Não esqueça: sexta-feira tem o lançamento das caixas pedagógicas do Projeto AfricaNoArquivo!

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Reforçamos o convite para a atividade cultural de lançamento das caixas pedagógicas produzidas a partir do Projeto AfricaNoArquivo: fontes de pesquisa & debates para a igualdade étnico-racial no Brasil. Será nesse sexta-feira, 28/11, a partir das 18h, no auditório do APERS.

Confira aqui a programação e as regras de distribuição, e veja como está lindo o material!

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Mulheres no APERS, gênero e história VIII: problematizando papéis de gênero a partir de processos de desquite.

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CapaNilzia, operária, e Manoel, pedreiro, formavam um jovem casal no final da década de 1940. Sem filhos ou bens a partilhar, decidem desquitar-se judicialmente após pouco mais de dois anos de relacionamento. A história deles poderia ser a história de qualquer uma ou qualquer um de nós. Embora estejamos acostumados a pensar os desquites como mais raros há mais de sessenta anos, é uma história parecida com muitas que conhecemos ao longo da vida. Porque refletir a respeito dela então? Porque considerar importante o processo de desquite desse casal, que está salvaguardado no Arquivo Público?

A verdade é que esse desquite, assim como muitos outros documentos de arquivo, ajuda a registrar a história de pessoas comuns em um terminado tempo histórico, permeado por seus referenciais morais e culturais, que mudam ao longo dos anos. Estudar essa história é uma chance de se aproximar daquele contexto, entender um pouco mais de perto como a sociedade brasileira e sul-rio-grandense enxergava os papéis atribuídos à mulheres e aos homens no período, e problematizar nossas próprias relações sociais na atualidade.

Manoel solicitou o desquite alegando na inicial que vinha desconfiando do procedimento da ré, “pois que deixára de ser obediente, cumpridora de seus deveres, para passar a chegar do serviço muito tempo mais tarde que o necessário para a caminhada entre sua casa e a fábrica onde trabalha”. Que assim, passou a “controlar os passos da ré”, até que a encontrou conversando com um desconhecido. Em meio à discussão Nilzia acabou confessando o adultério, em razão do que Manoel se separou imediatamente, estando a ré no momento do desquite já “amancebada” com o amante. Chega a anexar documento em que leva a conhecimento da Justiça o nome do amante, informando que eram colegas na fábrica.

Nilzia contesta a versão e pede reconvenção do processo. Alegou ter depositado muita esperança na relação com Manoel, já que tinha sido abandonada por outro homem com um filho no ventre, situação que o autor teria compreendido por ter cometido “idêntico delito”. Mas “durou pouco sua ilusão”, pois o autor “não quiz se conformar mais com aquela situação passando, então a maltratar moral e fisicamente a Ré e seu filho, culminando com uma agressão em plena via pública”. Alega ainda que o marido se entregou ao jogo e às bebidas, tornando-se “um elemento socialmente inútil”, deixando de cumprir “os deveres de esposo”, obrigando-a a sustentá-lo. Faz questão de afirmar que sua carteira de trabalho comprova que ele não conseguia “parar” em emprego algum. E por fim informa que já havia solicitado a separação, deixando de viver com o marido desde que se interessara pelo atual companheiro. Ou seja: Nilzia não nega que possui outra relação. Ao contrário, tenta demonstrar que o relacionamento com Manoel já estava fracassado, por culpa dele.

Todas as três testemunhas apresentadas são testemunhas do autor. A ré não consegue intimá-las. São três homens, todos são unânimes em afirmar que Nilzia tinha comportamento irregular, que já teriam a visto em companhia de outros homens, e que o autor era um homem honesto, trabalhador, cumpridor de suas obrigações. A esta altura da descrição, já é de imaginar a sentença: o processo é considerado procedente para Manoel com fundamento no Código Civil, e improcedente a reconvenção solicitada pela ré. Não há informações surpreendentes. Já poderíamos imaginar que esse seria o desfecho. Entretanto, se desejamos compreender as relações de gênero e os papéis a eles atribuídos em uma perspectiva histórica, podemos fazer muitas observações.

