Revisitando as Mostras de Pesquisa APERS III

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     Chegamos à terceira publicação sobre os trabalhos apresentados nas doze edições da Mostra de Pesquisa APERS. Hoje vamos retomar algumas das apresentações que problematizaram a história dos povos indígenas.

2016.05.18 Imagens

    Na X Mostra de Pesquisa, tivemos uma presença expressiva da temática no evento. Por conta disso, decidimos explorar os trabalhos nela apresentados na postagem de hoje.

   Vamos começar pelos autores Ismael Silveira e Vinícius de Almeida que apresentaram, no formato pôster, o trabalho Indígenas no sul da América através dos relatos jesuítas. Foi elaborado a partir do estudo de cartas, diários, balanços administrativos, documentos manuscritos jesuítas do século XVIII custodiados pelo Archivo General de La Nación, na cidade de Buenos Aires, Argentina. Segundo os autores, trata-se de um recorte da pesquisa desenvolvida pela professora Maria Cristina Bohn Martins, no Programa de Pós-Graduação da Unisinos, que investiga os quatorze anos durante os quais indígenas do pampa buenaerense foram reduzidos em três missões – Nossa Senhora dos Pampas, Nossa Senhora do Pilar e Mãe dos Desamparados. Para o trabalho dos autores, foram privilegiadas as descrições dos padres missioneiros que registraram em diários as experiências vividas no século XVIII. Nelas foram identificados aspectos culturais e sociais das populações indígenas localizadas na região do Prata, tais como hábitos cotidianos, rituais festivos, aspectos organizacionais. Os autores utilizaram como metodologia a transcrição dos manuscritos, a leitura e a interpretação dos conteúdos. Como resultado, destacaram a identificação de uma “retórica jesuítica que avalia os indígenas a partir da perspectiva que ressalta a infidelidade – que por vezes resultaram em atos de hostilidade da parte nativa – e a sua necessária conversão”.

    Os autores Leandro Goya Fontella e Max Roberto Ribeiro apresentaram o trabalho O êxodo missioneiro: um estudo sobre os fluxos migratórios de Guaranis das Missões (fronteira do Rio Pardo, 1801-1845). Nele, os autores analisaram o processo de êxodo dos guaranis naturais das missões orientais e a reorganização diante da anexação à Coroa Portuguesa. Apresentaram características das migrações e algumas estratégias utilizadas nas relações com a empresa expansionista lusitana. Para isso, tomaram como foco da pesquisa, a Capela de Santa Maria, localizada na Fronteira do Rio Pardo. Segundo eles, a anexação dos povos da margem oriental do rio Uruguai pelos portugueses, em 1801, resultou em “mudanças dramáticas no modo de vida dos guaranis que lá viviam”. Ela também originou diversos fluxos migratórios que tinham como destino a Fronteira do Rio Pardo, ocasionando uma acentuada queda demográfica na região missioneira. Nas correspondências dos comandantes da fronteira, as motivações destas migrações e o rumo tomado por algumas destas famílias foram objetos de análise, da mesma forma que os registros de batismo, com base numa análise serial, dos quais pode-se perceber que a “decisão de migrar fazia parte de estratégias ordenadas” e organizadas coletivamente. De acordo com os autores, os guaranis “operavam dentro de uma lógica coletiva, visando traçar estratégias de sobrevivência em um mundo incerto onde a segurança significava algum grau de previsibilidade e, neste sentido, a busca por novos territórios possibilitava reduzir as ameaças que por ventura colocassem em risco a existência do grupo”.

    Camila de Almeida foi autora da apresentação Pedro Lozano e o trabalho missioneiro no Paraguai através da Carta Ânua de la Província Jesuítica del Paraguay (1735-1743). O artigo resultou de estudos realizados no grupo de pesquisa da Professora Maria Cristina Martins, “Jesuítas, missões e viagens nos ‘confins do império’ (século XVII)”. Como um recorte, trabalhou com a Carta Ânua enviada pelo Jesuíta Pedro Lozano ao seu Superior. Ela relatava os acontecimentos de interesse na Província do Paraguai. O objetivo do estudo, a partir de uma análise baseada no conceito de “lugares de produção” de Michel de Certeau, foi mostrar como o jesuíta descrevia seus irmãos de ordem, as dificuldades enfrentadas e os nativos que encontrava. Para eles, ao analisar o documento a luz desse conceito, existia uma retórica edificante com a qual construía sua narrativa. Dessa forma, para a autora, ficou evidente o cunho enaltecedor e a construção de uma imagem gloriosa dos membros da Ordem. Caracterizada por sua ampla descrição, a ânua de Lozano favoreceu a visualização de disputas travadas diariamente pelos missioneiros da mesma forma que se transformou em ferramenta de informação, não apenas dedicada a comunicar ao superior da companhia, mas também ao público letrado, os trabalhos realizados nas Américas.

