo de Caroline Silveira Bauer, hoje professora da UFRGS, O “crime das mãos amarradas”: sequestro, tortura, desaparição e morte do ex-sargento Manoel Raimundo Soares durante a ditadura civil-militar brasileira (1966), no qual foram exploradas várias práticas, a partir de um caso emblemático, que caracterizaram a ditadura no Brasil.

    Nesse artigo é analisado o sequestro, a tortura, o desaparecimento e a morte do ex-sargento do Exército Manoel Raimundo Soares, que ocorreu no ano de 1966. A autora toma o caso como exemplo das práticas de terrorismo de Estado aplicadas no Brasil. Conforme a Bauer, uma primeira versão deste trabalho havia sido apresentada como parte de sua dissertação de mestrado, intitulada Avenida João Pessoa, 2050 – 3° andar: terrorismo de Estado e ação de polícia política do Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (1964-1982), defendida em abril de 2006 junto ao PPG em História da UFRGS. Entretanto, como parte do resultado daquela investigação, o assassinato de Manoel Raimundo Soares, de acordo com Caroline, não recebeu atenção particular naquela análise, uma vez que inserido em uma lista maior de exemplos de arbitrariedades cometidas pelo DOPS/RS.

    O assassinato de Raimundo Soares ficou conhecido como o “crime das mãos amarradas”, porque seu corpo foi encontrado nas águas do Rio Jacuí com as mãos amarradas às costas. As práticas empregadas pelos órgãos da repressão e o impacto na sociedade que, segundo a autora, pela primeira vez, de forma explícita, tomava conhecimento das ações repressivas da ditadura, levaram a historiadora escrever tal artigo, com atenção voltada para esse crime.

    A principal fonte utilizada por ela foi o processo de indenização movido pela viúva de Manoel Raimundo Soares, Elizabeth Challupp Soares, que faz parte do Acervo da Luta contra a Ditadura, localizado no Memorial do Rio Grande do Sul. Também foram consultadas outras fontes, tais como a documentação produzida pela Comissão Parlamentar de Inquérito e jornais.

    Manoel era segundo sargento do exército e desertou em 23 de abril de 1964, quando passou a viver na clandestinidade. Foi sequestrado em 13 de março de 1966, em frente ao Auditório Araújo Viana em Porto Alegre, numa cilada levada a cabo por Edu Rodrigues Pereira. Foi levado para o quartel e dois dias depois para o DOPS, lugares onde sofreu inúmeras torturas. Permaneceu ali até o dia 18 de março, quando foi levado para a Ilha do Presídio. De acordo com informações oficiais, teria sido solto no dia 12 de agosto, embora ainda haja registro de sua presença no DOPS no dia 13 do mesmo mês. Três habeas corpus, foram impetrados nos meses de junho, julho e agosto por Elizabeth, no qual era solicitado notícias sobre a localização de Manoel. Em resposta a um telegrama recebido do Supremo Tribunal Militar, no dia 20 de agosto, o DOPS informou que Manoel não se encontrava naquele órgão, conforme sequência de informações trazidas por Bauer.

    A autora afirma ainda que no dia 24 de agosto de 1966, por volta das 17 horas, foi encontrado por agricultores um corpo boiando no Rio Jacuí, próximo a Ilha das Flores. Enquanto isso, Elizabeth veio a Porto Alegre para impetrar um quarto pedido de habeas corpus, para saber onde e sob a responsabilidade de qual autoridade estava o ex-sargento. No dia seguinte, Dilmar Machado, jornalista da Zero Hora, recebeu um telegrama anônimo, informando que aquele cadáver, com as mãos amarradas às costas, seria de Manoel Raimundo Soares. Elizabeth procurou o repórter e foram juntos ao Instituto Médico Legal, onde reconheceu o corpo do seu esposo, cuja causa mortis foi por afogamento anterior ao dia 21 de agosto, conforme o auto de necrópsia.

    De acordo com Caroline Bauer, as razões do interesse do DOPS/RS em Manoel deviam-se a dois motivos principais: a de que ele respondia processo criminal por atos de subversão; e a de que poderia “fornecer informações valiosas sobre a organização e outros companheiros foragidos e uma confissão sobre a subversão, para depois, castigá-lo e puni-lo exemplarmente”. A autora ainda lembrou da declaração absurda do delegado Teobaldo Neumann, ao Jornal Zero Hora, na qual disse que “os soldados incumbidos de dar um caldo no sargento Manoel Raimundo Soares perderam o controle do corpo e disto resultou a morte por afogamento”. Ressalta, já no final do texto, que além da execução arbitrária do inquérito, o DOPS/RS mentiu diante da Justiça Militar, negando sua presença nas dependências do órgão.

    Conclui o texto, com a informação de que o enterro de Manoel Raimundo Soares, cujo corpo foi “desaparecido” no Rio Guaíba, ocorreu em 2 de setembro de 1966 e foi acompanhado por uma multidão, que, ao reconhecer agentes do DOPS/RS infiltrados os chamou de “assassinos”.

    O artigo foi escolhido, por nele encontramos inúmeros elementos que caracterizam o terrorismo de estado presente na ditadura civil-militar brasileira e que extrapolavam as disposições “legais” do regime de exceção: prisões arbitrárias, sequestros, tortura, incomunicabilidade dos presos com seus familiares, assassinato e desaparecimento – e isso é bastante explorado pela historiadora. Abaixo, em outros artigos, eles seguiram presente, bem como outras formas de condução das relações políticas, econômicas e sociais que conformaram a ditadura civil-militar iniciada no ano de 1964 no Brasil. A lista com a presença da temática nas Mostras é extensa:

  • A ocupação da Faculdade de Filosofia da UFRGS (junho de 1968), de Jaime Valim Mansan (V Mostra de Pesquisa, p.311)
  • As relações de Leonel Brizola com os setores subalternos das Forças Armadas entre 1959-1964, de César Daniel de Assis Rolim (V Mostra de Pesquisa, p.301)
  • Os arquivos virtuais sobre os regimes repressivos (V Mostra de Pesquisa, p.379)
  • A política educacional da Ditadura Militar e a UFRGS (1964-1970), de Janaína Dias da Cunha (V Mostra de Pesquisa, p. 327)
  • As conexões repressivas entre a ditadura civil-militar brasileira e o Uruguai: o caso do sequestro do cônsul brasileiro pelos tupamaros como denúncia, de Ananda Simões Fernandes (V Mostra de Pesquisa, p. 349)
  • Auditoria Militar de Santa Maria: um novo enfoque sobre a repressão e a oposição ao Regime Militar, de Taiara Souto Alves (V Mostra de Pesquisa, p. 339)
  • A resistência dos exilados brasileiros no Uruguai e o controle pelos órgão de repressão e espionagem, de Ananda Simões Fernandes (VI Mostra de Pesquisa, p.373)
  • A atuação repressiva da ditadura civil-militar brasileira durante a construção da Anistia, de Julio Mangini Fernandes (VIII Mostra de Pesquisa, p.73)
  • Episódios de uma trajetória: o apelo das Mulheres pela Anistia em meio ao trágico retorno do presidente deposto pelo golpe civil-militar, Marluci Cardoso de Vargas (X Mostra de Pesquisa, p.297)
  • O Pensamento Militar e a Política de Segurança Nacional: a elaboração do conceito estratégico nacional, 1968-1969, de Diego Oliveira de Souza (X Mostra de Pesquisa, p. 317)
  • A colaboração do Estado frente ao uso excessivo da violência policial: início e fim da questão Fleury (1968-1979), de Diego Oliveira de Souza (XII Mostra de Pesquisa, p.163)
  • Os arquivos sobre a repressão: o sequestro dos uruguaios no acervo particular Omar Ferri, de Paola Laux e Renata dos Santos Mattos (XII Mostra de Pesquisa, p.369)
Notícias relacionadas:
Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS I
Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS II
Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS III
Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS IV

APERS? Presente, professor! – Conexões Repressivas e Redes de Solidariedade: repressão e resistência no Cone Sul

Deixe um comentário

2014.07.09 Conexões Repressivas_BlogHoje disponibilizamos a quinta proposta pedagógica do Projeto APERS? Presente, professor que está inserida dentro do eixo temático A Resistência à Ditadura Civil-militar – das fontes arquivísticas para a sala de aula, 50 anos depois.

Denominada de Conexões Repressivas e Redes de Solidariedade: repressão e resistência no Cone Sul, essa proposta tem como objetivo compreender a formação das redes de solidariedade como uma estratégia de resistência e de sobrevivência à repressão imposta pela ditadura; perceber as relações entre os aparatos repressivos dos países do Cone Sul. Para construí- la, a equipe do projeto utilizou como fonte um processo de indenização de um ex-preso político do período, Carlos Alberto Libânio Christo, mais conhecido como Frei Betto. Acesse aqui o arquivo da proposta.

Caso o professor tenha interesse em acessar uma cópia na íntegra do fonte utilizada na construção da proposta, clique aqui. Para acessar as propostas anteriores, clique aqui.

Um ótimo trabalho professora e professor!

%d blogueiros gostam disto: