Aplicando a Lei 10.639: as matrizes africanas do RS expressas no “Grande Tambor”

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     Nos dias 03 e 04 dezembro realizamos no APERS, em parceria com o Coletivo Catarse, o Cine Debate Rio Grande do Sul de Matrizes Africanas, evento em que assistimos e debatemos com Sérgio Valentim e Eugênio Alencar, mais conhecido como Mestre Paraquedas, os documentários O Grande Tambor” e “Batuque Gaúcho: as nações dos orixás”, este tendo sua primeira exibição pública nesse dia. A atividade foi excelente, com intenso grau de participação no debate, demonstrando o grande interesse do público por espaços abertos em que possamos obter conhecimento e refletir a respeito de nossa relação com a África, de nosso passado escravista e de luta contra a escravidão, dos legados desse processo histórico, da contribuição técnica, econômica e cultural dos negros para a construção da sociedade brasileira, e de como se apropriar de tudo isso na atualidade. Agradecemos a todas e todos que participaram do evento, sempre com o compromisso de seguir desenvolvendo ações nessa área!

     Compartilhamos aqui dois pequenos vídeos produzidos ao longo da atividade. No primeiro, emocione-se com parte da fala do Mestre Paraquedas, comentando a presença de diversas etnias africanas no Rio Grande do Sul e a história do “grande tambor”. No segundo, assista um pequeno trecho do documentário Batuque Gaúcho, que nos traz empolgação para acompanhar seu lançamento na TV Brasil, em 2014:

     Mas hoje, além de destacar a qualidade da atividade realizada, gostaríamos de destacar a qualidade e a importância do trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Coletivo Catarse na busca por registrar a cultura negra e o patrimônio imaterial que se manifesta no estado do Rio Grande do Sul, mas que certamente é patrimônio de todos nós, brasileiros. Os dois documentários criados e apresentados pelo Coletivo nesse Cine Debate foram produzidos a partir de sólida pesquisa de campo, histórica, antropológica e etnográfica, inclusive consultando documentos do Arquivo Público, resultando em documentos interessantíssimos para conhecimento geral, mas especialmente para o trabalho nas escolas, difundindo a centralidade e a profundidade das matrizes africanas em nossa sociedade.

     Nesse sentido, como o segundo documentário apresentado não foi oficialmente lançado e ainda não está disponível na internet, gostaríamos de indicar o download do documentário O Grande Tambor, que está disponível na íntegra, tanto no site do Catarse quanto diretamente no YouTube. O documentário apresenta a história do tambor de sopapo, utilizado por séculos apenas no Rio Grande do Sul, especialmente nas regiões charqueadoras do estado, como Pelotas e Rio Grande. A partir dessa história é possível compreender a importância e os usos dos tambores nas diferentes manifestações culturais e religiosas afro-brasileiras, e fazer uma viagem no tempo, conduzida pelo sopapo, conhecendo mais a respeito da história, da luta e da riqueza cultural do povo negro sul riograndense.

Link para o documentário: http://coletivocatarse.com.br/home/o-grande-tambor-4/

Aplicando a Lei 10.639: pesquisa acadêmica e ensino de história afro

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   A escravidão é um tema clássico da historiografia brasileira, o que não é difícil de compreender, afinal, ela fez parte de nossa história por quase quatro séculos, e marcou a constituição de nossa sociedade de maneira intrínseca. Porém, é importante observar que a pesquisa histórica nesse campo transformou-se muito ao longo dos anos, apontando para novos referenciais teóricos e metodológicos, explorando diferentes formas de abordagem e apontando para distintas interpretações a cerca das relações entre senhores e escravos, entre escravos e seus pares, entre escravos libertos, aquilombados, trabalhadores livres, etc.

 E grande parte destas transformações historiográficas se devem ao aprofundamento das análises a partir de fontes primárias de pesquisa, como processos crimes, inventários, registros de compre e venda ou de alforrias de escravos. A intensificação de pesquisas com base em fontes primárias, tendo a preocupação de produzir conhecimento histórico a partir da análise e cruzamento de informações obtidas em diversos documentos, assim como a diversificação dos olhares e questionamentos feitos a essas fontes, contribuiu para o avanço da compreensão dos significados da escravidão em nosso país.

 No artigo intitulado Escravidão no Brasil: Debates Historiográficos Contemporâneos, o historiador Wander de Lara Proença (para acessar clique aqui) nos auxilia a conhecer diferentes interpretações históricas a cerca da escravidão desde o início do século XX aos dias de hoje, dividindo a produção historiográfica em três grandes períodos.

   No primeiro momento, registra as escolas vigentes até meados do século XX, muito identificadas com a obra de Gilberto Freyre, que apontavam para o caráter benévolo e não violento da escravidão no Brasil, em relação a outros locais. Aqui a escravidão estaria marcada pelo paternalismo, pela interferência do Estado e da Igreja, por certa docilidade do senhor e pela submissão e passividade do escravo.

   A partir da década de 1950, novas abordagens passam a enfocar os estudos na violência coisificadora da escravidão, e na resistência heroica do negro. Pesquisadores como Florestan Fernandes, Emília Viotti e Octavio Ianni fizeram a crítica à Freyre, que teria generalizado a realidade por ele observada no nordeste entre os escravos domésticos. Neste período, teve destaque o rigor e o suplício da escravidão, a ação de quilombolas e a resistência permanente. Entretanto, as duras condições evidenciadas impediriam os escravos de pensar a vida a partir de suas próprias categorias e significados sociais, introjetando representações e valores senhoriais.

   Já a partir da década de 1980, as análises passaram a enfocar a percepção dos cativos como sujeitos das transformações sociais, a partir da pesquisa relacionada a suas ações cotidianas. O autor enfatiza a demografia histórica como metodologia de pesquisa que ajudou a perceber, por exemplo, a presença da família escrava, denotando formas de sociabilidade próprias. Nesse contexto, os historiadores passaram a lançar luz sobre a busca de liberdade e de melhores condições de vida dentro do campo de possibilidades do próprio sistema escravista, mostrando outras formas de resistência.

   A partir desta compreensão geral em relação à produção do conhecimento histórico sobre a escravidão, percebe-se que há avanços, com novas formas de compreender tal instituição social, e múltiplas possibilidades de interpretar, aprender e ensinar sobre a escravidão no Brasil. Mas, pensando no ensino de história afro-brasileira, e na importância do estudo da escravidão nas escolas, será que as novas abordagens e interpretações históricas chegam aos bancos escolares?

   Outro artigo interessante nos auxilia a refletir sobre o assunto: em Ideias fora do lugar na aula de história: historiografia e conceitos dos alunos sobre escravidão no Brasil, as professoras Lúcia Helena Oliveira Silva e Regina Célia Alegro  (para acessar clique aqui) compartilham as observações feitas a partir do trabalho em sala de aula, quando questionaram estudantes a respeito do tema para que fosse possível estimular o processo de ensino e aprendizagem a partir dos conhecimentos trazidos por eles. A partir da tentativa de conceituar “escravidão”, evidenciou-se que os alunos tinham muito pouca bagagem de conhecimento histórico, e ao mesmo tempo demonstraram relacionar de maneira direta a escravidão com racismo, dor, sofrimento, violência, fugas e quilombos, explicitando a manutenção de ideias solidificadas pela historiografia das décadas de 1960 e 1970. Para eles “os escravos são vítimas sofredoras. Ou, dito de outro modo, os conhecimentos cristalizados nos alunos contribuem para a criação de uma memória acerca da escravidão e dos escravos no Brasil que os estudantes assumem como sua. Essa memória, mais que enfatizar ações próprias do sujeito social que é dinâmico, destaca o sofrimento do escravo como reação à violência da escravidão. Aparentemente falta-lhes conhecimento histórico que favoreça o reconhecimento do escravo como sujeito de relações sociais complexas.

   Por outro lado, parecem contrapor totalmente a escravidão com o momento atual, partindo de valores hoje universais, como democracia, trabalho livre e liberdade, para negar esse passado, em uma perspectiva que pode contribuir para a manutenção do mito da “democracia racial”, como se o Brasil tivesse superado por completo as marcas da escravidão. Para as autoras Lúcia e Regina, para evitar essa distorção “é preciso diferenciar o sujeito social e oferecer ao aluno, para além da denúncia da violência, a oportunidade de reconhecer a face do escravo para que dele se construa uma representação como sujeito histórico. As elaborações mais recentes do debate historiográfico precisam chegar até este público de modo a interferir nos conteúdos cognitivos que funcionam como princípios orientadores para novas aprendizagens e valores orientadores da vida diária”.