    Juliana Aparecida da Silva apresentou Vivendo nas margens: respostas indígenas ao avanço colonial na pampa bonaerense (século XVIII), trabalho que problematizou as relações que se estabeleceram na fronteira entre o mundo hispano-crioulo e o mundo índio, bem como as respostas indígenas para o avanço das fonteiras coloniais no Novo Mundo. Avaliou como se constituíram as três missões Nuestra Señora de La Concepción de los Pampas (1740) Nuestra Señora Del Pillar (1746) e Madre de los Desamparados (1750), e quais foram às respostas dos índios “pampas e serranos” para tais feitos. Para tanto, utilizou como fontes principais os textos produzidos pelos próprios missionários e preocupou-se em desmistificar a passividade diante das ações dos colonizadores que é empregada aos indígenas por grande parte da historiografia tradicional. Alertou ainda que para os índios “pampas e serranos” existiu um preconceito ainda maior, por conta de seu nomadismo, o que, para alguns, explicaria o fracasso das missões austrais quando comparadas às missões guaranis. A autora pretendeu explorar a ativa participação indígenas no contato com o ocidente, bem como as diversas formas de resistência índia na fronteira colonial bonaerense.

     Por fim, Elisa Fauth da Motta apresentou o trabalho intitulado “Sulfría allí una pobre india de crueles dolores de parto”: um estudo sobre a saúde da mulher indígena e sua atuação como curandeira na província do Paraguai. Por meio dele foram socializados os resultados preliminares da pesquisa que a autora desenvolveu como bolsista junto ao projeto “Medicina e Missão na América meridional: epidemias, saberes e práticas de cura (séculos XVII e XVIII)”. Como recorte desse projeto e a partir da leitura e da análise das Cartas Ânuas da Província Jesuítica do Paraguai referentes à segunda metade do século XVII, a autora procurou identificar as enfermidades que atingiam os indígenas sul-americanos, por um lado, e as práticas curativas que eles adotavam, por outro. E para este artigo especificamente, tratou das informações referentes à saúde da mulher indígena e aos recursos terapêuticos empregados por mulheres xamãs. Conforme a autora, os relatos encontrados nas Cartas, acerca da saúde da mulher indígena, são frequentes, uma vez que esses documentos tinham a intenção de mostrar o “êxito do processo de conversão dos povos indígenas reduzidos pelos missionários, seja através dos processos de cura exercidos pelos padres, seja através da menção acerca do crescimento demográfico que atesta a aceitação da missão”. Por outro lado, a presença das xamãs na documentação, servia como evidência dos vícios que possuíam os índios e as dificuldades encontradas pelos jesuítas.

     Como você pode perceber, trabalhos repletos de problematizações acerca da história dos povos indígenas já foram apresentados na X Mostra, evento que tomamos como exemplo para abordagem da temática. E por se tratar de um assunto de imensa relevância, ficamos na torcida para que tantos outros possam ser compartilhados nas edições futuras.

    As inscrições na modalidade ouvinte para a XIII Mostra de Pesquisa APERS, evento que acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de setembro no Arquivo Público estão abertas. Para se inscrever basta enviar um e-mail para mostradepesquisa@smarh.rs.gov.br com o nome completo e um e-mail para contato.

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     Seguindo a proposta de revisitarmos as publicações que resultaram das doze Mostra de Pesquisa APERS organizadas até o momento, hoje vamos relembrar algumas apresentações sobre Arquivos e sobre o trabalho arquivístico.

