Atendimento APERS: horário diferenciado na Sala de Pesquisa

Deixe um comentário

Biblioteca de Apoio APERS

2 Comentários

O Arquivo Público do RS, visando melhor atender aos usuários da Sala de Pesquisa, foi acumulando ao longo de sua história livros relacionados à temática dos seus acervos e disponibilizando-os aos pesquisadores. Temos livros que tratam de temas como ditadura, escravidão, genealogia, história do RS, imigração, municípios, além de guias de fontes, monografias, dissertações e teses. Muitos desses exemplares são produtos das pesquisas de nossos usuários e, por isso, eles doaram um exemplar de sua obra para compartilhar o conhecimento com outros “colegas” da Sala.

Ao longo deste ano fomos denunciados ao Conselho Regional de Biblioteconomia e sofremos duas fiscalizações, sendo a última realizada ontem, dia 06 de dezembro. Em ambas as visitas, as fiscais identificaram o apanhado de livros como Biblioteca de Apoio, informando que não necessita de um bibliotecário para sua gestão.

Esclarecemos que nossos esforços estão voltados à gestão documental e a preservação, a difusão e a disponibilização do patrimônio documental aqui custodiados, não sendo de nosso interesse criar espaços que ultrapassem nossas atribuições e o campo de atuação de nossos profissionais.

Pesquisando no Arquivo: um olhar das Ciências Sociais sobre o contexto do tratamento da loucura no Hospital Psiquiátrico São Pedro

Deixe um comentário

    Pesquisando no Arquivo deste mês, finaliza a apresentação sobre o acervo do Hospital Psiquiátrico São Pedro (HPSP), através da seleção de um prontuário, após a leitura de prontuários de três acondicionadores referentes ao período de 1909 a 1916. O objetivo é discorrer sobre um assunto ainda um tanto obscuro: o contexto da loucura e seu tratamento no Século XX.

  Durante esse início de século, no Rio Grande do Sul, do ponto de vista epistemológico, tínhamos o modelo cartesiano de ciência, no qual havia certezas absolutas e, cada certeza, somente era substituída, à medida que fosse possível uma descoberta “mais avançada”.

    Por ser um modelo de ciência, uma espécie de forma na qual eram moldados os profissionais da época, os juízos de valor sobre suas condutas devem ser usados com cautela, pois esses profissionais estavam exercendo práticas as quais foram ‘calcadas’ por saberes científicos e, dessa forma, legitimadas por grandes universidades, na maioria das vezes de origem europeia.

    Na concepção cartesiana, o organismo era entendido e tratado em analogia a uma máquina e o conceito de saúde girava em torno do perfeito funcionamento dos órgãos e da ausência de defeitos. No paradigma em que se tratava a doença mental da época o conhecimento era reducionista, linear e mensurável, ou seja: só era considerado algo científico se passasse pelo crivo da razão e da lógica. Era evolutivo no sentido de uma lógica linear de crescimento e, talvez, a etapa mais problemática foi o aspecto reducionista, no qual não havia possibilidade ou interesse de se conhecer o indivíduo doente através da investigação do círculo de relações sociais, do protagonismo dele nessas relações, quais os aspectos de sua subjetividade, sua experiência, seus anseios ou necessidades, seus sonhos ou algum direcionamento em torno de sua autonomia. Simplesmente porque isso não se enquadrava no saber científico.

    Outro ponto importante de abordagem é o ponto de vista político, pois nesse período havia uma sociedade pós-abolicionista almejando uma intensa urbanização na cidade de Porto Alegre, e até pouco tempo (1887) admitia a escravidão humana como algo natural e necessário.

    Após a abolição, não houve mudança no paradigma e sim apenas uma variação no pensamento filosófico com a introdução dos ideais positivistas os quais permearam e influenciaram as mentalidades de muitos estudantes, filósofos, faculdades de medicina e engenharia da época. Esse método, em sintonia com o cartesianismo, desconsidera todas as formas de conhecimento humano as quais não se possam comprovar cientificamente (ficam de fora, portanto os saberes culturais, tradicionais baseados na experiência) e nega qualquer possibilidade de investigação de causas sociais ou emocionais. Qualquer processo emocional é fonte de erro e deve ser descartado. A severa separação entre sujeito e objeto, outra característica do positivismo, desconsidera qualquer empatia que o profissional de saúde pudesse ter para com o paciente, que era reduzido a um sujeito passivo e reativo.

