Conhecendo Arquivos Públicos Estaduais pelo Brasil: região Nordeste, parte II.

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No dia 28/08 retomamos as postagens sobre os Arquivos Públicos Estaduais escrevendo a respeito das instituições da região Nordeste. A segunda parte desse texto seria compartilhada na semana anterior, porém, como tivemos muitas postagens em dia 04/09, optamos por dar sequência às reflexões sobre os Arquivos nordestinos no dia de hoje. Seguimos trazendo elementos para completar essa “cartografia”, entretanto, vale recordar que a maior parte dos arquivos da região não respondeu ao mapeamento e ao questionário que compunham os instrumentos de pesquisa da dissertação que origina a série de postagens, de modo que as informações partilhadas podem se demonstrar parciais – caso nossas leitoras e leitores desejem compartilhar informações atualizadas ou qualquer correção, serão bem vindos! Como vínhamos abordando, percebem-se distintas realidades entre as unidades federativas:

2019.09.11 Fotos Arquivos Nordeste parte II

Arquivo Público de Pernambuco: em 2018 a sede do Arquivo Público Estadual Jordão Emerenciano foi tombada pelo Conselho Estadual de Preservação de Patrimônio Cultural de Pernambuco. O edifício foi construído em 1731 para ser Câmara, Corte judicial e cadeia pública. Teve múltiplos usos até 1975, quando passou a abrigar o acervo do Arquivo, passando recentemente por processo de restauração. Orgulhosa de seu rico acervo de periódicos – um dos maiores da América Latina, conforme informa o gestor Evaldo Costa à página Curiosamente – a instituição tem buscado explorar as ferramentas digitais e de mídias sociais para evidenciar seu potencial histórico-cultural e ampliar a difusão de seus acervos. Quem os acompanha nas redes, como o Facebook e o Instagram, nota a intenção de valorizar seus pesquisadores e as múltiplas possibilidades de investigação a partir do acervo, que começa a ser descrito e disponibilizado online (para acessar, clique aqui). Não foi possível mapear o número de servidores que compõem o quadro atual, embora pelas reportagens nas mídias transpareça a ideia de que há um bom número de pessoas “movimentando” a instituição. Quanto à gestão dos documentos da Administração Pública de Pernambuco, a Lei 15.529/2015 estabelece a Política Estadual de Gestão Documental e coloca o APEJE em posição central frente a sua implementação. Entretanto, pela internet não foi possível localizar dados que apontem como tem se dado esse trabalho.

Arquivo Público do Piauí: de acordo com o que foi possível apreender à distância, a instituição desenvolve as atividades comumente identificadas como sendo tarefas de um Arquivo, como atendimento à pesquisa, organização dos acervos, montagem de exposições, realização de visitas guiadas e eventos, como a presença fiel na programação da Semana Nacional de Arquivos. Nada foi encontrado acerca da existência de política ou sistema de arquivos no estado do Piauí, seja vinculado ao APPI ou não, assim como não foi possível identificar a composição exata da equipe. Em artigo do ano de 2012, estudantes do curso de Biblioteconomia da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) referiam:

“Os recursos humanos (cerca de vinte e dois funcionários, onde apenas a diretora do Arquivo possui especialização no trato com documentos) são insuficientes para a gama de documentos de dois mil metros lineares, uma biblioteca com quase dois mil exemplares; 15 mil fotografias, hemeroteca formada por 395 títulos de jornais piauienses; documentos em suportes sonoros e visuais constando de 226 fitas cassetes, 29 fitas de rolo, 14 microfilmes de jornais do período Imperial e Republicano e 37 microfilmes de documentos piauienses. (p. 7)”

A realidade descrita pode ter mudado nos últimos anos, porém, o texto traz-nos uma dimensão da instituição. Matéria de 2011 denunciava más condições do prédio e promessas de reformas nunca concretizadas. Já notícia de 2016 refere a assinatura de um convênio para finalmente empreender a obra no prédio centenário que abriga a instituição desde 1909.

Arquivo Público do Rio Grande do Norte: vinculado à Secretaria da Administração e Recursos Humanos, dentre as instituições da região Nordeste o Arquivo desse estado apresenta a situação de maior carência. Não há qualquer mídia social ou site, o contato demonstrou-se difícil tanto por e-mail quanto por telefone, e as notícias as quais se tem acesso via internet são rarefeitas e desanimadoras. Até mesmo os dados encontrados junto ao Cadastro Nacional de Entidades Custodiadoras de Acervos Arquivísticos (CODEARQ), na página do CONARQ, estão desatualizados – o que infelizmente não é um fato isolado em relação aos demais arquivos públicos estaduais. A página do Instituto Histórico e Geográfico do RN refere que o Arquivo Público dispõe de:

“acervo de jornais diversos: A República (a partir de 1912); Diário Oficial do Estado (1960-1997); Tribuna do Norte (1979-1996); Diário de Natal e O Poti (1979-1997); legislação do Brasil e do RN (a partir de 1982); Mensagens de presidentes de Província e Governadores (a partir de 1847); Acervo do DOPS: fichas e dossiês (a partir de 1935); acervo fotográfico diverso; biblioteca com autores do RN, entre outros.”

Entretanto, reportagens de abril de 2015 lamentam pela situação de abandono do poder público e a completa ausência de recursos: Tribuna do NorteArquivo e Histórias Ameaçadas; Portal No ArArquivo Público Estadual sofre com a chuva e o abandono. O quadro parece ter se mantido, já que notícias de 2018 seguem com a denúncia de descaso: Tok de HistóriaA triste situação do rico Arquivo Público do Estado do RN; Tribuna do NorteAcervo do Arquivo Público se degrada a cada chuva. Aparente paradoxo se coloca quando identifica-se que há Decreto estabelecendo Tabela de Temporalidade de Documentos no estado e reconhecendo o Arquivo Público como responsável pela proposição e aprovação dos instrumentos de gestão documental. Além desse Decreto, nada mais foi encontrado a respeito do trabalho na área da gestão de documentos, situação que alerta para a necessária problematização da avaliação de políticas públicas arquivísticas a partir, apenas ou principalmente, da existência formal de legislação publicada.

Arquivo Público de Sergipe: localiza-se em prédio histórico que foi sede da Biblioteca Pública do Estado, desde 1974 tornou-se sede do APES e foi recentemente restaurado, reinaugurado em janeiro de 2019 conforme destacam notícias na página do governo de Sergipe, aqui e aqui, e conforme reportagem da TV Sergipe, aqui. Com informações compartilhadas em 2018 por Milton Barboza, então diretor da instituição, pode-se informar que o Arquivo possui “bons espaços de trabalhos, embora já esteja saturado quanto aos espaços de recolhimento dos documentos produzidos pela administração pública”. Naquele momento sua equipe era composta por 12 servidores, entre historiadores, pedagogos, agentes administrativos e um restaurador, além de três estagiários do curso de Biblioteconomia. Quanto à gestão documental, Sergipe instituiu seu Sistema Estadual de Arquivos (SIESAR) ainda em 1978, pela Lei 2.202, e “desde então vem sendo implementado, lentamente, abrangendo os arquivos do Executivo, Judiciário e de alguns municípios. Ainda não foi possível a inserção (…) do Legislativo”.

No mês de outubro traremos informações a respeito dos Arquivos da região Norte. Siga nos acompanhando!

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Conhecendo Arquivos Públicos Estaduais pelo Brasil: região Nordeste, parte I.

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Entrevista com Jonas Moreira Vargas – parte II

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Na semana anterior, Jonas Vargas encontrava-se explicando as metodologias empregadas nos seus trabalhos.

Bom, uma questão que eu acho importante é que tu utilizas bastante fontes menos visitadas pelos historiadores, como os processos de liquidação, as ordinárias e com isso tu encontras cobrança de salários de trabalhadores livres, rendimento da empresa charqueadora, aquisição de escravos, cartas, dinâmicas e conexões do comércio. Então eu queria te pedir para falar um pouco sobre o potencial inexplorado do Arquivo Público.