À mulher é atribuído o dever se manter-se “obediente”, e não era permitido chegar em casa um pouco além do horário. Ao homem, era atribuída a obrigação de sustentar a casa, sendo trabalhador. Referenciais que hoje já foram questionados, que não são mais uma realidade na maioria das famílias, mas que ainda preponderam em diversas relações. Outro elemento muito interessante para abordar é a condição de classe das partes envolvidas: ainda que em determinado momento Nilzia afirme que Manoel é de família “relativamente abastada”, ambos são trabalhadores, acessam a Justiça por meio de assistência judiciária, e alegam possuir poucos recursos. Ainda assim, ambos recorrem aos marcos legais para sancionar a relação, e depois para dissolvê-la. Por outro lado, tal condição pode ser uma das chaves explicativas para compreendermos um comportamento aparentemente tão “desviante” de uma mulher naquele contexto: não podemos comparar de forma direta o comportamento esperado das mulheres ricas, de famílias tradicionais, com aquele esperado ou praticado pelas mulheres da classe trabalhadora, que construíam relações a partir de outras mediações, de outros interesses e expectativas. Ainda podemos questionar o motivo pelo qual Nilzia não apresentou testemunhas: será que desistiu de brigar pela ação, agora que já estava em outra relação? Será que não conseguiu pessoas de confiança que desejassem depor a seu lado, por sua condição de “mulher adúltera”?

Mais uma vez se evidencia a riqueza desse acervo, que pode contribuir para a escrita da História e para a introdução de conceitos e reflexões nos processos de ensino e aprendizagem!

Conferência com Flávia Schilling encerra Curso de Formação para Professores em 2014 – Participe!

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No dia 29/11, sábado, às 09:30h, ocorre no APERS a Conferência Educação e Direitos Humanos, atividade de encerramento da 4ª edição do Curso de Formação para Professores em Educação Patrimonial, Cidadania e Direitos Humanos promovido pelo Programa de Educação Patrimonial UFRGS/APERS. A conferencista será Flávia Schilling, em atividade gratuita e aberta ao público sem necessidade de inscrição prévia.

Flávia Inês Schilling tem graduação em Pedagogia, mestrado em Educação e doutorado em Sociologia. Desde 2001 é professora da Faculdade de Educação da USP, tendo defendido tese de Livre Docência em 2012. Teve atuação em escolas e em organizações como o Núcleo de Estudos da Violência da USP, o Centro de Referência e Apoio à Vítima e a Comissão da Mulher do Parlamento Latino-americano. Suas pesquisas têm se dedicado aos seguintes temas: direitos humanos, violência, vitimização, corrupção e segurança pública, identidades, relações de gênero. Sua trajetória de vida também foi marcada pelas experiências do exílio, da clandestinidade, da prisão política e da reconstrução ao final do período da ditadura.

Informações: (51)3288-9117 ou acaoeducativa@sarh.rs.gov.br

2014.11.26 Cartaz Conferência Flávia Schilling

APERS? Presente, professor! – A Experiência do Cativeiro, a Resistência e a Liberdade

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2014.11.26 Resistencia e Liberdade_BlogNesta quarta, estamos disponibilizando a décima quarta proposta pedagógica do Projeto APERS? Presente, professor! Ela está inserida dentro do eixo temático Cativeiro e Resistência – a escravidão negra no Rio Grande do Sul a partir de fontes arquivísticas e recebeu o nome de A Experiência do Cativeiro, a Resistência e a Liberdade. Tem como proposta abrir possibilidades de reflexões acerca da concessão de alforrias como uma conquista, resultante do empenho pessoal do negro cativo em lutar por ela, seja por meio do pagamento em pecúlio ou com prestação de serviços. Acesse aqui o arquivo da proposta.

Caso o professor tenha interesse em acessar uma cópia das fontes utilizadas na construção da proposta, disponibilizamos aqui um arquivo com a cartas de liberdade em separado. Para acessar as propostas anteriores, clique aqui.

Desejamos um bom trabalho.

APERS na Oficina O(s) Uso(s) de Documentos de Arquivo na Sala de Aula do APESP: Relato I

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A partir de hoje até o dia 24 de dezembro, o Blog do APERS contará com uma série de cinco relatos da historiadora Nôva Brando acerca do curso realizado no Arquivo Público de São Paulo. O curso, conforme o relato geral da semana anterior, foi dividido em seis unidades. Hoje, serão relatados os aprendizados e experiências vividos a partir da temática Arquivos Públicos e Patrimônio Histórico Documental.

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Seguimos, então, com o relato de Nôva:

     Na unidade I, Arquivos Públicos: Histórico e Funções Atuais, trabalhamos com noções básicas de Arquivologia a partir da Lei 8.159 de 1991, que dispôs sobre a Política Nacional de Arquivos Públicos e Privados. Para isso, assistimos o video Arquivologia: Conceituação e Finalidades do Arquivo. Sobre seu conteúdos, foram abordadas questões sobre conceito de arquivo e sobre suas finalidades, tais como guarda, preservação e acesso à documentação. Também assistimos os vídeos produzidos pelo APESP, Gestão Documental e Acesso à Informação e Lei de Acesso à Informação. A partir deles, discutimos o papel que o Arquivo de São Paulo passou a desempenhar, a partir da regulamentação da Lei de Acesso no Estado de São Paulo. Nesse caso, uma das suas principais atribuições, assim como de vários outros arquivos do país, passou a ser de tornar acessível toda e qualquer documentação sob sua custódia que não esteja classificada como sigilosa.

     Como atividade de encerramento dessa unidade, foi-nos solicitado a leitura de dois textos e a realização de um questionário sobre o seus conteúdos. O primeiro deles, escrito pela arquivista Heloísa Bellotto, Da administração à história: ciclo vital dos documentos e função arquivística, fundamentou noções importantes da arquivologia, levantou questões conceituais ligadas as três idades dos documentos, compreendidas dentro da lógica de um ciclo vital. Conhecemos um pouco das características dos documentos que passam por uma ou pelas três idades, a dos arquivos correntes, dos intermediários e dos permanentes e como nelas atuam (ou não) as tabelas de temporalidade. Já no texto das historiadoras do APESP, Andresa Barbosa e Haike da Silva, Difusão em Arquivos: Definição, políticas e implementação de projetos no Arquivo Público do Estado de São Paulo, foram abordadas questões a partir daquilo que foi identificado pelas autoras como atividades ligadas, conceitual e estruturalmente, à difusão em arquivos. Seguno elas, a ação editorial e a ação educativa, meios pelos quais a sociedade conhece o patrimônio documental, “devem ser colocadas em primeiro plano nas políticas institucionais dos arquivos, como parte de uma relação de interdependência entre recolhimento, custodia, preservação e gestão documental”.

     Na unidade II, Patrimônio Histórico-Documental, três foram as leituras que guiaram os fóruns e atividades de avaliação propostos aos alunos. O texto de Ferrarezi e Romão, Arquivo, documento e memória na concepção discursiva, levantou a possibilidade de uma leitura à luz da teoria do discurso para visitar a noção de arquivo. Segundo as autoras, para além do lugar científico já consolidado, seria possível um diálogo com a concepção da análise do discurso que considere os sujeitos, os discursos, as memórias e a ideologia como elementos fundantes desses espaços. No final do artigo, elas seguem com considerações que julgamos muito pertinentes de serem discutidas pelos profissionais de arquivo: “a primeira delas e a de que os arquivos são vistos não como um recorte da realidade, mas como resusltado de injunções ideológicas que direcionariam a construção de uma ordem formada por certos documentos e não por outros, o que implica considerar que essa ordem foi produzida sócio-historicamente. Essa assertiva combina com a nossa segunda consideração, tão cara à teoria do discurso: a que de, ao dizer, o sujeito sempre cala algo, assim, um arquivo ordenado de uma maneira, crivado por uma sequência de documentos, mobilizador de certas fontes, fixador de um modo de dizer sobre um tema, sempre silencia outra ordenação, outros modos possíveis de dizer e outras fontes .[…] a terceira consideração: a necessidade de interpretar os processos de produção, constituição e circulação dos sentidos […]”.

     Já na leitura de Eloisa Caimi, Fontes históricas na sala de aula: uma possibilidade de produção de conhecimento histórico escolar, assim como na leitura de Andresa e Haike, pudemos seguir na aproximação com a escola. A autora trabalhou com a incorporação e a utilização de fontes históricas nas aulas de história e suas repercussões nos debates acadêmicos, enquanto possibilidades de instrumentalizarem a produção de conhecimentos históricos na Educação Básica. Essa problematização ocorreu por meio da análise de manuais escolares antigos e livros didáticos atuais, bem como nas políticas públicas como PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) e PNLD (Plano Nacional do Livro Didático). Ainda nessa unidade, trabalhamos com o clássico texto Documento/Monumento de Le Goff, no qual o autor problematiza o documento a partir de uma analogia entre ele e o monumento. Dentre as considerações importantes, Le Goff adverte que o documento tal como o monumento possui uma história e que todos que com ele trabalham devem conhecê-la; lembra também, que assim como um monumento, sua produção foi intencional e que cabe àqueles que hoje a analisam descobrirem quais foram os objetivos que a caracterizaram. E, ainda, apontamos que assim como sobre o monumento, sobre o documento é necessário lançarmos olhares questionadores mais que olhares contemplativos.

     Como tudo, um pequeno recorte daquilo que tive oportunidade de aprender nesses dois primeiros módulos do curso.

O registro das bibliografias completas utilizadas nos dois primeiros módulos do curso pode ser acessado aqui. Na próxima semana, Nôva nos contará um pouco mais sobre a Unidade III – Ensino de História e Sequências Didáticas.

Arquivos & conceitos: Conservação e restauração de documentos

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2014.11.26 Arquivos e conceitos

Para encerrar nossa série de posts sobre os conceitos básicos de arquivologia, abordaremos os conceitos de conservação e restauração. Afinal de contas, de nada adianta termos um acervo classificado, avaliado e descrito se não provermos os recursos mínimos que viabilizem sua manutenção física. Os arquivos são depósitos de documentos que, por sua vez, estão expostos à degradação, então “cabe-nos, portanto, encontrar soluções que permitam oferecer o melhor conforto e estabilidade ao suporte da maioria dos documentos, que é o papel” (CASSARES, 2000, p. 13).

Para desacelerar o processo de degradação documental, a conservação preventiva promove um conjunto de procedimentos através da preservação e da restauração. A preservação “é um conjunto de medidas e estratégias de ordem administrativa, política e operacional que contribuem direta ou indiretamente para a preservação da integridade dos materiais” (CASSARES, 2000, p.12), ou seja, previne a deterioração. A conservação preocupa-se em recuperar os documentos já deteriorados ou estabilizar o processo já iniciado; intervindo através de procedimentos específicos, assegurando a proteção física dos documentos (CASSARES, 2000).

Há dois fatores de degradação do papel, segundo Schellenberg (2006), os intrínsecos e os extrínsecos. Os primeiros são inerentes à natureza do papel, pois são provenientes do processo industrial, como a acidez, a alcalinidade e as tintas. Os fatores extrínsecos encontram-se no ambiente físico do acervo; podendo ser ambientais, como temperatura e umidade relativa, radiação da luz, qualidade do ar e biológicos, como insetos, micro-organismos, e roedores.

As condições de conservação dos documentos e da área do acervo podem ser controladas através de políticas de higienização, atualização e treinamento dos funcionários e monitoramento do ambiente. Toda a equipe de funcionários deve estar ciente e conhecer a importância da adoção de políticas de preservação do acervo, assim como, os usuários, pois muitas vezes os danos a documentação são causados pelo desconhecimento destes quanto aos cuidados básicos com o mesmo (THE BRITISH LIBRARY, 2003). Cabe a equipe técnica, responsável pelo acervo, promover, junto às esferas competentes, as condições adequadas de manutenção do conjunto documental para que o usuário tenha pleno acesso a documentação sob sua custódia.

Para ler outras notícias desta série, clique aqui.

Projeto AfricaNoArquivo: Lançamento das caixas pedagógicas!

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Ao longo desse ano nossa equipe dedicou-se à execução do Projeto AfricaNoArquivo: fontes de pesquisa & debates para a igualdade étnico-racial no Brasil, patrocinado pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) através do Prêmio Pontos de Memória 2012, com aportes da Secretaria da Administração e dos Recursos Humanos (SARH) e do Edital Proext/MEC, através de nossa parceria com a UFRGS.

É um trabalho de fôlego, através do qual conseguimos adquirir equipamentos, reproduzir nossos Catálogos de Documentos da Escravidão em CD para distribui-los a pesquisadores, e especialmente, construir caixas pedagógicas que serão distribuídas como doação a 650 escolas da rede pública de Porto Alegre, Canoas e Gravataí, os três municípios mais populosos da região metropolitana. As caixas contém reproduções de documentos de nosso acervo, um jogo de tabuleiro elaborado pela equipe a partir de tais documentos, com cartela de regras, pecinhas e material de apoio ao professor, e um DVD, com vídeo também produzido especialmente para o projeto e outros materiais de apoio.

Na semana em que celebramos o dia da Consciência Negra, 20 de novembro, nos alegramos em convidar a todas e todos para participar das atividades de lançamento das caixas pedagógicas, em evento que ocorrerá no dia 28/11, às 18h, no auditório do APERS. Teremos um bate papo com o pesquisador Rodrigo Weimer em que debateremos o legado negro em nosso estado a partir do Maçambique de Osório como expressão cultural de matriz afro-brasileira, além da solenidade de lançamento e de atividade cultural musical.

Não perca! A entrada é franca. Informações: 51 3288-9117 ou acaoeducativa@sarh.rs.gov.br

Esperamos com mais essa ação seguir contribuindo institucionalmente para a superação do racismo e do preconceito em nossa sociedade, e para a recuperação da história e da cultura negra no Rio Grande do Sul.

Cartaz final Lançamento AfricaNoArquivo

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