    Ao analisar um dos prontuários do período já referido, chama atenção o cuidado que teve o médico ou a pessoa que fez o registro no dia 6 de fevereiro de 1941 sobre o comportamento da interna: “Reticente… faz questão de que não se inclua em seu nome o sobrenome do marido”. A partir dessa informação, ao checar os nomes dos documentos anexos ao prontuário, verifica-se uma divergência, pois na capa está escrito F.O.G.B e infere-se que este seja possivelmente seu nome de casada, pois alguns dos sobrenomes coincidem com o do provável marido A.G.M.B. Já num pedido de internação, o nome da paciente é F.O.A.

prontuario-01    O fato é que nesse contexto, muitos dos pacientes eram trazidos por suas próprias famílias, já exaustas, com o peso de suas próprias vidas, e sem saber como recuperar seus doentes, viam no HPSP uma fonte de esperança e alívio. Nesse caso, (segundo os documentos do prontuário) a mulher F.O.A. de 31 anos, casada, deu entrada no Hospital às 22 horas do dia 4 de janeiro de 1916, trazida por sua irmã, era doméstica, natural deste Estado, e, segundo os registros, passou por sete internações algumas mais longas (90 dias), outras mais curtas. O diagnóstico é esquizofrenia. prontuario-02Há várias descrições de seu comportamento e de exames laboratoriais. A primeira internação registrada no prontuário é 4 de fevereiro de 1916 e a última, em 9 de dezembro de 1946. Como era de se esperar, dentro do modelo de ciência da época, mesmo nos momentos de lucidez da doença, não se percebe a fala da paciente, a não ser que isso contribua para validar algum diagnóstico.

prontuario-03    Seu corpo foi exposto a várias terapias de choque como a insulinoterapia de Sakel (o coma por insulina requeria cinco a nove horas de hospitalização e um seguimento mais trabalhoso, mas ela era facilmente controlada e terminada com injeções de adrenalina e glicose, quando necessário) e a eletroconvulsioterapia de Ugo Cerletti (1937).

prontuario-04    A partir de 16 de março de 1944, num de seus reingressos, iniciam-se as sessões de eletrochoque: 22 de março, 23 de março, 27 de março, 30 de março, 3 abril, 10 de abril, “queixa-se de dores na região dorsal”. Em 28 de dezembro do mesmo ano, é prescrito novamente um tratamento de choque (mais 29 sessões), só que desta vez, por insulinoterapia (coma induzido).

    Até o momento, a cura definitiva para a esquizofrenia não está descoberta, embora houve avanços nesse campo. Com uma terapia não tão invasiva e violenta como a dos choques químicos ou físicos, fases de internação nos momentos de surtos do paciente esquizofrênico, aliada a uma reeducação familiar para lidar com seu ente querido e uma busca constante de autonomia para o paciente nos momentos de calmaria ou trégua da doença tem tido consideráveis resultados, porém para isso, foi preciso um novo contexto e isso só foi possível dentro de um novo paradigma para se lidar com a doença mental.

Fontes de referência:
COMTE, Auguste. Vida e obra. São Paulo: Abril Cultural, 1978. Disponível em: http://resumodaobra.com/comte-pensadores-obra/ Acesso em: novembro de 2016.
DESCARTES, R. Discurso do método. Tradução J. Guinsburg & B. P. Júnior. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983a, p. 25-71.
SABBATINI, Renato M. E. A história da terapia por choque em Psiquiatria. Disponível em: http://www.cerebromente.org.br/n04/historia/shock.htm#sakel Acesso em: novembro de 2016.
.
Notícias Relacionadas:
Pesquisando no Arquivo: Possibilidades de pesquisa para Antropologia Médica II
Pesquisando no Arquivo: Possibilidades de pesquisa para Antropologia Médica I
Pesquisando no Arquivo: Prontuários médicos

Pesquisando no Arquivo: Sugestões para o Historiador IV

Deixe um comentário

    Neste mês, a temática do Pesquisando no Arquivo é o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS). A repartição de Arquivo Público, Estatística e Biblioteca foi criada pelo decreto 876 de 8 de março de 1906, pelo então presidente do estado, Antônio Augusto Borges de Medeiros. Sua função era “adquirir e conservar, sob a classificação sistemática, todos os documentos concernentes a legislação, a administração, a história, a geografia, as artes e indústrias do Rio Grande do Sul”. Com o passar dos anos e o esgotamento de capacidade de recolhimento, o APERS passou a receber somente documentos oriundos do Poder Executivo.