   Mas afinal, será que os avanços dos últimos anos no campo da historiografia têm chegado às escolas? Como garantir que interpretações pautadas na complexidade da sociedade escravista e na agência dos escravos, enquanto sujeitos, estejam presentes também na escola, espaço primordial para transmissão de conhecimentos e desmistificações? Acreditamos que o investimento em formação continuada para educadores – que devem estar sempre em contato com as novas discussões das ciências em geral – assim como a qualificação de materiais pedagógicos a partir de pesquisas históricas atuais, podem garantir alguns passos nessa direção.

   Nesse caminho avançaremos, por exemplo, em relação à compreensão do peso que teve a escravidão no Rio Grande do Sul – já que entre muitos ainda prepondera a ideia de que a escravidão foi menos significativa em nosso estado – ou ainda poderemos desconstruir a ideia de que havia presença escrava significativa apenas nas charqueadas, o que tem sido negado através dos resultados de pesquisas no último período, a partir da demonstração de que os escravos eram a base da mão de obra em diversos segmentos da produção, comércio e serviços.

Aplicando a Lei 10.639: ensino de história afro e o uso de documentos de arquivo!

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 Mensalmente nosso blog tem apresentado artigos que contribuem para instrumentalizar e refletir sobre o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas do país, estipulado pela Lei 10.639. No mês anterior propusemos a ampliação dessa reflexão, incluindo o debate a cerca da Lei 11.645, que se refere ao ensino de história e cultura dos povos indígenas. Já trouxemos dicas de como trabalhar a partir de histórias em quadrinhos, filmes, artigos… Hoje gostaríamos de instigar o trabalho a partir de documentos de arquivo, afinal, nesta seara temos muito a contribuir!

   Para iniciar, sugerimos a leitura do artigo de Sheila de Castro Faria, Sinhás Pretas, publicado na edição n.º 78 da Revista de História da Biblioteca Nacional ( para acessar clique aqui). Essa edição traz o Dossiê África Brasil, que apresenta muitos conteúdos interessantes para quem deseja conhecer mais a respeito da contribuição dos africanos à formação do país. E o artigo mencionado aborda a atuação de mulheres africanas que foram capazes de se adaptar à vida no Brasil colonial e escravista, criando redes de sociabilidade entre africanas, aproveitando os conhecimentos e experiências trazidos da África, que lhes possibilitaram comprar alforrias, negociar e acumular muitas riquezas.

   Mas porque salientar esse artigo justamente em uma postagem que pretende abordar o potencial dos documentos de arquivo para o ensino da temática em questão? Justamente porque as fontes de pesquisa utilizadas por Sheila para tal reflexão são inventários e testamentos, tipologias documentais também encontradas no Arquivo Público e bastante utilizadas por historiadores e outros estudiosos em nossa Sala de Pesquisa. Obviamente o testamento mencionado pela autora neste artigo tem um caráter excepcional, não sendo proporcionalmente tão comuns os casos de escravos forros que conseguiram acumular tantos bens significativos como a escrava em questão, assim como não são tão abundantes as informações sobre “a vida material e as escolhas dos escravos em seu cotidiano”, como Sheila bem salienta. Entretanto, o estudo a partir dessas fontes possibilita tanto visualizar casos excepcionais – que lançam luz sobre as brechas e tensões de um sistema escravista que perdurou por quase 400 anos no Brasil – quanto nos ajuda a visualizar certos padrões nas relações sociais estabelecidas entre escravos e senhores, suas formas de negociação cotidiana, as formas de resistência dos sujeitos escravizados, etc.

   Assim, acreditamos que a utilização de fontes primárias de arquivo em atividades educativas pode contribuir efetivamente para aproximar os estudantes do passado, para tornar o processo de ensino e aprendizagem mais palpável e concreto, e também para desmistificar uma visão ainda bastante arraigada de uma Escravidão maniqueísta, de senhores todo-poderosos e sanguinários, contra escravos submissos e “coitados”. A realidade da qual podemos nos aproximar a partir dos indícios do passado que chegam a nós através dos documentos evidencia que a Escravidão sobreviveu em nosso país por tanto tempo por interesses econômicos, mas também pela capacidade de adaptação do próprio sistema às demandas dos africanos e seus descendentes nascidos aqui, que se expressaram através de muita luta e negociação.