2016.04.20 Revisitando II

     Na VI Mostra de Pesquisa, Ana Carla Sabino Fernandes tratou da atuação dos funcionários da província do Ceará, antes ainda da criação do Arquivo Público do Império daquela província (1865), e o significado que deram aos documentos que hoje compreendemos como históricos. Para tanto, partindo de Pierre Nora, Ana Carla abordou a questão da “memória arquivística”, que não necessariamente está representada, guardada, acumulada em Arquivo (lugar), mas que “é norteada por uma prática social de políticos eruditos e de funcionários públicos treinados, dignos da acumulação documentária, baseada no registro, no colecionismo […] anteriores ao Arquivo”. Na tentativa de compreender a história do Arquivo Público do Estado do Ceará, ela considerou o conceito amplo de documento como fonte e objeto de estudo e percebeu tanto a instituição quando o documento em diferentes processos de disputa da memória. Ao tentar responder a esse problema no artigo intitulado Entre papéis, pennas e livros: os archivistas na província do Ceará, a autora apresentou o Arquivo Público do Estado do Ceará (APEC), instituição subordinada à Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult-CE), que custódia um acervo com documentos datados entre o século XVIII e XX, formado por correspondências, processos criminais, relatórios, inventários, mapas e demais tipos documentais provenientes dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e de particulares. Sabendo desse recorte, já podemos imaginar tratar-se de um dos principais espaços para pesquisa em história no Brasil.

    Na IX Mostra, Carlos Dinarte de Oliveira Keppler, Isabel Cristina Arendt e Marli Pereira Marques trabalharam com informações a respeito do Memorial Jesuíta-Biblioteca da Unisinos, que faz parte do Centro de Documentação e Pesquisa (CEDOPE), e abordaram aspectos da organização deste fundo documental, da história da instituição que o gerou e da metodologia de trabalho utilizada na sua organização e difusão. As finalidades específicas do Memorial compreenderiam, de acordo com os autores, a guarda, conservação, preservação e disseminação de acervos bibliográficos, documentais, científicos e artísticos produzidos e reunidos, em sua maioria, pela Província do Brasil Meridional da Companhia de Jesus nos últimos 150 anos. Dentre os acervos custodiados por este Memorial, encontram-se mais de 200 mil livros e periódicos que compõem coleções provindas dos seminários e paróquias sob a responsabilidade de padres jesuítas, reunidos por eles desde o século XIX. Encontram-se também livros considerados raros, editados entre os séculos XV e XVIII, que somam em torno de 2.600 obras. Além disso, conforme as autoras, o Memorial guarda acervo arquivístico, de caráter histórico e, portanto, permanente, também relacionado com a atuação dos jesuítas no sul do Brasil. São fundos documentais referentes a temas como cooperativismo e imigração, compreendendo arquivos pessoais e institucionais, alguns produzidos por setores da própria Universidade, especialmente a atuação dos jesuítas. De acordo com os autores, a organização e disponibilização de fundos documentais demonstram o reconhecimento que o Memorial Jesuíta possui sobre sua o fato de que acervos restritos à responsabilidade de instituições privadas também podem ter uma função pública.

     Na V Mostra, Enrique Padrós apresentou o trabalho de nome Os arquivos virtuais sobre os regimes repressivos, especialmente, o National Security Archive (NSA), que disponibiliza, em suporte papel e em meio eletrônico, os documentos desclassificados pela administração estadunidense. A documentação contem uma diversidade de informação alimentada pelos órgãos de inteligência de cada uma das ditaduras e pelas organizações de oposição dos governos autoritários da América Latina, confirmando a conexão entre os EUA e aqueles regimes. Segundo o autor, os arquivos virtuais são aqueles que resultaram da digitalização de seus fundos. E esse é o caso do NSA, fundado em 1985 por jornalistas e acadêmicos que haviam obtido documentação governamental através da lei da Liberdade de Informação, cujo acervo o transformou no arquivo governamental de documentação desclassificada de maior relevância mundial. Por fim, Padrós ressaltou que emergência de arquivos virtuais resultam de condições tecnológicas, por um lado, “mas também podem ser mecanismos compensadores na agilização de processos, demandas reparatórias e de produção de conhecimento histórico após décadas de entraves e paralisia político-sociais”, por outro.

    Na X Mostra, Mauro Sérgio da Rosa Amaral apresentou o trabalho Os Arquivos Sonoros do Judiciário: breve relato sobre a migração de suporte de fitas magnéticas de áudio cassete no tribunal Regional da Quarta Regional (TRF4). A partir de um estudo de caso, que resultou no trabalho de conclusão de curso de Arquivologia da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, o autor escreveu sobre a migração de suporte e a estruturação de procedimentos padronizados para a implantação do programa de digitalização de fitas magnéticas de áudio daquele Arquivo. No mesmo evento, Carmem Schiavon e Sara Orcelli dos Santos apresentaram o trabalho intitulado Conservação e Difusão do acervo de história demográfica do CDH-FURG: preservação de um patrimônio documental Rio-grandino, que abordou relações entre a teoria e a prática arquivística, com vistas à organização e conservação que foram aplicadas no Acervo de História Demográfica, localizado no Centro de Documentação Histórica “Professor Hugo Alberto Pereira Neves” na Universidade Federal do Rio Grande. Ao mesmo tempo que socializaram reflexões, prestaram algumas informações a respeito do Acervo e do Centro, que se transformou em local de pesquisas e práticas pedagógicas dos Cursos de História, Arquivologia e Biblioteconomia da Universidade.

     Na XI Mostra, Angélica Bersch apresentou o trabalho de implementação de um arquivo fotográfico na empresa Renner Hermann S/A. No texto, a autora relata o processo de negociação com os proprietários, que possuíam a intenção de organizar e de preservar os documentos. Com o objetivo de demonstrar a importância desse tipo de trabalho, mesmo quando em um formato simplificado, a autora propôs um diálogo sobre as condições de implantação e de acesso aos arquivos históricos, sobretudo em instituições privadas. Ela defendeu que, nessas situações, o trabalho dos historiadores, arquivistas, museólogos “pode ser o início de um novelo que se desemaranha, tanto no campo da pesquisa e arquivologia, como no campo da educação histórica patrimonial”.

     Na XII Mostra, Francisco Cougo Jr. apresentou o trabalho Reflexões arquivísticas sobre o acervo do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF). Segundo o autor, ao escrever sobre a trajetória do Instituto, o IGTF pode ser considerado o maior repositório documental público sobre a “música gauchesca”. Neste artigo, ele abordou a formação do acervo, as condições de guarda, de arranjo, preservação, acesso e difusão dos registros custodiados pelo IGTF. Além de divulgar o arquivo, teve como objetivo refletir sobre a inexistência de métodos arquivísticos na organização do fundo e as divergências conceituais existentes na forma como a instituição vê o repositório de fontes primárias. Por fim, a partir de um exercício hipotético, esboçou um possível quadro de arranjos para organização da documentação e a necessidade de um diálogo entre os responsáveis pela administração do instituto e o poder público, uma vez que acredita na finalidade cultural que desempenha o IGTF.

     No mesmo evento, última Mostra ocorrida até o momento, Paola Laux e Renata dos Santos de Mattos apresentaram o trabalho Os arquivos sobre a repressão: o sequestro dos uruguaios no acervo particular Omar Ferri. Aborda a trajetória de Omar Ferri enquanto advogado dos uruguaios, Lilián Celiberti e Universindo Díaz, sequestrados em Porto Alegre, no ano de 1978 pelas polícias políticas gaúcha e uruguaia. Doado pelo próprio advogado ao Arquivo Histórico do RS nos anos 2000, o conjunto documental faz parte do Acervo da Luta contra a Ditadura e passou pelo processo de ordenação cronológica, higienização, desmetalização e descrição das dezesseis caixas. O acervo é composto por jornais, revistas, processos, correspondências. A partir das características do acervo documental, refletem sobre a importância dos arquivos da repressão “na reconstituição da história e memória coletiva, na consolidação da democracia e dos Direitos Humanos”.

     Como o leitor pode notar, muitos foram os trabalhos que, até o momento, abordaram a temática dos arquivos (isso que não mencionamos todos os artigos aqui!). Com certeza, trata-se de uma problemática muito mais que bem-vinda à Mostra. Esperamos por outras apresentações que tratem do assunto na XIII Mostra de Pesquisa!!!

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