É verdade. Foi uma documentação que, no início, eu estava muito receoso de mexer porque eu vi nos catálogos que era muita coisa e ninguém, praticamente, utilizava, e esses processos da vara cível e comércio, nossa, é uma mina de ouro! Muita coisa… Eu lembro quando eu terminei a tese eu pensei “depois eu vou voltar nisso porque tem muita coisa bacana”, é fazendeiro cobrando charqueador por gado que não foi pago, trabalhadores cobrando salários que não foram pagos e coisas do tipo. Os processos de falência ajudam a visualizar como as famílias administravam internamente os negócios das charqueadas. Eu acho impressionante como tem documentos desses fundos e que eu acho que precisam ser melhor explorados; as contas de tutela também, as gavetinhas que tem ali, que passaram muito tempo procurando, tem tipos de processos que eu nem sei para quê que serve. As vezes, eu pedia para dar uma olhada e encontrava informações preciosas e acabava usando. Mas, esses documentos que tu falaste, eu não cheguei a usar eles de forma sistemática, eu lembro que eu ia abrindo e abrindo, porque no final da tese a gente já está correndo né, e eu focava só naqueles que tinham charqueadores com o meu interesse, mas tem muita, muita coisa; comerciante inglês cobrando liquidação de firmas comercias daqui, o Mauá aparece muito na documentação, acho que não tem como alguém escrever sobre o Mauá e não dar uma olhada nesses processos que tem aqui. Ele estava envolvido com firmas exportadoras de couro e charque e importadoras de sal. Foi um cara importante naquele sistema mercantil. Mas, eu ainda tenho a esperança de voltar e tentar dar conta disso (risos).

Outra coisa que me chama a atenção no teu trabalho foi que tu verificas que alguns dos charqueadores mais ricos de Pelotas tem fortunas que estão par a par com os caras mais ricos do Império. E a impressão que tenho, que ia te pedir para falar um pouco sobre isso, é que essa é uma descoberta muito importante que não adquiriu a repercussão necessária, não sei se tu concordas comigo em relação a isso.

2019.09.11 JonasEntão, Rodrigo, eu migrei da história política para a história econômica um pouco porque eu não tinha muita interlocução na política, nos últimos anos está se estudando muito a política no século XIX e como eu fiz o doutorado lá no Rio tem muito dessas discussões da história econômica sendo realizadas. Analisando os inventários aqui do Arquivo eu pude perceber que tinha um grupo de charqueadores muito ricos e daí comparei com o de outras elites, cafeicultores, senhores de engenho, comerciantes, os de Pelotas tinham grandes fortunas mesmo. Então, o pessoal lá apresentava nos eventos e eles achavam algo bastante interessante, mas aqui no Rio Grande do Sul, como a história econômica está em queda já faz muito tempo, o pessoal não deu muita importância para essa descoberta que, de fato, tu tens razão, porque verificar que alguns setores estavam produzindo para o mercado interno com propriedades bem menores que as do centro do país, as fazendas de café e os engenhos e tal, conseguiram acumular fortunas muito próximas das elites desses grandes centros é algo muito importante, assim, na minha opinião, porque reverte um pouco daquelas explicações mais clássicas dentro da história econômica, a gente pode pegar Caio Prado Júnior, Celso Furtado, enfim; de que o grosso da riqueza no período era gerado pela agro exportação. Então, eu apresentava em alguns eventos no centro do país e o pessoal “poxa, fabricante de carne seca ganhava tanto dinheiro assim?”, mas mostra os inventários e tudo, não dava muito dinheiro, mas também tem que ser colocado que é um grupo de famílias que conseguiu acumular suas fortunas, bastante em detrimento de outras famílias charqueadoras que foram quebrando ao longo do período e também de que esse grupo que conseguiu acumular é um grupo que também atuava no comércio, no comércio marítimo. Então é uma riqueza que ela vem da produção sim do charque, mas ela também vem do comércio e também vem do preço do gado. Então, são famílias que eu chamo de empresas familiares, que diversificavam seus negócios e que deixaram uma grande fortuna para os seus herdeiros, enfim… A concentração de riqueza no município também era muito grande. Isso era no Brasil inteiro e acho que meu trabalho ajuda a mostrar a reprodução dessa desigualdade social ao longo do tempo. E essa riqueza também foi acumulada a partir da exploração dos trabalhadores escravizados, né. No final da década de 1870 Pelotas tinha uma das maiores concentrações de cativos do sul do Brasil. Quando acabou a escravidão, o número de charqueadas despencou de quase quarenta para menos de quinze estabelecimentos.