   Como exemplo de uma atividade possível, apresentamos um dos documentos utilizados na oficina Os Tesouros da Família Arquivo, oferecida pelo APERS aos estudantes dos 6º e 7º anos do Ensino Fundamental. Em outros espaços o documento digitalizado pode ser impresso e distribuído aos estudantes em grupos, ou projetado para leitura conjunta. Trata-se do testamento de Mariana Coutinho de Jesus Pansa, lavrado em Porto Alegre no ano de 1864 (imagens abaixo). Estando enferma e sendo muito religiosa, Mariana decide fazer seu testamento, incumbindo o testamenteiro Bernardo Grasselli de executar sua vontade, o que incluía mandar rezar muitas “missas”. Na sequência elenca os bens de que dispunha, e em meio às “moradas de casas” e “mobília”, menciona seus escravos: Luiza e Maria, ambas escravas “de nação” (nascidas na África), Rosalina e Izabel, duas jovens escravas “crioulas” (nascidas no Brasil), e Antonio, um menino de 11 para 12 anos, também nascido aqui. A senhora aponta no documento o destino deles, libertando imediatamente após sua morte Luiza e Maria – afirmando inclusive que a última já possuía carta de alforria há anos, porém em seu poder, sem nunca ter sido entregue – e registrando a liberdade condicionada dos três crioulos, que deveriam servir a seus filhos adotivos até os 21 anos, sendo postos em liberdade em seguida. Mariana chega a deixar 20 mil réis para Luiza e a mesma quantia a Maria, para auxiliá-las a “tratar de suas vidas”.

   Talvez o conteúdo do testamento mencionado por Sheila em seu artigo soe como mais surpreendente, especialmente para aqueles que ainda têm em mente uma imagem da Escravidão em que os escravos estão em situação total de penúria e submissão. Mas que tipo de informações e conclusões podemos tirar a partir da análise do testamento de Mariana Coutinho, quando relacionado aos conhecimentos de que dispomos sobre o período? Que tipo de discussões podem ser suscitadas em sala de aula ou outros espaços educativos a partir da leitura de um documento como esse? Que contribuições a introdução desse documento na escola poderia trazer?

   Certamente as respostas são múltiplas, e cada educador poderá conduzir a reflexão de sua forma, a partir de seus referenciais teóricos e metodológicos, mas cabem alguns apontamos para incentivar o trabalho! Primeiramente, a própria forma do documento pode ser trabalhada: o papel e a tinta utilizados para escrita, a grafia da época, as mudanças ortográficas… Os conceitos empregados no texto também podem ser debatidos, como escravos “de nação” ou “crioulos”, por exemplo, assim como a estreita relação com a religião, que se expressa tanto na abertura do documento, que inicia com “Em Nome de Deos, Amem”, quanto no enfático desejo da inventariada de que fossem rezadas missas em seu nome. Em seguida, pode ser problematizado o fato de Mariana deixar a liberdade para todos os seus cinco escravos, e deixar recursos para duas delas. Por que ela faria isso? Que sociedade é esta, afinal, pauta por um regime perverso de exploração da mão de obra escrava, mas que ao mesmo tempo abria espaço para que uma senhora de escravos optasse por agraciá-los em seu testamento?

   A problematização de questões como essas a partir da pesquisa e do uso de fontes primárias nos aproxima do passado, e nos leva a um raciocínio crítico e investigativo, possibilitando a percepção dos escravos como sujeitos, como seres humanos capazes de buscar um lugar na sociedade em que viviam, ora através de luta aberta e frontal, em revoltas, aquilombamentos, fugas, ora através de resistências cotidianas a partir do estabelecimento de relações com seus senhores, com os demais escravos, com as pessoas com quem conviviam no trabalho, no comércio, nas lavouras. Esta perspectiva é importante ao evidenciar que a Escravidão vigorou enquanto instituição social, que atendia a certo modelo de desenvolvimento econômico, e que influenciou a todos os membros daquela sociedade, o que ajuda a entender por exemplo, o que levava ex-escravos como Ana – apresentada por Sheila Faria – a tornar-se também uma proprietária de escravos: possuir escravos era sinal de poder e status.