   Fruto da filosofia preservacionista e do momento político do fim do XIX e início do século XX, a criação do Arquivo Público demonstrava preocupação com a guarda e conservação de documentos públicos oficiais, sob organização metódica, impedindo extravio ou perda de documentos. Para os positivistas, era também através destes documentos que se poderia escrever a história.

    Hoje, o APERS conta com um acervo de memória institucional disponível para pesquisadores que procurem saber um pouco mais da história da nossa instituição. O fundo documental do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul – APERS conta com documentos diversos, como decretos, regulamentos, processos administrativos, relatórios, pareceres, cartas, projetos técnicos, entre mais de oitenta tipologias.

Referências:

MERLO, Carmen Moreira. O palácio de papel: cem anos do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (1906-2006). Dissertação de Mestrado. Passo Fundo, 2010. Disponível em: https://arquivopublicors.files.wordpress.com/2013/04/2013-04-24-o-palacio-de-papel-cem-anos-do-apers-1906-2006-carmen-moreira-merlo.pdf. Acesso em: outubro/2016

Pesquisando no Arquivo: Possibilidades de pesquisa para Antropologia Médica II

Deixe um comentário

     Neste mês, daremos continuidade ao assunto postado em julho (clique aqui para acessar), sobre a possibilidade de pesquisa na perspectiva da Antropologia Médica e vamos apresentar dois prontuários, do acervo do Hospital Psiquiátrico São Pedro, interessantes para análise.

    Sob forte influência da corrente interpretativa do antropólogo Clifford Geertz o qual investigou, a partir da realidade concreta, os múltiplos significados que emergem através das interações sociais, Arthur Kleinman e Byron Good, professores de Harvard, desenvolveram ideias e métodos de análise, em meados dos anos 80.

    Assim, ao analisarem os fatores culturais que intervêm no campo da saúde/doença, sistematizaram um modelo que atribui importância teórica aos aspectos sociais e culturais. Por exemplo, ao utilizar o termo ‘desease’ no sentido de doença contagiosa, moléstia, referente a um corpo doente e ‘illness’ para se referir ao conjunto de sintomas subjetivos ou a percepção singular de cada paciente sobre sua própria doença, Kleinmann inaugura um grande campo de pesquisa para a Antropologia.

    Para fins de melhor clareza, Kleinmann discorre: “um paciente pode estar severamente doente (desease) sem estar illness (se sentir doente), como na hipertensão silenciosa, e outro pode estar severamente illness (se sentindo doente) sem a desease (doença), como na depressão grave”.

    Dessa forma, não é o objetivo aqui se preocupar com a desease e sim com a illness, ou seja, entender a experiência humana de sintomas de sofrimento a qual varia não somente de pessoa para pessoa como também de cultura para cultura numa perspectiva temporal. Mapear, explicitar, narrar, descobrir esses sintomas provocados (ou não) pela desease são objetos da antropologia.

    O primeiro prontuário selecionado é o de J.R.M (data da internação: 29 de junho de 1884). Na ficha de entrada, não há muitas informações, diferentemente dos prontuários do século XX os quais possuem descrição mais longa, sendo portanto, mais volumosos.

2016-09-21-prontuario-j-r-m

Prontuario J.R.M.

    Era comerciante e solteiro, não possui foto. Conforme a solicitação de seu irmão, J.R.M. recebeu alta em 17 de setembro de 1921 a fim de “ser-lhe dado assistência domiciliar”. O que chama atenção na ficha do J.R.M são os dados pessoais. Há um campo chamado “Condição social” e está preenchido como “Livre”. A importância aqui está não no que se pode ler, mas no que podemos inferir. No Brasil, oficialmente, a abolição da escravatura foi em 1888. Essa informação é importante porque possibilita a leitura do contexto social do período considerado, pois a existência de um campo ‘Condição social: livre’ pressupõe uma outra condição oposta: “Condição social: escravo”.

    No segundo prontuário, a data de internação de P.O.F foi em 1894 e alta se deu por falecimento em 1938. Era solteiro, tinha 21 anos e trabalhava no serviço pastoril. Logo, em 25 de abril de 1895, há um documento assinado por Antônio Augusto Borges de Medeiros ao diretor do Hospital São Pedro, informando que “a família não pode mais dar a mesada para seu sustento, em vista ao estado de pobreza em que se acha” e solicita “providências para que o mesmo seja considerado no número dos indigentes”.