E quais documentos tu estás pesquisando agora no Arquivo Público?

Então, eu estou me dedicando mais a pesquisa nos processos criminais mesmo.

De Pelotas?

De Pelotas. Um projeto que eu estou quase finalizando e pretendo escrever um texto, é de localizar trabalhadores negros nas charqueadas do imediato pós-Abolição. Alguns certamente já eram trabalhadores nas charqueadas no período da escravidão. Claro que é bem difícil delimitar isso, mas eu achei que não ia encontrar muita coisa, eu analisei uns dez anos depois da abolição e encontrei e estou encontrando bastante coisa, acho que vai dar um artigo legal. E uma coisa que eu faço muito aqui, tu sabes que dou aula na UFPEL e os alunos gostam muito dessa fonte e eu estou ajudando eles, orientando TCC e aí eles dizem o tema que eles querem pesquisar, eu venho aqui, procuro, fotografo e levo para eles lá. Inclusive eu estava aqui fotografando, né? Tem uma aluna que está tentando estudar feminicídio em Pelotas no século XIX ou algo desse tipo e aí eu encontrei uns processos para ela e estou fotografando. Eu costumo fazer isso, porque não tem como ele vir para cá, gastar com hospedagem, alimentação e tal. Eu gosto de plantar essa sementinha da pesquisa neles, eu vejo que eles curtem e eles não têm como vir, então eu ajudo nesse sentido. Então, eu acabo pesquisando para mim e fotografo algumas coisas para eles também, na medida do possível.

Então tá, Jonas. Essas eram as questões, muito obrigado!

Eu que agradeço, muito obrigado!

Exposição Descobrindo o Acervo do Arquivo Público: Casa Krahe e Bohrer Irmãos

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2019.09.04 Exposição Descobrindo o Acervo do APERS

No dia 02/09 lançamos a exposição “Descobrindo o Acervo do Arquivo Público”, que no âmbito de um projeto mais amplo pretende revelar vestígios comprobatórios de ações, paixões e concepções deixadas pelos sujeitos históricos em documentos que, ao longo do tempo, foram selecionados e hoje povoam o acervo custodiado pela instituição.

A perspectiva é de que, a cada mês, algo novo seja destacado, lançando luz sobre diferentes tipos documentais e possibilidades analíticas. Nesse mês de setembro, iniciamos com documentos relacionados às empresas Casa Krahe e Bohrer Irmãos, que remetem ao contexto da Segunda Guerra Mundial e à perseguição aos alemães.

Interessados podem visitar o Arquivo de segunda a sexta-feira, das 08:30h às 17h, sem fechar ao meio dia. A entrada é franca e a exposição localiza-se na Sala Joél Abílio Pinto dos Santos, andar térreo do APERS.

Entrevista com Jonas Moreira Vargas – parte I

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Jonas Moreira Vargas é professor no departamento de História da Universidade Federal de Pelotas. Graduou-se em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2004 e defendeu seu mestrado na mesma instituição em 2007 (dissertação premiada no concurso de teses e dissertações da ANPUH – RS, em 2008). Defendeu sua tese de doutorado em 2013, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (menção honrosa do concurso de melhor tese de doutorado da Associação Nacional de História no biênio 2013-2014). De volta à UFRGS, realizou estágio pós-doutoral entre 2014 e 2015. Sua dissertação e sua tese foram publicadas: “Entre a Paróquia e a Corte – os mediadores e as estratégias familiares da elite política do Rio Grande do Sul (1850-1889)” (Editora UFSM / ANPUH, 2010) e “Os Barões do charque e suas fortunas. Um estudo sobre as elites regionais brasileiras a partir de uma análise dos charqueadores de Pelotas (Rio Grande do Sul, século XIX)” (Óikos, 2016).