   Consideramos interessante que educadores utilizem fontes de pesquisa em suas aulas não apenas pela importância de incentivar os estudantes a que sejam críticos, que saibam formular problemas e buscar respostas através de investigação, mas também para que os próprios educadores possam se apropriar dos mecanismos que viabilizam a pesquisa histórica. Acreditamos que todo o professor é também um pesquisador, e nessa lógica consegue qualificar sua atuação. Assim, desejamos que os materiais aqui apresentados sejam apenas uma “fagulha” de incentivo para que busquem o APERS e outras instituições de memória, explorando seus acervos para o aprofundamento de seu conhecimento e qualificação de sua tarefa docente!

Aplicando a Lei 10.639: ampliando o debate e incluindo os povos indígenas!

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2013.09.11 Aplicando a lei

   Desde novembro de 2012 e da realização do curso “Aplicando a Lei 10.639: Patrimônio, Cultura e História da África e Afro-Brasileira” nosso blog tem apresentado notícias e reflexões relacionadas a aplicação da Lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira na rede de ensino de nosso país. Sabemos que esta Lei foi uma conquista de militantes de diversos seguimentos, em especial dos movimentos negros e da educação, que tiveram sua luta reconhecida por esse marco legal.

  Em função do reconhecendo à centralidade desta temática e das demandas dos usuários de nossas mídias sociais, estamos começando a nos organizar para realizar nova edição do referido curso, ainda em 2013 (ajude a construi-lo respondendo uma pesquisa com suas sugestões clicando aqui). Mas, também em função de alguns comentários e contribuições recebidos ao longo desse período, desejamos iniciar a ampliação do debate suscitado quando pensamos na luta por incluir nos currículos escolares temas que dizem respeito a grupos étnicos em condição de minoria – compreendendo-se o conceito de minoria não apenas em sua relação numérica, mas também política, quando se observa determinados grupos sociais em condições socioeconômicas desfavoráveis. E nessa perspectiva, indagamos a respeito da Lei 11.645, de 2008, que novamente altera artigos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) para incluir não apenas a história e cultura afro-brasileira, mas também a dos povos indígenas.

   Com certeza é um exercício complexo buscar entender os movimentos que levaram à aprovação da Lei 10.639 em 2003 com um texto focado na história afro, ainda que seja evidente a condição subalterna e muitas vezes de invisibilidade em que se encontram os indígenas de nosso país. A constatação de tal condição concreta, assim como as distorções, simplificações e estereótipos na forma como a questão indígena é tratada muitas vezes no sistema educacional parece suficiente para evidenciar a necessária garantia do ensino relacionado à história e às culturas indígenas brasileiras. Porém, estão envolvidos os agentes que se organizaram para lutar pela inclusão de dispositivos na Lei, assim como a própria condição dos diferentes grupos étnicos para que pudessem se mobilizar, sendo importante considerar ainda suas diversas concepções e formas de articulação.

   Ao fim e ao cabo, cinco anos após a aprovação da Lei 10.639, os povos indígenas e os segmentos a eles vinculados também obtiveram uma vitória, garantida pelo texto da Lei 11.645, que amplia o espectro das alterações na LDB ao garantir que seu artigo 26-A passa a vigorar com o seguinte redação: “Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena”. E seu § 1o coloca que “O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.”

  Desejosos de ampliar a discussão nesse sentido, indicamos a leitura de um primeiro artigo que aborda a Lei 1.645 e o Ensino Indígena (para acessá-lo clique aqui), escrito por Leandro Vilar e Thiago Dantas e publicado no blog Seguindo os passos da História. Esperamos que a reedição do evento esse ano seja feliz ao tentar contemplar também, ainda que se forma inicial, a questão do ensino a respeito dos povos indígenas.

Aplicando a Lei 10.639: história afro em Quadrinhos

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2013.08.14 Heró Brasileiro

Da Turma da Mônica à Mafalda. Dos super-heróis aos personagens realistas. Dos clássicos das HQs à moderníssimas histórias de ação e Mangás. Quem de nós nunca leu? Com certeza as Histórias em Quadrinhos têm um brilho especial e ultrapassam gerações, e certamente o fascínio que elas exercem pode ser utilizado a favor dos que buscam adquirir ou transmitir conhecimentos.

Nesta perspectiva, acreditamos que as HQs podem ser instrumentos potenciais para o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas e outros espaços de educação, além, é claro, de serem dinâmicas fontes de informação para todos nós. Em uma breve pesquisa na internet pudemos perceber que há muitos profissionais, como educadores, pesquisadores das Ciências Humanas e artistas plásticos, que se dedicam a este tema e vêm tanto produzindo Quadrinhos com a temática, quando criando e aplicando atividades pedagógicas com eles em sala de aula.

2013.08.14 AfroHQNo blog AfroHQ o Prof. Amaro Braga compartilha notícias sobre Quadrinhos na área, divulga seus projetos em HQ – que ele chama de veículo-arte – e especialmente o álbum “AfroHQ: História e Cultura Afro-brasileira e Africana em Quadrinhos”, criado em parceria com Danielle Jaimes e Roberta Cirne, ambas das Artes Plásticas. Narrada pelos orixás, a história começa com o surgimento do homem na África, passa pela escravidão e aprofunda as contribuições materiais e imateriais do povo afro ao Brasil. Na elaboração do roteiro, Braga utilizou ampla bibliografia sobre a presença negra no país, desde o clássico “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre a vários manuais publicados pelo Ministério da Educação (MEC). Produzido com patrocínio do Funcultura, do Governo do Estado de Pernambuco, a obra foi distribuída às bibliotecas de escolas públicas daquele Estado, e hoje está a venda.

Já o blog Repensando a África divulga uma série de materiais, livros e vídeos que possam contribuir para a implementação da Lei 10.639. E entre os materiais ressaltados estão as HQs. Para o blog “apesar do uso efetivo dos quadrinhos como objeto de estudos acadêmicos e pedagógicos ainda serem pouco explorados, eles podem representar uma eficiente plataforma para novas abordagens, servindo como uma excitante ferramenta para o aprendizado de temáticas africanas”. Nesta postagem são divulgados vários álbuns com temática afro. Vale a pena conferir!

O site História e Quadrinhos  traz diversas postagens interessantes a respeito do uso de Quadrinhos em sala de aula, sobre múltiplas temáticas. Entre elas apresenta ao menos seis postagens que abordam especificamente a questão afro a partir dos HQs. Os posts relacionados em tema podem ser identificados a partir de marcadores como “Lei 10.639” ou “a questão do negro”. São compartilhadas propostas de atividades pedagógicas, em sua maioria realizadas pelo Prof. Caio Ferraro, divulgando as páginas dos Quadrinhos utilizados, um resumo da proposta e comentários gerais. São trazidas imagens excelentes e ideias inspiradoras!

2013.08.14 Xaxado A. Cedraz

Aplicando a Lei 10.639: preparando a segunda edição do Curso!

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2013.07.10 Aplicando a Lei 10.639 imagem

     Ao longo de meses estamos postando notícias que abordam a questão do ensino de história da África e cultura afro-brasileira, conforme você deve vir acompanhando! É importante recordar que a ideia de realizar estas postagens surgiu a partir da realização, em novembro de 2012, do Curso Aplicando a Lei 10.639: Patrimônio, Cultura e História da África e Afro-brasileira, que teve como principal objetivo contribuir para a formação de educadores.

     A partir da demanda de diversos participantes do curso, de seguidores de nossas mídias sociais, e da compreensão de que esta é uma temática central em nossa história, decidimos manter este curso como uma ação do Programa de Educação Patrimonial do APERS, realizando sua segunda edição no começo de novembro de 2013.

     Assim, hoje, além de compartilhar essa informação prévia, gostaríamos de abrir espaço para que você ajude a construir o novo evento, respondendo a uma pequena pesquisa com suas sugestões. Para participar, clique aqui!

Aplicando a Lei 10.639: dicas de filmes para debater escravidão, resistência negra e racismo

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   Existem muitas maneiras de pesquisar, ensinar e aprender sobre história. Cada fonte de informação traz suas peculiaridades, e todas as análises históricas exigem olhares atentos e críticos, já que há diferentes formas de interpretação e escrita sobre o passado. Entretanto, na busca por conhecimento devemos aproveitar as múltiplas possibilidades de fontes, que de acordo com as interrogações e leituras empreendidas serão válidas. Neste sentido, o cinema está entre as fontes possíveis, e certamente, como uma das expressões da arte, tem poder de tocar e estimular reflexões. Assim, hoje indicamos cinco filmes que podem contribuir para trazer conhecimentos e lançar debates sobre a escravidão, o racismo e a resistência negra ontem e hoje. Podem ser assistidos e debatidos em espaços formais e não formais de educação, em nossas casas, e por todos nós.

Chico ReiChico Rei (1985, Dir. Walter Lima Jr.): Conta a história do lendário Chico Rei, que teria vivido em meados do século XVIII em Minas Gerais. Teria nascido no Reino do Congo, batizado como Galanga, onde era um monarca guerreiro e sacerdote do deus Zambi-Apungo. Foi capturado junto com seus súditos por comerciantes portugueses e traficantes de escravos, e enviado para trabalhos forçados na mineração de ouro, em Vila Rica. Escondendo pepitas no corpo e nos cabelos, Galanga compra sua alforria e adquire a mina Encardideira. Associa-se a uma irmandade para ajudar outros negros a comprarem sua liberdade. Chico Rei, teria então fundado em reino, que durou muitos anos, e por seus atos heroicos foi coroado o primeiro Rei Congo no Brasil. Segundo contam, foi autorizado a promover a primeira festa do congado, em homenagem às entidades protetoras dos africanos e de seus descendentes. A lenda do Chico Rei explica, portanto, a origem do congado, e, mesmo que não seja verdadeira, é parte importante de nosso patrimônio cultural.amistad

Amistad (1997, Dir. Steven Spielberg): História real, remete ao ano de 1839, quando negros escravizados realizaram um motim a bordo do navio negreiro La Amistad, entre Cuba e os Estados Unidos. O filme relata a luta de um grupo do grupo de escravos africanos em território norte-americano, desde a sua revolta até seu julgamento e libertação. A trama permite conhecer as condições de captura e transporte de escravos africanos para trabalhos na América do Norte, a máquina jurídica americana de meados do século XIX e o germe das primeiras medidas para a abolição da escravatura naquele território.

homens de honraHomens de Honra (2000, Dir. George Tillman Jr.): Conta a história real do sargento Carl Brashear, interpretado por Cuba Gooding Jr em personagem homônimo. Filho de agricultores do Kentucky, que sonhava desde a infância em fazer parte da Marinha e ser mergulhador. Alistou-se e tornou-se cozinheiro inicialmente, um dos únicos postos permitidos para negros à época. Foi o primeiro mergulhador negro da Marinha dos Estados Unidos, e mais tarde, o primeiro mergulhador amputado. O filme apresenta-o como um grande exemplo de determinação e persistência ao enfrentar o racismo explícito da sociedade norte-americana nos anos de 1950.malcolm X

Malcolm X (1992, Dir. Spike Lee): Biografia de um dos grandes líderes negros norte-americanos. Denzel Washington interpreta Malcolm X, que teve o pai, que era pastor, morto pela Ku Kux Klan (seita racista surgida nos EUA no final do séc. XIX), a mãe internada por insanidade, e acabou tornando-se um “malandro de rua”. Quando esteve preso, porém, converteu-se ao islamismo e iniciou sua pregação pela igualdade racial. Este filme e a história de Malcon X pode ser debatida em relação à história do grupo Panteras Negras, também retratada pelo cinema algumas vezes, mostrando outra perspectiva na luta contra o racismo e pelos direitos civis dos negros.

a outra historia americanaA outra história americana (1998, Dir. Tony Kaye): Considerado um dos melhores filmes sobre o tema racial da década de 1990, não poupa o espectador da violência e do ódio ao mostrar os crimes de uma gangue racista de skin heads, formada por integrantes neonazistas, nos Estados Unidos. O filme tem o poder de mostrar como o ódio racial acaba com a vida tanto de agressores quanto de agredidos, e é contundente, principalmente pela mensagem e pela ótima interpretação de Edward Norton.

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