    Logo após, na penúltima folha do prontuário, como vemos um trecho na imagem abaixo, podemos constatar elementos para buscar a percepção da doença pela família (illness), pois há um relato assinado pelo pai do paciente sobre o dia exato do adoecimento: 22 de junho de 1938: “estava durmindo com outro e acordando-se queixou-se de dor de cabeça e embrulhamento no estômago; deram-lhe folha de laranjeira. De manhã o pai indo vê-lo perguntou se já lhe tinham dito que este estava ficando doido (…) No quinto dia, pediu ao pai uma palavra em particular e então disse-lhe que havia cometido uma grande falta (…) reconhecia a vergonha do papel que tinha praticado e que já tinha pensado em matar-se, mas também lembrou-se que era uma covardia e, por isso, não tinha realizado (…) que se ele morresse queria que dessem para a criança umas vacas (…) começou a desnortear”.

2016-09-21-prontuario-p-o-f

Prontuario P.O.F.

    Para isso, nada melhor do que entender a trajetória particular de um indivíduo doente. Suas crenças, sentimentos, aspirações, seus entraves, o mundo cultural que o rodeia. Investigar quais foram as perdas, as ameaças, as dificuldades enfrentadas no fluxo normal da vida. Para tanto, ter em mente o contexto histórico, social e cultural do período é fundamental para contextualizar cada prontuário a ser analisado. E está aí talvez a maior dificuldade porque há muitas lacunas, uma vez que o modelo de saúde da época considerada (fins do século XIX) tem forte influência positivista, a qual desconsidera as micro-narrativas.

    A importância desses prontuários está na investigação desses elementos para recriar o cenário da época e assim entender as percepções da doença, pois “a desordem é sempre interpretada pelo doente, pelo médico e pelas famílias”. (Kleinman & Good, 1985)

    Nosso objetivo é o de instigar a pesquisa lembrando, mais uma vez, que este acervo possui restrição de acesso, tema já abordado anteriormente (clique para acessar a publicação).

Sistema AAP: há 10 anos facilitando o gerenciamento do patrimônio documental do RS

Deixe um comentário

AAP logo

    No mês de agosto completamos 10 anos do primeiro atendimento documentado via Sistema de Administração de Acervos Públicos – AAP! O Sistema AAP foi concebido a partir de uma parceria entre as equipes do Arquivo Público do RS e da Companhia de Processamento de Dados do RS – Procergs, para atender a necessidade de gerenciamento do patrimônio documental custodiado pelo Arquivo.

    Para tanto, as equipes iniciaram o trabalho de planejamento e implementação do sistema anos antes, uma vez que tanto o APERS precisava sistematizar seus procedimentos, quanto a equipe da Procergs tinha de compreender conceitos e necessidades específicas do campo da Arquivologia. Por não existir no mercado um sistema que atendessem às funcionalidades demandadas, o sistema AAP foi desenvolvido na sua totalidade tendo por base a Norma Geral Internacional de Descrição Arquivística – ISAD(G). Para saber mais sobre as características técnicas do sistema clique aqui.

    Em 16 de maio de 2005 começaram a ser cadastrados no sistema os primeiros dados básicos dos itens documentais custodiados pelo APERS, com isso podemos localizar rapidamente os documentos para sua disponibilização aos usuários. Atualmente possuímos cadastrados no sistema dados de 620.315 itens documentais, sendo que temos os dados e a disponibilização das imagens de 30 mil documentos. Estes referem-se as Cartas de Liberdade do período da escravidão no RS, 1763 a 1888, que foram contempladas pelo projeto “Documentos da Escravidão no Rio Grande do Sul” (para saber mais clique aqui).

    No último dia 16 completou 10 anos do primeiro atendimento registrado via sistema AAP, isso significa maior controle e confiabilidade na disponibilização dos documentos custodiados pelo Arquivo Público do RS. O sistema possibilita identificar a localização dos documentos, os usuários e os atendimentos realizados e contribui significativamente para a preservação dos acervos, uma vez que reduz a quantidade de manuseio dos mesmos.

    A inserção dos dados dos itens documentais permanentes no sistema AAP requer um preparo anterior, que demanda recursos humanos, financeiros e tempo. Assim, nossas equipes trabalham continuamente para que os dados dos acervos custodiados pelo APERS sejam disponibilizados via sistema.

Older Entries

%d blogueiros gostam disto: