Túnel do Apers 2O objetivo deste trabalho não é o de dar um ponto final sobre a questão dos supostos túneis subterrâneos de Porto Alegre, em especial o do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS), mas procurar dar subsídios para futuras pesquisas sobre este assunto que tanto instiga o imaginário das pessoas.

A existência dos túneis subterrâneos de Porto Alegre aguça a imaginação como algo misterioso, um misto de mito e realidade que contribui na ampliação do imaginário porto-alegrense.

Conforme a historiadora Liana Martins, a autoria da construção desses túneis ou galerias subterrâneas permanece incerta, mas o fato é que existem galerias subterrâneas no Centro Histórico. Folclore ou lenda, a questão sempre foi tratada como mistério. A história dessas supostas galerias ou túneis teria se iniciado por volta de 1773. As principais fontes têm sido os livros de Ary Veiga Sanhudo, “Crônicas de Minha Cidade”, volume 1 do capítulo “As Decantadas galerias do Palácio Piratini”, publicado em 1961, e do pesquisador Walter Spalding, “Pequena História de Porto Alegre”, publicado em 1967. O trabalho destes pesquisadores subsidiaram publicações de matérias em jornais como Zero Hora (Túneis do Piratini, Caderno D, página 3, de 06/03/1988) e dissertações de mestrado (que, no entanto, não tinham os túneis como tema de pesquisa acadêmica).

Não sabemos que fontes documentais em que Spalding e Sanhudo se basearam em suas pesquisas. Sabe-se que boa parte destas informações foram coletadas pelos dois pesquisadores por meio de relato oral da população. Relatos que foram repassados através dos anos, constituindo-se numa das mais instigantes lendas urbanas da capital dos gaúchos.

Embora Spalding não faça menção direta ao então governador José Marcelino Figueiredo, seu relato sugere indiretamente que teria sido ele a mandar construir os “túneis ou galerias subterrâneas”, no final do século XVIII. Ele também não diz qual a finalidade desses supostos túneis, mas, no imaginário popular, teriam o objetivo de proporcionar uma rota de fuga para autoridades, devido aos conflitos de fronteira entre as coroas portuguesa e espanhola, em disputa dos territórios onde hoje estão o Rio Grande do Sul e os países do Rio da Prata (Argentina e Uruguai), estando, assim, Porto Alegre correndo risco de uma invasão. Os túneis ou galerias que segundo Spalding ligavam distintos prédios da cidade, teriam sido aproveitados posteriormente, no final do século XIX, para a construção de um reservatório de água.

Sanhudo menciona que, durante a Revolução Farroupilha, em 1836, os túneis eram utilizados para fins de fuga. Ele inclusive afirma que esses túneis eram em número de quatro. Especula-se que os Farroupilhas poderiam ter ampliando e/ou construído outros túneis. Sanhudo menciona que um soldado teria descoberto em sua chácara, nos “antigos campos da várzea” (atual Parque Farroupilha), no subsolo de um casarão, armas e um mapa contendo a existência dos túneis. O mapa, acompanhado de uma carta, teria sido encontrado em uma das entradas que levava a um subterrâneo. A carta dizia que na “velha colina”, antiga denominação para a região onde hoje se encontram a Catedral, o Palácio Piratini, o forte apache e o Teatro São Pedro, havia galerias subterrâneas, com ligação para vários pontos estratégicos da cidade. Esta carta teria sido escrita por Tito Lívio Zambecari, um dos intelectuais da Revolução Farroupilha. De acordo com tal carta, o mapa descreveria as diversas entradas e múltiplas galerias do “túnel”. A maior entrada passava pelo Palácio do Governo em direção a quatro lugares ou rotas: o primeiro ficaria ao oeste, indo do atual Palácio do Piratini até a volta da Usina do Gasômetro; o segundo, ao leste, Praça Raul Pila passando por onde hoje é a Santa Casa; o terceiro, ao sul, na rua Fernando Machado; e outro ao norte, que sairia no APERS, em direção ao antigo cais do porto. Nada mais apresentava o tal mapa, a não ser uma curiosidade: o nome de Bento Gonçalves, o líder máximo da Revolução Farroupilha.

Ao longo dos anos que se seguiram, outros túneis foram sendo descobertos, primeiramente quando operários da Companhia Hidráulica Porto-Alegrense, no final do século XIX, construíram uma cisterna. Sobre este suposto “túnel”, Spalding diz que em torno de 1869/70, na época em que estava sendo implementado um serviço de fornecimento de água, foi feito um reservatório junto à praça da Matriz, utilizando-se das supostas galerias subterrâneas feitas no final do século XVIII, que faziam a ligação de vários prédios. Posteriormente, no início do século XX, quando da construção dos alicerces do Palácio Piratini, teria sido encontrado outro.