– Jonas, queria te pedir para falar um pouco da tua trajetória profissional e das principais pesquisas que tu realizaste.

Então, eu considero que o meu primeiro grande trabalho com fontes e com arquivos, início da trajetória profissional, foi quando eu fui estagiário do Memorial do Judiciário aqui no Rio Grande do Sul. Eu lembro que escolhi estudar os juízes de direito no Rio Grande do Sul, os magistrados, fazer uma prosopografia dos juízes de direito que atuaram na província entre 1833 e 1889, ver a prática mesmo da Justiça no cotidiano. E aí eu tive contato com o meu primeiro acervo que foi o Arquivo Histórico, nessa ocasião eu conheci o Paulo Moreira e a gente sabe que o Paulo, se tu conversas com ele um pouco, ele te dá várias dicas, se empolga e tudo. E aí eu acabei vindo pesquisar aqui no Arquivo Público, que nesse primeiro momento eu não utilizei muito as fontes do Arquivo. Logo depois eu entrei para o mestrado na UFRGS e aí eu já tinha esse meu interesse de estudar as elites, né? Acho importante estudar elas porque as decisões que elas tomam afetam um grupo muito maior de pessoas, acabam afetando nossas vidas, com projetos muitas vezes contrários ao da maioria da população. E aí no mestrado eu trabalhei basicamente com as famílias da elite política daqui do Rio Grande do Sul, na segunda metade do século XIX, até o fim da Monarquia. E depois, no doutorado, continuei o meu interesse pelos estudos das elites, mas em vez de estudar, digamos, os mais poderosos relacionados a política, eu tentei investigar as famílias mais ricas, aí eu fiz um recorte sobre os charqueadores em Pelotas. Aí foi um trabalho, que aí sim, o Arquivo Público foi a minha segunda casa, porque eu pesquisei muito aqui e foi fundamental para a minha tese. Entre o mestrado e o doutorado, eu fui professor substituto em Santa Maria na federal, aprendi muito lá. E ainda depois do pós-doutorado na UFRGS, eu comecei a pesquisar um pouco o caudilhismo, o pós Revolução Farroupilha e logo depois eu fui para UFPEL, que é onde eu estou. Mas, basicamente, eu destacaria isso.

E qual é a importância das fontes do Arquivo Público nas suas pesquisas, principalmente no doutorado que tu mencionaste que tem uma base mais forte no Arquivo Público?

2019.09.04 Jonas

Eu gostaria de começar respondendo essa pergunta falando um pouco da minha pesquisa de mestrado, porque eu acho importante, né? Porque a princípio se tu examinares o rol de fontes que tem no Arquivo Público, tu achas que não dá para se trabalhar com história política. Mas, como no mestrado eu estava predisposto a fazer uma história social da política, porque muitos da historiografia tradicional trabalhavam só com o anais da Assembleia, com imprensa, com o programa dos partidos e eu achei que outros tipos de documentação poderiam ser possíveis de ser tratados, a partir do ponto de vista da história social da política. Então utilizei processos crimes, inventários de Deputados, crimes em que os escravizados deles estavam envolvidos, ações que eu encontrei aqui para o alistamento eleitoral, então, eu comecei a perceber a riqueza da documentação daqui. Os inventários e os processos crimes são os que eu mais gosto. E aí já com essa experiência no doutorado, sim, como eu estava focando mais nas famílias mais ricas de charqueadores, eu pesquisei muito aqui os inventários post-mortem em Pelotas para fazer uma estrutura de posse dos cativos, os níveis de riqueza, o perfil dos investimentos dessa elite e analisar o patrimônio da população pelotense no período, mais na segunda metade do XIX. Os processos crimes também; crimes envolvendo escravizados nas charqueadas eu pesquisei muito aqui também. E os registros notariais de compra e venda, muita coisa, nossa… Essa documentação foi importante pra mostrar que as charqueadas de Pelotas não perderam escravizados para os cafezais do sudeste como se defendia. E aí ajudou a traçar então esse perfil socioeconômico da população pelotense, esses movimentos desses padrões no tempo e tal. Então, foi fundamental, eu tive aqui a minha tese e ela não teria surgido se não fosse a documentação aqui do Arquivo.

– Eu queria te pedir para falar um pouco sobre as metodologias que tu utilizaste…

Então, tanto no mestrado, como doutorado, eu fui fortemente influenciado pela micro-história italiana, principalmente pelos textos do Giovanni Levi, sobre estratégias familiares, mercado de terras, mediação política. Mas, eu destacaria assim, mais o método da prosopografia que, para quem não sabe é a análise de diversas biografias de um grupo em comum buscando tentar traçar um perfil coletivo deste grupo a partir de um questionário, uma origem social, trajetória, carreira, padrão de recrutamento, casamento, relações familiares e a partir do mestrado eu comparei então a elite do Partido Conservador com o Partido Liberal; se tinha uma ideia na historiografia que o Partido Liberal representava os interesses dos estancieiros da região da campanha e a partir do método prosopográfico eu mostro que isso não acontecia, o Partido Conservador estava muito presente na campanha e se tem um partido que representava os interesses dos estancieiros foi mais o Conservador. E no doutorado, esse método, eu utilizo também para ver o que diferenciava as famílias mais ricas de charqueadores das menos ricas, no caso. Qual seria, talvez, brincando, né, o segredo dessa… por que um grupo de famílias estava no topo dessa hierarquia social e conseguia de uma geração para outra reproduzir essas estruturas patrimoniais e comportamentais, e enfim…? E também um método que eu gosto bastante é a análise de redes sociais que eu uso muito. Na política é muito importante as relações que os parlamentares tinham com outras famílias de outras províncias do interior, como eles manejavam isso para ganhar as eleições e aí as correspondências é uma fonte muito importante para essa metodologia, eu acabei explorando ela mais lá no Arquivo Histórico. Acho que é importante o historiador cruzar vários métodos, né. Dependendo do objeto de pesquisa, das fontes e tal.

Confira a continuação da entrevista com Jonas na próxima semana!

Participe: Questões para a História Negra do RS 2019 & 8º Curso de Formação para Professores PEP UFRGS-APERS

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2019.09.04 Cartaz 8 Curso de Formação para profs PEPEstão abertas as inscrições para ouvintes no evento Questões para a História Negra do Rio Grande do Sul – 2019 & 8º Curso de Formação para Professores PEP UFRGS-APERS. O curso é resultado de uma parceria entre o Arquivo Público do Estado, o Núcleo de Pesquisa em História (NPH/UFRGS) e o Departamento de Desenvolvimento Social (DEDS/UFRGS, que surgiu do desejo de somar esforços para promover um espaço rico e plural de reflexão e formação continuada. Terá como eixo temático as epistemologias negras a partir do questionamento a respeito das categorias de análise que têm sido utilizadas em diversos campos do saber e na produção de conhecimentos sobre as pessoas negras no Rio Grande do Sul.

As vagas são abertas para a comunidade em geral, mas a programação e a divulgação têm sido pensadas para alcançar, também, professoras e professores que vivenciam o cotidiano da Educação Básica, assim como profissionais que atuam em espaços não formais de educação e em instituições de memória.

O curso acontecerá entre os dias 01 e 03 de outubro, no Arquivo Público (Rua Riachuelo, 1031, Porto Alegre/RS). A programação pode ser acessada clicando aqui, e o fôlder pode ser baixado aqui.

Para informações sobre inscrições, clique aqui. O custo é de R$10,00 e dá direito a certificado de 30h. Atenção: as inscrições estão sendo centralizadas pela equipe do NPH/UFRGS. Interessados devem seguir as instruções do link, ou contatá-los diretamente: fone (51) 3308-6631 | e-mail: nph@ufrgs.br.

Historiadora do APERS participa de conversa virtual com mestrandos da UFSC sobre a atuação em Arquivos.

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2019.09.04 Servidora em bate-papo virtual na UFSC

A convite das professoras Carmem Zeli Gil e Mônica Martins da Silva, a servidora Clarissa Sommer Alves participou, na manhã da última terça-feira (03/09) de um bate-papo virtual com estudantes da disciplina “Educação Patrimonial e Ensino de História”, ofertada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) na grade do Mestrado Profissional em Ensino de História (ProfHistória).

A turma foi convidada a ler a monografia defendida por Clarissa em 2015 junto ao Departamento de História da UFRGS, intitulada “Reflexões sobre o ofício do historiador em arquivos a partir da construção da oficina Resistência em Arquivo: patrimônio, ditadura e direitos humanos“. O texto foi escrito sob orientação da prof.ª Carla Roseghero, e tem como objeto essa que é uma das oficinas ofertadas pelo Programa de Educação Patrimonial UFRGS-APERS. A partir dessa leitura foi estabelecido o diálogo, que tinha como principal objetivo oportunizar espaço para elucidar dúvidas, compartilhar informações atuais a respeito dos serviços educativos ofertados pelo APERS, e sobre a experiência da atuação de historiadoras em instituições arquivísticas na perspectiva da educação patrimonial.

Embora o tempo tenha sido curto para tantas questões surgidas, a conversa foi bastante estimulante. Agrademos a oportunidade de difundir nosso trabalho e de construir referências para o aprofundamento da reflexão sobre o potencial educativo dos arquivos.

Projeto “Os Caminhos da Matriz” retoma suas atividades com novos itinerários!

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O projeto cultural Os Caminhos da Matriz surgiu em 2009 por uma iniciativa conjunta cujo principal articulador foi o Memorial do Ministério Público, tendo como objetivo a aproximação da população com o patrimônio histórico-cultural de Porto Alegre. Em 2011 o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul passou a integrá-lo, ampliando o número de instituições participantes. Isso exigiu que seu comitê organizador readequasse o projeto, que passou a ter dois roteiros, em agrupamentos de três instituições cada, com visitações que se alternam mensalmente, sempre no último sábado de cada mês.

A nova dinâmica tornou o projeto ainda mais atrativo, e o “Caminhos da Matriz” certamente tornou-se uma opção de atividade cultural reconhecida em Porto Alegre, promovida por órgãos públicos estaduais que envolve instituições representativas dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, do Ministério Público e da Igreja Católica.

A edição 2019 iniciou-se no dia 28 de abril, com novidades em seus roteiros, assim distribuídos entre as instituições culturais que circundam a Praça da Matriz:

Roteiro 1 – Instituições: Museu Júlio de Castilhos, Catedral Metropolitana e Cúria Metropolitana (19 de outubro)

Roteiro 2 – Arquivo Público do Estado do RS, Memorial do Legislativo e Solar dos Câmara (30 de novembro) 

Roteiro 3 – Memorial do Ministério Público, Memorial do Judiciário e Biblioteca Pública do Estado (28 de setembro)

Neste sábado, 31 de agosto, coube ao APERS o início da visita e ao Memorial do Legislativo a fala sobre as instituições do entorno da praça e a significação do monumento em homenagem ao Júlio de Castilhos. Confira as fotos:

Para participar das próximas visitas, basta estar na Praça da Matriz às 14 horas no último sábado de cada mês. O evento é gratuito e não necessita inscrição prévia. Em caso de chuva, o grupo reúne-se na marquise do Memorial do Judiciário. Informações pelo e-mail caminhosdamatriz@gmail.com ou pela página do projeto no Facebook (para acessar, clique aqui). 

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