Na época da construção do Arquivo Público do RS, por volta de 1910, um outro túnel teria sido descoberto. Nos anos 1930, quando foi aberta a avenida Borges de Medeiros, mais um túnel teria sido encontrado.

Túnel do Apers 5Por se tratar de um assunto tanto polêmico quanto fascinante, foi realizada uma pesquisa, a pedido da direção do APERS, pelo Técnico em Assuntos Culturais e Historiador da Instituição Claus Farina que objetivou a coleta de informações, bem como subsidiar futuras pesquisas sobre o assunto. A coleta de dados foi feita em várias instituições, tais como, o Instituto do Patrimônio Histórico Artístico do Estado (IPHAE), o Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS), o Arquivo Municipal Moysés Vellinho, a Secretaria de Obras Públicas do Estado do Rio Grande do Sul (SOP/RS), a Secretaria Municipal de Obras e Viação (SMOV), o Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS) e o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (MUSECOM). Além disso, foram realizadas pesquisas em jornais e em publicações na internet assim como entrevistas com arqueólogos, historiadores e geólogos.

Os seguintes aspectos podem ser extraídos como resultado desta pesquisa:

A construção dos túneis subterrâneos do Centro Histórico de Porto Alegre, salvo novos dados, está relacionada às obras do começo do século XX, envolvendo a canalização de arroios, o Palácio Piratini, o APERS, a Catedral Metropolitana, entre outros prédios dessa época. A história de que a função dessas galerias ou túneis seria a de fornecer uma rota de fuga para autoridades não se coaduna com as informações encontradas. Os dados indicam que seria improvável, sob o ponto de vista econômico, tecnológico e pelo tipo de sedimento de rocha granítica que forma o centro histórico, a construção de tais túneis nos períodos anteriores ao século XX. Além disso, não foi encontrada qualquer documentação do século XVIII sobre a construção de túneis subterrâneos que pudesse corroborar com esta tese. O mesmo vale para a ideia de que, desde 1836, época da Revolução Farroupilha, os túneis já seriam utilizados para fins de fuga. A hipótese não se sustenta pelo fato de que o domínio Farroupilha em Porto Alegre durou menos de nove meses, sendo que os custos de uma guerra contra o Império não justificariam um esforço de tal magnitude. Desta forma, é possível argumentar que todas as obras verificadas como subterrâneas no Centro Histórico de Porto Alegre foram construídas com propósitos logísticos.

Conforme o ofício A. H. /nº 41-92, referente à pesquisa sobre o APERS, feita pelo Arquivo Histórico de Cachoeira do Sul, sob a direção de Elena Desch, o túnel do APERS é uma galeria construída com o objetivo de favorecer a circulação de ar. Essa tese também é defendida pela ex-diretora do APERS, Rosane Feron. Assim, com base nestas informações, o túnel subterrâneo no APERS seria uma galeria longitudinal, construída no início do século XX, com objetivo de fazer circular o ar, com a ajuda de respiradouros. Favorecendo assim, a conservação dos documentos arquivados no Prédio 1 do Arquivo Público, sem nenhuma relação com passagens secretas ou túneis subterrâneos com objetivo de dar fuga a autoridades.

Da mesma forma, os túneis do Palácio Piratini são galerias subterrâneas de logística, de conhecimento notório, com objetivos múltiplos para dar subsídio à rede de esgotos, luz, água, telefonia e demais serviços, sem qualquer função que configure uma rota de fuga, conforme o parecer do Historiador e Técnico em Assuntos Culturais Robson da Silva Dutra Lima.

Por fim, o arqueólogo Alberto Tavares, que inspecionou o suposto túnel do APERS, e a arqueóloga Ângela Cappelletti, que coordenou as escavações da Cúria Metropolitana, concordam com a hipótese de que podem existir paleotocas no Centro Histórico, uma vez que sua existência já foi comprovada em outras regiões da cidade. Paleotocas são cavernas escavadas por animais pré-históricos, como o Megatério (Preguiça Gigante) entre outros. Desta forma, é possível crer que, desde o início da colonização europeia, a população de Porto Alegre tenha se deparado com paleotocas, confundido-as com túneis, dando origem às lendas que circulam desde então. A canalização dos arroios de Porto Alegre no início do século XX, contruído com pedras e tijolos antigos, deve ter contribuído com a propagação do mito.

Os resultados da pesquisa indicam que apenas uma prospecção com equipamento de georradar seguido de escavação arqueológica (se necessário) poderia elucidar a questão, e apresentar evidências da existência de paleotocas ou de alguma outra construção, além das galerias de ventilação. Clique aqui para acessar o artigo em .pdf.

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